Capítulo Dois: Convocações

"Por que toda vez que eu venho jogar começa a chover?" Ron perguntou ao cair sobre o sofá.

"Talvez seja o jeito de Merlin salvar a sua dignidade, já que provavelmente eu serei melhor que você!" Damien respondeu, enquanto carregava mais ou menos cinco garrafas de cerveja amanteigada e as entregava para os companheiros.

Ron apenas lançou um olhar frustrado ao amigo.

"Você realmente se acha." Respondeu o ruivo. Damien deu uma grande golada em sua bebida e apenas sorriu de lado.

Hermione e Ginny estavam sentadas em frente ao fogo, enquanto Harry, Ron e Damien estavam esticados confortavelmente nos sofás da sala de estar.

Uma reunião da Ordem acontecia em um dos cômodos, portanto Harry e os resto tentavam se ocupar com alguma coisa. Infelizmente, o tempo estava contra os adolescentes e a chuva forte os forçava a ficar dentro de casa e sem nada para fazer, a não ser relaxar dentro da Mansão Potter.

Harry nem mesmo sabia o porquê da Ordem estar fazendo reuniões regulares. A Ordem da Fênix era uma sociedade secreta que lutava contra Voldemort, mas se ele não existia mais então por que ela deveria continuar existindo? O garoto manteve suas perguntas para si. Ele não queria se involver em nenhuma discussão relacionada à Ordem. Harry ainda estava muito ressentido com eles.

"Acredita em todas as coisas que teremos que correr atrás esse ano? Quero dizer, os N.E.W.T.S são bem difíceis normalmente, mas ainda por cima teremos que correr atrás das matérias." Hermione estava falando com Ginny, mas todos no cômodo ouviram suas preocupações.

Harry desviou o olhar deles, sabia que fora o principal responsável pelo fechamento de Hogwarts no ano anterior. Era culpa dele que a escola fora considerada perigosa e, logo depois, fechada. Os Comensais da Morte apareceram nos campos de Hogwarts para levá-lo embora e isso fez com que vários pais tirassem seus filhos de lá. Aquilo não sendo o suficiente, o garoto então organizou um ataque ao Expresso de Hogwarts.

Harry sentiu uma reviravolta desconfortável em seu estômago, quando as memórias de seu comportamento passado voltaram com força total. Ele realmente tinha causado um monte de confusão.

Damien estava tentando desviar o olhar e não encarar seu irmão. Todos eles receberam as cartas de Hogwarts naquela manhã. Todos exceto Harry, claro. O menino pensara que depois de tudo o que o irmão mais velho fizera, ainda seria chamado para voltar à Hogwarts. Era apenas justo. Porém, apenas uma carta carregando o brasão da escola fora entregue naquela manhã.

Damien percebera que Harry estava tentando não se sentir afetado com o fato de não estar voltando para Hogwarts, mas conseguia ver através da máscara do irmão. Todo mundo amava Hogwarts, mesmo Voldemort tinha a escola em um pedestal. Ele chamava o lugar de lar. Damien sabia que Harry iria se arrepender de não voltar para a escola. Sem mencionar o quão sozinho e entediado o garoto ficaria quando ele e seus amigos fossem embora.

"Não consigo acreditar que eles mandaram as cartas hoje. Tem apenas uma semana para o começo das aulas. Eles deveriam ter mandado as cartas há semanas atrás!" Hermione disse com uma expressão triste na face, mostrando toda a sua decepção.

"Bem, eles deviam estar ocupados com... outras coisas, sabe." Ginny disse um pouco hesitante. Todo mundo mágico estava muito ocupado com as celebrações da queda de Voldemort para conseguir pensar em voltar ao trabalho ou aos estudos.

Hermione e Ginny continuaram falando sobre Hogwarts, desatentas à tensão que estavam criando dentro da sala. Harry olhou em volta, procurando algo para falar que não fosse sobre escola, mas foi poupado disso quando vozes encheram o salão do lado de fora, indicando que a reunião acabara.

Um momento depois a porta abriu e Tonks colocou a cabeça para cumprimentá-los.

"Beleza?" Ela disse feliz e entrou na sala.

Harry, Ron e Damien sentaram, enquanto Tonks unia-se a eles. Harry a observou conversar animada com todos e percebeu que a cada dia gostava mais e mais da mulher. Ela passara um bom tempo com eles naquelas semanas. Tonks o lembrava de alguém que ele não tinha parado de amar. Fato que não lhe era estranho, afinal ela e Bella eram parentes no fim das contas. Não que Tonks parecesse Bella ou algo do tipo, mas havia algo nela que o lembrava muito da outra. Alguns de seus gestos eram iguais aos de Bella. Havia um enorme sentimento de lealdade nas duas. Bella era leal a Voldemort e Tonks ao lado da luz.

Tonks era muito mais nova e muito mais livre que Bella. Ela conseguia fazer com que ele e Damien rissem, enquanto mudava de aparência. O garoto foi surpreendido uma vez quando a mulher mudou seus cabelos roxos e curtos para um cabelo longo e negro. A semelhança dela com Bella ficou muito mais gritante, então. Foi apenas por um instante, logo depois seu cabelo mudou para um amarelo arrepiado.

Harry voltou de seus pensamentos, quando a porta abriu e um pequeno grupo entrou. Ele viu o olhar animado de seu pai e soube que algo acontecera. James foi seguido por Lily, Arthur, Molly, Sirius, Remus e McGonagall. O garoto percebeu que o sorriso desaparecera de sua face. 'O que McGonagall está fazendo aqui?' pensou consigo.

Hermione ficou com uma expressão animada, quando McGonagall entrou no cômodo. A bruxa de olhar sério lançou a garota a sombra de um sorriso. Harry ficou surpreso ao vê-la aparentar cansaço. A mulher ainda falava baixo com Lily ao entrar na sala. Os estudantes de Hogwarts rapidamente cumprimentaram a Professora, enquanto Harry escolheu ficar em silêncio.

"Eu tenho as melhores novidades!" James disse excitado.

Harry percebeu que Lily lançou um olhar sarcástico para McGonagall, logo depois as duas mulheres sentaram no sofá.

"O que aconteceu?" Damien perguntou imediatamente.

James estufou o peito com orgulho e fez uma expressão de presunção.

"Bem, fizeram algumas mudanças na equipe de Hogwarts esse ano. Adivinha quem vai ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas?" Ele perguntou com um grande sorriso.

O homem logo respondeu a questão, sem dar chance a ninguém.

"Eu! Eu vou ser o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas de vocês!"

As palavras de James foram acompanhadas por silêncio.

"Certo, não me parabenizem todos de uma vez." Ele disse um pouco cabisbaixo.

"Você? Você vai para Hogwarts. Você é meu professor!" Damien perguntou chocado.

Harry teve que segurar o riso ao ver a reação do irmão. Os outros não pareciam se importar. Todos estavam felizes por terem um auror os ensinando.

"Isso é ótimo. Parabéns, . Mas, hum… por que você vai dar aulas? Quero dizer, o que aconteceu com o Professor Snape?" Hermione perguntou educada.

Harry estava pensando na mesma coisa.

"O professor Snape está longe de férias. Ele disse ao professor Dumbledore que devido ao fato de estar trabalhando sob circunstâncias estressantes, pelas últimas duas décadas, merecia um descanço." McGonagall respondeu no lugar de James.

"Como se o resto de nós não estivesse trabalhado sob circunstâncias estressantes." Sirius adicionou em um sussurro.

"Pra onde ele foi?" Como sempre, Damien deixou sua curiosidade reinar.

"Não perguntamos. Era assunto particular dele." McGonagall respondeu.

"Ele deveria aproveitar e ir para algum lugar quente. Me atrevo a dizer que ele precisa desesperadamente de um bronzeado." Ron disse com um largo sorriso.

Harry tentou não rir com a imagem mental de Snape deitado na praia de algum lugar distante. Ele balançou a cabeça para afastar o pensamento perturbador.

Hermione começou a perguntar para McGonagall sobre o curriculum do sétimo ano em Hogwarts. Harry aproveitou essa chance para sair do cômodo. Ele pegou as garrafas vazias de cerveja amanteigada e rumou para a cozinha.

O garoto honestamente não se importava com o fato de não ir para Hogwarts, apenas não gostava de ficar escutando os outros falando sobre o assunto.

Ele jogou as garrafas no lixo e respirou fundo. 'Então todos estarão indo para Hogwarts, até mesmo meus pais'. O garoto pensou se seus pais confiavam nele o suficiente para deixá-lo morando sozinho na Mansão. E respondeu a própria pergunta ao rir internamente.

Ele nunca teria permissão para morar sozinho. Não importava que já tivesse feito muitas coisas piores do isso. Não importava que tivesse morado absolutamente só, pelos últimos seis meses, com praticamente todo o mundo mágico atrás de seu sangue. Para seus pais, ele era apenas um adolescente sem capacidade de cuidar de si.

'Talvez eu possa morar com Remus, ou talvez Sirius.' Mas destruiu a idéia de morar com o padrinho. Não achava que conseguiria suportar o Largo Grimmauld por um ano.

O som de passos alertou o garoto para o fato de que alguém estava se aproximando da cozinha. Ele virou, observou Ginny entrando e sorriu para ela. A menina se aproximou e plantou-lhe um beijo na bochecha.

"Você está bem?" Ela sussurrou, enquanto o abraçava pelo tórax.

Harry sorriu em resposta.

"Por que não estaria?" Perguntou.

"Eu apenas pensei que com todo mundo falando sobre Hogwarts, você poderia estar irritado." Ela respondeu.

O garoto demorou um momento para reunir seus pensamentos.

"Não é irritação. É apenas que... todos estão felizes com a idéia de voltar e tudo bem. Apenas gostaria que falassem sobre isso enquanto eu não estivesse por perto." Disse Harry.

Ginny o soltou, sentindo que Harry estava incomodado com o abraço. Ao invés disso, a menina segurou as mãos dele. O moreno amava o quão intuitiva a ruiva era. Ele nunca precisava pedir espaço, ela sempre lhe dava quando precisava.

"Sabe, existia uma parte em mim que realmente acreditava que você seria chamado para voltar para Hogwarts. Eu não pensei que o Professor Dumbledore o excluiria desse jeito." Ginny disse decepcionada.

Harry apoiou-se casualmente contra a bancada, ainda segurando as mãos dela.

"Bem, para ser justo, eu testei muito a paciência dele." Disse com um sorriso de lado.

Ao ver o olhar questionador de Ginny, explicou.

"Não tratei a escola como um instituto normal. Nunca prestei atenção em nenhuma das aulas, ridicularizei os Professores e fiz com que os Comensais da Morte invadissem o campus e atacassem o Expresso de Hogwarts e aí, apenas para deixá-lo verdadeiramente revoltado, coloquei fogo no Hall de entrada."

As sobrancelhas de Ginny se levantaram chocadas.

"Quando você colocou fogo no Hall?" Ela perguntou com real surpresa.

"Quando fui buscar a espada de Gryffindor, Blake apareceu com um monte de Aurores. Era a única coisa que pude fazer para conseguir fugir." Respondeu.

A face da ruiva relaxou. Ela virou para encarar Harry com um sorriso afetado.

"Bem, quando você coloca desse modo... fico chocada por não terem te chamado de volta. Você faz tudo ficar muito mais interessante." Brincou.

Harry apenas sorriu. Depois de alguns minutos, os dois voltaram para a sala de estar. O garoto estava esperando que McGonall tivesse ido embora, mas ela ainda estava lá.

Alguns minutos depois, a professora se levantou e ajeitou sua capa.

"Devo ir embora. Tenho muitas coisas para fazer." Disse a Lily.

A mulher andou até a porta, mas parou abruptamente. Ela se virou, procurando por alguém. Seus olhos pousaram em Harry e rapidamente a professora andou até ele.

"Eu quase esqueci… aqui, , isso é para você." Ela disse e retirou algo de dentro do bolso de suas vestes.

"Desculpe por não ter chegado junto com as outras. Não sei como, mas algumas dessas se perderam. Pensei que poderia entregar, já que estava vindo aqui." McGonagall continuou, enquanto segurava o envelope.

Harry o pegou, sem realmente entender as palavras da mulher. Ele olhou para o envelope, que continha claramente seu nome impresso em tinta verde.

Damien estava ao lado do irmão naquele momento e olhou para o envelope, antes de gritar alegre.

"Harry! É sua carta de Hogwarts!" Disse ao mais velho.

O garoto observou McGonagall saindo do cômodo, junto a seus pais, em direção a porta de entrada. Ron, Hermione e Ginny estavam com expressões alegres, enquanto Harry ficou parado com a carta presa em sua mão.

"Abra!" Damien disse como se ele mesmo fosse pegá-la e abrí-la.

Harry virou o envelope e observou o brasão de Hogwarts, que o selava. 'Não é possível', pensou. Ele não podia ter sido chamado para ir à escola. Era simplesmente impossível.

O garoto abriu o envelope e cuidadosamente pegou a carta. Ele estava esperando que fosse outra coisa e não sua convocação para Hogwarts. Seu coração parou de bater várias vezes, enquanto ele a lia.

A carta o convidava para atender Hogwarts em seu sétimo ano, listando todos os materiais necessários e as instruções para embarcar no Expresso de Hogwarts no dia 1º de Setembro.

"Sabia! Eu sabia que eles não te deixariam de lado!" Ron disse feliz.

Harry não disse nada. Ele ainda segurava a carta, mas seus olhos não estavam focados nela. O garoto estava perdido em pensamentos. Remus o observou de perto e pôde ver o olhar perdido do moreno, antes que a expressão se fechasse e a irritação o tomasse conta de sua face.

"Harry..." Remus começou, mas foi cortado com a entrada de James e Lily.

"Bem, o que posso dizer? Eu sabia que era um dos melhor aurores, mas para ser chamado a ser professor de Defesa em Hogwarts! Bem, se isso não mostra o quão bom eu sou, então nada irá." James disse, enquanto fazia uma reverência de brincadeira.

"Aw, esse é o homem modesto com o qual me casei." Lily zombou.

"Lily, você quer me encontrar no Beco Diagonal amanhã? Podemos comprar os materiais e as crianças podem se ver." Molly perguntou.

"Isso parece um plano." A ruiva disse sorrindo.

O casal não percebeu que Harry apertava a carta nas mãos. Remus olhou preocupado para o garoto, antes de virar sua atenção para James.

Ron, Ginny e Hermione estavam se preparando para ir embora, todos conversando animados sobre as compras do dia seguinte. A ruiva percebeu o adeus estranho que Harry deu a eles e logo soube que o garoto estava irritado. Antes que ela pudesse falar algo para o moreno, sua mãe lhe puxou em direção a porta, com a intenção de ir para casa e preparar o jantar. A menina saiu com o resto, esperando que Harry estivesse bem.

Lily começou a arrumar a sala de estar, pegando as almofadas do chão e recolocando-as em cima do sofá.

"Posso terminar de fazer as minhas compras amanhã também. Harry, sua carta diz alguma coisa sobre as vestes? Tenho certeza de que precisamos de algumas para você. Eu sei que você não gostou das do ano passado." A mulher estava muito ocupada falando para prestar atenção na expressão do filho.

Ela parou de fazer as coisas, quando Harry começou a falar.

"Eu não vou."

Todos viraram em direção ao garoto. Foi nesse momento que James percebeu a carta amassada nas mãos do filho. O moreno estava com os punhos cerrados e seus olhos verdes brilhavam irritados.

James encontrou-se xingando baixo. O que acontecera agora?

"Você não que ir ao Beco Diagonal?" Lily perguntou, esperando que fosse isso a que Harry se referia.

"Não, eu quis dizer Hogwarts. Portanto, não preciso de nada do Beco Diagonal." O garoto respondeu simples.

Damien ainda estava em pé ao lado do irmão e o olhava confuso. 'Harry não queria ir? Por que?'

"Você não quer ir para Hogwarts?" Sirius foi a pessoa que perguntou.

"Eu não vou para Hogwarts." Ele repetiu a resposta e começou a andar até a saída, com o intuito de ir para o quarto.

"Harry, espera. Acho que devemos discutir isso." James disse, tentando manter a situação sob controle.

"Não há nada o que discutir. É a minha decisão ir ou não para Hogwarts e eu decidi que não vou." Ele disse, ainda com uma voz calma e controlada.

"Não é apenas uma decisão sua. Acho que também temos algo a dizer sobre isso. Você ao menos deveria nos dizer a razão de não querer ir." Lily questionou.

"Eu não preciso ir. Não há nada que aquela escola possa me oferecer." Harry disse.

James trocou olhares com a esposa, dizendo a ela para que não falasse nada.

"Harry, você precisa terminar sua educação. Hoje em dia não existem muitos empregos que você pode ter sem seus N.I.E.M.s. Acho que seria muito bom que você se formasse em Hogwarts." James explicou o mais gentil que pôde.

"Você não pode me deixar decidir sozinho? Tenho dezessete anos. Se eu decidir que não quero ir, então você deveria aceitar isso também." O garoto replicou, perdendo aos poucos sua paciência.

"Talvez devessemos discutir isso depois. Precisamos conversar sobre isso do modo certo." O homem disse, olhando cansado para Lily. Ele não queria brigar com o filho. Se eles conversassem sobre isso depois, talvez Harry estivesse bem mais calmo.

"Eu já disse, pai, não há nada para discutirmos." O moreno disse teimoso, antes de sair do cômodo. Harry foi para seu quarto, ignorando os gritos que o acompanhavam.

Ele não queria que a discussão continuasse. Harry tinha se decidido e era isso. Não que não quisesse ir para Hogwarts, era mais como se sentisse que não devesse ir. Depois de tudo o que aconteceu, o garoto não sentia que pertencia àquele lugar. A escola fechara por sua causa. Como ele poderia voltar?

Também havia o problema com os seus pesadelos. Como ele poderia escondê-los dividindo um quarto com quatro garotos? Quanto tempo se passaria até que alguém o descobrisse? Eles o fariam falar sobre isso, falar sobre Voldemort. Harry não podia lidar com aquilo. Era muito mais seguro ficar sozinho, longe dos outros.

A outra razão era Albus Dumbledore. Ele não conseguia pensar em ficar em uma escola que estivesse sob o controle do homem. Até mesmo o pensamento fazia o garoto se arrepiar. Ele não queria ser manipulado e usado de novo. Nunca mais.

Harry tinha acabado de acalmar seus pensamentos, quando sua porta abriu e seu irmão entrou.

"O que está acontecendo?" Damien perguntou com uma mistura de choque e raiva na expressão.

"Nada está acontecendo." Harry disse sem emoção.

"Então porque você está agindo como uma pirralho de cinco anos? Você estava de bico quando pensou que não ia para Hogwarts e agora que você vai, ainda está de bico. Pare com os seus ataques infantis e vamos lá para baixo." Damien disse ao irmão.

"Cai fora, Damien. Não estou de bico. Eu tenho minhas razões para não ir." Harry parou de falar. Não queria ter que se explicar.

"Por que você não quer ir? Que razões você pode ter?" Damien parou, quando um pensamentos perpassou sua mente. "Você não está com medo, está? Quero dizer, de encarar todo mundo, porque você não deveria estar." O menino tentou confortar o mais velho.

"Por favor, Damy, como se eu estivesse preocupado com o que um bando de crianças pensam sobre mim. Eu tenho outras coisas para me ocupar." Harry parou novamente, brigando consigo. Estava deixando muita informação escapar.

"Sobre o que você está pensando? Harry, está tudo bem?" Damien se aproximou, mas parou quando o irmão lhe lançou um olhar gélido.

"Claro que estou bem! Por que eu não estaria? Apenas vá embora!" Harry vociferou.

Damien ficou parado por um momento, como se fosse discutir, mas então deu meia volta e andou até a porta.

"Quando você se acalmar e perceber o quão idiota está sendo, estarei lá embaixo." O menino disse antes de sair.

Harry caiu sobre a cama com a cabeça nas mãos. Ele não queria ter gritado com Damien, que apenas tentava ajudar, mas não conseguiu controlar suas emoções. O garoto sabia que tentaria fazer as pazes com o irmão mais tarde, apenas não queria se incomodar com brigas naquele momento.

xXx

Damien disse aos outros para que deixassem Harry sozinho e que o irmão estava aborrecido e não queria que ninguém o importunasse. James queria subir e falar com o filho. O homem não sabia muita coisa sobre o garoto, mas sabia que ele não tinha o hábito de gritar infatilmente e se aborrecer por nada. Alguma coisa mais complicada o incomodava e James precisava saber o que era.

Na hora do jantar, Lily chamou Harry e depois de alguns minutos todos estavam em volta da mesa, com exceção a ele. Remus se ofecereu para subir e chamá-lo. O lobisomem queria uma oportunidade para falar sozinho com o garoto.

Eles não conseguiam ver a razão de Harry fazer isso, mas Remus via claramente.

O homem bateu de leve na porta do moreno, antes de entrar. Harry estava sentado na cama com um livro nas mãos, mas não o lia. Remus podia perceber isso só pela maneira como o garoto o segurava.

"O jantar está pronto." Disse ao entrar no cômodo.

"Obrigado, mas não estou com fome agora." Harry disse, sem desviar os olhos do livro.

O homem se aproximou e sentou ao lado do garoto.

"É bom?" Perguntou.

Harry deu de ombros.

"É igual a qualquer outro livro." Respondeu.

"Eu não estava falando sobre o livro." Remus disse com um sorriso cansado.

O moreno levantou a cabeça e o observou.

"Quis dizer se é bom esconder seus verdadeiros sentimentos sobre a razão de não querer ir para Hogwarts."

Harry não respondeu, então Remus continuou.

"Sei o que você está fazendo, Harry. Não vai adiantar. James e Lily nunca vão te deixar sair ileso em relação a algo desse tipo."

"Sobre o que você está falando?" O garoto perguntou um pouco irritado.

"Eu me sentia como você, quando tive que ir para Hogwarts pela primeira vez. Você sabe que eu fui mordido por um Lobisomem quando ainda era criança. Nunca pensei que fosse frequentar Hogwarts. Era impossível. Quando recebi minha carta agi como você. Inventei desculpas para não ir. Eu estava convencido de que não pertencia ali, mesmo que a escola fosse ótima, eu não era uma parte daquilo."

Harry desviou o olhar ao sentir seu estômago revirar.

"É assim que você se sente, não é? Você acha que não pertence à Hogwarts por causa do seu passado."

Harry olhou para Remus.

"Não importa como me sinto. Essa é a verdade e todo mundo sabe disso. Eles estão apenas tentando ignorar." Respondeu.

"Eu sei que falar que você pertence à Hogwarts não vai te fazer acreditar, mas eu vou dizer do mesmo jeito. Você faz parte de lá como todo mundo e não pode deixar a culpa de seu passado te puxar para baixo. Isso não te fará nenhum bem. Sei que você deve ter lidado com muitas coisas ruins, mas essa é a vida." Remus disse a ele com um sorriso triste.

"Não acho que ir para Hogwarts vai deixar tudo melhor. Se vai fazer alguma coisa, será deixar tudo mais tenso do que está. Eu não gosto da idéia de Dumbledore me fazer uma espécie de herói, eu não... não consigo explicar, apenas não quero ficar sob controle." Harry disse, sem realmente querer.

Remus ficou rígido por um tempo, antes de relaxar novamente. Ele deu tapinhas no ombro no garoto e se levantou.

"Eu sei que você não confia nele, posso entender o porquê. Mas, Harry, você tem que acreditar que as pessoas em sua vida não querem controlar você. James e Lily nunca deixariam você ser manipulado de novo. Você deveria confiar neles."

Dito isso, Remus saiu do quarto, deixando um Harry pensativo.

xXx

Lily estava ocupada tentando fazer Damien e James ficarem prontos para a ida ao Beco Diagonal. Eles tinham que chegar no Calderão Furado em vinte minutos para encontrarem os Weasleys. Ela ainda não tinha falado com Harry, desde a noite anterior. O garoto recusara-se a comer alguma coisa e não saíra do quarto.

A ruiva conseguira impedir James de confrontar o filho. Ela sabia que Harry estava apenas tentando pensar sobre as coisas e soube que fora um pouco dura com ele na noite anterior. A mulher entendia que o filho estava nervoso com a idéia de lidar com as pessoas depois do que acontecera com Voldemort. Ele tinha deixado Hogwarts com os Comensais e agora voltaria como um aluno normal. Deveria ser muito tensa essa situação. Ela estava quase subindo com um prato de café da manhã para o filho, quando ele desceu para a sala de estar, completamente arrumado e pronto para sair.

Lily encarou seu filho mais velho vestido em roupas trouxas. Antes que pudesse abrir a boca, Harry começou a falar.

"Você sabe que vamos chegar atrasado se vocês continuarem me encarando desse jeito."

Lily não pôde impedir e soltou uma pequena risada. Harry mudara de idéia! A conversa com Remus havia funcionado. Ele estava indo para Hogwarts. Damien olhou estranhamente para o irmão, mas continuou colocando os sapatos.

"Você pegou sua lista de materiais?" James perguntou sorrindo.

Harry sorriu de lado e andou até a porta.

"Não preciso dela." Ele respondeu. Harry viu a expressão feliz de seus pais murcharem e os deixou pensar por um momento que não estava indo para Hogwarts. "Eu a memorizei. Afinal, sou o filho do grande auror James Potter. Com uma mente igual a minha, não preciso de uma lista." Ele brincou com o pai.

James e Lily riram aliviados, antes de correrem atrás de Harry. Damien sorriu para o irmão e saiu de casa.

"Você não consegue deixar de atormentá-los, consegue?" Damien perguntou, enquanto andava até o ponto de aparatação.

Harry sorriu de volta, antes de colocar os braços em volta do irmão.

"Não seria um dia normal se eu não os deixasse preocupados com alguma coisa." O garoto brincou de volta.

"Então, o que te fez mudar de idéia?" Damien perguntou baixo.

Harry não respondeu. Ele olhou para os pais, que estavam ocupados conversando entre si.

"Percebi que daria uma chance a Hogwarts. Afinal, minha família inteira estará lá. Não quero ser o único deixado de lado." Ele finalmente respondeu.

Damien riu com o irmão, enquanto segurava a mão dele e aparatava junto com seus pais.