O diz ainda amanhecia quando Julia acordou. Duncan permanecia apagado ao seu lado; os dois estavam cobertos por cobertores grossos e limpos, e ao lado deles jaziam duas canecas de chocolate quente sobre a calçada. Aparentemente, haviam sido confundidos mesmo com moradores de rua.
Ela observou Duncan enquanto dava goles na bebida, que parecia ter sido deixada ali havia pouco tempo. O garoto tinha as feições mais suaves, agora que dormia, e havia um sorriso em sua face, expressando que tinha bons sonhos. Sentindo-se compadecida, resolveu não acordá-lo para não acabar com seu sonho, por[em, ao pegar no pulso dele para constatar as horas, Duncan acordou de supetão e, em milésimos, imobilizou-a no chão.
- Duncan! – ela exclamou, perplexa.
- O quê? – ele olhou-a, parecendo confuso; então se sentou e piscou várias vezes com força. – Droga, me desculpa. É o reflexo. Coisa do reformatório.
- Eu só ia ver que horas eram, seu lunático – ela disse, rindo, já calma. Duncan assentiu e informou que eram seis e meia. – Acho melhor a gente voltar.
Duncan concordou. Os dois se levantaram, dobraram o cobertor e o deixaram junto com as canecas encostados na parede, para que o dono possivelmente encontrasse-os e os pegasse de volta. Caminharam de volta a uma rua mais agitada, onde pegaram o primeiro táxi que viram. Quando o motorista perguntou para onde iriam ir, os dois informaram o nome do mesmo hotel.
- Você também está hospedado lá? – Julia perguntou, surpresa.
- Sim - ele disse, sorrindo. - Então é o mesmo destino, cara.
O taxista pisou no acelerador e o carro chegou no hotel em um quarto do tempo que eles tinham levado para caminhar desde a lanchonete até o ponto em que dormiram no dia anterior. Dividiram o pagamento e desceram do carro. Mal haviam aberto a porta, uma massa corporal de cabelos loiros se jogou em cima de Julia, por pouco não a derrubando no chão.
- Julia! Onde você estava, droga? Eu vim te procurar aqui e me disseram que você não tinha voltado e... – Dana gritava quando de repente avistou Duncan ao lado de sua amiga, os dois sorrindo, e parou de gritar. Ela ergueu as sobrancelhas, momentaneamente confusa, e depois disse, com a voz uns quatro tons mais baixa: - Ah, bem, se você estava com o Duncan, eu... ahn, certo, já que você está bem, eu... acho que posso ir embora e... ótimo.
E depois disso Dana foi embora do hotel, corada, deixando Julia e Duncan, rindo, para trás. Os dois seguiram para o balcão buscar suas chaves, e até o porteiro ralhou com eles.
- Ela estava desesperada procurando por você. Vocês, jovens, deveriam ter mais respeito – ele disse, olhando-os com um irritante ar de superioridade.
- E vocês, mais velhos, deveriam cuidar da própria vida – Duncan revidou, irritado.
Os dois começavam a discutir mais seriamente, até que Julia puxou Duncan pelo braço e o arrastou em direção dos elevadores.
- Ei, relaxa, ok, Esquentadinho? – ela disse enquanto apertava o botão do andar dezesseis. – Qual o seu andar?
- Dezesseis, também. Como a gente não tinha se esbarrado antes?
- Sei lá. Talvez não tivéssemos nos notado antes - ela sugeriu, embora a ideia soasse impossível aos ouvidos de ambos. - Enfim, eu vou para o meu quarto, me arrumar. A gente se vê no restaurante para o almoço.
Os dois foram andando pelo mesmo corredor, até se depararem com portas nem soou como uma grande coincidência, devido às outras anteriores. Por fim, os dois se encararam, sorrindo, e cada um entrou em seu respectivo quarto.
Estava intacto. A camareira ainda não tinha ido arrumar, e nem seria preciso, já que Julia não tinha passado a noite ali. Foi até o banheiro, completamente impecável, e abriu o chuveiro. A água foi esquentando pouco a pouco, até que ela finalmente entrou embaixo da ducha e lá ficou por pouco tempo. Depois disso, vestiu uma muda de roupa qualquer e passou um tempo ledo qualquer coisa, esperando a hora do almoço chegar. Quando o relógio analógico brilhou por meio dia e meio - a hora em que o restaurante abria -, ela saiu do quarto e desceu até o térreo, onde ficava localizado a área em que eram servidas as refeições do hotel. Procurou por Duncan, mas ele ainda não havia chegado, então escolheu uma mesa para se sentarem, preparou seu prato de comida e pediu ao garçom uma bebida. E esperou por Duncan. Como este estava demorando para chegar, começou a comer. Passado um tempo, sentiu alguém cutucando seu ombro e se virou, encontrando Duncan, com o cabelo ainda úmido, atrás de si.
- Nem me esperou para comer, é? Quanta falta de educação – ele disse.
- Você quem demorou demais. Aliás, o que estava fazendo? Passando gel no moicano?
- Ah, a minha mãe resolveu me ligar. Ela estava preocupada porque não me vê desde que saí do reformatório e coisa e tal.
- Espera. Desde que você saiu de lá ou desde que você fugiu de lá? São coisas bem diferentes - ela disse, sorrindo de modo sarcástico.
- Que nada – ele deu um sorriso maroto. – Nos dois casos eu saio do reformatório, então dá na mesma.
Julia até pensou em comentar alguma coisa, mas achou melhor ficar calada - não sentia que o reformatório era um bom assunto de conversas. Duncan foi buscar sua comida e, no fim, foi um almoço um tanto calado. Só quando terminaram de comer que surgiu um assunto decente.
- E aí, vamos fazer o quê, hoje? Andar pelas ruas e dormir em alguma calçada? – ela disse e os dois riram.
- Não sei quanto a você - Duncan falou -, mas me chamaram para tocar num show hoje, num clube aqui de Londres, como cantor. Não sei se você vai querer ir, é um show punk, mas eu... - ele pigarreou, parecendo constrangido - bem, está convidada.
Julia ergueu os olhos e sorriu.
- Por mim está ótimo, mas você vai se maquiar sozinho ou quer que eu te maquie? – Duncan fechou a cara, e Julia riu ainda mais alto. – Não, é sério, eu posso passar o lápis para você!
- Eu não vou precisar de maquiagem, idiota. Mas... eu meio que preciso de ajuda para escolher uma roupa. Você pode me ajudar?
Ela caiu no riso; aceitou e subiram para o quarto dele. Quando os dois se viram juntos, no mesmo quarto, uma cama próxima, ela sentiu-se constrangida no mesmo instante. Não era uma sensação, uma vergonha, habitual; era algo que ele a fazia sentir, uma sensação estranha que ela não poderia descrever. Julia pigarreou, para aliviar o clima que havia se instalado, nos segundos em que haviam passado se encarando, próximos um do outro. Olhou ao redor, quebrando o contato visual, e se espantou pela zona em que se encontrava o quarto. Mesmo não tendo passado a noite no lugar, o quarto se encontrava num estado miserável: a pouca luz que entrava entre as cortinas fechadas tornava possível se constatar que a cama, que mais parecia um ninho, estava bagunçada e não havia sido arrumada desde que ele chegara, e o chão, coberto de recipientes de comida vazios e roupas - a mala se encontrava esvaziada -, não era possível de se ver.
- O que é isso? – Julia perguntou, risonha. – Proibiu a entrada das arrumadeiras?
Duncan fingiu não ouvir e abriu o armário. Julia começou a remexer nas camisetas e nas calças, que se alternavam em tons escuros. Após remexer nas gavetas, ela pegou uma muda e jogou para ele.
- Tenta esse - disse. Ele assentiu e começou a abrir o zíper da calça, sobressaltando-a. - Ei, o que está fazendo?
- Trocando de roupa? - ele sugeriu, com um sorriso inocente.
- Na minha frente?
- Você quem não se virou.
Ela bufou e virou-se de costas para ele, que começou a trocar de roupa. Sentindo a presença dele atrás de si, e tendo consciência do que fazia, Julia começou a respirar com mais dificuldade. Sem conseguir mais se controlar, virou-se para encará-lo e ficou paralisada ao se deparar com Duncan sem camisa - mas felizmente vestido até abaixo a cintura -, o abdome definido à mostra.
- Uau - ela teve de murmurar, baixinho.
- Gostou? - ele perguntou, sorrindo, enquanto terminava de vestir a camiseta.
- A que você se refere? - ela perguntou, corada, tentando disfarçar o constrangimento.
- A roupa, é claro - ele riu mais um pouco.
- Ah, sim... - ela olhou-o de cima a baixo, aprovando cada pedaço... de roupa, óbvio. - Ficou ótimo. Com certeza não haverá outro cantor punk vestido melhor.
- Graças a você - ele disse, e sua voz saiu rouca. Ele se aproximou mais e mais, até que os dois corpos se chocaram. A boca dele tocou delicadamente o pescoço dela e traçou um caminho ao queixo. Ela arfava ligeiramente e aproveitava cada toque, até que teve um surto de realidade e soltou-se dele, respirando fundo.
- Eu... tenho que me trocar. Espere só um segundo.
E correu para o quarto, deixando um Duncan confuso para trás.
Enquanto se trocava, Julia tentava controlar a respiração. Seu pulso estava acelerado, constatou. Nunca tinha se sentindo assim. Mas, com Duncan, cada toque a fazia tremer, cada olhar era especial. E agora, mais do que nunca - apesar de tê-lo conhecido na noite anterior, parecia que se conheciam desde sempre -, sentia que precisava dele.
Quinze minutos depois, ela saiu pronta, vestindo uma camiseta estampada do Sex Pistols, calça e jaqueta de couro e uma bota de coturno, além de uma maquiagem impecável.
- O que achou? - ela perguntou, ao encontrar Duncan do lado de fora do quarto, esperando-a no corredor.
Ele soltou um assobio longo, enquanto encarava as pernas dela, saltando sob o tecido apertado.
- Você está ótima, mas a gente tem que ir, se não vamos nos atrasar – ele a puxou pelo pulso até o elevador, onde continuou a encará-la, com aprovação no olhar. – É, você está ótima – ela deu um sorrisinho.
- Eu sei.
Ele lançou-a um olhar intenso e as portas do elevador se abriram.
Após outra viagem de táxi, eles chegaram num clube de aparência suspeita, e, diferente do da noite anterior, a música que tocava nas caixas de som era rock pesado. Poucas pessoas dançavam, e a maioria se vestia como Duncan e ela. Enquanto andavam entre a multidão, algumas figuras sinistras lançaram olhares a eles, e Julia se aconchegou perto de Duncan.
- Ahn... Que horas você vai tocar? – ela perguntou, esperando não soar exasperada.
- Daqui a alguns minutos, por quê? – ele a encarou. – Está com medo? Ninguém aqui morde, princesa, relaxe.
- Princesa? Sério? - ela fez uma careta enojada, e ele riu.
- Eu vou ao camarim, me encontrar com a galera da banda, e você, princesa, fica aqui em baixo. Senta ali, pede alguma coisa e tenta não se atracar com qualquer um enquanto eu estou fora.
"Como se eu quisesse qualquer um que não fosse você", sua mente gritou, apesar de ter dito apenas um boa-sorte, realmente.
Julia encarou as costas de Duncan até ele sumir por trás do palco e foi sentar-se numa cadeira distante. Um homem estranho ficou encarando-a profundamente e ela, nervosa, permaneceu quieta, mexendo no celular. Felizmente, nem dez minutos depois, a banda surgiu pelas coxias. Todos aplaudiram e, sem fazer cerimônias, começaram a tocar. A plateia assistiu com respeito nos poucos quarenta minutos de duração que o show teve; mas foi no fim que as "fãs" apareceram.
Quando a banda foi descer do palco, Julia levantou-se rapidamente para encontrar Duncan, e pareceu que foi isso que todos no clube optaram por fazer também. Em instantes, uma multidão de garotas havia se formado entre a banda e Julia, distanciando-a mais e mais. As meninas gritavam loucuras e pulavam em cima dos integrantes da banda, principalmente em Duncan, já que este era o vocalista - e consequentemente o alvo da maior parte das atenções. Alguns deles, como o baixista e baterista, já tinham iniciado a se atracar com algumas das tietes; Duncan, porém, parecia manter uma conversa civilizada com duas garotas de cabelo preto.
Julia, enciumada, começou uma conversa com um cara qualquer, tentando ser o mais atirada possível e desejando fazer Duncan sentir-se como ela se sentia - por mais que fosse algo estúpido e infantil. O garoto - que ela, só para constar, nem sabia o nome - já começava a se inclinar para frente, sorrindo maliciosamente, quando um cara bem maior que ele e de moicano verde cutucou seu ombro.
- Com licença? - Duncan praticamente rosnou, os dentes arreganhados. - Ela está comigo, cara.
E o garoto, assustado com o competidor com o dobro de sua altura, se mandou.
- Vai se explicar? - Duncan perguntou, encarando uma Julia que se fazia de desentendida, olhando para o outro lado.
- O quê? Eu só estava conversando com ele.
- Claro - ele respirou fundo. - O que achou do show?
- Sinceramente? - ela perguntou, séria, fazendo-o franzir as sobrancelhas, intrigado. - Tirando a parte em que as garotas pularam em cima de você, eu amei.
Ele sorriu e enxugou as mãos suadas de nervosismo na calça. Levantou os olhos e a encarou por vários segundos.
- O que foi? - ela perguntou, sentindo-se constrangida com o olhar intenso dele.
- Sinceramente? - ele disse, e ela sorriu. - Eu estou morrendo de vontade de te beijar.
- Tirou as palavras da minha boca.
E ele inclinou-se para frente e encostou os lábios nos dela. Pela diferença de altura, ela teve de se inclinar um pouco para cima, mas instantes depois já estava sendo segurada por ele pela cintura. Logo depois ele forçou-a para frente, encostando-a numa parede, na tentativa de encontrar uma posição melhor. Assim, encontrando-a, ele pediu pela entrada de sua língua, o que ela aceitou sem hesitar. O beijo se tornou mai envolvente e quente, e Julia pôde ouvir alguns suspiros desapontados das fãs ao longe. E, sem interromper o beijo, sorriu.
O casal tentava encontrar a chave do quarto ao mesmo que buscava não interromper o contato de suas bocas e corpos. Finalmente, Duncan conseguiu achar a chave do quarto de Julia no bolso traseira da mesma, e os dois adentraram no cômodo aos trancos e barrancos, quase caindo no chão. Logo que a porta fechou-se atrás deles, Duncan carregou a parceira para cima da cama e jogou-a ali sem cerimônias. Ela tratava de abrir o zíper de sua calça enquanto ele se ocupava em arrancar a camiseta de banda dela sem cuidado algum.
Após mais beijos, carícias e roupas espalhadas, os dois encontraram o paraíso.
