Shy Pearl

Capítulo um: Lembranças

A viajem foi terrivelmente longa e cansativa.

A mansão Hyuuga ficava em Naha. A casa mantinha-se em uma área reservada da capital da ilha, com direito a um celeiro e um orquidário na parte de trás. Um pouco distante da área de turismo que era estabelecida, com mercados e restaurantes, e dos habitantes dali.

Um lugar com um clima bom, um verdadeiro Havaí do Japão, e Ino iria adorar isso quando chegasse.

Sim. A loira definitivamente viria, tinha certeza daquilo. Só não partiu na mesma hora porque teria que adiantar suas férias.

Sorriu ao lembrar-se do tom maligno que Ino utilizou na hora de relatar como iria matar o seu chefe se não conseguisse o convencer. Pensando bem, seria ótimo ter Ino ali. Já que não aguentaria ficar perto de Tenten, teria pelo menos uma amiga louca pra ser seu porto seguro.

E o que havia decretado antes, sobre Neji escolher entre Tenten e ela, estava certo. Ela definitivamente pediria isso, e se ele não aceitasse contaria a todos. Não era uma forma de dizer 'se não for meu não será de ninguém', era uma forma dela desabafar toda a frustração.

Quando desceu no aeroporto, onde inicialmente havia mudado a cor letreiro verde de 'Bem Vindo a Naha' para um amarelo cintilante, sentiu um frescor imenso.

Fazia mais de um ano que não visitava aquele lugar, na ultima vez foi no aniversário de Hiashi. Quando estava começando o romance as escondidas com o primo e já namorava Naruto.

"Hinata-chan" sentiu a mão quente e grossa segurando seu ombro, logo reconheceu a voz de quem a tirou dos seus devaneios, virou-se mecanicamente, fazendo seu vestido floral rodopiar em torno de si. Deparou-se com um homem moreno, definitivamente alto, e de cabelos castanhos. Ele vestia um short praiano e uma camisa branca, apertada no seu corpo, mas que só definia mais os músculos ali presentes.

"Oh m-meu Deus!" disse ao se aproximar do homem duas cabeças mais altas que ela. "V-você está t-tão diferente!" pôs as mãos na boca e soltou as malas de rodinhas.

"E você uma baixinha" disse com um sorriso maroto "não vai me dar nenhum abraço tampinha?"

Hinata o encarou, ainda surpresa, pulou no pescoço dele.

"Kiba! Oh meu Deus, q-que s-saudades" Saudou, chorosa.

"Ora, ora, você nunca faria isso cinco anos atrás, digo, nunca pularia e me abraçaria, sua pequena índia, você está diferente" proferiu Kiba, retribuindo o abraço forte da perolada.

Hinata arfou, e o soltou envergonhada. Realmente, cinco anos atrás ela tinha acabado de terminar as aulas em casa e estava se preparando para ir a Tóquio, entrar numa faculdade. Era somente uma índia, tímida, calada, e pura.

"N-não me chame de índia" sorriu envergonhada, formando pigmentos vermelhos em sua face.

"Tudo bem, você realmente não é mais uma índia, quando a maturidade chega, e os hormônios fluem, o que fazer não?" deu uma piscadela, olhando descaradamente para o busto de Hinata, que ao perceber mesclou do vermelho ao roxo em seu rosto, fazendo rir descontrolado. "Estou brincando Hinatinha, deixe-me levar suas malas, seu pai mandou vir te buscar com umas três horas adiantadas, ele está muito ansioso"

"Ah, t-tudo bem"

Kiba a conduziu até o carro dos Hyuuga.

O caminho até a mansão foi feito em uma ótima conversa. Volta e meia Kiba lembrava as molequices que eles aprontavam – quase todas Kiba, claro – que sempre fazia com que Hinata ficasse encrencada.

Kiba era realmente adorável, ele cresceu em Naha, por isso a pele mais bronzeada, e agora possuía músculos e altura. Morava na mansão, por ser filho dos empregados que Hiashi mais confiava.

Sempre foram muito amigos, verdadeiros irmãos. Sempre era uma alegria quando tinha férias ou comemorações e a família Hyuuga ia pra casa de praia. Hinata ao entrar na faculdade deixou de participar mais das festas e Kiba havia se mudado para a Espanha, para fazer alguns cursos.

Era ótimo o reencontrar, sentia muito sua falta.

O moreno desligou o carro, tirando a chave e abrindo a porta. Hinata sem cerimônia saiu do carro. Ela nem havia percebido que já estavam frente à mansão, sempre achou aquele percurso longo demais, talvez estivesse por demais entretida na conversa.

Ao olhar para a gigantesca área verde, os portões no fundo que se fechavam, e ainda o lindo balanceio das árvores, quase não conseguiu andar, tinha saudades dali. Lugar calmo, diferente do maior aglomerado urbano que é Tóquio.

Olhou para a casa, uma verdadeira mansão. Feita de concreto, resistente aos ventos fortes daquele lugar. Observou ainda a imensa estátua circular de um leão, o Shisa. Protege a casa do perigo. É natural ter um daqueles em forma de estátuas.

Estavam pertinho da entrada, e um latido forte do cachorro cheio de pelos, anunciou a chegada dos dois. Mais latidos denunciou que finalmente os donos da casa apareceram.

Hiashi estava com muitos cabelos brancos, e com uma aparência rabugenta, mas sorriu brevemente quando recebeu um abraço apertado de Hinata.

"Papai" Ela disse segurando o choro, afinal não fazia muito tempo desde que o vira. Soltou-se dele lentamente ao ouvir o pigarreio demasiado, da pequena Hanabi, que agora nem era tão pequena assim.

"Hinata-chan" Ela disse pulando de vez na irmã mais velha para o abraço demorado. "Senti sua falta irmãzinha, você me abandonou para cuidar daquelas outras crianças na sua clínica"

"Oh, Hanabi, não seja má com eles" Disse a repreendendo, porém com um sorriso na face.

Kiba sobressaltou entre as duas dizendo que teriam mais tempo para abraços e que era pra ajudar a colocar as malas pra dentro. Hanabi soltou umas gargalhadinhas meio infantis e declarou:

"Oras Kiba-kun, diga-me pra que serve esses músculos que adquiriu durante esses anos longe, se não podes carregar sozinho algumas malinhas da Hinata-chan"

"É bom estar de volta papai" Disse Hinata afastando-se junto ao pai, dos dois que começavam a falar sobre coisas avulsas.

"É bom ver você de volta" Ele a olhou, absolutamente diferente, Hinata parecia mais madura, uma maquiagem leve, um vestido floral suave, sem deixar o ar angelical, mas ainda assim diferente.

Ela olhava para o pai. Depois da morte da mãe, ele começou a morar em Naha, talvez tentando agradar a esposa falecida, que sempre quis que ele parasse de viajar e ficasse de uma vez lá. Mas viver ali, resolver todos os problemas da empresa, visitar algumas vezes Tóquio (onde ficavam os negócios), era muito desgastante.

Lembrava também, que ela fora um dos desgostos do pai, já que nunca quis administrar os negócios da família, fazendo com que ele começasse a treinar Neji, com apenas quinze anos para liderar os interesses. Neji sendo três anos mais velho que Hinata, tinha mais competência e habilidade para o ramo, era o que sempre dizia Hinata ao pai.


"Pelo amor! Você não vai acreditar, não vai mesmo" dizia apressada Ino ao telefone "aquele desgraçado do Shino-viado-sou-seu-chefe disse que só vou poder ter cinco dias de folga e ainda por cima a partir da terça, eu como aquele filho da puta e não deixo um ossinho"

Hinata afastou o telefone do ouvido, Ino não precisava detalhar nada, queria Ino ali, seria ótimo ver a mulher desestressar com o clima e a paisagem magnífica, quem sabe até ela conseguisse purificar mais o seu vocabulário.

"Menos Ino. Contando cinco dias a partir de terça é o mesmo tempo que eu ficarei aqui, não seja dramática" Sorriu docemente para a histeria da loira "Cheguei as cinco e estou arrumando os meus milhares de roupas aqui, nem eu sabia que tinha tanta coisa, quem mandou você colocar uma acetona na mala?" Dizia incrédula, enquanto revirava a mala que Ino tinha feito.

"Ah, querida, terça chegarei abalando a ilha de Okinawa " exclamou Ino do outro lado da linha. "E a acetona é minha sua ladra de removedor de esmaltes. Enfim, já estão todos aí?"

"Não, aparentemente chegarão amanhã, só estamos eu, papai, Hanabi, e um amigo da família"

"Ótimo, isso é muito bom. Assim você relaxa bem hoje, e estará pronta amanhã, não será tão difícil, acredite"

"Assim espero Ino, mas não sei se vou aguentar por muito tempo" Dizia desolada.

"AAAAH, pare com isso DeprêHina, chegarei aí dentre dois dias, isto é, se meu lindo chefe não inventar nada!"

"Ok, fale com ele, ligo amanhã, não se preocupe" Falou gentilmente Hinata, esboçando mais um sorriso com a loucura da loira.

"Ah, é por isso que te amo Hinatinha linda, beijinhos"

Desligou o celular e se sentiu mais a vontade com as palavras absurdas da loira. Observou a outra mala aberta, e viu mais coisas inúteis como um pote com bombons de café e algumas revistas sobre 'A semana de moda em Paris'. Terminantemente Ino tinha problemas mentais.


"Pronto. Conte tudo, pode contar, você engana ao papai com essa carinha de anjo, mas a mim não. Sei que você está angustiada, o que está havendo?"

"O-o que? Hanabi, por favor. Estou tão cansada da viajem, sabe que de Tóquio pra cá, é extremamente cansativo, e que eu não gosto de aviões" Dizia tentando não olhar para a irmã, falava com um pouco de firmeza, se fosse antigamente gaguejaria loucamente e logo todos descobririam que era mentira. Mas, com todo esse alvoroço na vida da perolada, uma das coisas que teve que aprender foi reduzir os gaguejos e opinar por outros assuntos. "Agora, você que tem que me contar tudo, está ansiosa para comemoração no sábado?"

"Aah!" Hanabi exclamou com os olhinhos brilhando, e por um momento Hinata se sentiu satisfeita com seu contorno da situação, mas logo lembrou que aquilo comprovava a bela mentirosa que havia se tornado "Sim, sim, sim! Estou muito ansiosa, doida para que todos cheguem logo, eu fui aceita em Harvard, isso não é incrível?" Dizia dando pulinhos no sofá da enorme sala, onde se encontravam.


Não era tão tarde, por volta das onze e meia.

Seu quarto continuava igual.

Um tom lilás bem claro, algumas almofadas brancas em cima da cama, várias fotos em cima da penteadeira, junto ao espelho que ainda mantinha a pequena rachadura na ponta, devido ao ataque de cólera de Hiashi, tempos atrás, mais especificamente na morte da mãe. O imenso tapete branco com bolinhas lilás deixava o quarto ainda mais infantil além do guarda-roupa branco, que tinha certeza de que estava cheio de roupas antigas que nem davam mais nela.

Ela suspirou, cansada.

A brisa era como mãos fazendo massagem em si.

O clima predominante quente de Okinawa de dia obrigou que Hinata ficasse com roupas mais leves, porém a noite era um castigo, sempre muito frio. E naquele exato momento começavam a cair algumas gotas de chuva.

Logo depois que falara com a irmã, fora jantar com os outros, a comida típica era ótima, diferente das outras regiões japonesas onde o peixe é ingrediente quase exclusivo. Até mesmo os pais de Kiba sentaram com eles, e pareciam bem acomodados.

Em seguida olhou toda a mansão, o celeiro, e os outros animais ali presentes, viu que tudo estava exatamente como lembrava.

Menos ela.

Os outros chegariam nessa segunda-feira, ou melhor, ELE chegaria traria consigo suas dores de cabeça.

Mas naquele momento, era hora de deleitar-se ao sono profundo sendo apenas privilegiada de sonhos passivos que finalmente poderia ter ao meio de tudo.

"Hinata" Ela achava que poderia descansar, até ouvir seu nome ser chamado por alguém que batia na porta delicadamente.