N/A: Todo o texto em itálico, e qualquer coisa que você reconhecer, é a propriedade da formidável Sra. Rowling. Eternos agradecimentos a minha beta, Shellsnapeluver.

oooOOoooOOooo

Severus Snape desviou a atenção de seu trabalho para a enfermaria sem olhar para cima. Ele passou pela porta e atravessou depressa o recinto, afundando na cadeira de couro grande onde estava sentado quando recebeu a convocação de Dumbledore. Apontando a varinha para a porta, bateu-a e adicionou uma senha de proteção extra. Então abaixou a cabeça entre suas mãos.

Por entre seus dedos, ele poderia ver o livro aberto e as notas rabiscadas que tinha abandonado quando a forma vislumbrante da fênix aparecera; parecia que tinha sido há muito tempo.

oooOOoooOOooo

- Severus, eu preciso de você agora, - dissera, com urgência terrível, e ele tinha jogado seu trabalho ao chão e chegou pelo Floo imediatamente ao escritório de Dumbledore. Lá encontrou o homem velho jogado no tapete oriental na frente da escrivaninha. A maldição que estava se espalhando pela mão esquerda mal poderia ser contida. Era um milagre que tinha conseguido enviar seu Patrono.

Homem tolo, tolo, pensou quando levou a mão de Dumbledore entre as suas. Lançou um feitiço de barreira no cotovelo do bruxo, esperando ganhar tempo.

- Dobby! - chamou.

O elfo doméstico aparatou ao lado dele.

- Senhor? – lhe perguntou timidamente.

- Poções! Meus estoques... Eu preciso de repositor de sangue, pomada para queimaduras, bloqueador de maldição, minha poção curativa mais forte e Vita Secundus... Imediatamente!

Dobby não demorou a responder, aparatou novamente, deixando-o só com Albus e a voz alta, crescente em sua mente que dizia confusamente que Albus Dumbledore estava morrendo. Albus Dumbledore ia deixá-lo só, aqui, e ele ia fazer, bem, então, o quê? Para quem ele espiaria? Ele não seria nada mais que um Death Eater. Suas mãos tremeram quando ele rasgou a manga dos roupões de Dumbledore. Lançou um feitiço diagnóstico, estremecendo com o resultado.

Dobby retornou, carregado com garrafas.

- Senhor. - ele disse.

Snape agarrou o frasco menor do elfo e conjurou um cálice. Verteu o conteúdo do frasco no objeto, e adicionou uma poção de cura de um frasco muito maior, ignorando os outros. A mistura era pesada e grossa, mas teria que funcionar. Ele inclinou o cálice na boca de Dumbledore, notando com alívio que o Diretor estava tragando reflexivamente. Snape lançou vários feitiços para ajudar a poção a achar o dano depressa, então percebeu que não tinha liberado o elfo.

- Isso é tudo, Dobby. Obrigado.

- Mas senhor… O Diretor Dumbledore? - Dobby balançou de um lado para outro nervosamente.

- Está tudo bem,- Snape rosnou. - E você não deverá contar isto a ninguém.

O elfo lhe lançou um olhar duvidoso, mas desaparatou no mesmo instante.

Snape deu uma olhada ao redor do quarto, esperando encontrar alguma pista sobre onde o diretor pudesse ter encontrado tal maldição maligna. Focalizou um anel, jazendo rachado e destruído ao lado da espada de Gryffindor. Ele se moveu para tocar, e pensando melhor, retrocedeu até Dumbledore, que estava começando a se mexer.

- Por quê? - perguntou Snape, sem preâmbulo, - Por que você pôs esse anel no dedo? Ele tem um feitiço, certamente você percebeu isso. Por que tocou nele?

Dumbledore não respondeu.

- É um milagre que tenha conseguido voltar a Hogwarts!- Snape continuou furioso. - Esse anel carregava um feitiço de extraordinário poder, paralisá-lo é o máximo que podemos ter esperança de conseguir; por ora, restringi o feitiço a uma das mãos...

Dumbledore elevou a mão murcha, enegrecida, até seu rosto para examiná-la. Snape o assistiu, cheio de medo, dor e desgosto. Todos esses anos. Todos esses anos ele pertencera a Dumbledore, confiava nele como a redenção de sua alma. E agora, antes da guerra começar verdadeiramente, agora Dumbledore o deixaria só novamente, só com seu passado. Snape nunca se iludiu sobre gostarem dele ou outros membros da Ordem da Fênix confiarem nele. Era a insistência inflexível de Dumbledore que preservara seu lugar entre eles. Agora ele não teria ninguém, ninguém para ajudar, nada mais a fazer do que esperar que sua duplicidade fosse descoberta. Esperar pela morte. Como o velho feiticeiro pôde ser tão descuidado com a própria vida quando tantos outros dependiam dela?

- Você cuidou muito bem de mim, Severus. Quanto tempo acha que me resta?

Snape virou-se para longe da face aberta, confiante de Dumbledore. Ele desejou que pudesse bater nela.

- Não sei dizer. Talvez um ano. Não há como paralisar um feitiço desses definitivamente. No fim, ele irá se espalhar, é o tipo de feitiço que se fortalece com o tempo.

- Bem, isto simplifica consideravelmente as coisas. - Dumbledore disse.

- Como? - Snape respondeu, sua voz como um chicote. - Não entendi.

- Eu estou me referindo ao plano que Lorde Voldemort está tecendo a meu respeito. O plano de mandar o coitado do menino Malfoy me matar.

- Como eu lhe falei, Albus, o Lorde das Trevas não quer que ele tenha sucesso. Simplesmente é um plano para torturar Lucius pelos recentes fracassos dele... fazer a família assistir o menino fracassar… e ser castigado.

- E eu o imagino o sucessor do plano, se ele falhar?

Snape pausou. Voldemort nunca tinha falado isso realmente, contudo, de alguma maneira, ele sabia que era verdade.

- Eu acredito que esse é o plano dele.

Dumbledore acenou com a cabeça.

- Bem, eu agradeceria de ser poupado da tortura da maldição, - falou, simplesmente.

- Você não pretende deixar Malfoy matá-lo de fato?

- Certamente que não!- Dumbledore respondeu. - Você deverá me matar.

Claro. Claro. Porque para que servem os espiões, senão para isto? Você pode mimá-los, e dar-lhes vestes de professor. Você pode admiti-los em sociedades secretas e pode lhes pedir que curem o incurável. Você pode encarregá-los de proteger as crianças. Mas você sempre espera que eles matem no fim. Eles sempre são a arma. Nunca a proteção.

- Quer que eu faça isso agora? Ou você gostaria de ter alguns momentos para compor um epitáfio? - Snape se sentou na cadeira e organizou as linhas de seu rosto em irônica indiferença.

Dumbledore riu.

- Eu ouso dizer que o momento se apresentará no seu devido tempo.

- Se você tem a intenção de morrer, por que não deixar Draco fazer isto e poupá-lo da ira do Lorde das Trevas?

- Porque a alma de Draco não é tão danificada. Eu não quero vê-la rasgada em dois por minha causa.

- E a minha alma, Dumbledore? A minha?

O medo sempre o rondara, a memória da face de Dumbledore cuspiu nele e sussurrou "Você me dá nojo". Sempre teve a suspeita de que debaixo daquela proteção, Dumbledore ainda o odiava, mantendo-o abaixo do desprezo. Agora a verdade aparece, Snape pensou com amargura até então desconhecida.

- Somente você é capaz de saber se prejudicará sua alma ao ajudar um velho a evitar a dor e a humilhação. - Dumbledore declarou.

- Muito bem, - ele disse friamente, e emparelhando com frio da sua voz era a certeza súbita e gotejante, gelada, que este sempre tinha sido o plano. - E quando você pretende deixar a Ordem saber?

- Certamente você percebe que esse será o nosso segredo? - Dumbledore disse. - Hogwarts cairá. E quando acontecer, você deve estar bem e completamente dentro das boas graças de Voldemort. Não pode haver nenhuma mudança. Quem, além de você, será designado Diretor? Eu estou contando com você para proteger as crianças.

Proteger as crianças, realmente.

- Assim você pretende me marcar com ferro como um renegado e me devolver ao Lorde das Trevas, - Snape disse, a voz completamente sentimental, a face, uma máscara. - E eu deveria sobreviver…?

Dumbledore pausou, e por um momento Snape foi varrido pela noção de que não havia nenhum plano para a possibilidade particular de que a dívida que ele tinha com Lily Potter tivesse sido cumprida afinal, e com juros. Ninguém esperou que ele sobrevivesse à guerra, Dumbledore certamente não, e se fosse honesto, ele também não. Mas durante os anos, ele tinha começado a achar que alguém poderia fazê-lo, até mesmo que ele não conseguisse esperar isso para si próprio, poderia esperar que ele sobrevivesse. Ele tinha começado a pensar que Dumbledore poderia.

- Compreendo.- disse.

- Severus,- Dumbledore disse amavelmente. - Meu querido Severus. Eu sei o que estou perguntando a você. Certamente você não pensou que eu o deixaria completamente sem recurso? Nós dois sabemos que suas chances de sobreviver a esta guerra quase são tão escassas quanto as minhas próprias. Mas eu creio que há um modo de proteger nosso segredo e ainda afiançar para você uma chance à vida, devo dizer."

Os lábios de Snape apertaram e havia uma elevação sutil em seu queixo. Ninguém que não o conhecesse intimamente veria alívio ali, mas era evidente na curva da sobrancelha e a palidez de sua pele.

- Diga Albus.- ele respondeu.

Dumbledore apoiou-se fragilmente para frente, e Snape quase o interrompeu para lhe mandar relaxar e economizar sua força. Mas ele sentia, nesses momentos, como se a mesma existência dele se equilibrasse em um nada, um ponto invisível, e ele que pretendia ouvir, agora, antes que o ponto virasse e o rasgasse em fragmentos.

- Eu quero que você se case com Hermione Granger.

Snape empalideceu, mas conseguiu cruzar as pernas antes de responder.

- E, como, me conte por favor, casar-me com a grande sabe-tudo de Griffyndor, vai assegurar minhas chances a uma vida? - Ele perguntou. - Uma vida sem valor, de qualquer maneira. - Ele acrescentou indelicadamente.

Dumbledore inclinou a cabeça ligeiramente em reconhecimento à angústia de Snape antes de continuar.

- Hermione não é um membro da Ordem. Ela não é obrigada a compartilhar seus segredos ou os dela própria. E ainda, ela é um ícone da Luz, e se tornará mais ainda, eu tenho certeza, durante a guerra. A confiança dela em você, - ele pausou - falaria alto.

- Eu a pedirei em casamento imediatamente? - Snape perguntou sarcasticamente. - Minhas masmorras, claro, seriam uma casa adequada para qualquer aluno meu.

- A Senhorita Granger será maior de idade em três meses. - Dumbledore disse, como se eles estivessem falando do tempo ou de uma recente partida de Quadribol. - Se você fosse agradável, eu a chamaria agora. Obviamente, este será simplesmente mais um de nossos segredos. Você e ela continuariam como sempre.

O único pensamento que amarrou Snape à sanidade foi o fato simples e tranqüilizador de que Hermione Granger nunca iria concordar em se casar com o seboso Mestre de Poções, morcegão de cabelos negros das masmorras. Ele agradeceu pela personalidade que tinha sido forçado a cultivar durante anos. Para Dumbledore isso era sério, na verdade, parecia ter pensado sobre e chegado à conclusão, por algum caminho insondável, de que era uma boa ideia.

- E como você pretende ser galante por mim? - Ele zombou. - Senhorita Granger, feliz aniversário! Que prazer em vê-la. O Professor Snape aqui vai me matar. Case-se com ele e prove que ele foi, desde o princípio, aliado à Ordem, tudo bem?

Dumbledore riu.

- Severus, você tem um jeito com as palavras. Eu gostaria que pudesse confiar a você próprio a tarefa de balançar a Senhorita Granger.

Snape bufou.

- Porém, como eu estou certo de que é uma impossibilidade, eu pretendo apresentar isto a ela como apresentei a você: como uma necessidade. Hermione se familiarizará intimamente com o sacrifício e tem um senso bem desenvolvido de justiça. Você se lembra, eu espero, do ano em que os elfos domésticos quase entraram em greve? Ela entenderá o que há em jogo, e eu estou seguro que ela fará tudo em seu poder para vê-lo reconhecido corretamente.

- A Senhorita Granger é uma Griffyndor, Albus, e, como você disse, ela tem idéias ideias exatas sobre justiça. Ela não ficará em pé e me assistirá matá-lo. - A voz dele perdeu volume e adquiriu um pesar fundo que não podia ser um sentimento sobre si próprio. - Ela preferiria morrer antes.

Dumbledore ficou sério.

- Nesse ponto, acredito eu que você tenha razão. Porém, não vejo nenhuma necessidade de contar à Senhorita Granger esta parte em particular do plano. Ela só precisa ser informada que você precisará parecer voltar aos Comensais da Morte, que você cometerá alguma atrocidade que afiançará sua aceitação lá, e que ninguém mais, a não ser ela, saberá a verdade sobre o assunto.

Snape olhou para o rosto dele.

- Eu o conheci por manipular as pessoas no passado, em nome do bem maior, mas isto parece insincero até mesmo para você, Albus. Não há nenhum bem maior aqui. Meu bom nome é nenhuma razão para condenar uma jovem menina a...

- Se eu não o conhecesse melhor, eu o acharia muito cavalheiro, protegendo uma jovem menina jovem.-

- Uma menina jovem - uma jovem menina jovem! Brincadeiras à parte, isto é irracional. Ela ainda não tem 17! Ela é minha aluna! Se você insiste que eu me case, por que não alguém mais velho, mais apropriado?

- Eu estou certo de que você não esqueceu que as bruxas mais apropriadas estão mortas. - Dumbledore disse rudemente.

Intimamente, Snape recuou das palavras dele como se golpeado. Dumbledore tinha mencionado Lily ali tão certamente quanto se tivesse dito o nome dela.

- Essas em que nós poderíamos ter confiado se foram na primeira guerra, - ele continuou. - e poucos bebês nascem em tempo de guerra -.

- Há Nymphadora. - Snape fez careta enquanto falava.

- Nymphadora contaria para... - Dumbledore respondeu.

- Você está se referindo ao lobisomem? Porque ele dificilmente morderá - perdoe-me a expressão - a isca de um casamento com ela.

Dumbledore olhou-o fixamente pela primeira vez naquela noite.

- Nymphadora está apaixonada por Remus. Ele retribuindo ou não ao seu afeto. Ela nunca concordaria.

- Assim nós renunciaremos à bruxa que vai, bastante justamente, defender os desejos dela para procurar um par mais jovem e mais maleável? - Snape perguntou, venenoso.

- Se você teima em olhar por esse lado.

Os dois homens se sentaram em silêncio, encarando um ao outro durante um tempo. Dumbledore suspirou.

- Perdoe-me por dizer assim, Severus, mas a probabilidade é que mudaremos a vida dela muito pouco. As chances que...

- Eu não tenho nenhuma ilusão sobre minha longevidade. – Snape cuspiu.

- Eu, então, não entendo sua objeção.

De repente, Snape se sentiu muito tolo, defendendo a Senhorita Granger, quando deveria ter estado claro a ele, desde o princípio, que aquele Dumbledore nunca teria arriscado sua princesa preciosa da Griffyndor se ele na verdade pensasse que a vida dela poderia ser afetada. Ela, claro, nunca se consideraria usada.

- E nada sobre a minha vida teria de ser alterado, - questionou incisivamente. - eu iria continuar agindo exatamente como antes?

- Dando a ela tantas detenções quanto certamente eu sei que fará, Severus.

- Então, eu suponho, não há nada mais a dizer sobre o assunto, - ele disse, subindo o tom. - Fale com a Senhorita Granger se você quiser, entretanto duvido muito que ela concorde. - Ele se levantou para juntar as garrafas e os frascos espalhados sobre a escrivaninha.

Dumbledore pegou um frasco esbelto, sem marca, quando Snape tentara alcançá-lo. Ele era notavelmente rápido para alguém que, só uma hora e meia antes, tinha estado à beira de morte, pensou Snape. O feiticeiro velho segurou-o contra a luz antes de começar a falar em voz tranquila, entrecortada, o que revelou a Snape que ele estava muito bravo.

- É este o Vita Secundus? - E antes que Snape pudesse responder, - Oh, não. Não. Diga-me que você não usou...

- Está cheio, como você pode ver claramente. Ou a maldição prejudicou sua visão? - A voz de Snape gotejava sarcasmo.

- Por que está neste escritório?

- Eu pedi para Dobby buscar, junto com as outras poções. As que salvaram a sua vida, como você provavelmente recorda.

- Severus, eu pensei que tinha sido claro sobre o Vita. É para o Harry e somente o Harry. Nenhuma vida é remotamente mais...

Importante. Sim, eu sei, - Snape disse acidamente. - Eu posso ver que minha preocupação para seu bem-estar foi excessiva.

-Nós não gastamos anos naquela poção para jogá-la fora em trivialidades! - Dumbledore sibilou.

- Eu estou certo de que serei reconfortado por sua falta de consideração com sua própria vida quando eu mesmo levá-la de você. - Snape disse, removendo o frasco do aperto de Dumbledore e atravessando o lugar, suas vestes ondulando.

oooOOoooOOooo

Ainda sentado na poltrona de couro usado, Snape ergueu a cabeça de suas mãos e olhou em volta. Tudo estava notavelmente normal, inalterado: uma pilha de pergaminhos enrolados na escrivaninha, um fogo baixo na lareira, o tapete Abissínio da mãe dele no chão de pedra onde tinha estado desde que juntara-se à equipe de Hogwarts e tomara essa sala como sua. E ainda, mesmo sendo provável que ocorrera meses antes disso tudo, Severus Snape sentiu que sua vida, como ele a reconhecia, tinha terminado.

oooOOoooOOooo

N/T: O próximo logo virá, confiem. Deixem comentários;)

N/T²:Afrodite, um mega beijo por aceitar entrar comigo nessa empreitada. Abraços e mais abraços!