Dimitri Ivashkov e Angie Bagnold
Ela tinha 15, ele 18. Naquela época, por um acordo entre famílias consideradas nobres no mundo bruxo - a dele até um tanto quanto aristocrata -, foram prometidos em casamento. Dimitri Ivashkov e Angie Bagnold. Ambos perderam a liberdade naquele dia, em que o acordo fora assinado e ambos os pais deram um aperto de mão, firmando aquela parceria que, no fundo, mais se tratava de uma junção de heranças e valores monetários que qualquer outra coisa. Dimitri não abriu a boca para reclamar. Apesar de seu gênio um tanto quanto forte, acreditava que o pai, Yegor, sabia o que era bom para suas famílias. Angie também não reclamou, Adamus com certeza não colocaria a filha em uma enrascada, afinal.
Ela completou 17, ele 20. O casamento começou a ser organizado e ambos continuaram indo de acordo com o que seus pais desejavam. Ainda eram jovens para aquele passo, mas tudo se ajeitaria, em algum momento do futuro. Angie tinha certeza disso, já Dimitri nem tanto. Afinal, o segredo que ele escondia da noiva poderia acabar em uma tragédia.
Ela, finalmente, chegou aos 18, ele aos 21. Casaram-se e passaram a conviver sob o mesmo teto. Enquanto a jovem Bagnold caminhava a passos lentos em sua direção, o Ivashkov sentiu algo mudar dentro de si. Até aquele momento, ele via nela apenas uma garota bonita e inteligente, que seu pai colocou em seu caminho. Os orbes claros não se desviaram dos dela por um segundo sequer, o rosto sério, impassível. Mas, dentro do peito, o coração batia acelerado.
Um dia, Angie indagou à Dimitri o que ele sentia por ela. Não houve resposta. O olhar da jovem demonstrou tristeza, mas ele não sabia o que responder. Tinha medo por ela viver sob o mesmo teto que ele, tinha receio de acabar machucando-a algum dia. Seu segredo poderia custar suas vidas.
Dimitri nunca deixou de cumprir com suas obrigações de marido; quando a tinha nos braços, o coração se acelerava novamente. Acelerava tanto que chegava a doer. Mas, ele não entendia. Em seu âmago, pensava ser medo. Medo de libertar a fera que habitava dentro de si quando estivesse próximo à ela.
Angie, por alguma obra do destino ou não, especializou-se em licantropia. Dimitri, por algum tempo, desconfiou que ela soubesse do seu segredo. No entanto, a jovem nunca demonstrou que era ciente daquela maldição que assolava o jovem Ivashkov.
A cada dia que passava, a admiração pela mulher crescia ainda mais. Com o tempo, passou a conviver mais com ela, passar mais tempo em sua companhia. Passou, também, a sorrir mais. Os jantares começaram a ser preenchidos com conversas, intercaladas com as garfadas e os sorrisos que trocavam.
No entanto, em todas as noites de Lua Cheia, Dimitri se isolava, passava as noites fora, deixando-a com a dúvida sobre a fidelidade do marido para com ela. Dimitri odiava aquilo; odiava tanto que a cada dia se odiava mais por causa daquela maldição.
Tinha o costume de acordar antes da esposa, levantar e deixá-la na cama, adormecida como um anjo. Mas, naquela manhã, surpreendeu-se ao despertar e vê-la deitada sobre seu peito. Angie ainda dormia como o anjo que era, a respiração ritmada, embalada por um sono sem sonhos. Ele não quis se mover e tirá-la daquela paz. Ali, foi quando ele percebeu o que sentia por ela.
Permaneceu observando-a por um tempo, acariciando-lhe as madeixas loiras. Depositou um breve beijo no topo da cabeça e, com seu sotaque carregado, iniciou uma tentativa de acordá-la.
- Ángie! - chamou-a, erguendo-lhe o rosto com uma calma exacerbada e, quando finalmente o fez, selou seus lábios aos dela. - Vámos lá, moy angel, acorrde! Prrecisámos levantarr. - sussurrou, finalmente despertando-a.
Aquela foi a primeira vez que acordaram dessa forma.
Meu anjo,
Gostaria de saber como começar essa carta, mas realmente não sei. Pensei bastante em você durante o dia e isso é algo que nunca te disse antes. Por todos esses anos, desde que fomos prometidos em casamento, eu não entendi o quão você era importante para mim. Era não, é. Você, Angie, é o anjo de luz que ilumina o meu caminho, me faz ver que ainda tenho algo de bom próximo à mim. Nesse acordo, você foi a única coisa boa que me aconteceu, e devo pedir perdão por ter sido tão negligente com relação à você durante todos esses anos.
Bom, não vou me estender mais… Só queria que soubesse que agora eu sei o que sinto por você!
D.
Naquela noite, Dimitri chegou mais cedo em casa e deixou, sobre a mesa de centro da sala, a pequena carta, guardada dentro de um envelope alvo, com o nome da esposa escrito em tinta preta. Sobre o envelope, deixou uma única rosa vermelha. Com um floreio da varinha, acendeu a lareira, tornando o ambiente mais aconchegante. Serviu-se de uma dose de whisky escocês Dalmore Trinitas e subiu para tomar um banho rápido. Queria dar à Angie a chance de ler o pequeno recado sozinha, antes de fazer-se presente.
Ouviu quando a esposa chegou, havia acabado de sair do banho. Com os cabelos ainda molhados do banho, desceu às escadas e encontrou-a parada, segurando a rosa com uma das mãos em frente ao rosto, enquanto os orbes claros percorriam as palavras escritas no bilhete que segurava com a outra mão.
O coração de Angie parecia querer saltar para fora do peito e Dimitri percebeu quando a respiração dela se acelerou. Seus olhos se encontraram; os dela marejados, os dele com um brilho nunca antes visto.
Um sorriso brotou nos lábios do Ivashkov, enquanto se aproximava da mulher. Angie permaneceu analisando sua expressão, sem saber o que dizer. Dimitri resolve, então, se pronunciar.
- Uma vez, Ángie, você me perrguntou o qüe eu sentia porr você. Eu sei qüe você ficou chateada e trriste porr eu nón terr rrespóndido. Eu nón sabia. Mas agorra sei. - fez uma pausa, esperando que ela absorvesse aquelas palavras. Angie ainda não havia aberto a boca para falar uma palavra sequer. - O qüe eu sinto porr você, é amorr. Amorr e medo. Eu guarrdo un segrredo há muito tempo. Qüándo nossos pais fizerram o acorrdo, achei que estarriam assinándo sua sentença de morrte. Me mantive afastado de você o máximo qüe eu consegui, semprre tentándo te manterr segurra. Mas, agorra eu nón posso mais fugirr. Eu nón qüerro mais. Qüerro você, do meu lado, semprre. - suspirou profundamente e deu mais um passo, ficando bem próximo à ela. Com os olhos fixados nos dela, finalmente expôs o que queria: - Eu ámo você, Ángie!
E beijou-a, com uma adoração e admiração que nunca demonstrara antes. Foi ali, naquela sala, depois daquela declaração do amor de Dimitri para com Angie que eles passaram a ter uma vida de casados. Sem segredos, sem reservas. Total e completamente apaixonados um pelo outro. Casados e felizes. Apesar de não ser o seu "Felizes Para Sempre", afinal, ainda viveriam muitas histórias juntos, para que o fim fosse colocado ali.
