Red realmente odiava corujas.

Ela conseguia dizer se por causa dos grandes olhos brilhantes que manchavam a escuridão da floresta, ou da desconfortante torção de suas cabeças. Qualquer razão que fosse, corujas lhe irritavam. Seus "oh-oh"s competiam com os uivos de seu lobo, quase que numa discussão eterna. Não. Ela não gostava de corujas.

Snow não entendia realmente o porquê. A princesa sempre apreciara todos os tipos de pássaros. Ao ponto em que aprendera a comunicar-se com eles, em um nível mais básico possível. Red um dia tentara entender como aquilo podia possivelmente funcionar, mas Snow só lhe respondeu com um breve "Talvez você devesse perguntar para os pássaros", e nunca mais tocou no assunto. E a camponesa não insistiu. Se ela conseguia transformar-se em um lobo gigantesco em menos de um segundo, por que duvidaria da habilidade de Snow em entender aves? Isso não devia ser assim tão fantástico.

Mas a curiosidade de Red estava em outro lugar: Nas corujas. Ela se perguntava o que pássaros com aqueles poderiam dizer à Snow, se tivessem a chance de pousar por perto do castelo. Qual seria seu segredo e o que seus arrogantes "oh-oh"s poderiam significar? Red queria um motivo para explicar sua aversão.

Por hora, aquilo continuaria uma infantil implicância.

Desconforto de tal tamanho que aprendera a detectar seu bater de asas mesmo a longas distâncias. Ela sabia exatamente quando uma coruja estava para voar por perto ou pousar em um galho. O que lhe dava tempo suficiente para recolher o impulso para pular e mordê-las no ar. Mas suas patas não eram como as dos felinos, nascidos para escalar árvores. Nem ela podia pular tão alto. O máximo que conseguiu, quando pela primeira vez tentou comer uma coruja, foi arrancá-la as penas das asas. O grande lobo negro caiu ao chão num baque surdo, rolando pela terra com penas brancas escapando de sua boca. Tudo isso enquanto a coruja continuava seu percurso esnobe pela noite.

Mas Red não ouvira corujas na noite passada. Nem seu canto, nem seu voo. Em fato, nada. A floresta estava estranhamente quieta. Exatamente como nessa segunda noite. E aquilo a irritava. Quem dera ela pudesse culpar as corujas por sua má caça dessa vez.

A noite estava escura como sempre, mas curiosamente silenciosa. E os pares de olhos ainda estavam ali, assistindo os movimentos de Red.

E não eram as corujas! Nem Blue, nem ninguém! Ninguém estava por perto; E aquela incerteza estava se acumulando dentro da mente já alterada de Red, causando sua irritação – usual de uma lua cheia – a crescer mais e mais. Quando se percebeu, ela estava rosnando para o vazio. Furiosa.

A sensação estava de volta, ainda mais forte do que na noite passada. O que quer que fosse aquilo, parecia ter se decidido em perseguir o grande lobo. Os olhos, Red sentia, estavam mais atentos, mais pesados em si. Como se tivessem chegado mais e mais perto. Os pelos ao longo de suas costas se erriçaram. Uma brisa gelada balançou sua pequena juba e forçou Red a desistir do veado de que corria atrás.

Ela cravou suas garras no chão e levou terra para longe na inércia de seu movimento, tentando parar. Enfim imóvel, ela tentou concentrar-se na nova presença a lhe seguir. Tentou detectar um som, um cheiro, um movimento. Mas nada. O tremor em seu peito, atrás de fôlego, rosnando, ainda a atrapalhava. Ela ordenou seu corpo a silenciar.

Em pouco tempo, a floresta ficou muda. Nem os grilos e vagalumes ousavam vagar pela escuridão deserta.

Red rugiu o mais alto possível, tão alto que jurou que sua voz humana tivesse ultrapassado seu corpo de lobo. Ela tentou assustar a presença para longe. Latiu para os arbustos e correu contra as árvores, empurrando-as com seu peso, cravando suas garras fundo na madeira. Os troncos tremiam e de cima caiam as folhas mais fracas. O som grave morreu aos poucos, e novamente só o que se ouvia era a respiração do lobo.

A presença não fora embora. Não se assustara. Não se movera. Continuara ali, fixa em Red.

Sua paciência se esvaia rapidamente, e ela sentia que poderia perder o controle do lobo em sua raiva naquele momento. Exigiu-se a se recompor. Ela não poderia perder para uma sensação, por mais desconfortável que fosse. Talvez, realmente, estivesse apenas cansada, imaginando coisas. Se era real ou não, a paranoia lhe estava desestabilizando a ponto de perder total concentração. Não conseguiria caçar hoje. Não enquanto os olhos invisíveis continuassem analisando cada mínimo movimento seu.

E, para um lobo, aquilo era ultrajante. Ela não suportava estar sendo observada daquela forma. Muito menos ser passiva a isso! Ela era uma caçadora. Ela dependia de sua discrição. Misturar-se com o ambiente, dominar o silêncio e aproveitar-se da escuridão: era isso o que ela saiba que devia fazer. Era isso o que seu forte instinto lhe dizia. E, naquele momento, seu lado mais primal e natural estava sendo ridicularizado por algo ou alguém que não tinha a coragem de mostrar-se.

Não. Talvez a presença fosse já imensamente corajosa, simplesmente por estar espreitando Red. O grande lobo, aliado do exército de Snow White e Príncipe Charming, que rendia soldados em segundos. O monstro que um dia aterrorizou aldeias e matou dezenas de homens em uma noite. Aquele lobo que assassinou a líder da maior alcateia daquelas terras. Red, em seu estado de mente mais agressivo e violento, não era alguém com quem se cruzar. Era um fato triste e às vezes doloroso, mas ela sabia ser verdade. Seu lobo era poderoso.

E, ainda assim, alguém ousava lhe seguir. Quem fosse, devia ter uma boa intenção para arriscar sua vida, porque a perseguição barata já esgotara o resto de bondade que Red poderia guardar em sua forma animal e faminta. Não. Ela não teria piedade da presença, uma vez que conseguisse lhe fincar os dentes. Deixar-se sentir o sangue correr sobre sua língua. Iria quebrar o seu pescoço com prazer, arrastando seu corpo para a praça pública, exibindo a todos o perigo de irritar um lobisomem.

Oh.

O que estava pensando? De onde saíra tão sangrenta imaginação e por que estava externando seus desejos mais hostis daquela forma, rugindo ao nada?

Isso não é bom, Red pensou. Seu lobo subira à sua cabeça. A frustração de perder a caça, somada com a fome deixada pela mesma situação no dia anterior – Ah, ela permitiu que aquilo lhe tirasse a sanidade por um momento.

Ela suspirou fundo, sacudindo a cabeça, na esperança de que isso literalmente dispersasse seus prévios pensamentos sanguinários. Snow não ficaria orgulhosa se soubesse o que passara por sua cabeça. Ela devia voltar.

Devia esquecer-se de caçar, se transformar de volta e retornar ao castelo. Precisava de um bom banho frio para acalmar a mente. Iria comer algo quando se encontrasse com Granny e dormiria uma noite humana. Chega de rosnados por um dia. Sua garganta já ardia – uma sede que ela não podia ignorar – e sua cabeça latejava insistentemente. Chega.

Moveu seu grande corpo na direção do castelo. As patas fofas marcando o chão e fazendo um barulho quase massivo. Suas pegadas não seriam motivo de preocupação para o povo do campo. Red tinha consciência do medo que podia causar, por isso optava livremente em caçar o mais longe possível do castelo e dos vilarejos. Não queria comprometer seus rebanhos ou cachorros. Caçaria raposas, coelhos, veados. Embora, devia reconhecer, sua carne fosse um tanto diferente do gosto ao que um dia, infelizmente, se acostumou.

O caminho de volta era mais iluminado. As tochas dos altos muros do castelo pintavam o manto preto em sua frente, e ela conseguia enxergar um pouco mais. Outros passos mais e adentrou uma pequena clareira. A luz da enorme lua cheia batia na água de um lago e refletia um tom branco por todas as superfícies. Era como se fosse dia.

Red aproximou-se de sua beirada e abaixou a cabeça para tomar da água. Fosse um lobo normal, a tarefa não seria tão desconfortável. Mas sua forma era muito maior e ela precisava arquear todo seu corpo para tocar o nariz à agua. A língua bateu no lago num ritmo lento e cansado. As vibrações de seu movimento distorceram a imagem da lua que se formara mais à frente, enquanto o som amplo preenchia os arredores. Ela ouviu alguns coelhos – agora sim, nas proximidades do castelo – correrem para longe do grande lobo e esconderem-se em suas tocas. Red ignorou.

Seu temperamento mostrou-se perigosamente volátil nessa noite e decidiu encerrar sua caça antes que qualquer coisa saísse errada. Sem mencionar que agora era altamente arriscado retomar suas atividades, tão perto dos camponeses. Uma Red irritada, cercada de pessoas medrosas e indefesas – É, ela preferiria esperar o próximo mês para caçar. Nem amanhã, no último dia da Wolfstime, arriscaria outro incômodo. Precisava praticar seu controle sobre qualquer outra lua. Devia reforça-lo ainda mais, para evitar que pensamentos como os de antes se repetissem.

Alguns minutos se passaram e sua cede já havia acabado, mas ela continuava tomando da água. Talvez quisesse compensar por sua fome. Talvez ter uma tarefa em mente lhe ocupasse o suficiente para se acalmar.

Quando bastou, permaneceu na mesma posição. Não ergueu a cabeça nem endireitou a coluna. Continuou com o rosto perto da água que lentamente se aquietava. Seu reflexo foi tomando lugar, ainda ondulando de leve. E olhos dourados perfurantes lhe encararam de volta.

Ela já havia visto seu reflexo antes, como um lobo. Não se assustou com sua aparência. Para manter a honestidade, ela pensara que fosse muito mais aterrorizante do que realmente era. Seu pelo era de um negro profundo, que, sob a luz da lua, brilhava num azul penetrante. Ela imaginou que fosse ser mais marrom do que negra: essa foi sua única grande surpresa. A cor de seu pelo era quase do mesmo tom dos cabelos de Snow. Ela sorriu em sua mente quando percebeu pela primeira vez.

Snow já lhe vira como um lobo antes. Várias e várias vezes, na verdade. Provavelmente, mais do que qualquer um que Red já conhecera. Snow era mais acostumada com a forma animal de Red do que a própria lobisomem poderia ser. E a pequena sempre gostou de repetir: "Você é um lindo lobo, Red".

Red não acreditava. Claro, não era o monstro horrendo que se mostrava em seus pesadelos. Era um lobo. Um lobo muito maior do que o normal, grande como um cavalo – o pônei que achava que fosse se mostrou uma doce ilusão -, mas, de qualquer forma, um lobo. Um animal. Não era linda. Não era doce ou amável. Não nessa forma. Ela sempre estranhara o apreço de Snow por ela. Mas não questionava, pois sabia que a amiga iria retornar com seu longo discurso de perdão e auto aceitação.

Red não se encantava por seu lobo da forma que Snow o fazia. Mas ela deixara, aos poucos, de ter completo repúdio de sua imagem. Por isso estava, agora, perdida nos próprios olhos dourados, vendo ali um tom de raiva e dor. Tom esse que nunca realmente deixou seus olhos de lobo. Raiva parecia ser sua pré-disposição para assumir sua outra natureza. E dor, bem – Dor era o que ela trazia consigo.

A clareira, de repente, se escureceu. Red pensou que a lua estivesse oculta atrás de uma densa nuvem ou que, talvez, tivesse perdido a noção de tempo e passado horas ponderando pensamentos. Ela pôs-se em postura ereta, assumindo sua completa altura, na intenção de voltar para o castelo, quando algo prendeu sua atenção.

O reflexo da lua havia escurecido. Mas não como estivesse se pondo na noite. Ela assumiu um tom roxo pouco natural. Água vibrou inquieta, enquanto uma nuvem grossa de cor púrpura parecia ocupar o fundo do lago.

Um rosnado involuntário se iniciou no peito de Red, e ela concordou em permiti-lo. Afastou-se do lago com passadas lentas e tensas. Ela conhecia muito bem aquela nuvem. Os músculos de seu corpo endureceram, seu pelo levantou, e seus dentes brancos se mostraram por debaixo de sua boca.

Regina.

Era Regina? Era ela quem a estava vigiando? Droga. Ela não podia permitir que Regina lhe encontrasse; Ela estava perto demais do castelo. Devia correr.

Quando viu a água, numa bolha anormal, emergir do lago, sabia que era tarde demais. Não! Ela não podia arriscar a segurança do reino, batalhando com Regina ali, naquele momento.

Ela correu.

Usou de sua raiva contida para explodir numa corrida frenética para longe, em direção contrária ao castelo. A energia queimava suas veias enquanto suas pernas chutavam o chão, para longe e longe. As garras arrancavam raízes e terra, lançando-as para todos os lados, deixando não mais pegadas, mas fundos buracos pelo caminho.

As árvores ao redor de si eram nubladas, distorcidas pela sua velocidade. Ela tentaria mesmo despistar uma nuvem de fumaça? Uma bruxa como Regina? Havia mesmo outra coisa que pudesse tentar? Red tinha que conseguir. Regina não poderia ameaçar os camponeses por perto.

O ar fugia de seus pulmões rapidamente, juntos de grunhidos e rosnados. Ela tentava puxar toda sua força e direciona-la adiante, o mais distante que pudesse. Mas não conseguiu chegar ao horizonte.

— Não, não, não. Eu sinto muito, mas não posso deixar que corra mais um pouco.

Ela parou.

A voz de Regina soou perto de seu ouvido. Seu corpo não mais se movia, quase que congelado no meio do movimento. Seus ossos eram gelados e os músculos estavam trancados. Só o que se movia era o seu peito, para cima e para baixo, tentando regular sua respiração.

Ela estava suspensa um pouco acima do chão por uma serpente roxa de energia. A magia esquentava sua pele, deixando uma sensação formigante por debaixo de seu pelo. Era um toque terrível.

— Demorei algum tempo para achar você, sabia? — Regina deixou de ser apenas uma voz metálica atrás de si. Num cintilar oco, ela se materializou na frente de Red. — Você corre bastante, e assustou muitos de meus melhores caçadores. Que animal temperamental você é, uh, Red. — O nome da mulher deixou os lábios de Regina num tom de superior. Toda a aura que contornada a figura daquela bruxa era uma de poder e superioridade, por mais irritante que isso fosse para Red. A Rainha Má carregava uma reputação, mas, acima de tudo, uma presença sufocante. Ela era mesmo poderosa.

Red não iria se render a isso. Ela só se curvaria a uma Rainha.

Reuniu suas forças e sacudiu seu corpo, tentando com toda a sua vontade sair do aperto da magia de Regina. Mas nada. A serpente só parecer crescer mais ainda, tocando e tomando mais da superfície de seu corpo, até que alcançou seu pescoço. O ar foi apertado para fora. O latido não era mais tão bravo.

A magia começou a lhe apertar mais e mais e Red já sentia seus ossos no limite, a ponto de quebrar. Um gemido de dor escapou de sua boca antes que pudesse pará-lo e Regina sorriu.

Ergueu de leve a sua mão e a serpente relaxou ao seu comando. O lobo caiu ao chão, ofegante. Seus músculos não se mexiam e seus membros pareciam toneladas mais pesados, fixos ao chão. Seu corpo não respondia a suas ordens. Ela se sentia quase dormente.

Com a visão ao nível do chão, Red só conseguia ver os saltos de Regina pousando suavemente na terra e a nuvem de energia que a envolvia dissipar-se no ar da noite. Em poucos passos, a Rainha estava em pé frente à cabeça do grande lobo. O animal não tinha forças para erguer-se ou sequer rosnar seu descontentamento na presença da mulher. Concentrou-se em recolocar sua respiração na normalidade, reunindo aos poucos a energia para lutar novamente.

Antes que pudesse ouvi-la se aproximando, Regina ajoelhou-se em sua frente. Ainda imóvel, Red não conseguiu olhar-lhe o semblante. Não conseguiu entender as emoções que se escondiam em seu rosto e em suas intenções. O pânico começou a vencer a raiva.

Sentiu uma mão encostar de leve em seu pelo. Um tanto fraco em sua posição, o toque foi ganhando espaço, e em poucos segundos Red já sentia os dedos de Regina deslizarem por entre seus pelos negros. A linha dos movimentos da mulher lhe deixavam um calafrio desconfortável e uma incomparável sensação de formigamento; Sua pele claramente protestando a proximidade da bruxa.

Um murmúrio de apreciação foi ouvido, quebrando o silêncio na atmosfera. Regina agora parecia cantarolar um pensamento por trás de seus lábios, já tendo tomado certa liberdade em explorar a superfície de Red.

— Realmente, é uma criatura fascinante.

Finalmente a voz metálica retornou aos sentidos de Red, cujo corpo agora tremia na antecipação de atacá-la. Ainda, porém, nada em si se movia. Algum tipo de magia parecia pesar sobre seu corpo, mantendo-a submissa ao toque de Regina.

— Não acho que um lobo como você pertença a uma humilde floresta como essa, não é mesmo? Você se destaca demais. — Regina riu de leve, erguendo-se do chão e retomando suas estancia de poder. — Será muito bem apreciada em outro Castelo.

Foi a última coisa que Red ouviu antes de sentir o corpo adormecer. Sua visão foi encoberta por uma névoa púrpura e seus sentidos se apagaram.


Trabalhar no restaurante não era tão ruim quanto poderia parecer.

Ruby se divertia de tempos em tempos. Os clientes lhe davam atenção e ela desenvolvera boas amizades com as poucas outras garçonetes que Granny se sentira na obrigação de contratar. Tony, o cozinheiro, também não era um homem desagradável. Um pouco reservado em vezes, mas sempre disposto a piadas e brincadeiras para aliviar a tensão que a velha senhora punha nos ombros da neta. O trabalho não era ruim.

Sua vida não era ruim. Mas ela realmente desejava mais.

Com Granny a pressionando com novas responsabilidades, a natureza rebelde de Ruby se agitava ao poucos. Ela estava perdendo a paciência para lidar com as exigências de sua avó, tanto dentro quanto fora de seu trabalho; Trabalhar para a família nem sempre era tão confortável quanto a alternativa. Principalmente quando se tratando de alguém rígido como Granny.

Ruby era exigida dia e noite. As expectativas e regras da avó lhe tiravam da liberdade à qual a garota tanto aspirava. Ela não poderia continuar sufocada pela autoridade inflexível daquela mulher. Ela precisava se abstrair. Qualquer outra coisa que não envolvesse servir café e atender aos chamados de sua gerente de tempo integral. Realmente, qualquer coisa. Até mesmo uma noite fora com suas amigas.

Emma não era exatamente calorosa, Ruby sabia admitir. Mas Mary era gentil e atenciosa, sempre lhe ouvindo e aconselhando no que podia; Carregando um tom maternal ao tratar suas crises quase adolescentes, Mary era uma boa amiga. Embora de gostos e personalidade quase opostos, Ruby e Mary Margaret mantinham uma saudável relação, encontrando-se quase todas as manhãs no Café, conversando sobre tópicos superficiais e ocasionalmente saindo juntas para aliviar a cabeça em meio a vinho e queijo.

A saída com Emma seria uma primeira vez, a propósito. Ruby estava um tanto insegura em partilhar de uma noite de descontração com a loira. Ela lhe parecia um tanto rabugenta e tensa em suas primeiras conversações. A garota esperava provar essa impressão errada ao se aprofundar na relação com a outra. Ainda assim, enquanto dirigia seu carro sobre a rua do bairro exato, o nervosismo era evidente: Ela não queria ter Emma como inimizade. Não quando Mary Margaret parecia tão próxima a ela. Até o filho da prefeita parecia apreciar sua companhia; E todos da cidade, para bem ou para mal, sabiam de Emma Swan. O desejo da garçonete era entender o apresso de tantas pessoas por ela e enfim quebrar o fantasma de sua primeira impressão.

Era um caminho não muito difícil. Emma parecia aberta a relacionar-se com Ruby, mesmo que por através de Mary Margaret. E Ruby estava contente com o progresso. Ela podia sentir, no passar dos dias, que a conversa casual entre as duas ia se tornando mais e mais fácil. A xerife começara a tomar o hábito de almoçar no restaurante, dando à Ruby oportunidades suficientes para se aproximar. As coisas estavam em um bom rumo.

Ela suspirou, tentando manter os pensamentos mais nervosos de lado. Não havia motivo por que estar insegura sobre Emma. Ela era uma boa mulher e Mary parecia confiá-la o bastante, e isso assegurava Ruby de o mínimo de conforto. Tudo ficaria bem.

Estacionou o carro na frente do prédio cinza. O motor silenciou-se. Ruby tirou a chave da ignição e desceu para a calçada, acionando o alarme e direcionando-se para a porta de entrada. Tocou a campainha do apartamento e ficou a esperar uma resposta.

Outro suspiro trêmulo forçou-se para fora de seu peito. Logo rolou os ombros para trás, tentando ao máximo aliviar sua postura rígida. Ela se sentia agitada. Incomumente agitada.

Queria relacionar o estranho nervosismo à Emma e à noite de conversas embaraçosas que lhe esperava, mas no fundo ela sabia que sua insegurança quanto a isso não poderia estar gerando tamanho desconforto. Era algo a mais, e não saber determinar a causa principal para seu humor só lhe adicionava mais e mais agitação.

Era como que sua pele estivesse mais fina, mais irritada ao vento da noite. Como se os sons fossem mais incomodativos ou as luzes mais fortes. Seu humor não estava equilibrado. Ruby se sentia densa em seu corpo. Cheia de uma energia que não conseguia definir. E aquilo não correspondia a qualquer tensão feminina. Ela entendia seu corpo e sabia como se sentia antes em seus dias do mês. E o que estava sentindo agora ia muito além disso.

Até o frio da noite lhe atingia com mais força. Um terceiro suspiro se fazia e ela descansava as mãos nos bolsos de seu casaco de couro. Tentando se distrair, olhou para os lados e só enxergou uma rua quieta onde um ou dois grupos de pessoas conversavam sobre qualquer coisa. No outro lado, uma lâmpada piscava no poste sobre a rua, irradiando uma monotonia contagiante. E um pouco acima disso, pedindo-lhe devida atenção, a lua clara coloria o céu da noite.

Ruby nunca entendeu muito bem como as fases da lua funcionavam – sua educação não se mantivera tão forte depois que começou a trabalhar no restaurante e a isso ela culpava a falta de prática -, mas sabia com certeza que a forma era uma lua cheia.

E a mulher se sentia curiosamente atraída à imagem daquela lua brilhando sobre o manto negro e profundo. Seus olhos não se desviaram por longos minutos, só contente em admirar um corpo tão misterioso. Os pensamentos incomuns foram interrompidos pelo ruído do interfone ao seu lado.

Foi puxada de volta para o presente, estalando sua atenção para a caixa de som agora à sua frente. "Sim?" Veio a voz distorcida do outro lado, combinada com uma estática eletrônica que irritava os ouvidos de Ruby. Pelo timbre gentil da palavra, era definitivamente Mary Margaret atendendo ao aparelho.

— M&M, sou eu, Ruby. – A garota respondeu um tanto tímida ao quebrar o silêncio da rua. — Sou a carona de vocês... Para a noite das garotas?

"Ah, claro! Suba, Ruby. Espere aqui." Mary lhe respondeu, logo terminando a comunicação com um bip grave. A porta estalou aberta e Ruby adentrou o prédio, forçando-se a deixar na rua sua tensão inicial.

Dois rangentes lances de escadas depois e ela já estava em frente à porta do apartamento de Emma e Mary Margaret.

Uma conversa descontraída e um tanto humorada parecia preencher o lugar e transbordar para o corredor. A atmosfera já lhe contaminava com mais disposição e um sorriso se fez em seu rosto. Levou uma mão à maçaneta, enquanto a outra fazia menção de bater à madeira. Para sua surpresa, a porta estava destrancada e abriu-se sem o menor esforço. Deu-se a liberdade ir entrando.

— Oi? — Ruby chamou para dentro da sala, logo fechando a entrada atrás de si. – M&M? Emma? – O cômodo estava vazio, apesar do alto som de conversa vindo de algum outro lugar. Correndo o olhar sobre o que encontrou, Ruby tentou procurá-las.

Em poucos segundos, Emma desceu da pequena escada em caracol ao seu lado.

— Oh, oi, Ruby. – A loura lhe lançou um sorriso antes de dirigir-se para a cozinha e servir-se de um copo de água. – Mary Margaret disse que você estava vindo. Não espere de pé, a propósito. Ela ainda está se arrumando. – O tom da mulher tinha uma mistura de provocação e ligeiro cansaço. Ruby entendia.

— Não se preocupe. Eu levei umas boas horas colocando tudo isso. – Rindo consigo mesma, a garçonete sinalizou para o seu conjunto gótico, adornado de vários colares e braceletes. Emma pareceu pensar antes de falar qualquer coisa, escondendo um olhar acusador.

— Não entendo vocês, de verdade. Se é só um PUB- Quero dizer, por que não uma calça jeans e uma simples camiseta? – A postura menos elegante da mulher antecipou seu gosto para vestimenta. Portanto não era surpresa para Ruby um comentário como esse. Ela simplesmente sorriu.

— Por favor! Calça jeans e camiseta são roupas de igreja.

Emma riu em um fôlego.

— É claro- Vamos, sente-se. Não fique parada na frente da porta. Você está me deixando nervosa. – A loira logo apontou para o par de sofás à sua direita, pedindo para Ruby acomodar-se. Só entendendo a ironia do pedido, a garota relaxou. Sentou-se com prazer, sentindo o estofado sugar-lhe a tensão anterior. Ela suspirou e ajeitou-se numa posição confortável. Em oposição a ela, Emma sentou-se no sofá à sua frente.

A morena não esperava outra coisa, e suprimiu um sorriso amarelo.

— Então, como é? – A pergunta da outra lhe pegou desprevenida. Ruby a respondeu com um olhar confuso e um breve "uh?" que Emma entendeu. – O PUB. Como é?

— Nada de especial. Para falar a verdade, não sei muito bem. Nunca tive a coragem de ir sozinha. – Ruby assumiu a agora o mesmo tom que usava em seu trabalho: uma simpatia padrão.

— Oh? E nos carrega para lá assim, ao acaso? – E não deixou de perceber que todas as palavras de Emma sempre levavam um leve tom de sarcasmo. Ela não conseguia entender, porém, se era esta a intenção ou apenas um hábito forte demais para ser largado.

— Ora, não sou eu quem se recusa a pisar no Rabbit Hole. Você sabe qual era minha primeira opção. – Ruby ergueu as mãos para cima, brincando uma rendição.

— Justo. – Emma levou o copo aos lábios. Sou olhar parecia tentar entender Ruby por trás da persona extrovertida. Ruby, por sua vez, sentindo a intensidade do olhar, ajeitou-se no lugar, desconfortável. E Emma forçou-se a corrigir-se. – Oh, desculpa. Você... quer água ou alguma coisa? Para beber? Não sei quanto mais Mary Margaret vai demorar.

— Ah, água, por favor. – Ruby respondeu rapidamente. Emma levantou-se e foi à cozinha. – E, acredite, eu entendo! – Ela brincou. – Especialmente agora, com essa coisa do David... – Sua voz foi perdendo a força ao ouvir os estalares dos degraus da escada. Mary estava descendo. Emma, porém, não entendeu a pausa e encarou Ruby com olhos confusos. Seguiu sua linha de visão, pondo-se também a encarar a escada.

Em pouco tempo, de fato, Mary descia. A mulher usava um vestido branco suave, de poucos detalhes além das linhas salientes que cruzavam de seu ombro até seu quadril. Um tímido colar com uma única pedra rosada enfeitava seu pescoço, destacando sua pele pálida.

A imagem de Mary fez com que Ruby parasse de pensar por alguns longos e surdos segundos.

— Ruby, oi. Sinto muito fazê-la esperar. – A mulher aparentou estar constrangida sob o olhar mais pesado de Ruby, logo encolhendo para uma postura mais insegura. Emma riu-se.

— Vocês têm algo em comum. – A loira apareceu no canto de visão de Ruby, sua presença puxando a garçonete do breve transe. Ruby despertou para o presente e tomou nas mãos o copo de água que a mulher lhe estendia com um sorriso desconfiado.

— Uh. – Ruby limpou a garganta. – Como eu disse a Emma. Não é como se isso tivesse ficado pronto em minutos. – Novamente gesticulando para sua roupa, levou o copo à boca, tentando engolir junto ao líquido sua inapropriada atração à outra.

— Que bom. Pelo menos alguém entende a necessidade de se produzir. – O tom de Mary claramente alfinetava a implicância de Emma para o assunto. A professora tratou de convidar Ruby para conversa. – Ela ficou o tempo inteiro me apressando. Ela simplesmente não entende? – Riu-se, fazendo a outra rir junto, quase hipnotizada.

— De fato. – Ruby concordou. – Faz muito bem para o ego.

— Exatamente! – Mary Margaret logo correu para o lado de Ruby, pegando-lhe o braço livre. – Viu, Emma? Isso sim é sensatez.

Emma, encontrando-se em desvantagem na breve discussão, rapidamente rendeu-se.

— Tudo bem. Vocês estão certas, eu errada. – Sua voz não carregava o mínimo de sinceridade. Mais do que tudo, uma ironia cômica. – Agora, podemos ir? Já cansei de ficar discutindo roupas. – Emma aproximou-se das outras duas e recolheu o copo quase cheio das mãos de Ruby, que protestou com um gemido infantil. A loira deixou a louça na pia e andou até a porta.

— Pff, — Ruby debochou – Por favor. Nem sequer começamos. – Ela entrelaçou seu braço com o de Mary Margaret, conduzindo a pequena para a saída. Esta ria junto da garçonete, insistindo em incomodar Emma.

A loira suspirou na brincadeira, balançando a cabeça aos lados. Esperou as duas saírem para fechar a porta atrás de si.

— Vou adorar essa conversa – Ela respondeu com o máximo de sarcasmo que conseguiu reunir. Ruby e Mary só gargalharam sobre as escadas.

A carona para o pequeno bar foi silenciosa, mas, felizmente, não desagradável. Emma parecia mais confortável no banco de trás, ouvindo às animadas conversas entre Mary Margaret e Ruby. Ela ocasionalmente iria comentar em uma ou duas coisas ao longo do tópico, optando sempre a ficar como observadora do que realmente participar do rumo da conversa. Mary entendia a reservação da amiga, e lhe ajuda a manter-se longe do foco do assunto.

Já Ruby tentava manter a animação viva. Para sua personalidade sorridente e simples, não era grande problema. Mary Margaret e Emma se encantavam com a facilidade com que a garçonete ia de um assunto para o outro, parecendo nunca acabar a conversa. Mary iria lhe abastecer com tons animados e interessados, o que fazia com que Ruby se motivasse a continuar.

Pouco antes de se aproximarem do quarteirão da Biblioteca, porém, a conversa tinha se reduzido e as três se contentaram em sentar em silêncio, só assistindo a breve paisagem passar pela janela. Mary surpreendera as outras duas ao comentar, com gosto, sobre a grande forma da lua.

— Ela está enorme essa noite! Wow, eu nunca a vi tão grande? – Emma só riu do seu entusiasmo, sinceramente achando-o curioso.

— Algo a ver com o inverno? Ou é o verão? Eu nunca soube. – A loira lhe respondeu, agora, pondo-se entre os dois bancos da frente, tentando enxergar a lua através do para-brisa. Ruby deu-lhe passagem, também admirando seu apresso.

Mas a garçonete não respondeu nada. Muito pelo contrário, manteve mais quieta do que antes. Só dirigiu o carro para uma vaga ao lado da calçada, desligando o motor e chamando as duas para fora.

— Vamos. Ou vão ficar simplesmente admirando a lua? – Ela riu, vendo como Mary ainda não se movera do seu assento. Percebendo-se no comentário, a menor levantou-se, rindo-se também.

— Ah, desculpa. É que hoje tivemos uma aula sobre isso.

— "Tivemos?" – Emma alfinetou, igualmente deixando o carro. Ruby o trancou e liderou a pequena caminhada até o bar. – Achei que você fosse a professora.

— Claro. – Mary lançou um olhar cínico para a loira – Mas eu aprendo com as crianças, por que não? – Ela empinou o nariz, honestamente orgulhosa de admitir tal coisa.

Ainda sem participar da conversa, Ruby as conduziu para a entrada. Cumprimentou rapidamente o segurança em frente à porta e segurou esta aberta para as duas outras amigas cruzarem.

O lugar não era exatamente elegante. Um tema mais camponês medieval decorava todas as estâncias do bar. Um cheiro forte de cerveja, madeira queimada e metal invadiu suas narinas. De fato, um conjunto fiel à época. Até os copos, ela reparou, faziam jus a um tempo mais antigo. Ruby timidamente tentou procurar por Billy enquanto passava o olhar pelos cantos, ao mesmo tempo gravando os detalhes na memória e explorando-os atrás do amigo.

Não o encontrou. Em vez disso, um garçom de vestimentas de cores quentes lhe recebeu através do contato visual. Ela o cumprimentou e o jovem rapidamente a indicou para uma cabine vazia, junta à parede, embaixo de uma grande janela. Sentou-se, animadamente, com Mary Margaret ao seu lado, ainda carregando a conversa anterior. Emma à frente dessa, ouvindo atentamente às histórias da amiga.

— Então cobrimos o Sistema Solar, bem basicamente. Eu estava secretamente desejando que nenhum deles fizesse uma pergunta mais complexa, porque meu conhecimento acabava ali. – Ela riu, Ruby agora despertando para a ouvir à conversa com sua total atenção. – E então Henry levantou a mão.

Ao nome do garoto, Emma reagiu muito claramente. Seu corpo todo pareceu acordar, mais feliz e mais relaxado. Seus olhos verdes se iluminaram e ela levou as mãos ao queixo. De relance, Ruby a viu tentar esconder a reação natural, mas nada funcionou.

— Henry, uh? Eu imagino que ele seria o primeiro a perguntar sobre, eu não sei, a composição de Plutão ou algo assim. – A xerife respondeu humoradamente, num tom visivelmente caloroso ao se referir ao garoto. Ruby guardou o traço na memória, percebendo como mais gentil Emma se tornava ao se referir ao pequeno Henry. Mesmo que tentasse negar a todo custo, seu carinho era evidente.

— De fato! – Mary Margaret riu, também confortável no novo lugar. – Mas ele veio com outra história. Ele queria saber sobre a lua.

Foi a vez de Ruby despertar. Já estava ouvindo a tudo com muita atenção, era verdade. Mas ela compartilhava o mesmo interesse de Henry ao assunto. Não queria deixar nada passar.

— A lua? – Foi sua primeira palavra na conversa. Mary Margaret lhe fitou com olhos felizes.

— Sim. Ele disse algo sobre como as fases da lua são muito mais do que a sombra do Sol. – Mary gesticulava abertamente com as mãos, no fundo não dando uma importância muito séria ao comentário do garoto. Sua visão sobre aquilo tinha um tom quase de mãe. – Ele disse que ela tinha um poder sobre a vida na Terra. Não como natureza, mas em seus seres.

Todas já adotavam um rosto mais confuso, até mesmo Mary, que parecia instigar sua própria reação inicial às outras duas.

— O que ele estava falando? – Emma perguntou, legitimamente instigada pelas colocações não muito usuais do garoto.

— Não sei. Realmente não entendi. Desviei o tópico com uma resposta sobre o mar e as marés – era o máximo que eu sabia! – e segui para outro ponto da aula. Mas ele não queria largar o assunto. Eu acho que isso tem algo a ver com o livro de histórias?

— Que livro de histórias? – Ruby perguntou, curiosa. Sua postura não barrava nenhuma de suas reais emoções, como fazia Emma. Ela estava dedicada a mostrar seu entusiasmo e posição no momento através de seu corpo. Debruçada sobre a mesa, os cotovelos sobre a madeira com as mãos juntas e os dedos entrelaçados, ela inclinava a cabeça para ver o rosto de Mary completamente.

— Uh, — Emma quis responder — Ele tem esse livro com contos de fadas que carrega para todos os lados. Ele criou a teoria de que somos todos personagens de cada história.

Mary suspirou com um sorriso nos lábios, já tendo ouvido isso antes. Ruby só retrucou as duas com um olhar de genuína confusão.

— Sim. Ele diz que Mary Margaret é... Quem é mesmo?

— Snow White. – Ela respondeu, já deixando sua atenção escapar para os outros lados, agora sua vez de assimilar os arredores no PUB. Por si, localizou um garçom.

— Snow White? – Ruby arqueou as sobrancelhas, admirada com a imaginação do garoto.

Nunca tivera a oportunidade de conversar mais cuidadosamente com o menino, mas sabia por terceiros que ele era esperto e um tanto solitário. Queria entendê-lo, realmente. Queria sentar e compartilhar de um tempo, tomando chocolate quente sobre o balcão do restaurante. Mas sua extrema insegurança quanto a Prefeita era obstáculo o suficiente para qualquer desejo de aproximação. Regina não era alguém com quem se criar conflitos, então a garota decidiu por parar por ali.

— E quem é você? – Ruby perguntou à Emma.

— Ele diz que sou eu mesma. Filha de Snow White, a propósito. – Apontou para Mary Margaret.

— Oh. – Ruby virou-se para fazer seu pedido ao garçom, ainda com sua atenção absorta no assunto. – Uma margarita, por favor.

— Sim. Eu fiquei tão confusa quanto você. E não é só isso: Ele diz que não lembramos quem somos, porque estamos sob essa... maldição? – Emma também gesticulava; Seu rosto moldando expressões para dar mais cor ao que falava.

— Vocês ainda falam do Henry? Ah, ele é um garoto adorável. Um tanto sozinho, mas bastante criativo. A teoria de que Emma fala, bem- Ela é bastante elaborada. Acho que é um mecanismo para lidar com sua solidão e introspecção, no mínimo. – Enquanto Mary tomava a sua vez falando, Emma fazia seu pedido para o garçom, que logo assentiu educadamente e deixou a mesa. – Eu não tenho intenção de desencorajá-lo; O garoto precisa disso.

Ruby assumia um semblante de compaixão pelo garoto, em parte entendendo os sentimentos de introversão. Por mais sociável que fosse, em dias - especialmente dias irritadiços como esse -, ela conseguia se enxergar em uma incompreensão parecida.

— Ah, você precisa ouvir essa. Henry diz que você é a Little Red Riding Hood! – Emma retornou à conversa um tanto desligada do tom mais sério que ela tomara. Sem intenção, fez ambas Mary Margaret e Ruby desviarem do assunto mais triste.

— Chapeuzinho Vermelho, eu? – Ela inclinou-se para trás, surpresa com a nova informação. Em sua mente, buscou quaisquer semelhanças suas com a tradicional personagem dos contos infantis, tentando ao máximo entender o que fazia Henry pensar que essa era a sua contraparte fictícia. Não encontrou nada, terminando com um rosto comicamente confuso. – Isso é tão estranho. A garota não é, tipo, uma criança?

— Não é? – Mary concordou. – É estranho como ele relaciona as coisas, mas é importante que não o critiquemos por isso. É a visão que ele tem. Por mais incomum que seja.

— Eu acho adorável. – Ruby soltou, despercebida. Também deixou de notar o rápido sorriso de gratidão que Emma deixou escapar em sua direção.

— Cada um com suas manias. – A loira respondeu.

— Cada um com suas manias. – Ruby concordou.

— Mas e você, Ruby? Suas manias. O que tem a nos contar? Algum novo homem? – Mary virou-se de frente para mulher ao seu lado, torcendo seu tronco e apoiando-se de leve na mesa. Emma espelhou a intenção, também se debruçando para mais perto da dupla.

Ruby se sentiu extremamente desconfortável.

Sim, ela era reconhecida como uma espécie de predadora sexual por grande parte de Storybrooke. Reputação a qual já lhe rendera muito estresse, tanto de Granny - a criticando em seus modos mais promíscuos -, quanto dos próprios homens que lhe perseguiam.

Ela sentia que passava a impressão equivocada. Sua constante necessidade de flerte era frequentemente confundida com perversão, e por apenas isso ela se ressentia de sua atitude. No resto, aquele era seu habitat natural. A insegurança que borbulhava dentro de si lhe abastecia uma carência por atenção e, consequentemente, culminava na sua apresentação exagerada para os outros.

Ruby era uma garota sensual. Todos sabiam disso, mesmo que muitos desgostassem do uso ao qual ela punha sua aparência. Mas era unânime: Ruby era atraente e a própria estava muito bem ciente disso. Era a única coisa da qual ela tinha certeza; De que os homens – e até mesmo as mulheres – lhe olhavam com olhos mais famintos. Ela aceitava isso, porque era sua única fonte de segurança sobre si. Sua única forma de sentir-se bem consigo mesma; Sucedida em seu meio, aceita em sua versão.

Mas quando utilizavam aquilo como sua única face - Como se ela fosse uma espécie de criatura unidimensional que só se importava com sexo e bajulação... Aquilo realmente lhe batia forte. Ela não gostava de ser percebida assim. Sentia que suas inseguranças aumentavam ainda mais, num grande ciclo vicioso. O que tinha de alternativa, porém? O que lhe restava, senão depender de sua aparência? De seu charme e de sua persuasão? Do fato de que conseguia colocar homens – e mulheres – aos seus pés com um simples olhar mais quente?

Ela cavara a própria cova, era o que passava pela sua cabeça em momentos como esse. Não lhe tinha mais nada o que fazer, senão assumir a culpa pela percepção das pessoas sobre si. Era dolorido. Solitário, ainda. Sentir como se só ela soubesse que havia muito mais em sua pessoa do que uma simples garçonete promíscua. Era incrivelmente solitário. Naquele momento, ela se lembrou de Henry.

Escondeu toda a sua tristeza atrás de um sorriso amarelo, muito bem treinado para situações como aquelas.

— Nada, de verdade. As coisas andam mais calmas ultimamente. Tenho saído menos; O Rabbit Hole tem sido um tanto repetitivo e tedioso depois que Ashley se casou e abandonou a vida festeira. Bem, é difícil ser uma adolescente em Storybrooke! – Ironizou, espirituosa. Emma e Mary Margaret riram, entendendo o ponto feito pela garota. – E vocês? Novidades nessa área? Algum corpo para compartilhar? – Ruby encenou seu olhar de predador mais convincente, entretendo uma Emma mais sarcástica.

— Não! Ainda bem. Não quero algo assim. Não preciso. – A loira lhe respondeu rapidamente, sua voz corrida querendo esconder algum sentimento mais vulnerável. Ruby se lembrou de Graham e como os dois pareciam estranhamente compatíveis logo antes de...

— E você, M&M? – Ela rapidamente mudou o foco, percebendo como os olhos de Emma falhavam em esconder um pouco de dor pela perda do amigo. – Soube que essa saída é como um remédio para dor.

— Se você está descaradamente falando de David, sim. – Disse a menor, não parecendo ofendida pela referência da outra. Em fato, as duas aparentavam ter uma conexão um tanto mais profunda do que Emma inicialmente considerara. Ela notou, logo ali, que Ruby e Mary Margaret se comunicavam em um nível um tanto mais íntimo do que pareciam ser.

— Ainda no vai e volta? – Ruby deu corda, vendo como Mary precisava liberar alguns nós sobre o homem antes que tudo se acumulasse em uma bagunça de choro e sorvete.

— Não tenho certeza. Espero que não. Espero que ele não volte. Não me faz bem. Não- Não que me faça bem estar longe dele- Esse não é o caso! Mas esse constante drama está me sugando completamente e eu não consigo aproveitar nosso tempo juntos mesmo quando tudo está bem. É agonizante. Como eu desejava que tudo fosse mais simples...

Emma percebeu, agora calada em seu novo lugar de observadora, como Ruby era atenta e carinhosa. Não exatamente consigo, porque as duas nunca tiverem uma oportunidade de conversa menos casual, mas como ela era envolta em suas relações. Com Mary, por exemplo, Ruby parecia totalmente encantada: A cabeça sobre as mãos, os olhos fixos ao rosto da amiga, ouvindo a cada palavra como se a outra lhe contasse a coisa mais importante que pudesse ser dita.

Um traço adorável, Emma pensou. Ruby era uma garota sincera, apesar de tudo. Ela emanava uma pureza e inocência que contradizia toda a sua fachada gótica e galanteadora. Seu contraste a compunha uma personalidade realmente charmosa de se estar por perto. E, de repente, Emma se viu interessada em cultivar uma amizade na garçonete.

— Mas acabou. Precisa- Precisa estar acabado. Eu não quero mais isso para mim. Já tentei casos de uma noite só, para aliviar minha cabeça e-

— Com o Whale. – Emma se sentiu na obrigação de esclarecer à Ruby, que torceu o nariz em desgosto.

— Tudo bem. Talvez ele não tenha sido uma boa primeira escolha-

— Ele é nojento. – Ruby pontuou. Já cansara de se esquivar de suas investidas inapropriadas e de seus modos desconcertantes e rudes. Whale era para Ruby o símbolo do que ela mais detestava em possuir sua reputação. – Não foi mesmo uma boa escolha.

— Tudo bem! Mas eu acho que posso encontrar algo em meio disso, você sabe? Esses casos de uma noite soam promissores. – Mary terminou, recostando-se na cadeira, agora claramente mais tímida no novo assunto. Ela ainda era inexperiente no que se dizia a relações mais breves. Sexo casual não clicava muito bem com sua persona e sua percepção de amor, mas ela estava tentando tudo o que podia para tirar sua mente de David e seguir em frente.

Para adicionar ao seu embaraço, o garçom chegou, apologético, com as bebidas das três. Serviu-lhes respectivamente, causando o grupo a silenciar rapidamente. Emma e Ruby se entreolharam, segurando o riso, enquanto Mary tinha o rosto vermelho de vergonha. O jovem garçom pediu licença e se retirou, dando início à sequência de risada por parte das duas outras.

Mary afundou a cabeça entre os ombros, moldando sua boca num bico teimoso.

— Não se preocupe, M&M. – Ruby retornou a falar, assim que retomou o fôlego. Sua voz ainda carregava um pouco de humor, soando mais descontraída e um pouco mais rouca do que o normal. – Não há nada do que ficar insegura sobre casos de uma noite. Eles não fazem mal, confie em mim. – A mais alta tapeou o ombro de Mary, lhe assegurando honestamente.

Esta, por sua vez, aliviou-se, vendo como até Emma lhe apoiava de seu jeito, assentindo discretamente com a cabeça.

— Porque, sejamos honestas, é para isso que você está aqui hoje, não é mesmo? Para achar um par para o caso dessa noite. Do contrário, por que passaria tanto tempo se arrumando? – Mary suprimiu um suspiro de surpresa, pega desprevenida pela observação de Ruby. – E usado tanto perfume assim. – A garçonete brincou, novamente torcendo seu nariz, no que agora parecia uma marca registrada de seu maneirismo.

Ruby ergueu sua taça, na menção de um brinde. Emma franziu o cenho em um "por que não?" e também ergueu seu copo. A loira ficou esperando por Mary Margaret, que ainda se recuperava do comentário inesperado de Ruby. Um tanto ruborizada e constrangida em ser pega em suas verdadeiras intenções, Mary se retraiu, tímida.

Mas Ruby não permitiria que Mary se visse do mesmo jeito que ela via si mesma. Sem mais palavras, empurro o seu corpo para o lado e bateu de leve com seu ombro no da menor, espantando-a de seu estado. Esta sorriu, um pouco menos insegura.

— Vamos. – Ruby lhe encorajou.

Rendendo-se à amiga, Mary pegou seu copo e, num riso aliviado e satisfeito com suas companhias, o brindou sem mais hesitar.


— Charming? Charming? Charming! – O príncipe acordou de sua cama num pequeno pulo. Seus olhos demoraram a se acostumar com a luz do dia e antes de reunir o poder de fala, ele resmungou o sono interrompido. Ainda era muito cedo.

Esfregou seus olhos, revirando-se sobre a luxuosa coberta. Snow ainda balançava seu ombro insistentemente.

— Charming! – Sua voz era teimosa, ordenando a acordar propriamente.

O homem só gemeu por uma última vez seu total descontento, agora colocando-se sentado.

— O que foi? O que aconteceu? – Sua voz grave e doce ainda saia rouca com o resto do sono que lhe cobria no corpo.

— Você viu Red?

Quando Charming conseguiu olhá-la decentemente, viu no rosto de sua esposa um semblante sério que exigia uma resposta. Ele ordenou sua consciência a voltar completamente.

— Red? O que...

— Red. Você a viu? – A Rainha tinha um tom preocupado na voz.

— Não. Você acabou de me acordar. – Ele soltou, em uma risada. Mas Snow não cedeu, seu rosto não perdendo a total seriedade. – Por que, o que aconteceu?

Já em pé e com a atenção quase completamente preparada pra atender à esposa, Charming tocou-a no ombro, com seu sorriso torto gentil na tentativa de lhe acalmar. Mas Snow novamente não reagiu ao seu toque, seus ombros ainda tensos e duros.

— Snow. Ainda é amanhecer. – Ele olhou pela janela, encorajando a mulher a ver por seu ponto de vista. – Ontem foi noite de lua cheia. Ela provavelmente ainda está na floresta, tirando... os galhos do cabelo ou algo parecido. – Novamente, tentou por humor no estado na esposa, mas nada.

Snow suspirou profundamente, deixando-se moldar pelas mãos atentas do marido.

— Charming, não é tão cedo assim. O Sol já está quase no topo. Ela disse que iria me encontrar no nascer da manhã, no Hall, para me atualizar nas situações da redondeza. E nos íamos praticar o arco e-

— Shh, — Charming tentou acalmá-la outra vez, agora sendo levemente contaminado pela preocupação de Snow. – Eu tenho certeza que ela se atrapalhou nos horários. Lembre-se como ela voltou ontem de manhã? Ela rosnava mais alto que meus cães pastores. – Seu próprio riso soou inapropriado em sua garganta, vendo como a situação de Snow não lhe recebia com graça.

— Mas nem isso! Ela não chegou ainda. E eu já estou ficando preocupada.

O homem desistiu de tentar argumenta-la com humor. Limpou a garganta seca da manhã e levantou-se da cama, indo até o cabide que segurava sua túnica branca de algodão. Não tirava os olhos da mulher.

— Mas e Granny? Não foi ver com ela? Eu tenho certeza de que ela saberia-

— Ela não sabe! Isso que está me enlouquecendo. Umas duas horas depois de ficar esperando no Hall eu já tinha corrido para o quarto de Granny. Ela também está tão confusa quanto eu.

— O que ela disse? – James molhou o rosto na bacia d'água que lhe esperava ao lado da grande e longa janela.

— Ela disse que Red não voltou na madrugada. Que o cheiro dela não retornou ao castelo desde a última vez que nos falamos. Eu pedi para rastreá-la. Isso nos levou até uma área mais distante dos muros, e a partir dali Granny disse que o lobo partiu muito rapidamente para deixar um traço. – Snow suspirou mais uma vez, o ar deixando seus pulmões forçadamente. – Red disse que estava decidida em compensar pela caça da outra noite, então eu imagino que ela queria ir com mais ferocidade dessa vez, mas isso não explica-

— Snow. – Charming lhe chamou a atenção com um tom sério, mas composto. A esposa ainda sentava na cama. As mãos sobre o colo não se aquietavam, constantemente tocando umas as outras, entrelaçando e soltando os dedos e esfregando-se em seus antebraços. Sua postura era completamente rígida com preocupação.

Essa visão tomou Charming com brutalidade. Ele imaginava que as duas possuíssem um laço mais íntimo e de mais longa data, mas não tivera a ousadia de prever algo dessa dimensão. Snow não costumava falar muito sobre Red. A mulher era tão secretiva sobre a amiga quanto à própria lobisomem era sobre sua condição. James pouco sabia sobre sua história juntas.

No fundo de sua mente, tentou se convencer de que era para o melhor. O tempo de Snow junto a Red era um tanto obscuro. A então princesa era uma fugitiva e passara, como ela mesmo disse, abandonada, lutando pela sua vida. A única coisa da qual sabia era que Red, em algum ponto de sua história, apareceu e uniu-se a mulher em sua constante fuga. A camponesa se contentara em dizer que o que as uniu verdadeiramente foi sua tragédia com o lobo. O que houve ou como o houve parecia ser um assunto mais discreto entre as duas.

De qualquer forma, Charming ficava inseguro sobre Red. Quando a descobriu um gigantesco lobo negro, ele devia admitir, ficou aterrorizado; Por sua segurança e pela de Snow. Mas a esposa o assegurou, com toda a sua crença, de que Red era uma aliada; De que sua condição encontrava-se sobre controle e de que a amiga não era, de qualquer forma, uma ameaça para ninguém. Ainda extremamente inseguro, Charming tentou botar fé nas palavras da amada.

Snow havia conhecido Red muito antes de entrar na vida de James. Red era sua preciosa companhia em seus tempos de fugitiva. E Snow, para Red, era a única amiga que lhe aceitava pelo que era. Se a agora Rainha sobrevivera junto a lobisomem, intacta e sem traumas para contar – ou esconder -, então aquilo devia ser promessa o suficiente de que Red era confiável.

Mas ele não conseguia evitar. Seu instinto era protetor. Snow era a sua vida inteira. Ele perdia a razão em pensar no que poderia acontecer se um dia Red perdesse o controle e atacasse sua parceira mais próxima. Muito além disso, qualquer um. Red era poderosa e sua condição instável só lhe fazia mais e mais perigosa. Os fatos eram um constante lembrete a Charming para que não abaixasse a guarda enquanto Red não se provasse merecedora de total confiança.

O dilema era que: Red já tinha se provado. O simples fato de que conseguia transformar-se em um lobo e imobilizar – em vezes mais confusas, até mesmo matar – os soldados inimigos, bem, era uma boa prova. Red fora o melhor general de seus exércitos nas batalhas para reconquistar o reino das mãos do Rei George. Seu poder de luta era impressionante. Ninguém conseguia pará-la quando ela deixava o manto vermelho cair ao chão. Seus dentes e garras e patas terminavam com exércitos mais rapidamente do que Charming podia verbalizar um elaborado plano de ataque. Ela fora preciosa para sua importante conquista. Em maioria, era graças a Red que eles moravam agora nesse grande castelo, com o luxo e comodidade que uma realeza como Snow realmente merecia.

Snow.

Sim, o que unia Red e Charming era Snow. Os dois não eram muito próximos e isso se devia em parte a enorme desconfiança e medo que James ainda guardava pela camponesa. Red, em sua vez, tentava alcança-lo com conversas. Tentava sinceramente conhece-lo e ficar em bons termos, agora que ele era parte tão significante da vida de sua amiga.

E aquilo consumia Charming. Que Red estivesse tão disposta a terminar com a situação constrangedora que a incerteza do homem criara entre os dois. Red o fazia para Snow. Porque Snow era a mais afetada com essa relação. Snow, acima de tudo, queria que suas duas partes de vida se completassem bem, harmoniosamente. Red entendia o pedido silencioso dos olhos de Snow, e tentava ao máximo aproximar-se de Charming e convencê-lo a abaixar a guarda. E todo o seu esforço se derivada de uma genuína preocupação sobre Snow.

Era essa a grande comparação. E o grande obstáculo. Porque Charming desconfiava de Red por causa de seu amor pela esposa. E Red tentava criar uma amizade por causa de seu carinho pela amiga. As duas atitudes, mesmo que conflitantes, nasciam do mesmo sentimento de zelo e proteção.

Proteção. Era o que Red queria, acima de tudo. Proteger Snow e seu Reino era o que jurara, tanto formal quanto espiritualmente. Red era muito protetora de Snow, e isso se mostrava em seus pequenos gestos e olhares e comentários. Charming percebia, mas escondia notar. Ele via claramente quando os olhos de Red piscavam para um dourado toda a vez que alguém tocava no nome de Regina e em como ela torturara Snow; Quando ofendiam Snow e sua família; Quando punham Snow em perigo.

Até simples coisas como pequenos esbarros diários e machucados físicos que qualquer um ignoraria no passar do tempo. Red atentava a isso e cuidava de Snow no que podia, muitas vezes sem sua própria consciência de fazê-lo.

E isso, novamente, colocava Charming em um novo dilema. Porque era imensamente caloroso ver como Red, alguém tão forte e – devia-se admitir – perigoso, era intensamente dedicado a cuidar de sua mulher. Era mais uma força para proteger Snow do mundo e, principalmente, de Regina.

Mas também era essa exata atitude protetora a carinhosa de Red que lhe injetava com um ciúme culpado. Um sentimento de inveja altamente inapropriado. Ela era a sua esposa! Red era a melhor amiga de sua mulher. Racionalmente, não havia motivos para sentir-se ameaçado pela presença de Red. Ao menos, não pela presença de Red no coração de Snow.

Por mais que tentasse, Charming não conseguia livrar-se dessa sensação de cautela. Como se, se por um segundo desviasse o olhar da interação íntima das duas, Red pudesse roubar Snow de si. Ou Snow pudesse apaixonar-se por Red. Aquilo, porém, era o seu lado mais infantil e vulnerável falando. Ele sabia que não havia tal perigo: Snow e James eram Amores Verdadeiros. Ela provara isso. Ele provara isso. Todos sabiam. Red sabia. Red respeitava.

Mas toda a vez que Snow mostrava a mesma expressão de extrema paixão, Charming retornava a uma mentalidade mais imatura. Principalmente, quando as duas evitavam contar a terceiros sobre o tempo em que dependiam uma da outra. Isso, esse espaço de história completamente misterioso e obscuro para Charming, somado ao carinho mútuo e descomunal que uma parecia ter pela outra – Aquilo fazia o homem perder sua segurança.

O exato rosto que Snow vestia agora. Obviamente vulnerável e sinceramente preocupada pela amiga. Mostrando como sua presença era importante e como a ameaça a sua união era devastadora.

Charming amava Snow tanto quanto Red. Ele protegeria Snow tanto quanto Red. Ele ficaria ao lado de Snow assim como Red. Decidiu, então, engolir sua própria preocupação peculiar e focar-se em atendar a todas às necessidades de sua amada, por mais que aquilo lhe doesse ao poucos. Porque era isso que Red faria se estivesse em seu lugar.

— Snow, — Ele foi até ela, sentando-se ao seu lado e incorporando o mesmo sentimento de pânico que sua esposa expunha tão cruamente. – Hey. Não se preocupe. Eu tenho certeza de que ela vai voltar, okay? Vamos. Vamos procurá-la. Vou chamar os anões para fazer o serviço. Eu tenho certeza de que eles não recusariam um bom trabalho. – Ele sorriu mais levemente dessa vez.

— Não. – A voz de Snow era fraca e insegura, mas ao mesmo tempo detinha uma autoridade e poder incontestável. – Chame Blue. E Granny. Vou junto. Eu quero procurar também. Vou atrás dela.

O coração de Charming bateu mais dolorido por um segundo.

— Ela- — Snow riu de nervoso — Ela me ensinou esse truque antes. Vou encontrá-la.