CAPÍTULO I

Visitantes não apareciam em Hampshire durante o ve rão, a grande temporada de festas em Londres. Não de propósito, pelo menos. Assim, aquelas três enormes carru agens atoladas no barro que cobria a estrada principal de viam estar perdidas. Muito perdidas.

Suspendendo a barra da saia para evitar o barro, Isabella Swan correu até a margem da estrada. O primeiro dos veículos exibia gravado na porta o emblema de um dragão vermelho e uma espada. Nobreza, Isabella concluiu, com a curiosidade aumentando. O cocheiro do segundo veículo, este um pouco menor do que o anterior, tirou o chapéu e a cumprimentou.

Pelo amor de Deus! Ela estava parecendo uma dessas moças que vão pela primeira vez a uma feira e ficam olhan do espantadas para tudo o que vêem. Uma das lições bási cas que ela vinha ensinando às suas alunas era que nunca encarassem as pessoas. Precisava praticar os seus próprios ensinamentos. Suspirando, decidiu regressar à escola.

O barulho de madeira rachando a fez voltar-se nova mente. A segunda carruagem perdera a roda e tombara para o lado. A roda girou desgovernada e veio rolando em sua direção.

— Deus meu — ela balbuciou, pulando de lado.

Os cavalos escorregavam no chão enlameado. A porta da pequena carruagem se abriu, e um homem esticou a cabeça para fora.

— Maldição, Cullen! Você e suas estúpidas expedições. — Um rapaz vestido com elegância estendeu a perna para fora e perdeu o equilíbrio.

Isabella deu um passo para trás involuntariamente e coli diu com uma parede de tijolos.

— Fique firme — uma voz profunda soou junto ao seu ouvido e lhe provocou um arrepio na espinha.

Sua surpresa aumentou quando descobriu que a parede de tijolos nada mais era do que um homem gigante, alto e de ombros largos. Ele tinha olhos verdes, que a fitavam com a arrogância típica dos aristocratas. Havia um leve sorriso em seus lábios.

— Talvez possa sair do meu caminho e me deixar passar — ele disse.

— Desculpe, senhor. — Ela não conseguia se lembrar de ter visto alguém tão magnífico fisicamente. Existiam ho mens assim tão bonitos?

O belo gigante passou por ela sem se dignar a olhá-la pela segunda vez.

— Machucou-se, Newton? — ele perguntou.

— Não, mas olhe a minha roupa! Estou coberto de barro.

— É, está mesmo. Melhor ficar longe de mim. — O gigan te fez um gesto da beira da estrada.

— Oh, Ed...

Uma mulher de cabelos loiros apareceu à porta de uma das carruagens e caiu nos braços de seu salvador.

— Excelente mira, Alice. — Quando a jovem fingiu um desmaio, ele fez um gesto como se fosse largá-la na lama.

Isabella deu um passo à frente.

— Senhor, não pode estar pensando em...

— Não ouse fazer isso, Cullen! — Alice se recuperou instantaneamente do desmaio fingido e agarrou-se no pes coço dele. — Não me jogue nessa imundice!

— Então pare com esse fingimento. Não convenceu nem a jovem que não para de falar um segundo e que se diverte assistindo a essa palhaçada toda.

Jovem que não para de falar um segundo? — Isabella repetiu, fazendo uma careta.

Uma segunda mulher surgiu à porta da carruagem.

— Oh, largue Cullen, Alice. Não seja tão egoísta e dê uma chance a alguém mais.

— Eu a salvarei, Rosalie — o cavalheiro enlameado decla rou, levantando-se do barro e estendendo os braços.

— Depois de estar enfiado nesse barro? Não seja ridícu lo, Mike. Ed, por favor, tire-me daqui.

Isabella pensou em sugerir que simplesmente levassem a carruagem para o ponto da estrada que estava sem lama, mas já que eles eram nobres, e os nobres pareciam se di vertir com essas tolices, cruzou os braços e ficou apenas observando.

Ela não parava de falar, não era isso que o gigante tinha dito? Ed, como as moças o haviam chamado, parecia ser um apelido inadequado para um homem tão imponente.

O gigante voltou-se para a outra mulher.

— Não posso ficar carregando todo mundo, Rosalie.

— Bem, eu me recuso a ser salva pelo primo Mike.

Isabella ouviu um longo suspiro alguns metros atrás dela. Ali estava parado outro cavalheiro, observando a cena, com as mãos enfiadas nos bolsos, os olhos azuis exi bindo bom humor.

— Bem, suponho que serei obrigado a ajudá-la, não é?

Rosalie mordeu os lábios, claramente aborrecida.

— Preferia que fosse...

— Isso mesmo, encarregue-se disso, Emmet — o gi gante observou. — Vá na ponta dos pés e tire Rosalie da carruagem.

— Espero que me presenteie com um novo par de botas, Cullen.

Cullen. Isabella tentou se lembrar de onde ouvira esse nome. Tinha amigas que haviam deixado a escola anos atrás e se casado bem. Talvez alguma delas houvesse men cionado esse nome. Certamente ela não colocara os olhos antes no homem, já que seria impossível se esquecer de alguém tão bonito.

Como se lembrando da presença dela, o gigante se voltou para Isabella. Ela ruborizou, tomada por inexplicáveis pen samentos eróticos com os quais não estava acostumada.

— Se pretende ficar assistindo de camarote a esta cena idiota, mocinha, pelo menos seja útil. Vá tomar conta dos cavalos enquanto Simmons cuida da outra carruagem.

Nenhum homem falava daquela maneira com uma dire tora de escola.

— Dificilmente posso ser chamada de mocinha, senhor. Já que ninguém parece estar ferido, motivo de minha pre ocupação inicial, tenho coisas mais importantes a fazer do que ficar ajudando pessoas tão tolas que atolam na lama sem necessidade alguma. — Ela lhe deu as costas. — Tenha um bom dia.

— Que garota geniosa! — o enlameado Mike ex clamou.

— Bem feito para você, Cullen. — Emmett olhou para o amigo. — Não pode ficar dando ordens para todas as pesso as que cruzam seu caminho.

— Suponho que não podemos esperar que os campo neses nos reconheçam como seus superiores — Rosalie acrescentou.

Isabella escutou a observação e concluiu que o grupo po dia ficar atolado na lama de Hampshire, lugar onde mere cia mesmo estar.

Na hora em que tentavam decidir quem continuaria a viagem a Haverly nas duas carruagens que ainda esta vam em perfeito estado, Edward Cullen, o duque de Wycliffe, teve vontade de ir a pé. Com certeza chegaria an tes à propriedade do tio e poderia aquecer a garganta com uma forte dose de uísque.

— Parece haver belas garotas em Hampshire — obser vou Emmett McCarty, visconde Dare, enquanto se acomo dava no banco da carruagem.

Ed lançou-lhe um olhar crítico.

— A moça era ignorante.

— Pois ela soube responder à altura.

— Foi rude. — Alice estava sentada o mais próximo possível de Ed, para que pudesse cair nos braços dele em caso de fingir um novo desmaio. Mal se conseguia respirar dentro da carruagem cheia demais. Felizmente, Rosalie havia optado por cavalgar com sua criada. — Começo a pensar que todos nesse fim de mundo sejam bárbaros — ela concluiu.

— Isto aqui é Hampshire, não a África — Emmett disse, rindo.

Ignorando o argumento, Ed puxou a cortina para que entrasse alguma brisa. A garota na estrada despertara sua atenção. Baixinha, tinha olhos amendoados, rosto perfeito e usava um chapéu absurdamente conservador. Teria de per guntar ao tio Caius quem era ela. Suspirou. Nos últimos anos tinham sido raros os encontros com Caius e Esme Platt, o conde e a condessa de Haverly, e tornaram-se ainda menos freqüentes desde que ele herdara o ducado. O inesperado convite para visitar Hampshire o inquietava um pouco. Não podia imaginar a razão que levara o tio a chamá-lo no meio da temporada das festas em Londres, mas suspeitava de que tivesse algo a ver com dinheiro.

— Qual era a cidade mais próxima, Edward? — Emmett per guntou, olhando a paisagem.

— Basingstoke.

— Hum... Vou querer visitá-la.

— Por quê? — Edward olhou para o amigo, curioso.

— Se não notou nada de interessante por aqui, não espe re que eu lhe passe os detalhes. — O visconde sorriu.

Ele tinha notado, o que o aborrecia. Se havia algo que não queria em sua vida eram novos relacionamentos amorosos.

— Faça do jeito que preferir, Em. Apenas não me aborreça.

— Uma bela coisa a se dizer a um convidado.

— Você não é meu convidado. Não me lembro de ter con vidado qualquer um de vocês.

— Ficar em Londres sem você seria um tédio. — Alice inclinou-se, aproximando-se de Edawrd. — E eu prometo que o distrairei aqui.

Emmett empertigou-se, colocando uma das mãos sobre o joelho de Edward.

— Assim como eu também, Vossa Graça — ele brincou.

— Pare com isso, Em. Deixe de palhaçadas.

— Ali não é Haverly? — Emmett perguntou.

— Sim.

Edward sempre gostara da propriedade do tio. Olhou pela janela. Lá estavam os vinhedos verdejantes e o lago onde cisnes e patos nadavam, barulhentos.

— Tudo parece bem — ele murmurou.

— Estava esperando alguma coisa errada?

Edward praguejou diante da curiosidade do amigo.

— Não estava esperando nada. O convite para esta visi ta me surpreendeu, e fico feliz que tudo esteja em ordem.

Logo depois a carruagem parou. Edward esperou até que Hobbes, o mordomo, abrisse a porta do veículo para de sembarcar.

— Bem-vindo a Haverly, Vossa Graça.

— Obrigado, James. — Ele desceu, estendendo então a mão para Alice. — Perdemos uma carruagem cerca de um quilômetro e meio atrás. Mande um ferreiro e uma roda nova para recuperá-la. Deixei Simmons e metade dos cria dos com os cavalos.

— Tratarei disso imediatamente. Espero que ninguém tenha se machucado.

— Minhas roupas vão ter de ir para o lixo — Mike dis se, descendo de onde estava, ao lado do condutor. — Obrigado por me deixar torrando neste sol. Sinto-me como um tijolo.

— E se parece com um — Emmett brincou. — Mas não se esqueça que temos um lago por aqui.

Um olhar de horror surgiu no rosto de Mike.

— Apenas fique longe de mim, Emmett.

— Cale a boca, Mike. — Rosalie parecia irritada. — Você reclama de tudo, primo.

— Edward!

Carlisle Platt, o conde de Haverly, saiu da casa sorridente.

— Tio Carlisle — ele cumprimentou, abraçando-o forte mente. — O senhor parece muito bem.

— Assim como você, meu rapaz. Apresente-me aos seus amigos. Conheço McCarty, naturalmente.

Emmett estendeu a mão.

— Obrigado pelo convite, Haverly. Sua Graça estava sem nada para fazer em Londres.

Carlisle olhou preocupado para o sobrinho.

— Não está doente, não é, rapaz?

— Nada disso. Estou apenas ficando mais velho. Tio, permita-me apresentar-lhe lady Rosalie Hale e a Srta. Brandon. E o sujeito enlameado é o primo de Rosalie, lorde Mike Newton.

— Sejam bem-vindos — o conde cumprimentou a todos. — Espero que não achem Hampshire rústico demais. Não estamos em Londres, mas temos nossas diversões.

— De que tipo? — Alice perguntou.

— Bem, Haverly tem o seu piquenique, quase uma fei ra, sempre no mês de agosto. E na próxima quinta-feira, a Academia estará apresentando Romeu e Julieta.

— Academia? Que Academia? — Mike se animou. Edward fez uma careta quando percebeu que caíra em ter ritório inimigo.

— Bom Deus — ele resmungou. — Havia me esquecido dessa desgraça que estraga a nossa paisagem.

— Não está sendo justo — o tio protestou. Voltou-se então para os amigos do sobrinho. — A Academia da Srta. Swan é uma escola para jovens damas. Fica nas terras de Haverly.

— Uma escola para damas? — Mike parecia ter engo lido algo amargo. — Devo concluir, então, Wycliffe, que você desaprova a educação das mulheres?

Edward deu um passo para trás, querendo se distanciar do enlameado Mike.

— Não tenho problema algum com a educação das mu lheres. Apenas nunca vi nenhuma que ensinasse alguma coisa que prestasse.

— Não seja grosseiro, Wycliffe! — Roslie exclamou. — Eu freqüentei uma dessas escolas.

— E o que você aprendeu? Oh, sim. Aprendeu a seguir a tradição de se tornar uma mulher dependente, frágil e...

— Então suponho que não vai assistir à peça? — Emmett o interrompeu, seguindo o amigo para o interior da casa.

— Somente se você me matar primeiro e carregar o meu cadáver junto.

Esme encarregou-se de providenciar os aposentos para cada hóspede e um banho para Mike. Se ela suspeitava haver algum envolvimento do sobrinho com alguma das moças, nada disse. A família inteira estava acostumada a ver o falecido pai de Edward carregar consigo as amantes; assim acabavam concluindo que tal pai, tal filho.

Edward, porém, tinha coisas mais importantes com que se preocupar e, por isso, procurou o tio no escritório.

— Muito bem. O que está acontecendo, tio?

Carlisle deu algumas voltas pela sala antes de se aproxi mar do sobrinho.

—- Você poderia pelo menos achar que o convidei a Haverly porque não nos vemos há quatro anos.

— Já faz tanto tempo assim?

— Sim, e eu sinto sua falta, rapaz. Estou feliz que tenha trazido amigos. Presumo que pretenda passar algum tempo por aqui.

— Depende do senhor, suponho. Por que estou aqui?

— Dinheiro. — Com um longo suspiro, o conde sentou-se. Algumas vezes, seria bem agradável estar errado, Edward pensou.

— De quanto precisa?

Carlisle fez um gesto em direção ao caderno de contabili dade de sua propriedade.

— Eu devia ter pedido a sua ajuda antes, mas esperei pela colheita pensando que... bem, melhor você olhar.

Edward cuidava da contabilidade de suas várias proprieda des, incluindo casas em Londres. Bastou uma olhada para constatar que o tio não exagerara.

— Bom Deus! Nem sei como não acabou atrás das grades com tantas dívidas, tio.

— Eu sei, eu sei. Só que...

— Como pôde deixar as coisas chegar a esse ponto?

O conde enrubesceu.

— Não aconteceu do dia para a noite, você sabe. Prentiss, o meu contador, ficou doente no ano passado. Em vez de substituir o homem, eu comecei a cuidar da contabilidade. Foi quando percebi que meu empregado não havia me infor mado do estado de minhas finanças.

— Prentiss deveria levar um tiro pela incompetência — disse Edward, virando as páginas do caderno. — E o senhor junto com ele por confiar em um velho incompetente.

— Está indo longe demais, menino.

— Tenho trinta e quatro anos, tio. Por favor, não me cha me de menino.

— Parece-me que com essa idade você poderia ter apren dido a ser mais tolerante.

Edward suspirou, fechando o caderno.

— Não tenho tolerância alguma com os tolos.

— Suponho que não possa mesmo ser diferente de seu pai.

A raiva tomou conta de Edward.

— Já venho ouvindo essa observação vezes demais nos últimos tempos. Vou tomá-la como um elogio, já que te nho certeza de que é essa a sua intenção. Agora, por que estou aqui?

— Sei que poderia comprar Haverly, ou pagar todas as dívidas que pairam sobre minha cabeça.

— Posso.

— Mas não é isso o que quero lhe pedir. Esta proprie dade pertence à minha família há mais de trezentos anos. Apenas andei tendo problemas em uma ou duas estações. Ajude-me a colocar Haverly novamente de pé. Preciso de um plano.

— O senhor precisa de um milagre.

— Edward!

Respirando fundo, Ed balançou a cabeça enquanto olhava o caderno.

— Vou precisar olhar melhor as suas finanças. O conde relaxou um pouco.

— Naturalmente. Quero ter a palavra final, mas vou co locar Haverly em suas mãos. — Ele se levantou e começou a dar voltas pela sala, — Lamento tê-lo afastado de Londres, porém não sabia mais o que fazer.

— Está tudo bem. Londres já estava ficando cheia de mais para o meu gosto.

Carlisle sorriu pela primeira vez desde que aquele encon tro começara.

— Sua mãe?

— Entre outras coisas. Como conseguiu crescer ao lado de minha mãe e evitar que ela escolhesse a sua esposa?

— Acredite em mim, ela tentou. Praticamente me fez noivo da filha do pároco local quando eu tinha oito anos. Ouso dizer que se eu não tivesse pedido Esme em casa mento, Elisabeth teria lançado os cães contra mim.

— Pois meus calcanhares foram bem mordidos este ve rão. — Ed abriu os cadernos de contabilidade outra vez. — Estes são os seus arrendatários atuais?

— Sim.

— E onde estão anotadas as quantias que eles pagam?

— Exatamente ali. — Carlisle apontou para umas anotações.

Edward piscou várias vezes, sem certeza de estar vendo direito.

— Estes são os aluguéis que vêm cobrando? — Diante do aceno afirmativo do tio, ele voltou a atenção para os valores. — Quando foi a última vez que aumentou os valores? Na virada do século?

— Pensei que Haverly estivesse em boas condições, lembra-se?

— A primeira coisa que vamos fazer é dispensar Prentiss. Pode provê-lo com uma pensão se quiser, mas ele não vai mais colocar os pés em terras de Haverly. E a segunda coisa que o senhor vai fazer é aumentar esses malditos aluguéis.

— Os arrendatários não vão gostar.

— E o senhor não vai gostar da prisão, tio Carlisle. Aumente os aluguéis.

— Mas é tradição!

— Jane, se fôssemos seguir à risca a tradição, todos os papéis da peça seriam desempenhados por homens. — Isabella Swan cruzou os braços, dividida entre puxar os próprios cabelos ou rir. — Somos uma escola apenas para moças. Onde vamos arranjar rapazes para interpretar os papéis masculinos?

— Mas não quero beijar Jessica Stanley!

— Bem, quem sabe você interpreta outro personagem. Um que não beije ninguém — Isabella disse na voz fria que todas as estudantes temiam.

— Jane podia interpretar a babá gorda — Angela webber, a mais jovem das alunas, sugeriu. — Babás não beijam ninguém.

— Ang, você não se meta! Eu não vou...

— Eu vou fazer a babá. — Isabella interrompeu as moças.

— Assim, não teremos de escolher ninguém para o papel.

— Mas sei que Demetri daria um excelente Romeu — Jane insistiu.

Isabella decidiu que dobraria a vigilância do portão prin cipal da escola para impedir que as alunas saíssem ou que rapazes entrassem escondidos ali.

— Sim, tenho certeza de que ele desempenharia bem o papel. Mas esta é uma escola de jovens damas, e nela não há lugar para Demetri Mayburne.

Naquele momento Isabella e as garotas ensaiavam a peça Romeu e Julieta na igreja do velho monastério. Depois que haviam feito algumas modificações no ambiente, o lugar se transformara em uma sala de leitura e teatro.

Isabella deu um pulo quando lhe bateram no ombro.

— Sim, Christina? — ela perguntou, voltando-se para a cria da que entrara no aposento.

— Joseph disse que Lorde Haverly lhe mandou isto. - Isabella pegou o envelope, abriu-o e começou a lê-lo.

— Hum... Parece que Lorde Haverly deseja me ver tão logo seja possível.

— Oh, talvez venha a conhecer os hóspedes dele! — Angela empertigou-se em seu banco.

— Lorde Haverly e eu freqüentemente conversamos so bre os vários assuntos referentes à Academia. Não vou ficar especulando sobre suas visitas. Srta. Clooney?

— Sim, srta. Isabella? — A professora de latim saiu de trás das cortinas.

— Por favor, assuma meu papel na peça neste ato. Preci so ir até Haverly. Christina, mande Joseph selar Pimpernel.

— Sim, Srta. Isabella.

Enquanto subia aos seus aposentos para vestir o tra je de montaria, Isabella procurou organizar os pensamen tos. Descobrira que o gigante que encontrara na estrada era o sobrinho do conde. Talvez tivesse chance de vê-lo mais uma vez. Censurou-se por estar pensando nessas coisas. Precisava ser racional e se concentrar apenas nos interesses da escola. Pretendera visitar o conde e lhe falar de reformas na Academia. O teto do estábulo precisava ser refeito, assim como alguns muros do lado norte. A escola poderia pagar por essas reformas, mas ela preferia usar os fundos em outra coisa. Como proprietário, Lorde Haverly tinha se oferecido a pagar pelos consertos no passado. Ela lhe pediria também que acomodasse em seus próprios estábulos os cinco cavalos que pertenciam à escola enquanto durasse a reforma.

Quando chegou à propriedade do conde, deixou Pimpernel com um cavalariço e seguiu para a entrada. Antes que ba tesse à porta da frente esta se abriu.

— Como consegue fazer isso, James? — Isabella pergun tou ao mordomo.

Ele deu um passo para o lado para permitir que ela en trasse no vestíbulo.

— Tenho uma audição muito aguçada, Srta. Isabella.

— Surpreendente, eu diria.

O mordomo sorriu.

— E a senhorita estava sendo esperada.

Exceto por alguns criados passando pelo corredor, Haverly parecia silenciosa e deserta. Enquanto o mordomo seguia em busca de Lorde Haverly, Isabella se deteve junto a um tabuleiro de xadrez e, depois de alguns segundos, moveu uma das peças. O conde e ela estavam neste mesmo jogo por quase dois meses, outra indicação de que ela precisava fazer mais visitas.

— Isabella.

Ela se voltou enquanto o conde entrava na sala. De re pente, perguntou-se a razão de ter sido convocada com tan ta urgência para aquele encontro.

— Milorde. Espero que tudo esteja bem com você e com Lady Haverly.

— Oh, sim. Tudo bem. Espero não tê-la afastado de suas alunas.

— Não creio que alguém sinta a minha falta.

O sorriso dele, sempre aberto e caloroso, parecia um pou co diferente.

— Acho difícil acreditar nisso. Sente-se, por favor. Eu... preciso discutir algo com você.

Isabella sentou-se e cruzou os braços.

— Estou feliz que tenha me chamado. Faz um bom tem po que não conversamos, e gostaria de saber a sua opinião sobre um assunto.

Ele pigarreou.

— Bem, as damas primeiro.

Alguma coisa devia estar acontecendo, Isabella suspeitou. Mas como ela sempre ensinava às suas alunas, não se devia partir para a indiscrição.

— Muito bem. Sabe que minha tia começou uma reforma em várias áreas da Academia que já estavam revelando a idade avançada. Porém, nestes dois anos desde que ela fale ceu, temo que tenha deixado o projeto de lado.

— Não pode se culpar por isso. Sei o quanto tem estado ocupada, minha querida. Comandar a Academia com a ida de de vinte e três anos não deve ser fácil. E você não vai me convencer do contrário.

Issabella sorriu.

— Obrigada. Mesmo assim, acho que não devemos es perar mais. O teto do estábulo está danificado e o muro do lado norte pode cair com o próximo vento forte. Eu estava pensando se ainda deseja considerar...

O conde se levantou tão rapidamente que o movimento brusco a assustou.

— Bem, Isabella, eu a chamei aqui para... Eu... vou ter de aumentar o aluguel da Academia. — Estendeu-lhe um papel. — Aqui estão os cálculos e os termos. Se assinar em baixo, podemos concluir isto sem problema algum, e então vamos comer um pedaço de torta de maçã no jardim.

Isabella olhou surpresa para o conde. Ele parecia estar falando sério. Forçou uma risada.

— Meu Deus. Se continuar com essa tolice, vou fazê-lo pagar entrada para assistir à nossa peça.

— Não é uma tolice, Isabella. Odeio fazer isso, mas se tornou inevitável.

Ela voltou o olhar para o papel à sua frente. O coração falhou uma batida quando leu os novos números e os termos legais.

— Mas isto é o triplo do que a Academia vem pagando.

— Sim, eu sei, mas não aumento o aluguel há muito tempo.

Isabella levantou-se irritada.

— Isso certamente não foi por culpa minha.

— Ora, vamos, acalme-se, Isabella, por favor.

Ela forçou-se a sentar-se de novo, apesar do desejo de quebrar algum objeto em um deselegante ataque de nervos.

— Sempre tivemos um relacionamento cordial. Considero você um amigo querido, Haverly.

— Considero você uma boa amiga, Isabella, mas isto não é nada pessoal, eu lhe asseguro. Se isso a fizer sentir-se melhor, confesso que foi Wycliffe quem me mandou aumen tar o aluguel dos arrendatários, e todos foram bastante compreensivos.

Ah, então a idéia era do tal de Wycliffe. Lindo ou não, Isabella decidiu que não gostava nadinha dele.

— Se os outros arrendatários agora estão lhe pagando mais, não vejo razão para a Academia ter esse aumento. — Procurou falar com calma. — Somos uma instituição de ensino. Certamente por esse simples motivo a Academia merece uma consideração especial.

— Bem, eu... — O conde mordeu o lábio nervosamente.

— E a Academia ganhou uma excelente reputação em Londres — ela continuou. Deixar o conde confuso poderia ser a melhor chance que tinha no momento. — Nos últi mos dois anos, vimos nossas formandas se casarem com um marquês, dois condes e um barão. Isso reflete favoravelmente no proprietário. Nunca poderíamos ter alcançado resulta dos tão bons caso estivéssemos sob a mão de um ditador.

— Não sou um ditador, Isabella.

Ela sorriu.

— Não, claro que não. É uma pessoa bondosa e muito compreensiva. É por isso que não vou pressioná-lo a pagar pelas reformas da escola e apenas lhe pedir que acolha nos sos cavalos enquanto consertamos o estábulo.

— Isso não é um problema, claro.

O conde parecia derrotado. Isabella queria sair dali de pressa para ter tempo de pensar em uma estratégia antes que o novo aluguel arruinasse os planos que ela fizera para a Academia. Levantou-se, balançando a cabeça.

— Obrigada, milorde. Eu espero vê-lo, assim como Lady Haverly, quinta-feira à noite, na apresentação de Romeu e Julieta.

— Sim, sim, é claro.

Mal respirando, ela escapou do escritório do conde e saiu da casa sem ver nem mesmo o mordomo. O cavalariço tam pouco estava por perto, o que era um desastre, pois não ha via ninguém para ajudá-la a subir na sela do cavalo. Assim pegou as rédeas de Pimpernel e começou a levar a égua de volta à escola tão discretamente quanto possível.

Ao ouvir o som da porta da frente se fechando, Edward co locou de lado o almanaque de plantio que estava lendo e se levantou. Compreendia a relutância do tio em aumentar os aluguéis, especialmente de um deles. Uma escola para damas. Ele podia trocar o nome do estabelecimento para Academia para Caçar um Marido.

Tinha deixado a porta da biblioteca aberta, esperando ouvir a conversa entre a Srta. Swan e o tio, mas eles haviam conseguido manter a reunião em total discrição, fa lando bastante baixo.

Encontrou o tio junto à janela do escritório.

— Presumo que a notícia do aumento tenha espantado a velha solteirona? — ele perguntou, incapaz de esconder a satisfação na voz.

O conde continuou a olhar o jardim, sem se voltar para o sobrinho.

— Melhor não ficar se alegrando muito — ele grunhiu.

— O senhor é um homem melhor do que eu. — Edward se aproximou do tabuleiro de xadrez e moveu uma peça. — No entanto, ser bondoso agora não vai salvar Haverly. Marcou as datas dos pagamentos?

— Não, eu... — Subitamente, o conde começou a rir. — Ela me levou na conversa, foi isso o que fez.

— Do que está falando? — Edward foi até a escrivaninha e pegou o contrato. — Ela não assinou. Por quê?

— Porque estava mais interessada em que eu acomodas se os cavalos da Academia enquanto consertam o telhado dos estábulos da escola.

— Maldição! O senhor não pode se dar a esse luxo, tio. E duvido que um rico comerciante que compre Haverly seja generoso com seus inquilinos como o senhor vem sendo.

— Ela usou bons argumentos.

— Isso não me importa. Não vou permitir que uma mu lher o leve à ruína.

— Mas a situação não é assim tão desesperadora como...

— Mas será, se permitir que isso continue! — Ele enfiou o contrato no bolso e deixou o escritório às pressas. Uma rá pida conversa com James revelou que a diretora da escola viera a cavalo; assim ele ordenou que lhe selassem um para ir atrás da mulher.

Surpreendeu-se quando a localizou depressa demais. Ah, ela preferira ir levando o cavalo e não cavalgando. Provavelmente para ter mais tempo de saborear a vitória.

— Srta. Swan! — chamou, aproximando-se dela.

Isabella voltou-se, e Edward se esqueceu o que queria lhe dizer. Olhos amendoados, lábios cheios e suaves. A garota da estrada. Aquela que povoara seus pensamentos nos úl timos dias.

— É a Srta. Swan?

Seus lábios se apertaram.

— Sou a Swan. Srta. Swan foi mi nha tia.

— Você é a diretora daquela maldita escola.

— Eu mesma. E obrigada pelas condolências pelo faleci mento dela.

Edward estreitou os olhos. Não tinha intenção alguma de ser censurado por uma garota que parecia não ter saído das salas de aula.

— Mas você é ainda uma menina. Não pode ter idade suficiente para...

Isabella arqueou a sobrancelha.

— Pois saiba que tenho vinte e cinco anos. Creio, porém, que não veio aqui perguntar minha idade. Ou veio?

— Vossa Graça — ele a corrigiu.

A surpresa tomou conta dos olhos dela.

— O senhor é um duque — disse como se não estivesse acreditando.

Ele acenou que sim.

— Wycliffe.

Edward sentiu-se tomado por um absurdo sentimento de triunfo. Desde o primeiro momento em que pusera os olhos nela, já tinha a precisa idéia do que queria fazer com a tentadora jovem. E isso dizia respeito a lençóis de seda e pele nua.

— Wycliffe — ela repetiu. — Edward Cullen. Uma de minhas amigas mencionou-o.

— Qual amiga? — Ele duvidava que conhecesse alguma amiga de uma diretora de escola.

— Lady Victoria Fontaine. Quero dizer, Lady Stewart.

— E o que ela disse a meu respeito? - Isabella sorriu levemente.

— Ela me disse que o senhor era arrogante. Bem, estou muito honrada em conhecê-lo, Vossa Graça, mas tenho uma classe me esperando. Bom dia. — Ela se virou e começou a se afastar.

— A senhorita não assinou o contrato de aluguel de meu tio.

Isabella parou e voltou o olhar novamente para ele.

— Esse assunto é entre mim e Lorde Haverly.

Edward não pareceu intimidado pela afirmação.

— Se não concordar em pagar o aumento de aluguel — ele continuou em um tom que mesclava irritação com arrogância e desejo de desatar os laços do ridículo chapéu que Isabella usava —, a senhorita pode ir procurar outra lo calização para a sua escola.

A baixinha diretora da escola ergueu o queixo em de safio.

— Por acaso Lorde Haverly lhe pediu para vir atrás de mim e me ameaçar?

Edward não estava gostando do rumo daquela conversa.

— Estou apenas lhe apresentando os fatos.

— O fato é que Haverly pertence a Carlisle Platt, e eu conduzo qualquer negociação diretamente com ele. Agora, se me der licença...

Isabella mais uma vez deu as costas a Edward.

— Para sua informação, eu aprovo a educação das mulheres.

Ela continuou caminhando em frente.

— Oh, é maravilhosamente condescendente, Vossa Graça.

Edward blasfemou baixinho.

— A sua Academia não educa mulheres.

Isso chamou a atenção de Isabella, que voltou-se, irritada.

— O que disse?

Os seios dela cabiam perfeitamente nas mãos dele, Edward pensou.

— Corrija-me se eu estiver errado, mas...

— Oh, mas eu pretendo corrigi-lo.

— A senhorita instrui suas estudantes em etiqueta, não é?

— Sim.

— Sabe tanto quanto eu, que isso é tudo uma bobagem, com o único propósito de preparar suas estudantes para se casarem bem. A senhorita é um tipo de cupido que recebe dinheiro pelo seu trabalho. E em círculos menos educados, seria chamada de coisa pior.

O rosto de Isabella perdeu toda a cor. Edward não pretendia ter ido tão longe, mas a jovem o fizera perder a cabeça. Agora, ele supunha, ela desmaiaria e esperaria que ele im pedisse a queda. Suspirou, dando um passo à frente em antecipação. Em vez disso, Isabella riu. Não era uma risa da alegre, mas era a última coisa que ele esperara ouvir. Mulheres jamais riam dele.

— Então, Vossa Graça, eu devo reiterar que desaprova as mulheres que precisam de um marido para consegui rem o seu lugar no mundo, apesar do fato de que isso é exatamente o que a nossa sociedade sempre exigiu. — Ela apontou o dedo na direção dele. — E, ao mesmo tempo, o senhor me censura por ter assumido um cargo que me deixa completamente independente de homens da sua es pécie. — Deu um passo na direção de Edward. — O que eu penso, Vossa Graça, é que gosta de ficar ouvindo a própria voz. Felizmente, isso não requer a minha presença. Tenha um bom dia.

Edward subitamente percebeu que eles haviam chegado à área da escola. Isabella abriu um portão e o fechou na cara dele. Ficou parado ali por um longo momento. Não se lem brava de ter sido vencido em uma conversa de forma tão eficiente, nem mesmo pela própria mãe, famosa por sua língua ferina.

— Os homens só servem mesmo para uma coisa neste mundo — Isabella resmungou. — Não tenho idéia de como conseguiram se convencer de que são seres superiores em todos os outros aspectos da criação, apenas por causa de um estúpido acidente biológico.

— Presumo que sua conversa com Lorde Haverly não te nha sido muito agradável.

Isabella sentou-se à sua escrivaninha.

— Eles querem triplicar o nosso aluguel, Anabelle. - A professora de francês arregalou os olhos.

— Maldição!

— Anabelle! — Isabella a repreendeu.

— Desculpe-me. Mas o triplo? A escola tem condições de pagar essa quantia?

— Não, não tem. E não vamos pagá-la.

Anabelle sentou-se e examinou o papel que Isabella coloca ra sobre a mesa.

— Lorde Haverly deu alguma explicação? Ele e a condessa sempre apoiaram a escola.

— O culpado não é Lorde Haverly.

— Não entendo. Quem mais...

— Alguém que eu gostaria de nunca ter conhecido. E o sobrinho do lorde. O duque de Wycliffe.

— Um duque está elevando o nosso aluguel? - Isabella apertou as mãos nervosamente.

— Ele não vai conseguir nada comigo. — Nos dois anos em que ela ocupava o cargo de diretora da escola, tinha con seguido enfrentar pais furiosos, o temperamento difícil das belas alunas, uma epidemia de gripe e inúmeras outras ca lamidades, sem nem sequer se aborrecer. — Sabe do que ele me chamou? De cupido que recebe dinheiro para unir ca sais. Praticamente me acusou de ser uma dona de bordel!

— O quê?

— Sim. Ele obviamente não tem idéia do que fazemos aqui. — Um pensamento a fez sorrir. — Devemos informá-lo, não é?

Pegou uma folha de papel, pronta para escrever uma carta ao odioso duque. Enfiou a pena no tinteiro.

Vossa Graça — ela disse alto enquanto escrevia. — Nossa recente conversa deixou-me convencida de que o se nhor se engana quanto ao conteúdo de várias disciplinas que constam do currículo desta nossa escola. - Anabelle se levantou, rindo.

— Vou deixar você e sua correspondência em paz.

— Pode rir se quiser, mas não vou tolerar qualquer abu so dirigido contra a nossa escola.

— Não estava rindo de você. Só fico imaginando se Sua Graça tem idéia de onde está se metendo.

Isabella enfiou novamente a caneta no tinteiro.

— Oh, ele logo vai tomar consciência disso.

Edward viu a porta do escritório se abrir, e então voltou aos seus cálculos.

— Como foi o passeio a Basingstoke?

Emmett sentou-se à frente do amigo.

— Aborrecidíssimo.

Uma leve satisfação tomou conta do duque.

— Não encontrou ninguém interessante com quem conversar?

— Estou começando a pensar que imaginei que essa moça existia. Não há muitos lugares em Hampshire onde ela possa estar escondida. Eu perguntaria à sua tia, mas acho que ela tem se correspondido com sua mãe, e você sabe que sua família inteira me detesta.

— Sei bem disso. E acredito também que vai acabar en contrando a tal moça misteriosa mais cedo ou mais tarde. — Edward não tinha certeza se estava simplesmente tortu rando Emmett, ou se queria manter a localização de Isabella Swan somente para si mesmo.

— Você vai ficar o tempo todo examinando esses papéis e fazendo contas? — o visconde perguntou, apontando para a montanha de documentos em cima da escrivaninha.

— Provavelmente.

— Que diversão. Podíamos ter ficado em Londres. — Emmett começou a folhear o almanaque, depois o colocou sobre a escrivaninha. — Sabe que escapou dela, não? Não acredito que ela tente forçá-lo de novo.

Ninguém a não ser Emmett ousaria falar com Edward sobre Tanya, e ele desejava que o visconde tivesse escolhido ou tro assunto para a conversa.

— Eu sabia que Tanya queria se casar comigo — ele disse bem devagar — mas pelo amor de Deus, despir-se na chapelaria do clube?

Emmett balançou a cabeça, pensativo.

— Como acha que eu me senti? Entrei distraído, apenas para pegar o meu chapéu.

Edward fez uma careta.

— Se tivesse sido outra pessoa a abrir aquela porta, Tanya agora seria...

— A duquesa de Wycliffe. Ela não é a única mulher que tentou forçá-lo ao casamento.

— O revoltante não é isso, mas quase ter caído em uma armadilha, e isso é o resultado dessa maldita educação de escola feminina. Elas são treinadas desde o berço a nos ca çar e vencer.

— Nem todas são assim. A Academia aqui tem uma boa reputação.

— Verdade? Pois Tanya estudou exatamente nela.

Edward ficou um instante em silêncio. Finalmente se empertigou na cadeira.

— Só porque você está com essa aversão às mulheres, não significa que eu preciso virar um monge enquanto esti ver em Hampshire. Por que você...

— Nada de mulheres. Já temos aqui muitas delas.

— Mas você, pelo menos, poderia assistir àquela peça. Talvez reconheça que nem todas as mulheres têm cabeça de vento.

Edward franziu a testa.

— Que peça?

— Não me lembro bem qual era. Aquela encenada pelas moças da escola.

Edward recostou-se à cadeira, fingindo resignação. Aquilo seria mais fácil do que ele imaginara.

— Se você parar de ficar reclamando, posso dar um jeito de comparecer.

— Muito bem. Mais uma noite jogando com Alice, e esta rei pronto para entrar em um mosteiro.

— Não há nada que o impeça de voltar a Londres, Em. Eu lhe disse que Hampshire não ofereceria gran des distrações.

Ele meneou a cabeça, concordando.

— Simplesmente odeio ter de admitir que você esteja certo sobre alguma coisa.

Edward sorriu.

— Pois agora comece a se acostumar com isso.

O mordomo entrou no escritório naquele momento.

— Uma carta para o senhor, Vossa Graça.

Tomado pela curiosidade, Edward fez um gesto para que James a entregasse.

— Quem pode saber que eu estou aqui?

— Sua mãe? — Emmett sugeriu secamente.

— Bom Deus, espero que não. Ainda não estou pronto para ser descoberto. — Pegou a carta da bandeja do mordo mo e virou-a para ver quem era o remetente.

— Academia da Srta. Swan? — Emmett inclinou-se sobre a escrivaninha para enxergar melhor. — Quem da es cola sabe que você está aqui?

Edward sabia precisamente quem era a autora da carta e tentou esconder um sorriso.

— Estou tentando mediar uma questão referente a um aumento de aluguel entre tio Carlisle e a escola. — Ele que brou o selo e abriu o envelope. — Sem dúvida deve ser a resposta da diretora ao meu pedido.

— Seu tio deixou que você se envolvesse com a escola das moças?

— Acho que estou qualificado para isso.

Emmett olhou surpreso para as três folhas da carta.

— Uma resposta e tanto, hein?

— Disputa referente a um aumento de aluguel? — Alice entrou no escritório, sorrindo. — Vai querer que acredite mos nisso? Você nos trouxe aqui para continuar um roman ce clandestino com alguma das alunas da Academia. — Ela tentou arrancar a carta dos dedos de Edward. — Vamos ver o que está escrito aqui.

— Srta. Brandon — Edward disse, a raiva nítida em sua voz. — Não me lembro de ter lhe pedido para ler minha correspondência privada. Há vários volumes de poesia na biblioteca se estiver querendo ler alguma coisa.

— Estou apenas entediada, Ed.

— Hum... Ed parece terrivelmente sensível sobre al guma coisa — Rosalie opinou, entrando na biblioteca. — Não concorda, primo?

Edward resmungou baixinho quando Mike se uniu aos amigos. Agora Emmett também o olhava com curiosidade. Maldição, tudo o que ele queria era ler a carta em particular. Com um longo suspiro, colocou-a sobre os livros de contabilidade.

Emmett agiu rápido e se apossou da carta e começou a ler.

Vossa Graça,

Nossa recente conversa deixou claro que está totalmente enganado quanto ao currículo de nossa Academia. É com prazer, então, que tentarei corrigir esse seu engano.

O senhor estava correto ao dizer que a Academia ensi na o que chamamos de graças: elegância, boas maneiras, polidez e moda. Uma dama bem preparada deve ser dotada de todas elas; assim, estaríamos cometendo um erro se não incluíssemos essas matérias em nossos estudos. O senhor acredita que a única função da Academia seja pro duzir esposas. A meta desta escola, primeiro sob a direção de minha tia e agora sob a minha, é produzir mulheres competentes. Assim, além do ensino das graças, oferecemos instrução sobre literatura, matemática, linguagem, políti ca, história, música e artes, como detalhado abaixo.

Como pode ver, Vossa Graça, esforço-me para que minhas estudantes recebam uma educação completa e valiosa. Seu comportamento, por outro lado, sugere uma grave deficiên cia das instruções quanto às graças. Se o senhor desejar, pos so lhe recomendar diversos livros que abordam temas como a polidez, a modéstia e as boas maneiras.

Sinceramente,

Isabella Swan.

Depois de um prolongado momento de silêncio, Rosalie caiu na risada.

— Pobre Ed. Você não conseguiu impressionar a dire tora da escola.

Emmett devolveu a carta à escrivaninha.

Edward deixou que todos ali se divertissem à sua custa. Na verdade, mal ouvia o que diziam. Estava imaginando um modo bem satisfatório de fechar a boca daquela mu lher provocante. A Srta. Isabella Swan obviamente não tinha idéia de com quem estava lidando, mas logo viria a descobrir.

— Isabella. — Anabelle aproximou-se, acenando com uma carta. — Acho que recebeu sua resposta.

Finalmente. Ela tinha esperado um dia inteiro por isso. Sentiu uma dorzinha no estômago. Não entendia bem por que sentira necessidade de escrever a Wycliffe quando ele obviamente não ligava a mínima para a Academia; porém, saber que ele recebera sua carta a deixara insone a noite toda.

Pegou a carta da mão de Anabelle e abriu-a. O pulso se acelerou quando viu a letra do duque.

Madame,

Encontra-se comigo a sua presunçosa missiva. Apesar de uma sentença ou duas de interesse passageiro, infelizmente sua carta não se refere ao assunto que diz respeito à questão entre a sua Academia e Haverly. Anexo, pois, o contrato de aluguel para que possa assiná-lo. Eu o pegarei esta noite depois de assistir à sua peça, à qual meus amigos e eu fomos persuadidos a comparecer.

Wycliffe.

Isabella sentiu o coração disparar. Ele assistiria à peça.

— Você está bem? — Anabelle perguntou.

— Muito bem. Sir Jacob estará presente esta noite em nosso teatro, não é?

Oui. Ele disse que viria mais cedo para nos ajudar.

— Muito bem. — Sir Jacob era o advogado mais conceituado de Basingstoke. O duque de Wycliffe achava que fariao que ele quisesse, mas ela não tinha intenção de capitular sem uma guerra.

Oh, ela acabaria com aquele duque arrogante.

A Academia da Srta. Swan parecia mais um campo militar do que uma escola para moças. Lorde e Lady Haverly e seus convidados dirigiam-se à antiga igreja que fora reformada para servir de teatro. Matronas guardavam cada corredor e escadarias, sem dúvida para evitar que qualquer homem se aventurasse a visitar os quartos das moças e interferisse em suas chances de casamento.

Ou talvez Isabella temesse que Edward tivesse a intenção de coletar o aluguel, tirando-o diretamente dos bolsos das mocinhas. Se Isabella suspeitasse que o maior desejo do du que era se ver livre de jovenzinhas casadoiras, teria compreendido que a melhor estratégia para mantê-lo longe da escola seria enviar as jovens correndo atrás dele.

— Não tinha idéia de que esta escola fosse para avós — Emmett murmurou decepcionado enquanto passava ao lado de outra das guardas, uma senhora de cabelos grisalhos.

— Eu não entendo por que decidiu vir, Ed — Alice murmurou. — Em Londres, poderíamos ter ido à opera com o Príncipe George.

— Eu sei o que trouxe Edward aqui — Rosalie observou. — Nosso duque vem querendo botar as mãos na diretora da escola desde que recebeu aquela carta ontem.

Rosalie estava certa, Edward pensou. Ele queria mesmo ver Isabella, descobrir a reação dela à carta que lhe enviara. Colocar as mãos nela, porém, com uma idéia bem diferente da imaginada por Rosalie.

Alice encostou os seios no braço de Edward.

— Você está muito silencioso esta noite.

— Estou apreciando o lugar.

Na verdade, ele estava um pouco surpreso. O interior da escola das jovens não era decorado com laços e fitas, como ele chegara a imaginar. Mais surpreendente, o bando de jo vens prestes a debutar na sociedade não tinha surgido em volta deles, dando os gritinhos esperados nem tentado fler tar com os homens presentes.

— Lorde Haverly, Lady Haverly, boa noite. — Soou uma voz feminina.

O pulso de Edward disparou, mas ele percebeu que quem se aproximava era uma jovem de cabelos escuros. Não era Isabella.

— Srta. Santerre — Esme respondeu. — Boa noite.

— Estou feliz que os senhores e seus hóspedes tenham podido comparecer — a Srta. Santerre continuou com um leve sotaque francês. — Isabella teria vindo cumprimentá-los, mas as alunas a recrutaram para desempenhar um dos papéis.

— Que papel? — Emmett perguntou, antes que Edward ti vesse essa chance.

— Ela será a babá de Julieta. Se me acompanharem, eu lhes mostrarei os seus lugares.

— Eu gostaria de conversar com a srta. Isabella ainda nesta noite — Edward disse, seguindo a professora, com uma determinada Alice agarrada ao seu braço.

— Eu a informarei de seu desejo — a moça respondeu —, apesar de que ela estará bastante ocupada esta noite.

— Você está sendo evitado, Cullen — Mike observou.

— Sei tudo sobre isso.

A menção do nome do duque, a professora francesa vol tou o olhar. Edward teve certeza de que deviam estar falando dele ali na Academia. Bem, isso era de se esperar. As mu lheres passavam a vida mexericando sobre alguma coisa. Que fosse. Não queria nada com nenhuma delas, com ex ceção de uma.

Ele definitivamente queria algo com a Srta. Isabella Swan, a tal ponto que andava esquivando-se de Alice. Vinha, inclusive, trancando a porta de seu quarto para evi tar qualquer encontro íntimo. E ele não era adepto da castidade, sob nenhuma circunstância.

Quando a srta. Santerre lhes indicou os bancos que fica vam ao fundo, todos, a não ser Lorde e Lady Haverly, demons traram surpresa.

— Sei que não são os assentos que a etiqueta nos indi caria — lorde Haverly disse, olhando seus hóspedes —, mas sempre insisto em me sentar aos fundos para não atrapa lhar as meninas.

— Quanta generosidade de sua parte, Lorde Haverly — Rosalie disse, sentando-se ao lado do conde.

Todos os assentos na velha igreja estavam ocupados com o que parecia ser a população inteira de Basingstoke e arredores.

— Ainda não consegui ver a garota da estrada. Achei que ela estaria aqui — disse Emmett, inclinando-se para Alice.

— Talvez consiga vê-la mais tarde — Edward observou em voz baixa. — Agora fique quieto, as cortinas estão se abrindo.

A maior parte dos personagens parecia estar sendo in terpretado pelas alunas mais velhas, apesar de que, na pri meira cena, haviam aparecido algumas bem mais novas, brandindo espadas com enorme entusiasmo.

Por fim, entrou em cena a babá. Lá estava ela. Havia se passado apenas dois dias desde que Edward a vira pela última vez, e sua impaciência em encontrá-la aumentou ainda mais.

— Aquela é a sua feroz inimiga? — Emmett indagou, rindo.

— Aquela velha morcega de cabelos brancos? — Alice ba teu nas costas de Edward. — Ela parece ter uns noventa anos.

— Shh... Estou assistindo. — Mal conseguia esconder a satisfação. Emmett não tinha idéia de quem estava caçoan do. Ele, entretanto, não tinha dificuldade alguma em reco nhecê-la, apesar do disfarce que usava.

O restante da peça transcorreu sem mais nenhum co mentário do grupo até que finalmente as cortinas se fecha ram, indicando o fim do espetáculo.

— Podemos ir agora? — Alice perguntou. — Não quero ser empurrada por esse bando de fazendeiros de Hampshire.

Edward concordava com ela. Agora que a peça terminara, o grupo de Lorde Haverly parecia ter se tornado o centro das atenções.

— Está bem, vamos embora em um momento. — Ele co meçou a abrir caminho.

— Edward, você precisa mesmo falar com aquela velha bru xa esta noite?

— Preciso. — Ele deu uns passos à frente. — Srta. Isabella.

— Vossa Graça.

Ela fez uma reverência, cumprimentando-o. Edward cerrou os punhos, contendo o desejo de tocá-la. Procurou se contro lar. Isso poderia esperar até que tivessem resolvido a ques tão do aluguel.

— A senhorita pode...

— Por favor, desculpe-me, Vossa Graça — ela o inter rompeu, voltando a atenção para o tio dele. — Lorde eLady Haverly tradicionalmente se reúnem ao elenco para o ponche e o bolo depois do espetáculo. Desejo que o senhor e seus convidados saibam que são bem-vindos esta noite.

— Estamos encantados — o conde disse calorosamente. — Vamos nos encontrar no salão de jantar.

— Oh, que sorte a nossa — Alice resmungou, dando o braço a Edward.

Ele evitou o contato, colocando a mão dela sobre o ombro de Emmett e saindo atrás da diretora.

— Recebeu a minha carta, presumo — ele disse, ao alcançá-la.

— Sim, recebi. E foi extremamente rude.

Isabella continuou apressada pelo corredor, subindo de pois um lance de escadas e entrando em um pequeno es critório, fazendo Edward imaginar se ele não estava prestes a cair em uma armadilha. Um senhor alto e de cabelos grisalhos estava dentro da sala, junto à janela, olhando em direção a Haverly.

— Vossa Graça, este é sir Jacob, meu advogado; sir Jacob, o duque de Wycliffe.

— Vossa Graça, é um prazer encontrá-lo.

Edward cumprimentou o homem, sua atenção presa à diretora.

— Por que estou encontrando aqui o seu advogado?

— Porque achei que poderia entender se ele lhe explicas se que não pode me dar ordem alguma. Se eu simplesmente lhe dissesse isto, obviamente não faria efeito algum.

— Desculpe, mas...

Ele a seguiu enquanto Isabella tirava a peruca e a colo cava sobre a escrivaninha. Uma cascata de cabelos com fios avermelhados, caíram sobre os seus ombros.

Ela o encarou, então.

— Mas o quê?

— Meu tio pediu que eu providenciasse algumas mudan ças no gerenciamento de Haverly. Aumentar o aluguel dos inquilinos é apenas uma delas.

— E o senhor tem essa transferência de autoridade por escrito?

— Posso providenciar essa concessão de direito por escri to, se for isso o que deseja — ele disse secamente.

— Seria muito bom — Jacob opinou. — E é claro, o docu mento deverá ser certificado por um advogado.

— Muito bem. O senhor me indique o advogado mais próximo.

— Isso será uma dificuldade. Sou o único advogado resi dindo em Basingstoke neste momento e, como o senhor vê, estou representando a Academia da Srta. Swan. Seria um conflito de interesses para mim se eu...

— Deixe-me ajudá-la. — Edward venceu a distância entre ele e Isabella. Antes que ela pudesse reagir, desatou os laços do pesado, traje que ela usava, ajudando-a a tirá-lo. Os cabe los de Isabella cheiravam a limão e mel, e ele sentiu vontade de deslizar os dedos nos fios avermelhados.

Isabella afastou-se antes que ele pudesse realizar seu in tento por impulso.

— Bem, Vossa Graça, terá de voltar a Londres ou ir a algum outro lugar e contratar um advogado — ela disse.

— Eu tenho dúzias de advogados a meu serviço. E não preciso de nenhum para avaliar o documento. Tudo o que preciso é que meu tio repita o pedido que fez a mim dian te de testemunhas. — Ele voltou o olhar para o advogado. — Não é verdade, sir Jacob?

— Ah, sim.

— E quando eu fizer isso, nós voltaremos à mesma si tuação em que estamos agora, exceto que a senhorita não terá nenhum recurso legal a não ser pagar o aluguel.

— Não tenho certeza de que isso será preciso. Andei pensando em pedir a sir Jacob que apresente um pedido ao Parlamento — ela disse, ainda de costas para Isabelle —, com o objetivo de que esta Academia seja declarada um patrimônio histórico. Isto me daria uma dispensa especial de pagar...

— Ora, sua pequena...

— Vossa Graça! — o advogado protestou.

— Então prefere ver Haverly entrar em falência a pagar um níquel a mais! — ele exclamou. Ninguém antes ousara desafiá-lo daquele jeito. E certamente não seria aquela diretorazinha a conseguir isso. — Apenas para manter essa escola de beleza aberta.

Isabella ergueu o queixo.

— Este é um lugar de ensino, não uma escola de beleza, como acabou de definir erroneamente.

— Erroneamente? Pois não consigo nem pensar...

— Não, o senhor não consegue, não é?

— Como desejaria que eu a chamasse, então? Recusa-se a pagar um aluguel a Haverly, enquanto suas alunas ficam se distraindo, interpretando peças e procurando marido.

Isabella avançou para ele, brava o suficiente para lhe en fiar as unhas.

— Não vou tolerar que insulte essas jovens quando tra balharam tanto para...

— Para aprender como falar sobre o tempo? — Edward su geriu, cruzando os braços. — Cite um conhecimento prático que suas alunas aprendem.

— Como se o senhor soubesse fazer alguma coisa a não ser dar ordem para os que estão à sua volta. Quem fez sua barba esta manhã, Vossa Graça?

— Eu me barbeio sozinho, srta. Isabella.

— Bom para o senhor. Quantas pessoas o ajudam a se vestir, excluindo os criados que lustram as suas botas?

Edward estreitou os olhos.

— Creio que estamos discutindo a inutilidade de sua es cola, não a sua fascinação pela minha toilette matinal.

— O senhor não me fascina absolutamente! — Isabella exclamou em voz alta. — Estou apenas apresentando um argumento.

A idéia de que ele não a afetava era até mais perturba dora do que sua absurda defesa das mulheres.

— E exatamente o que suas estudantes aprendem aqui que seja mais significativo do que elas poderiam aprender estando na sociedade? Tudo o que lhes fornece é um selo de respeitabilidade às técnicas de sedução de que elas poderão lançar mão.

O advogado deu um passo à frente.

— Vossa Graça, devo alertá-lo...

— Por favor, sir Jacob — Isabella disse inesperadamente. — Sou perfeitamente capaz de lutar minhas próprias batalhas.

Para surpresa de Isabella, ela acompanhou o advogado até a porta.

— Feche a porta.

— É o que pretendo fazer — ela concordou. — Não acho que queira que alguém escute os seus argumentos estúpidos.

— Estamos discutindo a diferença entre formandas de uma escola e... atrizes, como as chamaremos.

— Por que não as chama logo como acha que deviam ser chamadas?

Edward caminhou em direção a Isabella.

— Prostitutas, então — ele disse em voz bem clara. Apesar de o rosto de isabella estar ruborizado, ela perma neceu firme.

— O senhor acaba de destruir seu argumento mais uma vez. Obviamente, Vossa Graça não tem gente suficiente à sua volta para lhe informar quando o que diz não faz sen tido algum.

Edward não podia se lembrar de quando fora a última vez que alguém ousara insultá-lo tão diretamente. A raiva se misturou ao desejo. Oh, ele precisava ter aquela mulher sob seu corpo.

— Por favor, explique-se.

— Com prazer. O senhor muitas vezes insiste que a Academia apenas produz esposas, presumivelmente para o senhor e seus amigos. Homens de sua posição social não se casam com prostitutas. Assim, minha escola não prepara prostitutas.

— Uma flor, docemente perfumada ou jogada em um ces to de lixo, é ainda uma flor.

— Lamento que não possa distinguir uma da outra.

— Como se uma mulher soubesse a diferença entre a lama e estrume de vaca, se não fosse pelo cheiro.

— Assim como o senhor não sabe distinguir uma prostituta de uma dama, obviamente. — Ela colocou as mãos nos quadris.

Edward a observou por um momento, e o desejo por ela tol dava seus pensamentos.

— Tem coragem de apostar nisso? — ele perguntou. Ela franziu a testa, sem entender o que ele queria dizer.

— O quê?

— Estou falando em fazermos uma aposta sobre o alu guel — ele disse prontamente. Quanto mais pensava nisso, mais a idéia lhe parecia brilhante. Se ela achava ter todas as respostas, poderia muito bem tentar prová-las. — Se per der, paga o novo aluguel. Sem mais discussões.

— O senhor é louco. O que está propondo? Tenho coisas melhores a fazer do que ficar cheirando estrume.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não. Muito melhor do que isso. — A aposta precisava ser oficial, ou ela encontraria um modo de tentar fazer com que seus argumentos prevalecessem. Caminhou até a porta e a abriu. — Sir Jacob, por favor. Entre aqui.

O advogado praticamente caiu dentro da sala. Obvia mente a conversa estava sendo escutada no corredor. Bem, isso deixava menos coisas a explicar.

Isabella agora estava profundamente ruborizada.

— Muito bem, Vossa Graça, do que estamos falando? - Ele fez um gesto em direção ao advogado.

— Sente-se e tome note do que dissermos.

— Por favor, pare de dar ordens para o meu advogado.

— Com licença — a voz de Emmett soou junto à porta —, mas acredito que não fomos apresentados formalmente.

Mal olhando em direção ao grupo de Haverly amontoado à porta, Edward entregou papel e tinta ao advogado.

— Estamos fazendo uma aposta.

— Não estamos, não!

— Por quê? — Ele ergueu a sobrancelha. — Julga que não vai conseguir provar a sua superioridade, que tanto clama?

— Não é superioridade. — Ela hesitou, e foi a primei ra vez que ele a via lutar para encontrar a palavra certa.

— Igualdade.

— Com licença, Edward — Rosalie disse em sua voz suave.

— Que igualdade estamos discutindo?

— A igualdade entre a Srta. Isabella e eu, obviamente.

— Não há igualdade entre um duque e uma diretora de escola. Todos sabem disso.

— Não estamos discutindo esse tipo de igualdade — Isabella retrucou, começando a perder a paciência. — Igualdade mental.

— Então prove. — A armadilha se fechava, Edward pensou.

— Como?

— Como eu mencionei, estou em busca de um modo mais eficiente e lucrativo para administrar Haverly. Proponho que tente esboçar um plano melhor do que o meu.

— Um plano de como administrar uma propriedade?

— Se conseguir apresentar algo assim, eu pagarei pelo aluguel dessa maldita escola, ad infinitum.

Isabella mordeu o lábio, o que levou Edward a desejar beijá-la.

— Está bem — ela concordou. — Mas não vejo razão para apenas um de nós ter de provar alguma coisa. Se for assim, quando eu elaborar um plano melhor do que o seu, vamos simplesmente ter que assumir que eu sou mais inteligente que o senhor.

Aceitar seu desafio era uma coisa; insultá-lo ao fazer isso era outra.

— Não acho que vai surgir com algo melhor.

— Está errado, Vossa Graça.

— Certo. Então, o que sugere?

Uma idéia entrara na mente de Isabella.

— Todos os anos nesta época, eu assumo responsabilidade pessoal por um pequeno grupo de estudantes. Um tópico des sa aula é "as graças sociais de Londres". O senhor parece ter idéias bem definidas de como as moças fazem sucesso lá.

— E daí? — Edward sentiu um leve frio na espinha.

— Sugiro que tente passar o seu conhecimento às mi nhas alunas. Talvez como se comportarem em um salão de bailes, o primeiro assunto que sempre é debatido.

— Desculpem-me pela intromissão — Emmett disse com uma voz que denunciava o riso —, mas não seria a mesma coisa que colocar a raposa para tomar conta do galinheiro?

Isabella enrubesceu.

— Sua Graça e minhas alunas estarão devidamente acompanhados, naturalmente.

— Isso é ridículo. — Socializar com as garotas desta escola?

— Se não aceita esta parte da aposta, então me conside ro livre de qualquer obrigação de pagar o aluguel absurdo que o senhor quer me impor.

Droga. Ela certamente conseguira manejar o acordo à sua moda.

— E quem vai julgar essa disputa?

— Imagino que o senhor e seus amigos terão acesso ao meu plano de como administrar a propriedade. Acho que seria justo que as alunas julguem as suas habilidades de professor, comparando-as com as minhas.

— Garotas de escola? — Rosalie e Alice riram. — Isso vai ser fácil, Edward. Apenas use o seu charme para as meninas votarem em você.

— Minhas estudantes são mais sensatas do que isso, eu lhes asseguro.

O plano que a princípio parecera divertido, agora não o agradava tanto assim.

— Se a senhorita perder... quando perder... vai concordarem pagar o novo aluguel, retroativo aos dois últimos anos.

Isabella arregalou os olhos.

— Se o senhor perder, terá de abrir um fundo que pague as despesas escolares de três jovens carentes, referentes ao curso completo.

Ela queria humilhá-lo. Todos ali na sala sabiam o que ele pensava das escolas para moças, e desta em particular. Pagar as despesas de três moças era ultrajante.

Ridículo, na verdade. Mas ela perderia, e ele venceria a aposta. Além do mais, começava a achar a disputa mais interessante do que antes. Talvez pudesse até persuadir Isabella a fazer outra aposta pessoal, apenas entre os dois. Sabia precisamente o que estaria envolvido na aposta.

— Fechado — ele disse.

Ela ergueu o queixo orgulhosamente.

— Fechado.

— Isabella, você tem de desistir dessa aposta imediata mente.

Ela suspirou. Havia passado a noite inteira andando de um lado para o outro em seu pequeno quarto, dizendo isso a si mesma. Cada vez que se decidia por desistir, o olhar irônico do duque lhe surgia à mente e a chamava de covar de. O duque de Wycliffe achava que ela e suas alunas eram estúpidas e inúteis, e não fazia segredo de sua convicção.

Muitos homens pensavam assim; ela sabia disso. E con vencer um entre mil faria pouquíssima diferença. No mo mento, porém, a lógica pesava pouco. Se vencesse, pelo me nos a escola sairia favorecida.

— Não estou aqui em busca de conselho, sir Jacob. — Ela sorriu. — O senhor não acredita que eu possa vencer, não é?

— Você nunca tentou nada como isso antes. Wycliffe pra ticamente nasceu para gerenciar suas propriedades. Pague o novo aluguel. É alto, mas você consegue pagá-lo.

Isabella continuou procurando livros na estante do advogado.

— Não. O dinheiro precisa ser usado em outras coisas.

— E se perder a aposta?

— Não vou perdê-la. Sabe que raramente fracasso quan do me empenho em algo. E acredite em mim, esta aposta tem minha total atenção.

Apesar das corajosas afirmações, sua confiança estava prestes a ruir. Ignorar o conselho de Jacob era difícil, já que precisava consultar livros para se colocar a par dos assuntos que tinha de saber a fundo. Se ele insistisse, provavelmente a faria cair em lágrimas, e ela não podia exibir qualquer sinal de fraqueza.

— Não sei nada sobre administração — ele continuou. — Não posso lhe dar uma ajuda maior do que emprestar estes livros, e meu conselho, o que obviamente você não quer aceitar.

Isabella forçou um sorriso.

— Comprometeria os seus princípios se eu pedisse que me ajudasse a levar estes livros à minha charrete?

— Permita-me. — Uma voz baixa soou ao lado dela. Isabella deu um pulo. O gigantesco duque de Wycliffe es tava junto à porta que ela deixara aberta.

— Vossa Graça. O que está fazendo em Basingstoke?

Wycliffe encostou-se à porta, seus ombros largos preen chendo praticamente todo o espaço. Vestia roupas de mon taria e se parecia com um leão, poderoso e confiante, em busca de uma gazela para comer em seu lanche. Isabella en goliu em seco.

— Estava procurando pela senhorita.

Gazela ou não, ela não tinha intenção de desistir sem uma luta!

— Procurando por mim? Para pedir desculpas? O duque afastou-se da porta.

— Não é do meu feitio. Aceito, porém, desculpas suas e o pagamento do aluguel. Não há necessidade de envolver Sir Jacob.

— Não estou envolvendo sir Jacob, foi o senhor quem fez isso. Vim aqui em busca de material de pesquisa. Nada mais. — Passando pelo duque com alguns dos volumes, ela os levou para a charrete. Voltou para pegar o resto e quase colidiu com Wycliffe.

— Pesquisando, não é? Mas isto não vai ajudá-la em nada — ele afirmou, consultando um dos livros.

Isabella pegou o volume de volta.

— Esse é um assunto meu, Vossa Graça.

Ela foi em frente sem olhar para trás, sabendo que ele a seguia. Sentiu um arrepio na espinha. Uma sensação estranha, desconhecida. Interessante, já que nem mesmo gostava do homem. Apesar disso, a presença física dele era... provocante.

— Pode me perguntar o que precisa saber sobre adminis tração de propriedades — ele continuou. — Tenho alguma experiência nessa área, afinal.

— Como se eu pudesse confiar em qualquer coisa que me dissesse, já que não tem intenção alguma de perder a aposta.

Isabella pegou mais alguns volumes, porém ele os devolveu à mesa. A mão do duque a fascinou. Sendo enorme, ela tinha esperado que fosse também pesada. No entanto, Wycliffe pos suía mãos de artista, com dedos longos e elegantes.

— Já lhe disse que vou carregar os seus livros. Além do mais, não importa se eu lhe passar qualquer tipo de conhe cimento que eu possuo. Ainda assim a senhorita vai perder.

Seus olhares se encontraram e mais uma vez ela sentiu um arrepio na espinha.

— Muito bem. Pode carregar os livros. — Afastando o olhar, ela estendeu a mão para se despedir do advogado. — Obrigada por me emprestar os livros, Sir Jacob. Eu logo os devolverei.

— Não há pressa alguma. — O advogado olhou para Wycliffe. — O Sr. Newton e eu estabeleceremos as regras e exigências da aposta nesta mesma tarde. Quanto tempo este negócio levará para ser concluído?

— Quatro semanas, se achar que é suficiente, Srta. Isabella.

— Quatro semanas é tempo suficiente. - Jacob pigarreou.

— Eu estava para sugerir que os senhores pudessem re solver o assunto agora, em vez de mais tarde.

— Eu concordo. A decisão só depende da Srta. Isabella.

O duque a lançara ao fogo.

— Não tenho intenção alguma de desistir da aposta. Não vou perder. Bom dia, Sir Jacob.

O duque também se despediu do advogado e a seguiu até a carruagem.

— Não tem nada a fazer, Vossa Graça? — ela perguntou. — Nenhum inquilino para expulsar de casa ou cabeças de gado para contar?

Ele colocou os livros no chão da carruagem.

— Já os contei esta manhã, só para não perder a prática.

O duque tinha senso de humor. Se ela não tivesse um dese jo tão forte de chutá-lo, poderia até gostar de sua companhia.

— O que está realmente fazendo aqui? Não estava mes mo esperando que eu me desculpasse, não é?

— Passeie comigo — ele disse, oferecendo-lhe o braço.

— Não quero passear com o senhor.

— Vai querer quando souber a razão que me trouxe aqui.

Com um suspiro para disfarçar a sua perturbação, Isabella depositou o último dos livros no assoalho da charrete e cru zou os braços.

— Então talvez devesse me contar, primeiro. Caso con trário, declino seu convite.

Ele a observou por um longo momento, enquanto Isabella se esforçava para ter apenas pensamentos glaciais e evitar o rubor. Nunca tivera antes um problema com qualquer ou tro homem. Estava agindo como uma tola por causa de uma atração idiota que ela sentia pelo duque, e isso não a levaria a nada de bom.

— Achei que deveríamos começar a disputa no mesmo passo — ele disse. — Com a permissão de meu tio, copiei todas as informações sobre a situação de Haverly que con siderei relevantes.

A surpresa a fez arregalar os olhos.

— Questões relevantes? Tais como?

— A área cultivada, as cabeças de gado, de carneiros e porcos.

— Bem, isso é muito generoso de sua parte.

O sorriso do duque era perturbadoramente sensual.

— Também anotei os meus planos para melhorar as fi nanças de Haverly. Mas não lhe darei nada disso se não passear comigo.

— Isso não é chantagem?

— Apenas um incentivo. Sim ou não, Srta. Isabella?

Isabella odiava estar sendo manipulada, especialmente tão às claras. Por outro lado, as informações eram valiosas e lhe economizariam tempo de pesquisa.

— Bem, um passeio bem curto. — Ela colocou as mãos para trás e começou a caminhar.

Edward ficou parado.

— Eu lhe ofereci o meu braço.

— Não somos parentes, não gozamos da mesma situação social, nem temos um acompanhante, portanto, devo recu sar seu oferecimento.

Ele torceu os lábios em um sorriso sarcástico.

— Esta é uma de suas lições?

Ela diminuiu o passo, irritada ao ver que o duque pare cia estar se divertindo à sua custa.

— Meu Deus. Não tinha idéia de quanto o senhor estava despreparado para instruir as minhas alunas. Tem certeza de que não quer desistir da aposta?

— Apenas não acredito nos seus tópicos de instrução, caso se lembre do que falei a respeito.

Subitamente, a idéia de deixá-lo instruir a sua classe não pareceu mais uma boa idéia.

— Apenas se lembre, Vossa Graça, de que sua tarefa é deixar as alunas prontas para serem damas bem-sucedidas. Se sair dessa linha, considerarei que terá perdido.

— Obrigado pela sua falta de confiança em minha moralidade, mas conheço as regras.

— Ótimo. — Mesmo assim, ela ficaria de olho nele. — Talvez queira assistir a alguma de minhas aulas.

— Vou pensar a respeito — ele disse secamente. — Naturalmente isso lhe dá o direito de assistir às minhas.

— Oh, pretendo assisti-las.

— Muito bem. Mas eu também dou aulas particulares, sabia?

Isabella parou. O tom de voz de Edward era lascivo.

— Nem pense em dar aulas particulares às minhas alunas.

O duque parou bem diante dela, e Isabella não teve outra escolha senão encará-lo.

— Não estou falando de suas alunas.

Isabella engoliu em seco. Procurou se lembrar de que o duque era um libertino e provavelmente flertava com toda mulher que lhe cruzava o caminho.

— Suponho que suas aulas particulares sejam ótimas, mas o que isso tem a ver com o número de porcos que há em Haverly?

Wycliffe riu.

— Apenas queria saber se estava disposta a se distrair.

— Não estou. Para sua informação, dou um curso com pleto sobre homens como o senhor. Não vai conseguir me impressionar com essas suas táticas.

— Por homens como eu, presumo que se refira a homens bonitos e charmosos?

— Sim. Precisamente. — O pulso dela acelerou.

— Então por que ruborizou?

Isabella sentiu o rosto ficar ainda mais vermelho.

— Posso não ser capaz de evitar isso diante de sua excessiva arrogância, Vossa Graça, mas não significa que pretendo lhe dar as costas e fugir.

— Mas eu não quero que a senhorita fuja. Que diversão haveria nisso?

Oh, Deus. Ela precisava frequentar suas próprias aulas e saber como lidar com libertinos. Imediatamente!

— Diversão? É exatamente por isso que vai perder a aposta. Isto é um jogo para o senhor. Permita-me lhe asse gurar que a aposta para mim é um assunto sério.

O duque estendeu a mão, e Isabella sentiu o coração bater mais forte. Mas em vez de acariciar o rosto dela como ela chegara a imaginar, meramente a tocou no ombro.

— Que pena — Edward murmurou.

Sentindo-se fraquejar, Isabella procurou retomar o con trole.

— Como já lhe disse, isto não é um jogo para mim. E não me afeto com suas técnicas de sedução. — Deu as costas ao duque e seguiu para sua carruagem.

Edward a observou por alguns instantes, pensando se não teria perdido o juízo.

— Não dei nossa conversa por encerrada, Isabella Swan — ele resmungou enquanto a via se afastar em sua charrete. Com um suspiro, voltou ao seu cavalo para segui-la. Isabella não daria a última palavra, não naquela manhã, não de novo. Apressou o cavalo e alcançou a charrete.

— Isabella, que coincidência — disse.

— Dificilmente uma coincidência — Isabella observou, não parecendo nada satisfeita em vê-lo novamente. — Acabamos de nos falar minutos atrás.

— Você se esqueceu de uma coisa — ele disse, fazendo-a parar o veículo.

— Eu sei, mas eu já havia me irritado e ido embora.

— Então, reconhece que fugiu de mim?

— Eu me afastei de sua conversa, na qual eu tinha pou co interesse. O senhor pretende me insultar ou vai logo me entregar suas anotações?

Ela o encarou por debaixo de seu chapéu, lançando-lhe um olhar que Edward sentiu ser de flerte. O desejo o atingiu em cheio. Vendo-a ali, com os lábios entreabertos, ele se in clinou e a beijou.

O leve contato provocou um arrepio em seu corpo. Endireitou-se, alerta. Isabella estava com os olhos fechados, e ele desejou subir na charrete e verificar se o veículo era forte o suficiente para agüentar o que ele pretendia fazer com a diretora da escola. Sentia-se confuso. Não reagia assim a um beijo. Gostava de beijar, e tinha grande experiência na área. Mas o que acabara de acontecer tinha sido apenas um roçar de lábios.

Isabella abriu os olhos.

— O que pensa que está fazendo?

— A senhorita me disse que deu lições sobre homens como eu. O que acha que eu estava fazendo?

Um delicioso rubor cobriu novamente a pele macia do rosto dela. Edward desceu o olhar para mais abaixo, detendo-se no decote. Sentiu-se desconfortável na sela.

— Eu não vou me dignar a lhe dar uma resposta. Se qui ser me entregar os papéis, Vossa Graça...

Ele enfiou a mão no bolso, de onde tirou umas folhas. Sem nem mesmo olhá-las, ela as colocou no banco ao seu lado. Então voltou os olhos para a estrada à sua frente, o rosto ainda bastante ruborizado.

— Obrigada. — Puxou as rédeas e a velha charrete se guiu seu caminho.

Edward a seguiu. Se o beijo o surpreendera, provavelmente a afetara ainda mais. Ela não devia estar acostumada a ter admiradores por perto. Agora que ela começara a entender os benefícios que sua presença poderia lhe trazer, essa seria uma sedução fácil, e a mais satisfatória aposta que ele já ganhara.

Já haviam percorrido uma boa parte do caminho quando Isabella se voltou para ele.

— Por que ainda está aqui?

— A senhorita começou a trabalhar em sua parte da aposta — ele improvisou. — Gostaria de começar a minha, também. Gostaria de conhecer as minhas alunas. Se não se importar.

Ela parou a charrete. Pelo olhar dela, Edward soube que a idéia não lhe agradava. Isabella mordeu o lábio antes de concordar.

— Não permito que homens entrem na área da escola, mas suponho que devo abrir uma exceção agora. Porém, será supervisionado o tempo todo.

— Por você? — Edward sorriu.

— Sou a diretora. Tenho minha equipe de instrutores na escola. Vou acompanhar seu trabalho quando puder, mas ganhar esta aposta ocupará a maior parte de meu tempo.

Edward a observou por um longo momento. Talvez Isabella não tivesse sido tão afetada pelo beijo como ele pensara. Faria melhor da próxima vez.

— Pode se ocupar o quanto quiser, mas não ganhará.

— Bem, um de nós está errado, e tenho certeza de que não sou eu.

Eles poderiam continuar aquela briguinha o dia inteiro, mas Edward estava curioso para conhecer o grupo de jovens que o ajudariam a vencer a Srta. Isabella. Treinar moças para obter sucesso na sociedade estava no topo da lista das coisas que ele jamais pensara fazer, mas ensinar umas pou cas garotas a flertar seria um preço baixo a pagar para con seguir ter a Academia e Isabella Swan de joelhos.

Um guarda estava junto ao portão da escola.

— Bom dia, Srta. Isabella.

— Joseph.

Enquanto a charrete passava por ele, o porteiro bloqueou Edward.

— Lamento, milorde. Não é permitida a entrada de homens.

Edward arqueou a sobrancelha.

— Então o que você é?

— Um empregado. E pretendo continuar com o emprego.

— Está tudo bem, Joseph — Isabella falou. — Sua Graça pode entrar hoje. Eu lhe darei uma lista com os horários em que ele estará autorizado a entrar na Academia.

O porteiro olhou impressionado para Edward.

— O senhor deve ser o duque de todos os duques, Vossa Graça, para ter a entrada liberada fora dos dias de visita.

Isabella estava de braços cruzados esperando por ele na frente do prédio principal. O portão foi fechado. Lá estava ele, dentro de uma escola para moças.

Isabella alisou a saia e tentou manter um passo normal enquanto levava o duque para dentro da Academia. Suas alunas já estavam esperando por ela, provavelmente estranhando que estivesse atrasada.

O duque de Wycliffe a tinha beijado. Por que ele fizera isso? Edawrd Cullen podia ser um libertino, mas ele era rico e bonito. A maioria das damas de Londres devia rodeá-lo a cada festa, e ele podia beijar quem quisesse. Agora, ouvindo o som das botas dele batendo no assoalho, tudo no que ela pensava era em como tinha sido gostoso o beijo. Será que ele pretendia repeti-lo? Da próxima vez, prestaria mais atenção ao calor e à pressão, ao mesmo tempo firme e suave, dos lábios do duque. Desejava sentir o calor daqueles braços fortes envolvendo-a. Subitamente percebeu que chegara à porta da sala de aula. Sem ousar olhar para trás, entrou, imediatamente as jovens pararam de falar e arregalaram os olhos ao verem aquele homem enorme atrás da diretora.

— Minhas jovens, permitam-me lhes apresentar Sua Graça, o duque de Wycliffe. Ele assumirá o meu papel nesta classe por um curto período de tempo. Por favor, levantem-se e se apresentem — ordenou.

Jane foi a primeira a se levantar.

— Lady Jane Wydon — ela disse, fazendo uma reverência. Sua voz tremeu apenas levemente, e Isabella se tranqüi lizou. Eram suas melhores alunas. Certamente se sairiam bem na parte que lhes cabia na aposta.

— Lady Jane — o duque repetiu, a voz tranqüila.

Isabella o observou atentamente. Apesar de sua expres são relaxada, podia jurar que ele empalidecera. O queixo também parecia tenso. Na verdade, tinha o ar de quem queria sumir dali.

Jessica Stanley conseguiu dizer seu nome sem desmaiar, e nem Kate Brendale, nem Julia Potwin riram durante as apresentações. Até aquele momento, tudo corria bem.

Finalmente a última das alunas se levantou.

— Srta. Angela Weber — Ang anunciou. — O senhor perdeu as suas terras?

— Angela! — Isabella exclamou, surpresa com o atre vimento da aluna.

Wycliffe endireitou o corpo.

— Não. Por que pergunta?

— Estou tentando descobrir a razão de Vossa Graça que rer ensinar nesta escola.

— Ah... A Srta. Isabella e eu fizemos uma aposta.

Isabella sentiu-lhe faltar o ar. Obviamente, ele não tinha a menor idéia de como lidar com mulheres jovens e curiosas.

— O que apostaram? — Ang perguntou. Cruzando os braços, Isabella encostou-se à escrivaninha.

— A srta. Isabella apostou que poderá administrar a pro priedade de meu tio melhor do que eu — ele disse —, e eu apostei que sou capaz de instruir vocês sobre como se com portar na sociedade melhor do que ela.

— Bem, isso é tolice — Ang observou. — Ninguém pode fazer isso melhor que a srta. Isabella.

— Estou certo que a diretora de vocês é muito competen te nas aulas de bordado e etiqueta. No entanto, o meu...

— Na verdade, Vossa Graça, a srta. Clooney é quem en sina bordado — Jessica observou.

— Sim, obrigado, srta. Stanley, mas minha intenção é lhes passar instruções mais práticas.

As mocinhas não pareceram convencidas, e Isabella per mitiu-se um leve sorriso. Tudo o que ela tinha de fazer era calcular o valor de mercado de uns poucos acres cultiva dos com cevada e algum gado, e recomendar a venda deles nas proporções corretas. A tarefa do duque de ensinar as jovens teimosas não era tão simples quanto parecia. Além do mais, ele teria de conquistar o respeito das moças para que elas estivessem dispostas a colocar em prática o que ele ensinaria.

— Sei que a situação é estranha — Isabella disse —, mas pensem nisso como uma experiência. Sua Graça tem muita familiaridade com as festas de Londres e vai querer passar a vocês todo esse conhecimento. As instruções dele poderão ser muito úteis para quem estiver prestes a debutar, como Jane e Jessica.

— Srta. Isabella, já que teremos que nos dedicar às aulas do duque, estamos dispensadas das aulas de francês?

Ela tentou ignorar o calor que tomara conta de seu rosto, e desejou que as moças não notassem o rubor.

— Vocês continuarão com todas as outras matérias.

— Vocês têm aulas de francês? — Edward perguntou ines peradamente.

— Kate, Julia e eu temos Ang respondeu.

Isabella voltou-se para a porta. Aquilo tudo tinha saído melhor do que ela esperara.

— Se me derem licença, tenho alguns papéis a examinar. — Abriu a porta e encontrou a srta. Clooney esperando no corredor. — A srta. Cloonry assistirá à sua aula hoje, Vossa Graça — ela disse, empurrando a senhora de cabelos grisa lhos para dentro da sala.

— Ah, a professora de bordado.

— Ela ensina latim também. Eu voltarei para acompanhá-lo até a saída no intervalo do almoço. — Isabella con sultou o relógio. — Em quarenta e dois minutos. Boa sorte, Vossa Graça. — Apontou para um pequeno sino. — Para sua informação, pode usar o sino em caso de emergência. Toque-o se precisar ser resgatado.

— Obrigado, mas não vou precisar dele.

— Veremos.

Notas Finais:

Estes dois estão sempre a discutir, mas no fundo…

Quem ganhará esta aposta?

E o Beijo? Os dois já estão a pensar na próxima

Como correrá esta aula ao Duque?

Comentem…

Ana Krol: Obrigado. Vou tentar postar todos os dias.