Levantou-se vagarosamente, com preguiça e sono. Foi ao banheiro e jogou uma água gelada no rosto, tentando inutilmente afastar o torpor de seu corpo. Como detestava sua rotina...

Tomou um café reforçado e procurou pelo "Profeta Diário" na porta de casa. A manchete não era nada animadora.

"Mais uma casa destruída pelo fogo"

"Incêndios criminosos e mágicos têm destruído várias casas de trouxas e alguns bruxos. Não se sabe ainda quem está causando tais incêndios que colocam em pânico toda a população londrina."

"Procurado pela nossa reportagem, o ministro da Magia, Cornélio Fudge não quis se pronunciar. Já Arthur Weasley, atual chefe do Departamento de Defesa Mágica, disse que 'Enquanto houver sangue correndo em minhas veias, eu vou procurar o responsável por essas atrocidades. E JURO que vou pegá-lo.'"

"Apesar da promessa de Weasley, o mundo bruxo continua em alerta. Quem seria o responsável pelos incêndios que já destruíram mais de cem famílias de nossa cidade?"

Em um breve acesso de fúria, arremessou o jornal na lareira. Depois foi a vez da xícara que continha o café que tomava ter o mesmo destino. Logo quase toda a louça estava ajudando a aquecer a sala de jantar.

Odiava sua vida. Arrependia-se amargamente do dia em que resolvera se tornar auror. Só lhe trazia problemas. Tinha uma vontade imensa de desistir de tudo, principalmente da vida.

Mas não podia. Estava condenado à essa vida. Amarrado àquilo que detestara por uma vida inteira.

Maldita promessa. Jamais fez outra antes ou depois daquela. Mas tinha palavra e não voltaria atrás.

Foi ao escritório e procurou por sua agenda, para poder se lembrar dos compromissos do dia.

25/12

09:30Visitar Weasley.

Sim. Era natal. E mesmo a neve caindo em abundancia não ajudava contra aqueles incêndios malditos.

Olhou para o relógio de parede. 9:15. Já estava quase atrasado.

Trocou de roupa e se dirigiu até a lareira, que ainda queimava os restos do jornal e da louça arremessada. Pegou um pouco do pó de flu e jogou sobre as chamas que ficaram esverdeadas. Entrou e, após um suspiro resignado, ordenou o destino.

Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos.

As chamas o envolveram e ele desapareceu da casa.


Enquanto caminhava pelos corredores, pensava se seria reconhecido desta vez. "Tratamento de Choque", o medi-bruxo dissera. Só alguém que ela tivesse odiado poderia fazer algum efeito.

E ele, Draco Malfoy, fora o eleito. Ele não podia reclamar, pois seu índice de popularidade, mesmo entre os próprios aurores, era digno de pena.

Quanta tristeza ele via naquela área do hospital. Ao passar por um quarto e ver um pobre homem batendo a cabeça na parede, sem controle algum, suspirou e agradeceu por ter escolhido a carreira de auror à de medi-bruxo.

Lá estava. Quarto 332. Ala isolada do St Mungus. Nem se deu ao trabalho de bater à porta. Quanto mais susto ela levasse, melhor. Entrou.

- Bom dia, senhor Malfoy. – disse a enfermeira que estava com a garota. – Chegou cedo hoje.

- Cheguei no horário, Anne. Como ela está hoje?

- Como sempre. – a moça respondeu, olhando para a garota – Não fala, não reage a nenhuma poção ou feitiço... Parece um caso perdido

- Por isso me chamam sempre... Eu sou a última opção. O caso de urgência.

- Com todo o respeito, mas você não esperava que o tratássemos como uma pessoa boa e honrada depois de ver seu pai como o homem que foi.

- Meu pai na é o assunto aqui. E agora me dê licença, quero falar a sós com a Weasley.

A enfermeira obedeceu de pronto, deixando a jovem e indefesa junto com o principal candidato a Comensal dos tempos de Hogwarts, agora um competente auror.

- Olha só o que temos aqui! – Malfoy falou, em tom de deboche, típico de si. – Uma Weasley internada como louca... Eu sempre soube que você era uma pobretona, ridícula, feia... Mas louca? Essa é novidade.

Ginevra, que antes estava olhando para o vácuo, sem reação a nada, com os olhos vazios, e totalmente imóvel, começou a tremer um pouco.

- Mas também, o que se pode esperar de uma família como a sua, não é mesmo? A mãe morta pelo meu mestre... – quando ele disse aquilo, sua própria voz tremeu. Detestava a simples idéia de algum dia ter servido a Voldemort. – o irmão deserdado e expulso, dois outros como vendedores de logros para crianças estúpidas... É uma família digna de pena.

Novamente houve uma reação. Desta vez, Ginevra cerrou o pulso. O jovem loiro regozijou. Era a décima vez que ele ia visitar a menina e era a primeira que ela demonstrava alguma reação à suas provocações.

- E, é claro, a jovem e indefesa Weasley, a única fêmea da prole, acabou louca. Num hospício, isolada do mundo por vontade própria. Acho, que de todos, em sua família, você, minha cara Ginevra, é a mais patética. – ele disse as últimas palavras pausadamente, com ênfase na última. O resultado foi impressionante.

A garota, antes pálida, estava vermelha, quase se confundindo com seus cabelos. Sua respiração, antes inaudível, estava pesada e descontrolada. Draco resolveu jogar a última carta.

- Agora, sinceramente... Você, ficar assim por causa do idiota do Potter que fugiu e conseguiu ser morto por trouxas em uma cidadezinha do Brasil? É isso que me faz desprezar você ainda mais.

Bingo. Atingira o ponto desejado. O ponto fraco. A garota, fraca pela alimentação inadequada e pelo longo tempo sem sair da cama, avançou para cima do loiro, esmurrando seu peito e gritando descontrolada.

- DESGRAÇADO! MALDITO! COMO OUSA FALAR DELE! COMO OUSA??? ELE SALVOU NOSSO MUNDO!!! ELE FOI UM HERÓI!!! ELE FOI O ÚNICO QUE EU AMEI DE VERDADE!!!

- E você está de volta... – sorriu o loiro, pela primeira vez sem deboche. A garota percebeu o que ele tinha feito e chorou. Chorou a perda da mãe, a perda do amado. Draco chamou a enfermeira. Seu trabalho ali tinha terminado.