Título: Pois sobreviver não é o bastante
Autora: Kaline Bogard
Fandon: No. 6
Casal: Shion x Nezumi
Classificação: +18
Gênero: yaoi, romance, drama
Direitos Autorais: No. 6 não me pertence. Se pertencesse não teria terminado daquele jeito.


Aviso: Contem yaoi. Ou seja: homem catando homem, sacas? Não gosta, não leia. Simple like that.


Pois sobreviver não é o bastante

Kaline Bogard

Capítulo 02

Incrível como tudo clareou depois que Shion tomou sua decisão. A sensação de peso sendo retirada de seus ombros o fez se sentir livre e leve. Como a muito tempo não se sentia.

Ou melhor...

Como se sentia apenas quando estava com Nezumi. Fosse na situação mais tensa, no perigo mais mortal ou no mais sombrio desespero. Nada importava, pois tinha o rapaz de cabelos negros ao seu lado.

Foi a primeira vez em três meses que conseguiu realmente dormir a noite toda, sem despertar em meio a um pesadelo ou por uma angústia que ameaçava sufocá-lo.

No dia seguinte tomou o café caprichado que Karan preparara. Os olhos da mulher brilhavam ao ver a alegria e ansiedade de seu filho único. O garoto recuperara a vivacidade e energia. Ele estava feliz.

Pela simples perspectiva de romper uma barreira e ir atrás da pessoa que amava.

– Traga-o para que eu possa conhecê-lo – pediu fitando Shion nas íris vermelhas. Queria deixar clara sua aceitação incondicional para qualquer coisa que fizesse seu filho voltar a ser o rapaz de sempre.

– Hn! A senhora vai gostar de conhecer Nezumi – ele respondeu de forma suave, sonhadora. Na mente várias possibilidades de reencontro. Talvez os olhos cinzentos se arregalassem de surpresa ou se estreitassem de raiva. Talvez fossem tomados pelo mesmo sentimento que se refletia nos olhos de Shion.

E ele estava preparado para qualquer uma delas.

–... Shion? Shion!

– Oh! Gomen, me distrai mamãe!

Karan sorriu afável.

– Eu disse: tome cuidado. O Distrito Oeste ainda está tomado por entulhos e pode ser perigoso.

– Vou ser cuidadoso. Prometo.

E o resto da refeição foi feito em silêncio.

Finalmente Shion estava pronto para ir ao encontro de Nezumi. Despediu-se da mãe e de Eve. E desceu a rua acenando várias vezes até que ambas sumissem de seu campo de visão.

Enfiou as mãos no bolso do casaco marrom. Os fios esbranquiçados dos cabelos curtos dançavam ao vento suave, agora um fenômeno constante em No. 6. Antes havia apenas o ar estagnado, parado. A paisagem raramente se alterava, a não ser que fosse vontade da cidade tão mesquinha.

Além disso, os próprios cidadãos pareciam diferentes, pareciam mais humanos do que nunca. Se olhasse não era possível dizer quem viera do Distrito Oeste e quem sempre habitara por ali.

Humanos... sempre tão adaptáveis...

Ou talvez não. Afinal Shion seguia rumo a um outro destino justamente por não se adaptar a nova situação.

Convivera pouco tempo ao lado de Nezumi, tempo o bastante para que mudasse. Depois que o conhecera, nunca mais poderia viver plenamente estando longe.

Por isso se afastava de No. 6, cruzava os destroços do muro que pouco a pouco eram removidos de vez. As futuras gerações não teriam mais aquela barreira escondendo a verdade de seus olhos. Os herdeiros do novo tempo seriam acolhidos por uma cidade muito melhor: feita exclusivamente por humanos, para humanos.

Todos os humanos.

Apesar dos três meses passados ainda havia corpos espalhados pelo que restara do Distrito Oeste.

Shion passou por vários deles. Homens e mulheres... crianças que não foram abençoadas pela sorte de Eve.

O cheiro era forte: lembrava o desespero de quem tentara, inutilmente, salvar a própria vida; o medo nos olhos dos fugitivos e, então, a desesperança e o conformismo dos prisioneiros levados para a morte certa, tratados com menos dignidade que um rato.

Nezumi.

Por isso o garoto odiava tanto No. 6.

Ele passara por tais provações não apenas uma ou duas vezes, mas três. Primeiro ao ver seu povo esmagado sem piedade. Depois ao ser levado ainda criança para a "correção" que No. 6 oferecia aos que se rebelavam. E então, ao aceitar ajudar Shion em seu plano suicida.

Três vezes.

Era a hora do rapaz ter um pouco de felicidade. Um pouco de paz, ao lado de alguém que o amaria de igual para igual.

Com a mente cheia de sonhos e planos para o futuro Shion chegou à casa subterrânea de Nezumi.

Surpreendeu-se ao ver o grande cadeado que fechava a porta por fora.

– Onde ele pode ter ido?

Tentou abrir a tranca em vão. Gritou pelo nome do companheiro e não teve resposta.

Nezumi não estava em casa.

Para distrair-se voltou para fora. Nada restava de inteiro ao redor. Perguntou-se como andaria Inukashi em seu hotel. Sobrevivendo, com certeza. A garota era uma lutadora, dura na queda.

Ela, verdadeiramente, seguia em frente sem arrependimentos.

Seria o real significado de força? Seguir em frente? Sempre sozinho...

Sobrevivendo?

Não... Inukashi tinha seus cães. Vivia por eles, amava-os e não perdoava a menor ofensa aos animais que considerava mais que seres humanos.

Até ela, aparentemente solitária, tinha por quem lutar.

Esse era o único significado para ser forte: alguém por quem viver.

Cansado de esperar em pé Shion sentou-se em um banco improvisado com os destroços de uma parede. No horizonte o sol era uma bola de fogo distante que se recolhia e levava sua radiante luz embora.

A primavera chegava e terminava. Os dias tornavam-se mais longos, abafados.

As noites costumavam transformar a paisagem em calmaria, acompanhada pela suavidade e frescor emanados da luz prateada. Dias quentes, noites amenas e estreladas.

Mas nem a noite trouxe Nezumi para casa.

E enquanto a lua atravessava lentamente a abobada celeste seguida de perto por suas minúsculas e inalcançáveis estrelas uma desconfiança sinistra dominava o coração de Shion.

Nezumi se despedira aquele dia e não voltara para sua toca, pelo menos não para ficar em definitivo.

Ele fora embora!

Nezumi partira.

E esse era o significado do cadeado na porta, a garantia que ninguém invadiria sua casa facilmente.

– Pra onde você foi, Nezumi? – Shion ergueu os olhos vermelhos para o céu numa prece silenciosa, como se a inspiração pudesse surgir do universo acima de si.

Só restava uma solução: sairia pelo mundo atrás de seu amor, pois não descansaria enquanto não o reencontrasse.

Continua...


Depois de um século, eis a história atualizada. Acho que o próximo ainda demora um pouco pra vir! Obrigada a quem chegou até aqui.