Sob os protestos de Clark, e provavelmente por isso mesmo motivada, Lois estava na sua terceira dose de tequila, enquanto a maioria dos participantes do congresso de jornalismo aprisionados pela incessante tempestade de neve que se precipitava em Omaha encontravam-se mais animados e desinibos, certamente pelo fato de que nada poderiam fazer para mudar sua situação exceto embebedar-se noite adentro, na medida em que aplaudiam e cantarolavam alegremente as músicas de época tocadas pela banda do hotel, com seu vocalista cada vez mais desafinado e embriagado, e que certamente jamais viu uma platéia tão grande e entusiasmada, quando então, consumido pela esgotação vocal, anunciou ao final da última música que faria uma pausa.
"Humpf, já não era sem tempo" murmurou Lois, indignada, tomando de virada o último gole. Ela era uma das poucas pessoas que não conseguia relaxar e esconder o mau humor por estar presa àquele salão de hotel no meio do nada com uma nevasca que consumia toda uma região do país. A presença de Clark era um motivo a mais para tornar aquela situação ainda mais insustentável, por mais que o quisesse negar.
Clark sutilmente afastou o copo vazio depositado sobre o bar antes que o barman se antecipasse e voltasse a servi-la, ao que Lois se virou para vê-lo:
"Nem tente, Smallville!" advertiu-o.
"Acho que já bebeu demais, Lois" disse ele, gentil.
"Essa pode ser a pior das noites de Lois Lane, e é melhor que seja ao menos regada a álcool!" disse ela.
"Lois, você definitivamente não sabe o que está dizendo" devolveu ele, sorrindo, na tentativa de ocultar sua preocupação exacerbada e gentilmente revidá-la do que parecia ser a ideia de beber até cair.
"Seu namorado está certo" intrometeu-se o barman, que estava próximo deles do outro lado do bar, enquando preparava um coquetel.
Lois rolou os olhos:
"Ele não é 'meu certo'!"
Clark e o barman se entreolharam.
"Lois, acho melhor darmos uma volta" sugeriu ele, finalmente, preocupado ao perceber que ela já não dizia coisa com coisa.
"Claro, como se existisse outro lugar nesta maldita cidade além do salão deste hotel!" protestou ela, sem reagir ao gesto de Clark, que tentava conduzi-la para longe do bar. "Esqueceu que há neve por toda a parte, Smallville?"
"Vamos apenas circular um pouco, Lois" sugeriu ele. "Vai lhe fazer bem"
Foi então que um jornalista que estava sentado ao final do bar, por acaso o mesmo que horas antes discutia ao telefone com alguém da companhia aérea, começou a bater com um talher numa taça com apenas um terço de vilho tinto:
"Gostaria da sua atenção por um momento!" pediu ele, sorridente.
Quando todos voltaram a atenção para o sujeito vestido num terno claro e desalinhado que se sobressaía à multidão concentrada no bar, este prosseguiu com seu nariz e bochechas rosados e um sorriso bobo, ao que tomou de virada o último gole da bebida, depositou a taça ao bar e caminhou em direção ao palco. Todos o observavam em silêncio, e quando ele pegou o microfone, e a maioria acreditava que ele cantaria uma música, o jornalista simplesmente voltou para o centro do salão, ao que parou e olhou para todos:
"Presos em Congresso em Omaha" disse ao microfone ligado, gesticulando com a mão ao ar como se anunciasse uma manchete. "Algum jornalista na casa?" desafiou, olhando para todos e completando o que deveria ser uma piada.
Mas não houve risos, exceto os do próprio autor do infame trocadilho, visivelmente embriagado:
"Hehehe... eu sei que todos aqui são jornalistas!" completou, apontando.
Lois rolou os olhos, certa de que não faltava mais nada para tornar aquele dia ainda mais miserável, e permaneceu no seu lugar, ao que Clark desistiu de levá-la para uma volta, enquanto o sujeito continuava a falar incessantemente:
"Como provavelmente iremos ficar aqui a noite toda, acho que poderíamos ao menos nos conhecer melhor. O que acham?" continuou o sujeito, indiferente às várias reações negativas daquele público que simplesmente havia perdido todo o entusiasmo junto com a voz desafinada do vocalista da banda do hotel. "Meu nome é Alex Knox" apresentou-se ele "Trabalho para o Gotham Globe" completou, mostrando o crachá pendurado no pescoço e caminhando entre as mesas.
"De repente, sua ideia para dar uma volta me pareceu bem interessante, Smallville" murmurou Lois para Clark, que já não sabia como tirá-los dali, porquanto o inconveniente jornalista estava bem ao seu lado.
"Aposto que temos aqui apenas os melhores" continuou Alex Knox, tendo a atenção de todos para si. "Por que não nos apresentamos e, quem sabe, compartilhamos histórias engraçadas, matérias curiosas nas quais trabalhamos para passar o tempo? O que acham? Hein?" perguntou olhando para um jornalista de meia-idade carrancudo e que sentado à uma mesa bem à sua frente bebia sua terceira dose de uísque. "Você, por exemplo" apontou. "Que tal começar? De onde é?" perguntou.
Mas não houve resposta. Todos simplesmente emudeceram à presença daquele sujeito esquisito e impertinente, e apenas alguns risos abafados podiam ser percebidos à sua insistente e má sucedida investida. Entretanto, Alex Knox não perdia a disposição, e olhava ao redor à procura de outras "vítimas". Acreditando que por estarem fora de seu campo de visão, e que aquela parecia a oportunidade perfeita, Clark pegou Lois pela mão, e os dois deixaram o bar para sair do salão pelos fundos, ao que o jornalista se virou e os viu:
"A-há! Temos aqui um jovem casal que parece ter se acertado, senhoras e senhores" anunciou ele como se fosse o entusiasmado apresentador de um programa de auditório, apontando para Lois e Clark, que simplesmente pararam no meio do caminho ao perceberem que haviam se tornado o centro das atenções. "Diga-me, de onde é, meu amigo?" perguntou o inconveniente jornalista se aproximando de Clark, enquanto Lois esticava o pescoço por trás dele e fuzilava Knox com os olhos.
"Er, Metropolis" respondeu Clark, hesitante. Não havia qualquer reação da plateia, que tanto quanto Lois e Clark, achavam que o colega de Gotham estava sendo excessivamente inoportuno, mas que nem por isso interferiam.
"Ahh... Planeta Diário!" exclamou ao ver o crachá. "E sua adorável companheira?" perguntou, apontando o microfone para Lois, ao que Clark abriu um espaço entre eles, e viu a expressão de profunda revolta da morena com o objeto enfiado contra sua face.
Clark o afastou educadamente, e sussurrou-lhe:
"Acho que não é uma boa ideia"
"Ora, e por que não haveria de ser uma boa ideia?" indagou Knox ao microfone. "Afinal, todos aqui somos colegas, não é mesmo pessoal?"
Foi então que, de súbito, Lois pegou o microfone de sua mão, surpreendendo à todos. Alguns, inclusive, aplaudiram-na pela desenvoltura, deixando o impertinente Alex Knox finalmente sem palavras. E tanto quanto o repórter do Gotham Globe quanto Clark ficaram paralisados.
"Porque você simplesmente não percebe que está sendo inconveniente?" perguntou ela, ao que todos riram. "É... porque convenhamos, o que menos precisamos agora é um sujeito contando piadinhas infames!" e todos concordaram, com vozes e aplausos que se confundiam. "Um cantor desafinado vejá lá... mas um piadista sem graça?"
Alex Knox riu, ajeitando o nó da gravata, disfarçando o rubor com a ofensa, e Clark frisou a testa, e escondeu os olhos, embaraçado por Lois, e confuso, sem saber exatamente o que fazer.
"Sua amiga parece ter muito mais presença" disse o jornalista de Gotham, dando-lhe uma cotovelada. "E muito mais charme" confessou, admitindo o fato de que Lois parecia finalmente animar aquele bando de gente emburrada.
Clark sorriu nervosamente, e se aproximou de Lois, tocando-a no ombro:
"Lois, acho melhor darmos aquela volta" murmurou ela.
A morena riu, sem se virar para vê-lo, tendo diante de si uma platéia dos melhores e maiores jornalistas do país.
"Pensando bem, sinto-me bem melhor agora" disse ela, virando-se para vê-lo com um sorriso que o fez engolir em seco.
