Dois anos depois, 1846.
Londres
Era em uma pequena casa alugada próxima ao centro de Londres que vivia, por ora, a atriz Tânia Denali. Pequena, mas bonita e bem-cuidada, localizada em uma rua menos agitada. Ela poderia muito bem ficar em um hotel, como o resto da companhia, mas preferia ficar em um lugar que pudesse chamar de casa pela temporada em que apresentaria a peça no teatro.
Naquela manhã de domingo, Tânia dormia com um meio-sorriso em seus lábios, a cabeleira loira-arruivada caía em cachos abaixo dos seus ombros. Encostado a parede do quarto, um homem com cabelos cor de cobre e olhos verdes a olhava, pensativo.
Edward Cullen voltara a Londres após concluir sua faculdade de medicina, e em uma de suas primeiras noites na cidade fora ao teatro, ficando, desde então, obcecado com Tânia ao vê-la atuar. Perdera a conta de quantas flores e presentes enviara, de quantas cartas escrevera, de quantas noites esperara pela oportunidade de falar com ela.
Sem dúvida, sua conquista mais difícil até então, incluindo na lista púdicas mulheres casadas. Tânia havia sido difícil, mas compensara o esforço. Ela era linda, meiga e deliciosa para ele. Aquela noite com ela tinha sido melhor do que imaginara.
Então, por que sentia aquele vazio ao contemplá-la, adormecida? Era como ir a um banquete ou uma festa, e finda a diversão, sentir somente tristeza. Será que era culpa de sua alma imoral? Depois de tantos amores, tecidos em ilusão e fingimento, ele só encontraria insatisfação? Incomodava-o ver já nos olhos dela o brilho de devoção a ele, quando tudo o que Edward sabia poder sentir era uma poderosa luxúria, e um tanto de admiração. Admiração por Tânia, mas tantas vezes nem isso houve, apenas jogo.
Edward suspirou e passou a mão pelos cabelos, sentindo-se desgraçado. Caminhou até a grande janela do quarto, olhando para o céu. Se houvesse um Deus, haveria perdão para tantos pecados que ele cometera? E que, provavelmente, continuaria comentendo devido a sua fraqueza?
De repente, o vento trouxe pela janela aberta o barulho de cascos de cavalos, cortando o relativo silêncio da rua, naquela manhã de domingo. Era uma carruagem puxada por dois cavalos negros, que vinha diminuindo o ritmo. Não demorou muito para que retrocedessem a um trote lento, e Edward pudesse ouvir os risos femininos que vinham dela.
E então ele viu duas garotas na carruagem, que era aberta, ambas pareciam não ter alcançado os vinte. Uma delas, a que segurava as rédeas, era uma loira estonteante, em um vestido rosa. A outra, menor e morena, usava um vestido branco e a risada cristalina certamente vinha dela. Edward notou que deviam ser ricas, mas descuidadas, nenhuma delas usava luva ou chapéu, o que as tornava ainda mais encantadoras.
De repente, a carruagem parou, bem a altura da casa, e, devido ao silêncio e a voz alta que usava, Edward pode ouvir a loira dizer:
- Já chega, Bella! Não quero mais guiar! - praticamente gritava ela, furiosa - Você fica rindo, debochando de mim, diabinha!
A outra soltou mais uma risada gostosa, as faces rosadas de animação:
- Meu Deus, Rose! - disse ela, e sua voz era delicada, macia, mas não baixa - Imagina se Royce ver você fazendo um escândalo desse, querida, o que vai pensar? É capaz de cancelar o casamento!
Rosalie Hale olhou para a face delicada de sua prima Isabella Swan, cuja boca estava contorcida num sorriso lindo, e não conseguiu mais ficar brava com ela. Era sempre um prazer ver Bella verdadeiramente alegre,e não fingindo sentimentos em um salão para conquistar e ferir rapazes.
- Você deve ser alguma feiticeira, Bella. Se fosse outra, já tinha torcido o pescoço. - Isabella deu um leve beijo em sua face, dizendo
- Venha cá, querida. Vou ensinar a maneira correta de conduzir - disse, pegando a rédea das mãos da prima - Primeiro, segure-as com mão leve, está vendo? Agora tente você. Isso, muito bem, agora podemos ir... - e a carruagem seguiu, devagar no seu caminho.
Edward observava o veículo ir, distraído, quando sentiu uma mão suave tocar o seu ombro. Virou-se e viu Tânia, deslumbrante em sua camisola, impossivelmente bonita pela manhã.
- Bom dia, Edward - disse ela. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, as mãos do homem a sua frente envolveram sua cintura, e lábios famintos cobriram os seus.
Residência dos Cullen
Mais tarde naquele dia, Edward entrava na propriedade de sua família, um tanto afastada do centro de Londres, mas ainda dentro dos limites da cidade. Vinha pensando que provavelmente teria problemas com o horário que estava chegando em casa.
Encontrou seus pais, Esme e Carlisle, sentados na sala em que custumavam receber. Seu pai lia o jornal, enquanto sua mãe bordava um lenço. Ninguém ergueu os olhos quando ele entrou, estavam propositalmente ignorando-o. Bem, ele esperara uma recepção fria, mas aquele exagero o pegara de surpresa. Mesmo assim, inclinou-se para beijar o rosto de Esme, como sempre fazia.
- Edward Cullen - soou a voz firme do seu pai, de um modo que o sobressaltou e o fez congelar no meio do caminho - Não se atreva a beijar sua mãe com essa boca que sabe-se-lá Deus onde andou.
Edward não disse nada, sentiu-se imediatamente confuso e um tanto envergonhado. Mesmo assim, tentou se emendar:
- Pai, eu não...
- Não se faça de inocente, Edward! Admito tudo, mas não mentiras! - disse Carlisle. Edward estava horrorizado, nunca vira seu pai na vida com um humor que não fosse calmo, sereno.
- Você nem se lembra que dia é hoje, não é, meu filho? - disse a voz magoada de Esme. Edward olhou para ela, tentando se lembrar de alguma data importante. Ora, com certeza não era aniversário de ninguém da família...
- Edward! - disse Esme novamente, percebendo que de fato ele não lembrava - Hoje você vai rever sua noiva, Edward... Temos um jantar na casa dos Swan.
Ah, sim!, pensou Edward. Ele havia se esquecido completamente de sua... noiva, prometida a ele desde o dia em que nascera. Renee Hale Swan e Esme eram amigas de infância e prometeram que a primeira filha deles se casaria com o primeiro Cullen gerado por Esme. Emmett era o filho mais velho de Carlisle, mas fora gerado no casamento com a primeira esposa. A mãe do primogênito morrera ao dar a luz, e pouco tempo depois Carlisle se casou com Esme, sendo ela a única mãe que Emmett conhecia e podia se lembrar. Não havia diferença no modo que ela tratava a ele, e a seu primeiro e segundo filhos biológicos, Edward e Jasper.
Mas toda a história convergia para um fato: por causa da promessa, era necessário que Edward casasse com a senhorita Swan mais velha, Isabella. Ele não se importava com isso, na realidade, considerava um favor que lhe faziam. Se amasse alguém, seria diferente. Mas ele não amava, e queria de fato ter seus herdeiros, continuadores do nome Cullen, e se pudesse fazer isso honrando a promessa da família, melhor seria.
O dia passou rapidamente, e a noite, Edward descia as escadas para encontrar seus pais e irmãos a sua espera. O caminho de carruagem a casa dos Swan foi embalada por uma conversa sobre o casamento de uma prima de Isabella com Royce King, um excelente partido.
Edward não prestava atenção. Estava concentrado em lembrar o rosto de sua noiva a quem não via há pelo menos dois anos, em vão. Tinha apenas uma vaga ideia de que era uma menina morena. Mas agora devia estar com seus dezesseis anos, e já havia ouvido falar nela. Emmett, muito próximo de Isabella, lhe informara que era agora uma linda moça, com muitos apaixonados. Alertara também que costumava brincar com eles, e esse era um dos seus encantos. E sim, não poderia se esquecer, gostava que a chamassem de Bella.
Finalmente chegaram a casa dos Swan e o sol ainda não se pusera quando a carruagem passou pelos enormes portões de ferro. A alameda de pedra era circundada por um gracioso jardim. A casa em si era branca, imponente, e um empregado os esperava.
Quando entrou, a primeira coisa que viu foi o casal Swan, Charlie e Renee. O homem era moreno e alto, enquanto a esposa tinha cabelos castanhos claros e uma compleixão baixa e delicada, os lábios carnudos, os olhos grandes remetiam a descendência italiana da mulher. Atrás deles, três graciosas e diferentes figuras. Um jovem homem, parecido com o pai, porém ainda mais moreno. Edward o conhecia muito bem. Era um grande amigo de Emmett e que tinha a mesma idade. Era também um bom amigo seu, cursaram a mesma faculdade de Medicina, mas por ser mais velho, Jacob já terminara.
Ao lado dele, uma menina com menos de quinze anos, talvez, pequena, de compleixão frágil, os cabelos presos em um coque gracioso. Seus olhos dançavam de um lado para o outro, expressando animação. Parecia nova demais para ser sua noiva, por isso, Edward pressupôs que fosse Alice.
E, finalmente, Isabella, mais alta e vigorosa que a irmã. Tinha realmente os cabelos escuros, que usava meio soltos, cascateando. Os lábios vermelhos, cheios, exibiam um meio-sorriso, que era mais para si mesma do que gentileza. O vestido bege com bordados de pedrinahs que usava moldava-lhe perfeitamente o corpo, mas seu colo não se via, ainda que Edward considerasse que devia ter a mesma pele delicada e branca de seu pescoço. A cintura era pequena, com um braço ele a circundaria. Então voltou ao rosto. Delicado, meio petulante, confiante em si. Mas os olhos... Cor de chocolate, grandes e lindos, com algo frio que fez Edward perceber que Isabella era uma atriz. E ele reconhecia, agora, uma das meninas da carruagem que vira aquela manhã.
Enquanto isso as apresentações eram feitas. Edward se inclinou para beijar a pequena mão que Bella graciosamente estendia. Quando os lábios dele tocaram a sua pele, ela não estremeceu ou ficou ruborizada, como todas as mulheres ficaram por Edward antes dela.
Isabella examinava os visitantes durante o jantar, e tinha de se conter para não dar uma risada irônica. Esme e Carlisle, ela conhecia de longa data, desde sua infância, e eram as pessoas que ela mais admiravam no mundo. Mas, não podia deixar de sentir pena deles, pelos filhos que tinham. Não por Emmett, seu amigo querido, forte, inteligente e honesto acima de tudo. Ele podia não levar as coisas muito a sério as vezes, tinha um espírito quase selvagem, gostando demais de caçar e cavalgar, e também de jogar. De vez em quando arrumava alguma briga, para sua diversão, e sempre ganhava. Mas sempre estava atento aos negócios da família, e disposto se alguém necessitasse dele.
O pior mesmo eram Jasper, e pelo visto, seu futuro marido, Edward. Jasper era um poeta, amante da boemia. Várias vezes parecia distante do mundo, dizia-se que bebia muito, trocava de musa como quem trocava de roupa. As moças ficavam seduzidas por sua loirice, tão parecida com a do pai, e seus versos, para terminarem de coração partido. Mas parecia que, pelo menos, ele não desonrava ninguém.
O mesmo não se podia dizer de seu irmão mais velho, Edward. Os boatos, tão logo ele chegara a Londres, percorriam a cidade. Brigas, bebedeiras e mulheres de todos os tipos. Solteiras, casadas, pobres, ricas. Ninguém escapava a ele. Bella sabia que o futuro esposo vinha com um punhado de vício e escândalos, porém, para ela não havia diferença nenhuma. Não gostaria de se casar, no entanto, essa era a única solução decente para uma mulher de sua posição.
Que diferença fazia se era feio ou bonito, inteligente ou ignorante? Nenhuma. Bella era agora uma pessoa totalmente desiludida em relação aos homens, e só vivia para se vingar daquele que acabara tão cedo com suas ilusões. Enquanto esperava a oportunidade, entretinha-se vigando dos outros, por outras mulheres que não podiam se vingar. Ela escolhia a vítima, estudava-a, conquistava fingindo ser conquistada... E então, quando estavam apaixonados, quebrava-lhes o coração.
Nessa linha de pensamento, Bella captou um rápido olhar de Alice em direção a Jasper, cheio de fascinação, e se conteve para não soltar um suspiro impaciente. Só lhe faltava agora sua irmã se apaixonar por um cretino como aquele.
Após o jantar, Charlie tivera a ideia de jogar cartas. Todos se animaram com a ideia, menos Edward, que pediu a Bella e ao seu pai um passeio no jardim com sua noiva. Obtida a permissão, o jovem ofereceu o braço a Bella, que o aceitou com um meio-sorriso. Enquanto andavam vagarosamente, Edward resolveu quebrar o silêncio:
- Permita-me cumprimentá-la, minha cara senhora, por sua beleza essa noite. De fato, minha lembraça não fazia juz a realidade.
A garota se voltou para ele, mirando os dois olhos verdes com os seus, e Edward se sentiu sob a mira de adagas duras e frias. Depois, Bella forçou um sorriso, cuja frieza não podia ser totalmente disfarçada.
- Creio que não haja razão para formalidade entre nós, se estaremos casados daqui há menos de seis meses, não concorda?
- Por certo - disse Edward, sorridente. Nunca encontrara uma moça que se comportasse assim;
- Então chame-me Bella, e eu me darei a liberdade de chamá-lo Edward, se concordar - Edward assentiu - Quanto aos cumprimentos, eu agradeço, mas tenho certeza de que você não guardava nem a lembraça da minha pretensa... hum... - e deu uma risadinha irônica - beleza. Além disso, não há nada impressionante sobre mim, quando pensamos em quão longe estou da senhorita Denali.
Edward a olhou, perplexo. Então ela sabia? E não chorara, não fizera escândalos? Mas de certo exigiria que deixasse a atriz.
- Isabella, eu não... - ela deu uma risadinha, que aos ouvidos de Edward soou irritante
- Meu caro, não precisa esconder nada. Estou cumprindo um dever ao me casar com você, pouco me importa como é, ou o que faz. Então, não perca seu tempo fingindo um sentimento, pois eu não perderei o meu.
Edward não conseguiu falar mais nada, surpreso como estava, ao chegarem as portas da casa.
