Disclaimer: InuYasha. Rumiko Takahashi. Sem fins lucrativos.
Capítulo II
Dubitável - Parte I
Kagome havia se afastado dele como se tivesse recebido um choque tamanha surpresa.
Tombou de bunda no chão após alguns passos dados para trás tendo apoio apenas dos braços. Ela o olhava incrédula, empasmecida, balançando a cabeça em negação.
— O quê. . .?! — Perguntou, as sobrancelhas franzindo de forma gradativa com a exclamação da voz. — O que você disse?
Ele, por vez, não respondeu imediatamente embora tivesse entreaberto os lábios para tal. Pestanejou uma, duas vezes, a cabeça tombada para um lado dos ombros e o curioso olhar sobre a garota, estranhando seu comportamento exagerado.
— Que meu nome é Taisho Sesshoumaru, herdeiro das Terras do Oeste. — Disse, não deixando com que a garota esperasse por muito tempo como noutras vezes. Ao instante, o seu pequeno corpo voltou a costumeira postura ereta e sem tensão, as orelhas pontudas movendo-se milimétrica e imperceptivelmente entre o emaranhado de cabelos. — O que houve?
Havia medo vindo dela, muito medo, podia sentir.
— Não. . .
No outro lado da situação, continuava Kagome caída no chão com as órbitas sobressaltadas do rosto. Não mais balançava a cabeça, primeiro fruto inconsciente do seu espanto, apesar de por dentro ter aberto ecos infinitos de negativas, dos tipos 'não, isso é impossível'.
— . . . Não pode ser!
Impossível também era não listar uma série de noções a respeito daquela criança enquanto a olhava de cima a baixo. Ela queria negar para si que fosse o mesmo cão-demônio que conhecia, naturalmente.
E foi o que fez quando pensou na possibilidade de haver outros indivíduos com mesmo nome dentro da sociedade youkai como muito ocorria na sua própria.
Tinha gostado da idéia porque, afinal, quantas outras garotas Kagome's poderiam existir na era moderna ou ali?
Mas então, ele desabou todo o pensamento quando disse o detalhe que o fazia único. Não uma, mas duas vezes e não parecia estar brincando quanto a isso. Que, longe ainda de qualquer análise da semelhança entre aqueles dois, a levara pensar no único Sesshoumaru que conhecia, no mesmo maldito estrambólico que tentou matá-la em diversas ocasiões, porque não podia existir dois herdeiros do Oeste com o mesmo nome!
Ela tentou se afastar do raciocínio que a forçou para esta conclusão, mesmo dando voltas um segundo e outro no mesmo ponto; Mesmo quando uma Lua crescente pôde ser vista entre a franja esbranquiçada ou as linhas grená que cobriam as maçãs do rosto tornavam a semelhança mais óbvia; As coisas pequenas que marcavam Sesshoumaru. Coisas pequenas que não podiam autenticar a identidade de qualquer pessoa, mas isso era tudo que Higurashi Kagome conhecia sobre o irmão mais velho de InuYasha, além das obsessões cegas por honra e espadas lendárias.
Coisas pequenas que, dadas em diferentes circunstâncias (se pudesse), seriam insuficientes para acreditar nas palavras do garotinho, mesmo dizendo carregado do mesmo tom seguro daquelas pessoas que soltam uma revelação importante sem sequer ter noção do fato.
Uma parte instintiva de si, a mesma que surgia na hora de apontar a flecha contra alguém, cogitou de que aquilo poderia se tratar de uma armadilha.
Foi, contudo, obrigada a pendurar a reflexão num ponto qualquer da mente quando nada se encaixou para isso: Continuava inteira, viva e lúcida (não?) e seus amigos também. Houve mais de uma oportunidade para que ele a matasse durante a aproximação ou sequestrasse qualquer um do grupo nas brechas vulneráveis de distração.
Assim, se tivesse acontecido qualquer tragédia, teria ocorrido no poço ou na entrada do acampamento, sem dúvidas.
Um estremecimento surgiu quando lembrou da aproximação daquela criança momentos atrás antes de se apresentarem. Aquilo foi . . . !
— Por que está com medo? — A voz do pequeno surgiu para arrancá-la da inércia. Ela já não olhava para ele, notou de repente, quando não o viu mais de frente para si.
— Não estou com medo. — Respondeu incerta se ele cairia nessa. Sesshoumaru não deu nenhuma pista de qualquer forma, apenas se ajeitando próximo à fogueira.
Ela listou mentalmente mais uma semelhança quando percebeu o adorno pendurado no ombro direito dele, exatamente como lembrava.
-XXX-
Esfregou os olhos, começavam a arder de tanto sono. Ela queria deitar e dormir só não podia. Não com ele acordado, não com ele estando ali.
Ambos haviam observado a fogueira por tempo demais. Mais ela do que ele, talvez. Porque quando fechava os olhos, a imagem do fogo estava lá por debaixo das pálpebras. Havia mudado de postura de novo quando o formigamento nas pernas se tornou insuportável. Levantou-se. Esticou-se. Bocejou leve se contendo como pôde.
Sesshoumaru por outro lado não mostrava quaisquer sinais de cansaço mesmo ferido. Na verdade, não mostrava nada; O garoto que chorou horas atrás no colo de Kagome não existia mais. Suas feições estavam neutras, sem nenhuma chance de saber se estava tranquilo ou às avessas disso. Era bizarro pensar que uma criança humana na mesma situação ainda estaria chorando desesperada por estar machucada ao redor de tantos estranhos e longe de casa. Porque, de acordo com ele, era essa sua situação: Ferido, longe de casa e da família. Seus pais não estavam vindo ajudá-lo.
Kagome não acreditava na diferença tão abrupta de ação para ambas espécies na fase infantil. Também não acreditava muito nele para ser franca desde que soube seu nome — por precaução ou preconceito, não sabia dizer — mas sendo verdade dele ou não, mantivera a dúvida em aberto. Descobriria de qualquer forma o final disso tudo quando amanhecesse.
-XXX-
Trinta e um, trinta e dois, trinta e três. Mais um 'clac' da lenha queimando. Trinta e cinco.
Os estalos da madeira a crepitar na fogueira eram deliciosos. Remetiam ao som de pastéis crocantes e folhas secas de Momiji de outonos já muito distantes.
Trinta e sete.
Pastéis e Momijis eram a combinação perfeita. Um era sinônimo do outro alguns anos antes de atravessar o poço. O vento intenso batendo na nuca e nas canelas, os braços cruzados com as das amigas tomando uma parte da calçada, um dos olhos mais estreito que o outro, porque, raios(!), uma poeirinha cismava em entrar ali.
Era Ayumi que o soprava para longe quase sempre quando a via esfregar os dedos nos olhos. Era também Ayumi que vinha com uma dúzia de pastéis escondidos na mochila para comer após as aulas, quando sua avó se preparava para a competição anual de culinária do bairro, testando novos recheios para pastéis.
Ela aprovava a maior parte, embora sua adoração incurável fosse pelos de recheios de queijo com banana.
Elas fofocavam por diversão barata na falta de algo melhor. Qualquer coisa do que ficar em silêncio. Foi assim que descobriu que a prima de Eri tinha seis dedos no pé, que Hojo gostava dela e que a nova garota da turma estava apaixonada por um garoto dois anos mais velho da 801-B. Foi também como suas amigas descobriram sobre seu romance com InuYasha.
Mais um 'clac'. Saltou em surpresa por até onde o devaneio a levou, em lembranças de coisas simples. Maçantemente simples e aleatórias.
Qualquer coisa do que estar em silêncio, não era assim?
Arfou sorrindo.
Outro estalo.
Trinta e nove.
-XXX-
Kirara estava acordada.
Kagome só soube porque Sesshoumaru comentou partindo um longo silêncio em estilhaços. Apontou com o indicador e metódico disse, simplesmente.
Ela tinha noção de que havia olhado rápido demais para constar, mas já era tarde e lá estava: Uma das orelhas grandes e pontudas da gata mexeu rápido num sinal de consciência, mas os olhos continuavam fechados. Ela percebeu que as órbitas viravam por dentro das pálpebras fechadas. Por que estava agindo assim?
Mil coisas se passaram por sua cabeça sem nenhuma delas relevar.
— Quem são?
Kagome pousara a vista por alguns instantes sobre Sango antes de se dirigir a ele, levantando uma das sobrancelhas. Ele havia visto o grupo várias vezes em batalha, por que então raios. . . ? — Meus amigos. — E perplexa, continuou. — Miroku, Sango, Shippou e Kirara.
— Eles estão bem?
— O dia foi longo, só estão dormindo. — Dormindo ridiculamente pesado, quis dizer.
— E você? Não está com sono?
— Um pouquinho. — Mentira. Estava louca para dormir! — E você?
Coçando o pescoço, ele retrucou enquanto se levantava, distanciando-se dela e da fogueira. — Nem um pouco.
— É por causa da dor?
— Não. — Ele já estava se sentando sob o saco de dormir de Kagome quando respondeu; os botões fortemente amarelos distantes dos castanhos dela, espiando uma libélula passar devagar diante de si.
Kagome jamais saberia, mas uma miúda parte da dor que ele sentira havia sumido quando tinha decidido acreditar e confiar nos cuidados dela. E então suportar todo o resto pareceu menos pior. As mãos do pequeno tremiam discretamente escondidas sob as mangas da roupa, entretanto.
Em paralelo, Kagome acenou leve em resposta, a boca pressionada forte. Ela anotou mentalmente uma característica dele; Sesshoumaru era monossilábico. Sem delongas ou rodeios, direto, muito curto. Muito, muito curto. Ele sabia acabar com uma conversa rápido, absorvendo a maior quantidade de informações possíveis sem muito responder em troca.
Tinha que fazê-lo falar. Havia muitas coisas para perguntar desde o primeiro instante de seu choque inicial. Apenas não tivera oportunidade.
— Por que não dorme?
— Como foi parar no poço? — Perguntou, sem muito remoer mentalmente. Era sua vez de ser direta.
Ele desviou rápido o olhar para ela e Kagome estremeceu; seus olhos brilhavam num tom dourado doentio formando duas esferas bem definidas como a de um gato em um ambiente pouco iluminado. Ela pensou que pudesse ser a mesma coisa com ele então, embora sem muita certeza se isso pudesse ocorrer em cães também.
— Eu caí.
— Caiu?
Ele piscou alguns pares de vezes antes de prosseguir com a resposta. — É, caí. — Como se fosse uma coisa óbvia sem muito para ela se surpreender.
— O que fizeram contigo, Sesshoumaru? Por que está tão pequeno? — Estreitou os olhos, os neurônios estourando em hipóteses. — Quem te jogou no poço? Quem te feriu desse jeito?
Ele riu curto e baixinho um instante após ouvi-la parecendo não se ofender e Kagome achou incrível o nível de dissimulação que Sesshoumaru poderia atuar depois de tantas coisas más que houvera feito contra ela e uma dúzia de outros mais. Agia como se nunca tivesse cuspido em sua cara palavras das mais preconceituosas.
E feito pior.
— Eu, pequeno? — Irônico, levantou o queixo e continuou. — Minha mãe disse que com a minha idade meu pai era menor que eu.
Kagome emudeceu. Num primeiro momento, ela não soube como digerir o comentário, salvo o leve aceno de cabeça que dera enquanto se recompunha.
A Higurashi Kagome de quinze anos, mais ousada e irresponsável, provavelmente não teria papas na língua e soltaria tudo que pensava a respeito dele mesmo se apresentando como uma inocente criancinha falando de papai e mamãe. Não seria boazinha, não quando o indivíduo a sua frente havia atentado contra sua segurança, tentando estirá-la aos pedaços várias vezes.
Anotado, incluiria uma dúzia de palavrões e tudo aos berros, porque não gostava de gente sonsa, de fingimento e isso era irritante.
Porém, aquela que estava sentada próximo ao dai-youkai, observando o cenário com paciência era uma Higurashi de dezessete próximo aos dezoito anos entupida de responsabilidades até o pescoço, desaforos mal resolvidos, jurada de morte por muitos e tendo que correr atrás de um desempenho escolar melhor se não quisesse passar a vida toda trabalhando para cobrir um plano mínimo de aposentadoria no futuro.
A Higurashi Kagome que aprendeu a falar menos e a ouvir um pouco mais antes de estourar.
Foi por isso que, enquanto passava os cabelos para um lado dos ombros, tentou outra vez: — Certo, seu pai, você deve ser orgulhoso sobre isso, não é? Forte e tudo mais. . . — E continuou. — Mas por que está assim?
— Assim como?
— Você sabe, nessa forma de criança. — Apontou para ele, mexendo o indicador para cima e para baixo.
— O que é forma de criança?
— Ah, desculpa. — Ela sorriu curto dessa vez, batendo leve na própria testa. — Filhote?
— Oh.— Ele afugentou os olhos que estavam sobre ela para focar num ponto inexistente no chão ao tempo que juntava as mãos entre os joelhos. Parecia constrangido quando voltou a falar. — Você também acha?
— Quê?
Ele abaixou o olhar mais uma vez e soube imediatamente que não havia pretensão de resposta. Vácuo. Ela bufou, abanando a cabeça para os dois lados fortemente, frustrada com o momento que vivia.
— Isso não é brincadeira Sesshoumaru.
O tom mudou perceptivelmente o que o obrigou a olhá-la mais uma vez, analisando.
— Não estou brincando, só perguntei.
— Isso é sério, quero saber porque está parecendo uma crian-. Filhote. — Corrigiu-se no final.
— Não diga isso, não mais, era por isso que eu estava caçando! — O tom mudou, páreo com o dela dessa vez, embora infantil. — Já cresci, posso cuidar de mim, de tudo agora!
Um minuto de silêncio inteiro se fez e apenas o crepitar da madeira e a respiração pesada podiam ser escutadas.
— Quê? — Foi a única palavra que conseguiu sair em sua tamanha descrença, ao mesmo tempo que as pontas das unhas coçavam o braço e uma careta enrugada se formava no rosto de tão franzido. Aquele homem estava agindo como criança. Mesmo. De verdade. Quis rir.
Ela estava prestes a pedir para que a palhaçada acabasse, quando se lembrou que nunca tinha visto Sesshoumaru utilizar sentimentalismo para vencer alguém.
Das vezes que se encontraram, ele mostrou uma imagem que o encaixava mais nos tipos de durões que não faziam rodeios e que não usavam artifícios para derrubar quem quer que fosse. Era daqueles que gostava de vencer na força e habilidade. Prova maior era de que nunca havia declarado interesse na Shikon no Tama.
Foi assim desde a primeira vez na luta pela Tessaiga e como na última, meses atrás.
Ele também não gostava de humanos. Pensando mais além, não fazia sentido estarem dialogando quando ele poderia matá-la. Foi aí que algo veio a mente e talvez, apenas talvez. . .
— Você se lembra de mim? — Questionou e ele parou o que fazia para subir as órbitas e encará-la. Não deu tempo para uma resposta, porque ela continuou rápido. — Kagome, sacerdotisa, amiga do seu irmão.
— Mas eu não tenho irmãos! — Foi a vez dele franzir o rosto, alarmado. — Você está confusa, sou herdeiro único do Oeste.
— "Sem irmãos." — A jovem repetiu mentalmente.
— Se lembra das pessoas que viajam contigo? De Jaken, de Rin e tem um dragão de duas cabeças também. . . Não sei qual o nome, droga.— Estalando um dedo no outro, ela tentava puxar da mente como Rin os chamava.
Não houve resposta da contraparte.
— Qual é mesmo o nome, Uh-Á, Ur-Ah? — Pediu.
— Não conheço ninguém com esses nomes e não tenho nenhum dragão. — Disse, respirando fundo. Segundos depois, acrescentou. — Só um ovo, na verdade.
E era tudo verdade. Ele havia sido presenteado com um ovo de dragão alguns meses atrás pelo herdeiro das terras do Sul, bom amigo de seu pai, e de apenas cinco dezenas de anos à sua frente de diferença.
Quando recebeu em mãos, bem lembrava, foi uma das coisas mais extraordinárias que havia visto desde então; Era um redondo imperfeito, a casca bem grossa e áspera com pequenas crateras esverdeadas no centro que clareavam nas beiradas. Medindo, o ovo batia um pouco acima de seus joelhos. Havia um pergaminho junto quando o recebeu, com uma assinatura confusa, que, porém, não restava dúvidas, era do próprio príncipe do Sul:
"Sesshoumaru-Ouji-sama¹, sua primeira grande responsabilidade; Não permita que a casca se rompa pela morte. Mantenha-o morno, nunca frio e jamais fervendo. Minhas melhores expectativas.", era o que nele continha.
Por isso, nos três primeiros dias após a novidade não dormiu, sempre passando as mãos ao redor para checá-lo, tamanho seu medo de falhar com sua futura mascote.
Ele não estava mais lá para cuidá-lo, no entanto.
— Está confusa, humana Kagome. — Comentou, duvidoso em chamá-la pelo nome. Não havia caído bem na língua. — Eu disse o que aconteceu, não estou mentindo. Eu cacei e estava indo para casa. Desviei um pouco do meu caminho, vi uma coisa num poço e—
— Honekui. Poço Come-Ossos. — Ela interrompeu, acrescentando.
— Achei bonita e tentei pegar. — Continuou simplesmente. — Acho que aquilo me puxou e caí. Tive a impressão de ver uma. . . mão.
Toda a linha de pensamento foi cortada pelo que ouviu, contendo seu espanto o máximo que pôde. — Mão? — Limitou-se, aguardando por outra peça de diálogo, que não deixou vir tamanha ligeireza de sua ânsia. — Está querendo dizer que te puxaram para o poço? — Foi impossível não lembrar da primeira vez em que caiu na época feudal.
— Não tenho certeza. A única coisa que sei é que esse não é o mesmo lugar onde eu estava antes. Nevava e não tinha muitas árvores grandes, nem muito mato. — O cenário que viveu poucas horas atrás surgiu como um afresco na imaginação. O cheiro também era distinto, mas em último instante decidiu não dizer. De onde vinha não tinha um forte cheiro de carne humana entranhado no ar. Parecia ter humanos demais ali, muito além daqueles que dormiam ao redor da fogueira, pressupunha. E, nossa, como aquilo fedia. — Eu não sei quanto tempo fiquei lá dentro, mas tem como o inverno se transformar em verão com mágica?
Não sabia responder, mas negou com a cabeça, comprometida com o relato. As peças pareciam se encaixar mesmo não sendo da forma que havia pensado no início.
— Parece que fiquei lá por muito tempo.
— E você não está nervoso com isso?
O corpo dela saltou leve de susto quando o viu pender o corpo para frente.
— Muito! — Ele exclamou sem hesitar para surpresa de Higurashi. Como se percebesse, engoliu em seco ao tempo em que limpava a garganta e alisava as mangas do haori. Ela sorriu na tentativa dele de se recompor, mas o albino seguiu como se não houvesse ocorrido. — Mas sendo quem sou tenho que ser forte, é meu dever.
Kagome manteve um pouco mais seu sorriso, achando antiquada e forçada a forma com que ele se expressava para a idade que aparentava. Era engraçado.— Essa parece uma época diferente da sua? — Arriscou.
— Época?
— Parece que está anos á frente da vida que você conhece, digo.
— Não sei, sou príncipe, não feiticeiro. — Ele bufou, cruzando os braços, esquecendo-se por um instante das feridas recém-cuidadas. Ela reclamaria da resposta malcriada se ele não houvesse antecipado sua próxima indagação. — Mas acho que não. Só quero voltar para casa, você sabe por onde devo ir?
Kagome respirou profundo. — Tudo bem, depois a gente. . . — Fez uma pausa, ouvindo um bocejar vindo além deles. Ela girou a cabeça um pouco a direita para atestar a confirmação. A cabeça de Sesshoumaru imitou o movimento também.
— Vamos dar um jeito, apenas não se esforce, por favor.
— Ohayo², Kagome-san.
Ela mexeu os olhos para avistar o céu, a pele do pescoço esticando instantaneamente. Não havia mais estrelas, salvo um céu limpo, azulado bem claro, ainda sem Sol.
Abaixou a cabeça, pensando no que deveria dizer. Entre o tempo ligeiro que levou para encerrar um movimento e iniciar outro, a boca entreabriu exatamente duas vezes. Não sabia o que dizer, como explicar, por onde começar.
Foi aí que ela percebeu que não havia pensando em algo quando isso ocorresse, mesmo sendo evidente e inevitável. Então, sorriu automático e respondeu aquilo que lhe parecia mais óbvio:
— Ohayo, Sango-san. Bem. . . Esse é—
—Eu sei quem ele é.
-XXX-
E foi tudo.
Sango não havia feito perguntas. Limpou o rosto, ajeitou o cabelo e arrumou suas coisas. Ela achava ter sido discreta quando cutucou para despertar Miroku e cochichar sobre algo, mas Kagome notara e tinha uma leve idéia sobre do que se tratava.
Ela tentou iniciar uma conversa na expectativa de se explicar, mas parecia que ninguém estava disposto a ouví-la. "Vamos esperar InuYasha chegar, será melhor assim.", foi a resposta mais longa que obteve naquele maldito início da manhã.
Até Shippou, comumente fora dos desentendimentos dos adultos, parecia saber que algo errado havia por ali, porque tinha se afastado como se falar com ela pudesse ser um erro. Não entendera aquilo, honestamente. Tudo parecia muito exagerado.
O resto foi silêncio, salvo os sons da natureza, ora e outra os barulhos comuns do acampamento – crepitar das chamas, fungar, zíper de mochila, pisadas.
Havia estado quieta desde então, distraindo-se com as caricaturas que decoravam a borda de sua tigela de plástico; ela não percebera antes aquela minúscula girafa rosa com um sorriso tão largo cravado ali, vejam só. . . !
Espreguiçou-se, nascendo uma tremedeira sem fim por dentro, partindo dos ombros até os joelhos. Mérito do nervosismo. O clima azedo que teve com Sango estava em toda parte e se distrair com aquela tigela era um intento que não estava ajudando de modo algum, nem fazendo o tempo passar depressa. O sono também não cooperava, mas já não tinha como recuperar o atraso.
O forro que havia estirado na grama começava a enrugar pelos movimentos das pernas de dobrar-esticar. O arroz que havia posto para cozinhar logo depois de tomar o coice de Sango começava a ferver sobre a fogueira, finalmente – o que significava que havia conseguido gastar vinte e cinco minutos do início do seu dia –. E que dia.
Decidiu pensar sobre como ajudar o pequeno Sesshoumaru. Aquilo era definitivamente uma problemática. Afogou-se em pensamentos ao som do arroz cozinhando, tentando imaginar inúmeras formas de conseguir fazê-lo pular o poço sem precisar explicar os motivos. Ela não poderia dizer para ele, pois não sabia o preço que pagaria caso essa criança voltasse para casa sabendo disso. . . ! Se ele soubesse, Sesshoumaru cresceria tendo conhecimento com propriedade para impedi-la de atravessar o poço Honekui pela primeira vez ou matá-la antes de libertar InuYasha.
Sem um motivo decente, porém, ela não o convenceria.
Os nós das mãos tornaram-se visíveis. Se sentia miserável ao pensar naquilo tudo. Queria ajudá-lo, de verdade, mas também não queria que situações imaginadas como essas pudessem vir a ocorrer. . .
Levá-lo até seu lar estando naquele tempo presente também estava fora de cogitação. Com Inu Taisho morto, ela duvidava que a mãe estivesse viva para poder cuidá-lo e, na melhor das hipóteses, mesmo se estivesse, onde poderia encontrá-la e como explicar sobre a situação?
Ela olhou para a pequena figura branca sentada sobre seu saco de dormir. Não havia nada naquele rosto.
Sentiu pena; Ninguém se aproximou ou falou com o pequeno dai-youkai. Ele parecia ou muito acostumado a esse tipo de tratamento hostil ou muito educado para falar fora da vez.
No início, quando os integrantes começavam a despertar, ele havia olhado para todos muito rápido e voltado a vista para um ponto do chão ainda mais ligeiro, esperando por alguma coisa, sem nada vir (seria medo de ser pego observando?).
No fim, seus olhos sempre se perdiam nas mãos, mais estreitos que nunca. Ele também pressionava de quando em quando a mão contra a ferida enfaixada, resmungando algo. As vezes, o nariz contraía e as ações anteriores se repetiam como num loop.
Estava muito desconfortável, Kagome apostava. Não poderia julgá-lo por isso. Levantou-se e foi até ele.
— Você quer se lavar? Existe um riacho perto daqui, posso te levar até lá.
— Não precisa. Estou bem.
— Não vou olhar, prometo.
Ele estatelou dentro dos olhos dela como se o cérebro tivesse economizado energia dos movimentos para captar a piada. Ele não tinha respostas prontas para aquilo, aparentemente.
E então, ele riu. Ela também. Uma risada curta, suave, mas Kagome sentiu pela primeira vez que havia chegado em algum lugar com ele.
— Humana Kagome. . .
Ele fez sinal com a mão querendo falar ao pé do ouvido. Higurashi apenas obedeceu. Então disse bem baixinho: — Acho que eu devia ir embora agora.
— Quê?! — Ela, por vez, se afastou de relance, voltando a posição anterior enquanto se olhavam diretamente. — Por que?!
O rosto pálido de repente se avermelhou quando percebeu que a garota não iria abaixar a voz como ele. Ninguém ainda parecia prestar atenção quando averiguou ao redor.
— Não me querem por perto. — Respondeu continuando no mesmo baixo tom, as sobrancelhas curvadas para baixo.
— Ah, isso? Você entendeu errado.
Ele rebateu negando com a cabeça durante as últimas palavras ditas por ela.
— Você é bem-vindo, Sesshoumaru. Desculpe s—
A cortou. — Não sou, eu sei. Soube no primeiro instante em que eles olharam para mim.
Tentou desconversar, não convencida. — Não tem nada a ver com você, é s—
— Eu ouvi.
Os olhos arregalaram levemente e, num breve instante, Higurashi ficou sem reação diante daquela última declaração. Não imaginava que houvesse tanta sagacidade nele, o estava subestimando. Definitivamente a perceptividade de crianças youkais era diferente de crianças humanas e não era apenas porquê ele tinha uma audição melhor. Era pelo conjunto de tudo.
Deixaram de se encarar repelidos pelo constrangimento, ele, escondendo suas feições sob a franja e perdendo-se nas mãos como noutras vezes e ela, olhando para a grama de soslaio, sabendo imediatamente que o pequeno Sesshoumaru não diria nada mais.
— O problema é mais comigo do que com você. . .
Lentamente, ela pôs uma das mãos sobre os cabelos brancos, abaixando o próprio rosto para tentar vê-lo nos olhos, em vão. Sussurrando, perguntou: — O que você ouviu, Sesshoumaru?
Arfou, coçando a cabeça diante daquele silêncio. Ela soube que haviam sido coisas piores do que imaginara quando viu o pequeno fungar e passar os dedinhos sobre os olhos enquanto continuava a esconder seu rosto sob a franja. Não era necessário vê-lo nos olhos para saber que Sesshoumaru lacrimejava; sua mão o afagara de leve quase ao mesmo instante em que chegara a conclusão.
— Tudo bem, você não precisa dizer. Não devem ter sido coisas boas.
Não houve nada mais que o silêncio depois, mas não se importou dessa vez.
Estendeu bem os braços para um canto da esquerda para agarrar sua mochila, enquanto olhava ao redor. Em seguida, fechou a bolsa com um pedaço de pano numa das mãos. Umedeceu-o com a água de sua garrafa e voltou a encará-lo. Ele já tentava se recompor.
Se Kagome estivesse certa, aquele Sesshoumaru nunca encontraria o caminho de casa estando naquele tempo, porquê, em alguma floresta distante ou até mesmo ali, estava sua versão adulta. Aquele sob seu resguardo era uma versão passada e ele devia atravessar o poço como ela própria sempre fizera.
— Eu queria que suas feridas melhorassem antes que você partisse.
Ela não esperou por um comentário. Levantou o queixo do filhote de dai-youkai e com o pano começou a esfregá-lo.
— O qu—. O que está fazendo?! — Ele reagiu instantaneamente àquilo, o tom de voz saindo abafado pelo pano, estando um pouquinho quebrado pelo recente lacrimejar; Suas mãos tentaram apanhar as dela durante algumas vezes e as pontas das unhas muito finas arranharam-na superficialmente, mas ela não reclamou: Sesshoumaru não tinha a intenção e nem havia notado.
— Se não vai se lavar, estou limpando um pouco dessa sujeira do seu rosto! Parece um porquinho!
Ela afastava o pano um pouco, voltando depressa para limpá-lo novamente. O lapso de instantes permitia a ele que entreabrisse os olhos, tentando ganhar alguma vantagem para apanhar a mão dela de novo e de novo. E de novo. Na segunda falha, Kagome sorriu sem som. Na quarta, ambos riram.
Ela considerou que havia ganhado permissão quando ele se aquietou, as risadas ficando para trás lentamente e continuando em sua memória, registrando o momento.
— Posso?— O albino perguntou depois de um tempo.
Ela, por vez, estendeu o pano sem cerimônia para ele continuar o trabalho, levantando-se em seguida. Caminhou em direção a fogueira, o arroz estava pronto. Em seu íntimo, Kagome sabia que algo sairia mal quando InuYasha se inteirasse da situação a julgar pela forma como seu grupo estava se comportando. Devia se preparar.
Mas, primeiro, ela tinha como meta impedir que seu nervosismo transparecesse quando finalmente pegasse o cabo daquela panela.
-XXX-
Ela se esforçou ao máximo para manter uma postura calma e natural, tentando não espiar os movimentos de Sango ou dos outros no acampamento.
Seu coração falhou uma batida ao ouvir os galhos de algumas árvores estalarem frenéticas, como se alguém estivesse passando por elas. Não se enganou, era InuYasha lá, que, num movimento rápido para seus olhos, houvera saltado para estar em sua frente. Ajeitou algumas madeixas morenas que saíram do lugar com o forte vento que veio.
— Hey, Kagome, encontrei seu arco perto do poço, então eu. . .
Seus botões amarelos apertaram fixamente nos marrons dela enquanto as narinas se alargaram olfateando o ar, analisando os aromas. Ela segurou o fôlego, sentindo uma expectativa angustiante sobre o desfecho da dedução, na qual, sabia, ele estaria por descobrir. Inconscientemente, havia se posto na frente do pequeno dai-youkai.
— Kagome. Esse pivete. . . — InuYasha se calou por um momento, não suspendendo o raciocínio no entanto. — Ele. . . Ele cheira como aquele desgraçado do Sesshoumaru!
— " Hoje eu não durmo. . ." — pensou.
— Nossa, não sabia que hanyous falavam! — O menor comentara interessado, seu entoar empolgado cravado como ferrão nos tímpanos do meio demônio. — Nunca tinha visto um mestiço de perto, na verdade.— Acrescentou, sincero.
InuYasha rosnou e o menor pulou, os dedos pendurados no pijama da morena como se ela pudesse protegê-lo do mundo, de verdade.
— "Definitivamente."
— Kagome, o que esse filho da p—
— Posso explicar. — O tom saiu mais ansioso do que imaginava.
Em algum momento, os demais integrantes começaram a se aproximar, criando um círculo imperfeito em volta dela e de Sesshoumaru, mas mantendo ainda uma distancia. Então, InuYasha os olhou um a um, sem mover qualquer outro músculo e cruzou os braços, esperando que algum deles falasse primeiro. Isso espantou ainda mais Kagome, que esperara um cenário mais caótico e grosseiro, porque nunca foi diferente quando envolvia InuYasha.
— Mas antes, será que podemos conversar longe das crianças? É muito mais complexo do que qualquer um de vocês pode imaginar. — Tentou, mas ninguém pareceu ter vontade suficiente para atendê-la. Ela se lembrou tardiamente que crianças não eram poupadas de nada no feudalismo como eram na contemporaneidade.
InuYasha logo indagou. — Longe por que? Diga logo de uma vez que coisa estúpida!
— Comece por favor, Kagome-sama. —Foi Miroku quem falou, prevenindo discussão desnecessária. Sentou-se sobre os joelhos, aguardando.
Ao tempo, Higurashi passou rápido a língua sobre os lábios secos e respirou fundo, suspendendo o ar dentro dos pulmões. Seu coração batia forte e nervoso, não se sentia pronta. Mesmo assim, iniciou. — Pois muito bem. . . , ele ! — Dirigiu seu olhar para o pequeno, chacoalhando uma vez a mão direita sem saber o que dizer. Havia dado um branco terrível! — Ele precisava da minha ajuda, nos encontramos no poço. Estava ferido, como vocês perceberam. . . Então eu ajudei.
Ela pensou em acrescentar que não sabia de quem se tratava propriamente antes de chegarem ao acampamento, mas esse detalhe — esse grande detalhe — alarmaria o pequeno Sesshoumaru de que escondia algo sobre ele. Assim, matou as palavras na garganta.
Silêncio. Por dentro estava gelada.
— Isso é tudo? — Questionou Sango, as sobrancelhas levantadas e os olhos levemente arregalados, descrente. Um pouco mais baixo e quase ao mesmo instante, pôde ser ouvido um 'E daí?' de InuYasha entre uma curta risada semelhante a um bufar arrogante.
— Nós ainda não sabemos ao certo o que aconteceu. Eu o encontrei dentro do poço, já disse. — Ela narrou mais alguns fatos, tentando não deixar muito óbvio para Sesshoumaru que ele estava no futuro, no meio de gente que sua versão adulta havia prejudicado.
Mais silêncio.
— Ele não se lembra de ninguém. Digo, não conhece. — Comentou, corrigindo-se ligeira enquanto passava a mão na testa. Se sentia pressionada por todos os lados! O pequeno Sesshoumaru, em contrapartida, assustado, ouvia tudo em silêncio, colado atrás dela. Ele estranhara as palavras escolhidas por sua salvaguarda, mas não deu muita importância ao erro magistral.
Ele sentia, sem muito esforço, o pânico exalando dela.
— E você acreditou mesmo nele? — A voz de Sango sobressaiu novamente na discussão, seus gestos deixando transparecer impaciência e indignação. — Acreditou em tudo que ele disse? Na história do ovo de dragão, de não conhecer nenhum de nós, de estar caçando. . . Diga que não Kagome, por favor.
— Espera, como sabe de tudo isso ?
Uma mistura de vozes cruzadas formou um burburinho alto que rapidamente se desfez.
— Nós estávamos acordados. Queríamos ver o que você faria sobre a situação, porque não é a primeira vez que você sai às cegas pela floresta sozinha à noite, ignorando tudo que dissemos à respeito disso.
— Pedimos pra Kirara te seguir. — O comentário de Shippou saiu hesitante entre os dentes. A ponta dos indicadores batiam um no outro a tal nível de ficarem avermelhados.
— Então vocês também ouviram a explosão! Fui ver o que tinha acontecido.
— Não justifica! Só um louco suicida percorre a floresta à noite. Aquilo tudo é tomado por monstros, Kagome-sama, por gente perigosa, de más intenções, já te dissemos mil vezes! — Miroku vociferou alto e todos se voltaram para averiguar; Era algo inédito vê-lo fora de si fora do campo de batalha. As olheiras escuras sobressaiam do seu rosto muito claro, mais do que seu olhar duro, levemente cobertos pela franja rala e espetada.
Kagome balbuciou um par de vezes, sem reação. Mais ao norte de si, o olhar estreito de InuYasha a engolia viva.
— Eu. . . Eu. . .
— Você pensou em algum de nós quando trouxe ele pra cá? — Ela ouviu alguém dizer entre os burburinhos agitados que recomeçou, uma voz sobre a outra loucamente.
—Pensou, Kagome? — Repetiu Shippou, indo em sua direção, magoado.
A garota continuou muda, irresoluta e sem fôlego. Seus pés estavam cravados no chão como uma vareta frágil e suas piscadas estavam frequentes, como se os olhos estivessem de frente para um ventilador em potência máxima. Ela se sentia numa corda bamba, quando, na realidade, estava no meio de um tiroteio.
Como haviam chegado naquele nível exaltado de discussão? Sua cabeça girava.
— Você tem um coração formidável, admiro isso em você, Kagome, mas . . . — Sango fez uma pausa bufando arrastado enquanto as mãos descansavam na cintura, a cabeça abaixando de maneira melancólica. Essa amostra de decepção fez Kagome estremecer sobre pedaços de pele. — O que fez foi perigoso. Podia ter sido uma armadilha ou pior, não sei. Pode ainda ser uma armadilha, aliás. Você desrespeitou a todos nós trazendo alguém para o acampamento sem permissão, colocou o grupo em risco.
Mais desordem, muitas vozes querendo falar ao mesmo tempo. Se desconectou. Sua cabeça continuava a dar voltas quando sentiu um aperto forte nos três últimos dedos da mão e olhou em direção. Algumas vozes se digladiavam ao fundo, a de InuYasha mais forte do que a de Sango, misturados com sons de passadas, estalos de folhas e galhos. Pestanejou até ser puxada de volta para a realidade sobre a íris dourada do pequeno Sesshoumaru. Ela o viu gesticulando a boca para dizer algo, mas não entendeu com tanto tumulto ao redor.
Ela quis ajudá-lo. Não, ela ainda queria ajudá-lo. Essa era sua natureza, sendo defeito ou não.
— Afaste-se dela, desgraçado! — Ela voltou a si quando Sesshoumaru obedeceu a esse insulto, tentando se afastar.
O impediu, por vez, segurando a mão que antes estava sobre a sua. — Confie em mim. — Murmurou, riscando os lábios para cima. Ele demorou um pouco a reagir, a boca fina entreaberta. Carregava um brilho indecifrável no olhar ao acenar, segundos depois, afirmativamente para ela.
— O que queremos dizer Kagome-sama, é que dois anos se passaram e possuímos menos da metade dos cacos da jóia e quase nenhuma pista sobre Naraku. Já conversamos sobre isso antes. Nenhum de nós quer dedicar a vida toda a isso, você sabe. Se você morresse—
— Peço desculpas pelo que causei a vocês, a última coisa que quis foi aborrecê-los. Também quero que isso tudo acabe da melhor forma possível, mas não podia deixá-lo sozinho. Seria desumano. Além do mais, ele irá quando estiver melhor.
— Ele vai agora. — Disse InuYasha com muita ênfase.
Kagome o encarou firme, discordando.
— Quando estiver melhor.
— Agora.
— Não.
— Agora.
Ela pensou em continuar, mas logo deu por si que não chegaria a lugar algum, a não ser aumentar sua própria raiva e mal-estar.
Nenhum deles desviou o olhar ou mudou a postura, seus semblantes estavam intactos também.
Um par de anos atrás, ela o teria mandado direto ao chão pelo Osuwari. E então estaria tudo acabado, venceria. Ela o fez muitas vezes quando perdia fôlego numa de suas brigas, que, paradoxalmente, também eram menos complexas como as recentes.
Não. Não o faria, nada mais era simples como noutro momento.
Ela havia amadurecido e mudado. As duras viagens e a realidade de estudos forçaram-na a isso. Somado a isso as dificuldades também cooperaram no desgaste da relação entre eles. De todos eles, aliás. E Kagome percebeu isso de forma explícita quando num período qualquer de viagens ouviu Miroku comentar de que aquilo já estava se transformando numa espécie de abuso, da qual toda vez que InuYasha divergia de sua opinião, usava. Covardemente usava.
No mesmo par de anos atrás nunca imaginaria Miroku falando sobre algo do gênero.
Ela se justificou pelo fato de que o hanyou gostava de brigar e não de conversar e de que era grosseiro. Mas Miroku seguiu inarredável. — "Kotodama³ é um instrumento para ajudá-la a contê-lo quando ele se mostrar uma ameaça, não é uma arma para fins de submissão, Kagome-sama.", foi o que o moreno disse com muita naturalidade e educação e que mais tarde se tornou um desconfortável pedaço de memória.
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Continua
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#Notas da Autora:
Olá,
Eu quis mesmo ter postado antes, mas trabalhar e estudar é dureza.
Agradeço (!) aos comentários dos 'anônimos' neiva e CyT (embora faça algum tempo) com expectativa de ter divertido vocês com esse segundo capítulo (se estiverem lendo ainda). Depois de um tempo sem ler comentário nenhum fiquei bem contente no dia que bati os olhos no de vocês. Acho que é esse um dos encantos das reviews.
Meus agradecimentos também aos trezentos e trinta e um demais visitantes que tomaram o tempo (ou não, LOL) em ler o primeiro capítulo. Aos que enviaram My Puppy aos favoritos, igualmente.
Continuarei a respondê-los como sempre. E que venha o oitavo review, wiiiiiii! #ansiosa
O terceiro capítulo já está em andamento, tentarei não demorar tanto quanto esse. . . !
D. CupCake
#Vocabulário e interpretação de texto:
Ouji-sama: Também Ôji-sama, do japonês, 'príncipe'.
Ohayo: Do japonês, 'bom-dia'.
Osuwari: O famoso 'senta!'.
Kotodama: É o nome do colar que InuYasha usa.
Mundicie: Antônimo de imundície, limpo.
Trinta e nove. Segundo a numerologia, nove simboliza o final de um ciclo e o começo de outro.
"(...)Ele havia sido presenteado com um ovo de dragão alguns meses atrás(...)" - Meses atrás na percepção de tempo dele! No tempo atual da narração esse ovo eclodiu há muito tempo.
