2. Interlúdio: Pegas em Fuga
Harry aparatou em meio a clamor e caos. Seus sentidos foram momentaneamente sobrecarregados. A lua cheia brilhante lançava sombras fantasmagóricas através igualmente das várzeas, urzes e lodaçais. Os aromas pungentes de água do mar, peixe e aves vindos da Lagoa de Montrose tomaram suas narinas. A cacofonia de barulho dos gansos e gaivotas estava correndo perigo de ser sobrepujada pelos gritos furiosos.
À luz brilhante do luar Harry viu dúzias de famílias de pé em volta de mesas de madeira do lado de fora do Bar Lagoa. Este era um velho pub decrépito, um dos favoritos dos torcedores das Pegas (Montrose Magpies ou Pegas de Montrose). Havia uma aparência irreal, monocromática na multidão iluminada pelo luar. Todos se vestiam com cachecóis e chapéus em preto e branco; muitos usavam vestes em preto e branco. As chamas azuis tremeluzentes que tanto iluminavam quanto aqueciam as mesas adicionavam sombras dançantes à cena. O ruído tanto de dentro como de fora do bar estava perturbando as aves; os trouxas logo notariam, se já não o tivessem feito.
Antes de se mover do lugar onde tinha aparatado. Harry lançou o maior Feitiço Anti-Aparatação que pode. Quem quer que quisesse entrar ou sair da área teria que andar uma milha antes. Satisfeito com o feitiço, Harry correu em direção ao bar; o longo casaco estilo capa que o caracterizava como um Auror fluía atrás dele.
Ao chegar mais perto do bar, a dor aguda de seu peito recentemente enfaixado e as dores latejantes correndo pelos seus músculos e ossos o forçaram a ir mais devagar. A primeira era de ferimentos físicos; as últimas eram o resultado das Maldições Cruciatus a que tinha sido submetido recentemente. Ouviu choro e, ignorando sua própria dor, procurou a fonte. O barulho vinha de três crianças, nenhuma com mais de dez anos. Cada um de seus rostos estava coberto por uma Azaração para Rebater Bicho-Papão, que suas mães angustiadas tentavam remover. Praguejando baixinho consigo mesmo, Harry se aproximou das crianças. Puxando uma câmera pequena de seu casaco, rapidamente fotografou as crianças. Então, com um aceno de sua varinha, removeu as azarações. As mães o olharam reprovadoras, seu olhar era a confirmação final. Harry agora tinha certeza da identidade da pessoa que lançara as azarações.
Harry estava lutando para se manter calmo. Ele tinha estado clandestino por um mês e agora parecia que sua presa longamente procurada iria escapar de novo. O sucesso de sua missão agora dependia de Lilá. Sacudiu a cabeça, ele devia estar louco, mas Lilá tinha sido tão persuasiva! Sua missão original de algum modo pareceu desimportante.
Ele tivera a esperança de passar esse tempo livre desesperadamente roubado n'A Toca, ou, melhor ainda, no Largo Grimmauld, comemorando a última vitória das Harpias (Holyhead Harpies ou Harpias de Holyhead) com Gina. Mas ele a tinha perdido de novo. Na hora em que chegou ao campo do Montrose Magpies, o jogo tinha terminado e Gina tinha saído com duas de suas colegas de time para comemorar outra vitória.
As Harpias agora quase com certeza ganhariam a Liga. A vitória fora de casa apertada de hoje contra o Montrose Magpies lhes deu um número quase que imbatível de vitórias e uma liderança de 930 pontos sobre seu rival mais próximo, o anteriormente invencível Tutshill Tornadoes. O último jogo da temporada era quase duas semanas à frente, no vigésimo-terceiro aniversário do Jorge. Seria em casa contra o Chudley Cannons. Se elas ganhassem, independente de outros resultados, seriam as campeãs da Liga. O dia do jogo certamente seria interessante na casa dos Weasley, especialmente para o Rony, já que o Chudley Cannons estava, mais uma vez, disputando o último lugar com o Wimbourne Wasps.
As páginas esportivas do Profeta Diário creditavam o sucesso espetacular das Harpias a seus dois contratos pré-temporada: a ex-Artilheira dos Woollongong Wanderers (e atual Artilheira do time nacional australiano), com vinte anos, Olivia "o anjo australiano" Aikenhead, e a "sensação adolescente" Gina Weasley, a artilheira de maior pontuação na liga este ano. Pela força de seu desempenho em sua primeira temporada, Gina tinha sido selecionada para a equipe sub-21 da Inglaterra. Ela provavelmente jogaria no tour europeu do verão.
Ao se aproximar do pub, Harry podia ouvir berros e cantoria do lado de dentro.
– Nós somos as Harpias, nós somos as campeãs – gritaram várias vozes bêbadas.
Três membros da Brigada de Execução das Leis da Magia local estavam à frente de Harry. Isso o surpreendeu. Eles deviam ter chegado apenas segundos antes que ele completasse seu Feitiço Anti-Aparatação. O bruxo no comando abriu a porta do pub e foi instantaneamente atingido no rosto por uma Azaração para Rebater Bicho-Papão. O bruxo cambaleou para trás, surpreso. Com um movimento rápido de sua varinha, Harry fechou a porta e avisou aos agentes da lei.
– Eu lido com isso.
A bruxa e o bruxo não enfeitiçado procuraram a fonte desta ordem. O casaco preto comprido de Harry e o traje trouxa o demarcavam como um Auror. Só o uniforme era o bastante para fazê-los parar por um momento. Então eles o reconheceram. Sua fama indesejada às vezes era útil. O outro bruxo ainda estava lutando com a azaração quando Harry os alcançou e a removeu.
– Obrigado – o bruxo gaguejou. O homem parecia familiar. Ele olhou Harry, seus olhos fazendo o movimento familiar, mas ainda irritante, em direção à testa de Harry. Os colegas do homem ficaram em silêncio, observando a interação e aguardando ordens.
– Desculpe por isso – Harry se desculpou ao bruxo. – Eu o conheço?
– Não tem por que se desculpar, Sr. Potter, o senhor não me azarou – o bruxo se apresentou. – Xerife Hamish Campbell, do Escritório de Edimburgo.
Harry olhou para o homem de novo. Tanto o nome como o rosto eram familiares. Onde o tinha encontrado antes?
– Moira Campbell – Harry disse, quando o nome subitamente brotou em sua cabeça. Parou, extremamente embaraçado. Era, ele lembrou, um nome no memorial daqueles que tinham morrido em Hogwarts. Ele tinha visto o Xerife Campbell em várias cerimônias e eventos de evocação.
O rosto de Campbell registrou surpresa e um piscar de pesar. O jovem bruxo esguio, de cabelos castanhos que acompanhava Campbell também pareceu subitamente triste e Harry se deu conta que o seu rosto também era estranhamente familiar. Especulou sobre quem o jovem tinha perdido e olhou para Campbell apologeticamente.
– Sua esposa? – perguntou incerto.
Campbell assentiu, parecendo surpreso.
Harry examinou o Xerife Campbell. Ele era um bruxo alto, corpulento, que tinha talvez dez anos a menos que Arthur Weasley. Tinha no rosto cicatrizes de maldições e havia três dedos que faltavam em sua mão esquerda.
– Bom encontrá-lo de novo, Xerife Campbell – Harry disse ao apertar a mão dele. Deu-se conta de que estava encarando os dedos ausentes e não o rosto. Olhou para cima.
– Desculpe – Harry disse de novo.
– Todo mundo olha, Hamish disse asperamente, sacudindo a mão esquerda. - A gente se acostuma com isso.
– Mesmo? Harry perguntou, esfregando a cicatriz em forma de raio de sua testa. – Eu ainda não me acostumei.
– Batalha de Hogwarts – Campbell sacudiu a mão de novo. - A mulher Lestrange. Tive sorte. Minha esposa não teve – continuou tristemente.
Um barulho alto de coisa quebrando vindo de dentro do bar trouxe ambos os homens de volta ao presente.
– Vocês se importariam se eu entrasse sozinho? – Harry perguntou. – Eu gostaria de tentar acalmar as coisas.
– Sim – disse Campbell austero. – Vá em frente, Sr. Potter. Se precisar de ajuda, estaremos bem aqui.
– E eu poderia pedir outro favor ao senhor e aos seus colegas? – Harry pediu.
Campbell assentiu. Oficiais Heather Huddleston e Mark Moon – ele apresentou os outros dois agentes da lei. Huddleston era uma bruxa baixa, idosa, com cabelo grisalho cacheado e queixo com covinha. Moon tinha uns vinte e poucos anos, sem nada de especial e quase tão alto e desengonçado quanto o Rony.
– O senhor e seus colegas poderiam começar a tomar depoimentos? – Harry perguntou. – Eu gostaria particularmente de saber o que aquelas famílias têm a dizer – ele apontou para os pais cujos filhos tinham sofrido a Azaração para Rebater Bicho-Papão.
– Sim, podemos fazer isso – disse Campbell. – Você acha que vai fazer algumas prisões?
Harry assentiu sombrio e caminhou para a porta do pub. Varinha em punho, ele levou a mão esquerda à frente, empurrou a porta, desviou do feitiço de que foi alvo e pisou dentro do bar.
– Oopsh – disse Gina, rindo bêbada para o namorado. – Oi, goshtoso.
Harry adentrou o bar, varinha levantada. Um silêncio súbito desceu sobre os destroços do salão.
–*–
Nota da tradutora: O feitiço característico de Gina – o Bat-Bogey Hex – foi traduzido nos livros por Azaração para Rebater Bicho-Papão. Eu mantive a tradução, apesar de considerá-la incorreta. Aparentemente a tradutora dos livros confundiu Bogey, que é meleca, com Bogart, que é bicho-papão. E aí o Bat, que era para ser entendido como morcego, virou bastão de rebater coisas. Ou seja, uma tradução adequada seria, por exemplo, Azaração das Melecas-Morcegos, que explicaria melhor a reação dos que a sofrem. Quanto aos times de quadribol mantive em geral os seus nomes no original, a não ser por chamar seus jogadores ou torcedores pelo nome em português, no caso das Harpias e das Pegas, para manter o título do capítulo e a maneira pela qual frequentemente Gina e suas colegas são referidas.
