2 - The liar, The honest, The Martyr

Minerva sentava-se à mesa de diretora na sala que um dia pertencera à Albus Dumbledore e muitos outros, incluindo o homem que estava à sua frente. Fitando-a com os olhos negros e profundos, como se pudessem ler sua alma e podiam, certamente.

Conversar com Snape era uma tarefa complicada, olhar para ele era uma tarefa impossível, ou quase. Severus era o contrario de tudo que já haviam pensado dele e o fato de todos terem estado errados gerava um sentimento de culpa.

Culpa, a mesma que tantas vezes assolara Severus em relação ao mundo, o mundo era culpado em relação a ele.

-Você tem que me dizer sim ou não, não há muito o que pensar. – disse ele após um longo minuto de silêncio. Ele sabia qual seria a resposta, mas no fundo aquele olhar de divagação da professora o incomodava. Ele não queria ser martirizado, heroificado. Ele não achava que merecia.

Tudo que ele fez foi por culpa e ele queria esse sentimento fora de sua vida. Ao passo que vê-lo estampado no rosto de cada pessoa que encontrava em seu caminho era doloroso, como se a parte morta de sua vida estivesse lutando para suga-lo novamente para as trevas.

-Desculpe – ela disse de forma pausada, como se a palavra fosse arrancada sob tortura e ela em si significava muito mais do que um pedido de desculpas pela demora da resposta.

Severus ignorou solenemente o significado daquilo tudo, fingiu nunca ter visto os lábios de Minerva se crisparem e os olhos cintilarem à sombra de lágrimas que nunca seriam vertidas em público. Como ela se sentia a principal culpada por tudo em que se transformo a vida de Snape era talvez irracional para todos os outros, mas não para ela.

-Então? – Ele perguntou impaciente, desviando o olhar pela primeira vez em anos de vida.

-Claro que você pode voltar a lecionar. – disse ela como se aquilo tivesse sido uma pergunta obvia, afinal. – Qual cargo você quer?

Snape riu uma risada sem graça, sem emoção. Era a primeira vez que ela o via rindo e não foi agradável, sentiu seus ossos gelarem e teve aquela sensação de que a qualquer momento ele iria apontar o dedo longo e ossudo no rosto dela e começar a acusa-la de tudo.

Mas isso só provava o quanto as pessoas pouco conheciam Severus Snape. Ele não acusaria ninguém pela suas escolhas, não jogaria em ninguém sua culpa maldita, ele nunca fugiu e não seria agora que fugiria de suas responsabilidades. Seria confortável se enganar deixando todos se sentirem culpados e se convencer de que ele não havia cavado a própria cova, mas esse não seria ele. Snape não sabia o que era o significado da palavra "confortável".

Mas mesmo assim ele não deixaria de ser ele. Ironia, sarcasmo, fel.

-Então agora eu posso escolher?

-Claro – sem graça, ela desviou os olhos.

Mas Snape se levantou apoiou os dois braços na mesa e se inclinou até ficar olho a olho com ela por um palmo de distância e sussurrou letalmente:

-Poções.

-Poções... – ela repetiu baixinho, enquanto ele voltava a se sentar com um semi-sorriso cínico no rosto. Mas McGonagall não era mulher de titubear – Certo, o cargo é seu. Seus antigos aposentos nas masmorras também.

-Ótimo. Creio que terminamos. – Disse se levantando para arrumar suas coisas.

-Apenas mais um detalhe Severus.

-Sim..

-Todos os alunos que não cursaram Hogwarts ano passado, devido à situação extraordinária em que a escola se apresentava, voltarão esse ano.

Snape deixou sua máscara firme se perder por um milésimo de segundo, apenas o suficiente para Minerva esboçar uma interrogação, tentando decifrar a expressão de cansaço, descontentamento, derrota que se apossou dele e que rapidamente foi substituída pela face fria e indiferente do mestre de poções.

-Ó-ti-mo. – ele esboço entredentes e saiu farfalhando a capa e batendo a porta.

Já dentro do seu quarto, Snape senta-se na cama e apoia o rosto nas duas mãos e as desliza pelos cabelos oleosos em sinal de desespero. Hermione estaria de volta. Potter e Weasley estariam de volta. Hermione estaria ali. Uma horda de cabeças ocas para ensinar. Veria Hermione todos os dias em carne e osso, sim, pois ele a via todos os dias, bastava fechar os olhos e ela estava impressa em sua memória.

No primeiro dia lá estavam eles, centenas de alunos de todas as casas olhando para a mesa dos professores com espanto. Minerva McGonagall era a diretora nomeada pelo conselho estudantil e acumulava o cargo de transfiguração e de diretora da Gryffindor. Severus Snape era novamente professor de poções e diretor da Slytherin e um novo professor chamado Karl Tales ocupava o cargo de DCAT.

Snape correu os olhos pela mesa Gryffindor e no momento que achou o que queria, se arrependeu de ter olhado. Harry Potter e Gina Weasley estavam aos beijos enquanto Hermione e Rony estavam com as mãos dadas sob a mesa e conversavam de modo afetuoso. Foi nesse exato segundo que Hermione desviou os olhos e se deparou com os negros do professor.

A mão que estava embaixo da de Ronald escapuliu timidamente e ela corou e desviou o olhar, um segundo depois quando voltou a procura-lo Snape não estava mais olhando para ela e sim ouvia atentamente o que o professor Tales dizia.

Snape sentiu raiva e alívio ao mesmo tempo. Queria que Hermione fosse feliz, mas não suportava aquele cabeça de tocha tocando-a. Queria ter 19 anos de novo. Se tivesse, será que Hermione escolheria à ele? Piscou espantando esse pensamento enquanto absorvia as palavras do professor ao seu lado sem realmente prestar atenção.

Hermione queria saber o que estava acontecendo com ela. Desde que Snape à olhara com nojo depois dela tê-lo beijado, jurara nunca mais pensar nele e se dedicar ao relacionamento com Rony. Tinha trabalhado nisso muito bem durante as férias, mas foi só ver aqueles olhos negros e aquela expressão indecifrável que ela já não conseguia mais se concentrar em nada.

Quando ela descobrira que era completamente apaixonada pelo morcegão? No momento em que vira ele quase morrer e sentiu como se estivesse morrendo junto, ou antes disso? Não sabia responder. O fato é que Snape à humilhara durantes tantos anos que ela nem sequer pode acreditar quando descobriu o sentimento e quando ele a rejeitara com tanto asco tudo que ela mais queria era esquece-lo.

Mas o simples toque de Rony era incômodo e incorreto depois daquele olhar. O namorado tentara beija-la no salão comunal depois da cerimônia e ela se esquivara, subiu para o quarto alegando ter que estudar para as aulas que ainda nem tinham começado. Todos acreditaram, afinal aquela era Hermione e tinham que dar um crédito à ela, pois tinha ficado um ano longe de seus preciosos estudos.

Sem saber, os dois deitaram em suas respectivas camas ao mesmo tempo. Hermione sonharia com Snape, mas ele não sonharia com ela pois um frasco da poção sono sem sonhos descansava aberto e vazio na mesinha de canto.

-Mione, acorda, estamos atrasadas para o café da manhã. – disse Gina ainda com a voz sonolenta.

Hermione pulou da cama, aquele era o primeiro dia de aula do último ano de escola. Era o primeiro dia de aula com paz no mundo bruxo. Era um bravo novo mundo que precisava ser construído pouco a pouco e eles eram peças disso.

Foram tomar café e Hermione recebeu um bolinho de horários que deveria distribuir. Ela era novamente a monitora da casa e também era monitora chefe. Começou pelos alunos do primeiro ano e depois foi em ordem crescente. Quando finalmente terminou tudo, se largou na banco e observou seu próprio horário de aulas.

-Perfeito – disse com baixinho e desanimada. Sua primeira aula do dia era Poções.

Rony e Harry chegaram juntos e o sorriso de Rony revirou o estômago de Hermione.

-Você está atrasado Ronald, eu tive que distribuir todos aqueles horários sozinha. – ela esbravejou levantando-se para sair do salão, mas acabou dando um encontrão em algo sólido e macio.

Certamente iria ao chão se não tivesse sido aparada por mãos firmes pertencentes à braços fortes que a pegaram pela cintura e colocaram-na em pé.

-Você deveria tomar cuidado senhorita.

Ela olhou para cima e corou imediatamente.

-De-de-desculpe professor.

Karl Tales era alto, com os cabelos loiros e olhos mel, a barba por fazer e os óculos de aro preto grossos davam um ar juvenil e desleixado. Ele beirava os 35 anos e era muito bonito, ainda mais quando lançava o sorriso que estava estampando ao olhar para Hermione naquele momento.

Ele retirou preguiçosamente as mãos da cintura da moça e piscou para ela. Ele curvou o rosto e chegou perto do ouvido dela sussurrando:

-Não se preocupe, mas nem sempre eu estarei por perto para te segurar, Hermione. – e riu uma risada gostosa quando se afastou.

A menina queria saber como ele sabia o nome dela e por que subitamente o ambiente estava quente demais e suas pernas tremiam. Seu namorado estava segurando um garfo e uma faca com força demais e parecia mais roxo que uma beterraba.

Hermione caminhou ainda em estado de transe até a porta do salão o que ela não sabia é que estava sendo seguida de perto por um par de olhos negros que cintilavam de ódio. Ele percebera que muitos meninos a olhavam passar, ele viu o desejo daqueles meninos e daquele homem de toca-la e sentiu ainda mais raiva. Não é porque ele desejava que ela fosse feliz que subitamente todos os homens poderiam parecer deseja-la.

Foi ai que ele percebeu seu erro, Hermione Granger não era mais uma menininha de onze anos dentuça e de cabelos bagunçados. Ela era uma jovem mulher que passara por provações que mulheres bem mais velhas nunca sonhariam enfrentar, era dona de um corpo desejável, um rosto belo e de uma personalidade ímpar, era inteligente, charmosa e quando ela ria tinha covinhas nas bochechas para dar mais graça ainda a toda sua beleza. Porque ele ainda não tinha notado que Hermione era perfeita antes?

Hermione andou lentamente pelos corredores e foi alcançada pelos amigos e o namorado a caminho das masmorras. Antes que pudesse protestar, Rony a puxou para um beijo possessivo.

-Me desculpe por hoje – ele disse docemente depois do beijo quando a face de Hermione estava se tornando puro ódio. – Estava conversando com Harry e perdi a hora, realmente sinto muito.

A carinha de cão sem dono de Rony fez Hermione se sentir a pior das criaturas. Porque ela ficara brava com o menino? Não tinha explicação. Ele tentava ser um bom namorado e ele conseguia em 95% do tempo, mas ela não podia mais fingir que o toque de Rony a perturbava, enjoava. Os beijos dele eram quase insuportáveis. Ela tinha que por um fim àquilo. Estava decidida a conversar com ele...

-Estão atrasados, menos 30 pontos para Gryffindor – a voz lenta e baixa atrás deles a tirou de seus devaneios.

-Qual é Snape, nem você chegou na sala ainda– protestou o menino.

-Menos 20 pontos, e é professor ou senhor Snape, Wesley.

Hermione sentiu algo correr por seu sangue como um líquido fervendo e borbulhando.

-O se-nhor poderia parar de ser injusto só para variar... pro-fe-ssor Snape – ela cuspiu as palavras como veneno, olhando-o nos olhos com altivez.

Severus mal pode acreditar no que ouviu, Hemione estava o desafiando?

-Para a sala Wesley, a-go-ra. Você não Granger

Disse segurando o braço dela com força enquanto o menino se afastava deixando-os a sós no corredor vazio com uma cara de desgosto.

-Está me machucando professor.

Ele a soltou.

-Talvez você devesse parar de deixar todos os homens no seu caminho te tocarem, assim quem sabe você chegue no horário certo de suas aulas, senhorita.

Ah, Snape nunca pagaria um preço tão caro pela sua língua ferina. Hermione mudou sua expressão quatro vezes no mesmo milésimo de segundo: perplexidão, tristeza, ultraje e ódio. Quando a mão dela voou em direção ao seu rosto e ele a parou segurando pelo pulso ele pode ver as lágrimas se insinuando pelos olhos dela.

-Detenção Granger, às 21horas no meu gabinete, não se atrase.

Ele a soltou e andou em direção à sala. Durante aquela aula de poções o professor estava especialmente letal. Tirou pontos de todos, inclusive Slytherins. E só um pensamento lhe ocorria.

"Ótimo Snape, você sempre faz elas te odiarem."