Capítulo 3 - The Reason Why
SINOPSE: Brennan vive o pior momento de sua vida e Booth tem que apoiá-la. Ele fará o possível para protegê-la.
[memories] Max abraçou Brennan. Ela sentiu o perfume da loção de barba e uma sensação agradável de segurança tomou conta dela. Viu Booth. Parado junto ao pilar das escadarias do fórum, ele sempre estava por perto. Seus olhos cúmplices eram de aprovação, ainda que aquela situação fugisse de seu habitual senso de justiça. Brennan sentiu que ter uma família não era mais algo tão irreal, tão distante [memories].
Temperance soltou um soluço. Olhava as fotos e não conseguia encontrar nada, nenhuma evidência que pudesse responder às suas dúvidas.
[memories] Russ olhou com olhos afetuosos. O sorriso era sofredor e ao mesmo tempo compreensivo. Caroline informara que a prisão de Max era necessária. Ela fora forçada a recorrer da decisão. Um novo julgamento seria marcado. Brennan sentiu, como nunca antes, que ela dizia a verdade. Como se todo o mundo de repente se tornasse tão humano. Caíam por terra algumas teorias científicas, algumas teses antropológicas e se sobressaíam certas leis psicológicas. Ela entendia. Ela sabia, não cientificamente, pois não tinha provas. Seu pai ainda era seu pai, mesmo um assassino. Havia uma família, assim como ela, esperando por justiça. Kirby tinha filhos, esposa, família. Ainda que os atos individuais de uma pessoa fossem maus, sua família era a via arterial de um coração bom [memories].
O chaveiro deu passagem para Booth. Ele avistou rapidamente o pedaço de madeira caído no chão que usara na noite anterior para improvisar uma tramela na porta do apartamento de Brennan, que ele havia arrombado.
Russ levantou do sofá e veio ao seu encontro com alguns papéis nas mãos. Booth o recebeu com um abraço afetuoso, de amigo. Russ tinha os olhos vermelhos e inchados.
___Como você está, cara? – perguntou sentando-se.
Russ sentou ao seu lado com dificuldade, como se o corpo estivesse destruído.
___Cansado...
Amy, mulher de Russ, entrou na sala.
___Olá, agente Booth. – ela estendeu a mão branca e esguia.
___Tudo bem, Amy? E as meninas?
___Estão no quarto vendo um DVD – ela estava com os olhos tristes – Você aceita um café, faço num minuto!
Booth ia negar.
___Todos aqui estão precisando de um bom café forte – ela disse saindo para a cozinha.
Booth olhou para Russ e sorriu. Olhando para a mulher que trabalhava na cozinha, Russ comentou cansado:
___Eu não fiz nada para merecer alguém assim, Booth – riu-se – Amy é maravilhosa.
Booth observou, por alguns segundos, Amy abrindo os armários.
___Nós íamos contar para o meu pai sobre o nosso casamento – a voz do rapaz saiu embargada. Booth o encarou. – Nós moramos juntos há algum tempo, então decidimos nos casar pra valer... sabe, eu sempre quis dar uma vida melhor para as meninas, ser um pai melhor do que o pai verdadeiro delas...
Booth sentiu uma tristeza incômoda. Pensou no motivo porque estava ali. Brennan.
___Onde está sua irmã, Russ?
___Ela está... destruída – Russ engoliu o choro – Ela está no quarto. Não faz muito tempo fui vê-la. Ela está lá... há horas...
Booth lançou-lhe um olhar atencioso e bateu com a mão aberta em seus ombros, mostrando entender sua dor. Levantou e passou por Amy na cozinha.
___Tomo seu café daqui a pouco, Amy.
Ela sorriu, dócil.
Booth andou pelo corredor e vacilou diante da porta da parceira. Deu alguns toques com o nó dos dedos e chamou-a. Sem resposta, resolveu tentar a maçaneta, a porta se abriu.
Temperance estava deitada na cama, o corpo virado para a janela coberta por uma longa cortina branca e fechada. O quarto estava mal iluminado. Na cama, além da moça, milhares de fotos estavam espalhadas. Alguns papéis jogados no chão, uns amassados. Em quase quatro anos de trabalho juntos, o agente nunca presenciara nenhuma atitude menos racional da parceira. E o que menos ela parecia naquele momento era racional.
Aproximou-se da cama, do lado onde podia ver seu rosto. Ela estava com os olhos cerrados. Os cílios úmidos denunciavam lágrimas recentes. Não querendo acordá-la ele ajoelhou-se ao seu lado e contemplou seu rosto branco e límpido. Sentiu uma dor profunda no peito e engoliu em seco. Precisava proteger aquela mulher, cuidar dela, não deixar que nada de mau lhe acontecesse.
Os cabelos de Brennan estavam alinhados com exceção de alguns fios que caíam em seu rosto delicado. Booth os tirou com cuidado e lentamente ela abriu os olhos. Sua cabeça estava apoiada sobre seu braço e ao ver Booth, lágrimas começaram a descer pelas maças descoradas de seu rosto. Instintivamente o agente sentou na cama ao mesmo tempo em que ela sentou para abraçá-lo. Breenan deixou-se aconchegar e chorou como uma criança umedecendo o colarinho do terno de Booth. Foram minutos em silêncio, choro e pesar.
***
Russ estava enfiado num terno preto emprestado e apertava a mão de Amy. Os olhos estavam vermelhos e irritados pela claridade do dia. Na mão direita, a pequena e esquelética mão de sua enteada, Hayley, suava gélida, provavelmente temerosa pela hostilidade de um ambiente tão fúnebre. Tristemente ele olhou de relance para seu grupo, Amy segurando Emma, também pela mão e ele com a caçula. Brennan estava ao lado da pequena, segurando sua mão direita. Seus olhos cansados estavam vermelhos. Booth a apoiava ao seu lado, a mão esquerda no ombro esquerdo da parceira.
___Eu quero respostas, Booth.
___Shhhhhh – ele murmurou ao seu ouvido.
___Eu quero respostas...
O discurso do padre parecia longo demais. Brennan estava impaciente, tomada por uma onda nostálgica de descobrir um culpado. O pai ainda fresco dentro daquele carvalho escuro e ela ansiosa para ir ao Jeffersonian fazer umas pesquisas. Sua fase de depressão pós-trauma passara muito depressa.
Olhou para Russ, viu as sobrinhas e a cunhada e repensou suas atitudes. Eles não eram cientistas nem racionais, mereciam o doce respeito de um luto. Abaixou a cabeça e contemplou os próprios sapatos, ao passo que sentiu o braço de Booth apertá-la mais. Viu uma lágrima atingir a ponta do calçado e aconchegou-se no peito másculo do protetor que nunca saía de perto.
***
Brennan estava séria no sofá. Na mão um copo de café gelado estava inerte. Ângela veio sentar próximo a ela e enlaçou-a pelo encosto do sofá, tirando a amiga de algum tipo de transe.
___Eu não entendo o porquê de se comemorar a morte de alguém.
___Antropologia, Brennan. A resposta você deve ter aprendido, algumas culturas velam seus mortos... Estamos aqui relembrando a memória de seu pai.
___Não se vela um morto depois do enterro, Angie.
Ângela encarou a antropóloga.
___Seu pai não podia ser velado...
Brennan mordeu o lábio e avistou Booth conversando com Russ. Eles observavam as enteadas do irmão, provavelmente lamentando o tempo que o avô substituto não teve com elas.
___Booth é tão bonito, não é Ângela? – Brennan comentou ainda olhando para ele.
Ângela franziu o cenho e manteve um sorriso no canto da boca sem entender. A amiga era tão racional e não ficava comentando sobre os homens desta forma. Brennan continuou sem olhá-la.
___Ele é o perfeito macho alfa, protetor, másculo, de feições finas e traços marcantes. Suas mãos... – hesitou, deu-se conta de não estar em sua classe na faculdade.
Encarou a amiga e ficou sem graça. Ângela sorriu carinhosamente.
___Tudo bem, querida. Não se envergonhe. Ele é tudo isso que você falou e mais um pouco.
Brennan riu e voltou a olhar para Booth que agora tomava um café com Caroline.
___Ele... – Brennan continuou -... Ele sempre está por perto. Sempre protetor, sempre solícito... Talvez eu ainda não entenda muito sobre a raça humana.
___Você não entende muito sobre os homens, especificamente... – Ângela riu.
___Acho que não.
___Sabe, Tempe, eu realmente não conseguiria ser igual a você. Trabalhar tanto, ser tão focada, me apaixonar e... – Ângela olhou com afeto aqueles olhos azuis intimidados pela conversa íntima -... Não me entregar...
Ângela encarou-a com mais firmeza.
___Eu nunca entendi porquê.
___Eu...
___Temperance...
Brennan levantou os olhos claros e deu de encontro com o protetor macho alfa à sua frente.
Ângela levantou e saiu sorrindo para a amiga.
___Como se sente?
Booth sentou-se. Brennan estava curvada e apoiava os cotovelos nos joelhos. O copo de café, intacto, preso entre as mãos.
Ele colocou o copo sobre a mesinha, pegou-a pelos dois ombros e a encostou no sofá. Manteve o braço direito esticado atrás do pescoço dela.
___Eu não sei como me sinto...
Brennan soltou uma baforada de ar quente e exausto.
___Eu nunca tinha perdido alguém que amo, sabe, não desta maneira...
Ela manteve os olhos esbugalhados fixos em um ponto invisível.
___Eu perdi meus pais, descobri a morte da minha mãe de uma forma terrível...
Um fio de lágrimas se formou no rosto fino. Ela escondeu seu rosto triste no ombro do parceiro. Booth avistou Sweets se aproximar e fez um gesto negativo com a mão esquerda aberta no ar. O psicólogo deu meia volta desapontado. Booth abraçou-a com força como se pudesse passar toda a paz necessária através daquele ato.
***
Ângela caminhou pelo movimentado pavilhão do Instituto Jeffersonian em direção a Hodgins. Ele estava concentrado despejando um líquido vermelho claro dentro de um tubo de ensaio com um líquido transparente. Ela desistiu de interrompê-lo e passou ao lado dele, olhando por cima da divisória. Seus olhos se cruzaram por um instante enquanto uma pequena fumaça limpa saía do tubo. Ela abaixou a cabeça e seguiu para a escadaria de acesso ao piso superior. Cruzou a passarela central e vislumbrou o cientista e todo instituto. Ele parecia ter aceitado bem a separação e ela ficava louca de raiva só em imaginar isso. Covarde! Quem ama luta pelo que é seu.
Ângela respirou fundo e dirigiu-se à sala de Brennan para deixar uns papéis que precisavam de sua assinatura. Surpreendeu-se ao ver a amiga concentrada em frente ao computador com várias anotações em papéis sobre a mesa. Julgava que ela estivesse em casa se recuperando.
___Tempe! Eu estive no enterro do seu pai esta manhã! O que faz aqui?!
Brennan encostou-se à cadeira.
___Angie, você me conhece. Eu preciso de respostas e não posso ficar em casa sem fazer nada.
Ângela parou ao lado da antropóloga e viu a tela do programa do instituto e mais 5 janelas de pesquisas do Google.
___Temperance, vá ficar com seu irmão! Ele está sofrendo. Como você acha que ele se sente sabendo que sua irmã foi trabalhar no mesmo dia que enterrou o pai?
Os olhos azuis da moça não entendiam. Sua forma de lidar com a dor estava indo bem.
___Talvez você realmente saiba como lidar com tudo isso, querida, mas existem pessoas que não são tão racionais... Como seu irmão.
Brennan entendeu. Ângela era ótima para explicar coisas óbvias para seres humanos comuns e não tão óbvias para outros de QI avançado.
___Ok, vou pra casa.
O celular tocou. Ângela entortou a boca pressentindo que ela não iria para casa tão cedo.
___Brennan.
___Seu pai foi pego por um bando de mafiosos, Bones. Acho seguro não entrar em certos detalhes com você...
___Como assim, Booth? Somos parceiros, você...
___Bones! Confie em mim. Pelo menos desta vez, por favor.
Brennan respirou fundo vendo Ângela sair da sala. Contemplou a tela de pesquisas no computador.
___Tudo bem, Booth. Vou confiar em você.
Booth desligou o celular enquanto observava, atrás do volante, o informante dobrar a esquina. Infringia seus próprios princípios, seu senso de justiça, mas não podia colocar Brennan em perigo.
Ele agora sabia quem eram os mandantes do crime e sabia também que se Max Keenan não tivesse sido morto, Russ ou Temperance estariam em seu lugar. E Max seria morto logo depois.
Agora estava terminado. O serviço estava feito. Eles não precisavam mais perseguir os filhos de Keenan. Ele já estava morto. E Booth sabia. Mexer com eles era como mexer em cacho de abelhas. Basta cutucar uma para ser atacado por todas. Ele mordeu os lábios, colocou os óculos escuros, deu partida no carro e saiu.
