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— Você está louco.
O sacerdote suspirou. Estava ficando acostumado a ser chamado assim, mas contanto que não o atrapalhassem em seu caminho, podiam chamá-lo do que quisessem.
Hicks balançou a cabeça furiosamente enquanto Lucy apenas olhava de um para outro, em silêncio. O Padre expusera seu plano assim que voltara do setor das prisões e o jovem xerife ainda não digerira a coisa.
— Me diga de novo...— disse o rapaz, sentando-se novamente. Ele tinha sentado e levantado, além de caminhado nervosamente pela sala, várias vezes durante aquela conversa. O sacerdote não parecia impressionado mas Lucy estava começando a se irritar. Se ele se levantasse mais uma vez ela lhe daria um soco. — Diga que pretende soltar o maldito vampiro que matou seu irmão e a mãe da sua filha...fora uma cidade inteira, diabos...e viajar com ele como se fossem amigos de infância!
— O que aconteceu com ele foi minha culpa. Eu não pude salvá-lo do que se tornou. Todas as mortes dele estão sobre mim também.
— Oh, claro! Além de Padre você ainda por cima é uma merda de Mártir!
— Hicks, olha como fala com meu pai! Essa merda de Mártir salvou á todos nós!
O Padre teve que respirar fundo para controlar a vontade de repreender a filha pelo linguajar. Mas sabia que não tinha esse direito, não mais. E parte do motivo de não tê-lo era justamente estar ajudando o homem que matara os únicos pais que Lucy conhecera. Pelo menos, pensou, ela agora tinha Hicks. Não que o rapaz fosse lá um grande conforto como namorado, sempre nervoso e instável diante de problemas com que não podia lidar.
O xerife passou uma mão pelo rosto, controlando-se.
— Nada do que eu disser vai fazer você mudar de idéia, certo?
— Nada. — confirmou o Padre, desviando o olhar para a filha, que permanecera neutra durante todo o tempo em que ele revelava o que pretendia. Ela percebeu o que aquele olhar significava e ergueu o queixo, petulante.
— Não gosto dele. — declarou, como se isso não fosse óbvio. — E não confio nele. Mas confio em você. — ela deu de ombros, pra horror de Hicks, que parecia não poder acreditar no que estava ouvindo. — Se você diz que pode curá-lo e que pode fazer ele se comportar...por mim tudo bem. Só não quero ver a cara dele por aqui.
— Você é bem filha dele mesmo! Os dois são loucos! — o rapaz se abaixou ao lado da cadeira de Lucy, tentando racionalizar. Ela lhe lançou um olhar cortante. — Lucy...esse homem matou...
— Eu sei quem ele matou, Hicks! — a menina se levantou, fuzilando o namorado com o olhar. — Eu estava lá, lembra? Eu ouvi os gritos da minha mãe e do meu pai! Agora cale a boca e deixe ele fazer o que tem que fazer!
— Obrigado, Lucy. — os olhos do Padre derramavam alívio e gratidão. A filha voltou para ele aquela expressão furiosa.
— Não me agradeça. Eu só acho que todos nós já perdemos pessoas importantes demais...e você parece achar que ele é seu amigo...ou pode voltar a ser. — ela deu de ombros novamente. — Espero que valha a pena mais esse sacrifício.
Como dizer á sua filha que sim, valia todo o sacrifício poder curar Hat, poder olhar para ele sem sentir a culpa consumindo-o, como ácido, por dentro? Ele apenas balançou a cabeça positivamente.
Hicks rugiu de raiva.
— Ok, então. — disse entredentes, fazendo Lucy revirar os olhos de um jeito muito parecido com o do pai. — Você não me deixa escolha. Vou com vocês.
Lucy e o pai o olharam como se ELE estivesse louco. O xerife sorriu enigmaticamente.
— Eu também não confio nele e, apesar de confiar nas suas habilidades, Padre, eu duvido que esteja em posição de detectar o perigo mesmo se este aparecer dançando pelado na sua frente e te chutar as bolas.
Lucy riu, com certeza imaginando vividamente o perigo, na forma de Black Hat, dançando pelado. O Padre sempre amaldiçoara sua extrema imaginação e agora via que a filha a herdara dele como os cabelos ruivos. Fechou os olhos e respirou fundo.
— Nem tente me convencer do contrário! — avisou o xerife, já conferindo as balas da arma que nunca deixava de carregar.
O Padre deu as costas a ambos, dirigindo-se para a porta.
— Eu não pretendo fazer isso. — disse, surpreendendo Hicks. — Não vai adiantar...você é cabeça dura e tolo demais para perceber que estará em perigo também. Partimos em três dias.
Quando a porta se fechou atrás do Padre, Hicks fitou Lucy e engoliu em seco.
— Ei...seu pai está se metendo numa baita encrenca! Eu só vou pra me certificar de que aquele sanguessuga maldito não vai acabar com seu único parente!
Lucy estreitou os olhos.
— Você é um mentiroso muito deslavado, Hicks! — exclamou a menina, mãos nos quadris. — Você vai porque adorou estar no meio da ação e acha que meu pai vai te ensinar um ou dois truques de Padre, assim você vai poder se achar importante!
O Padre sorriu consigo mesmo ao ouvir os namorados brigando. Juventude. Sempre cheia de possibilidades e energia.
Voltou para seu pequeno apartamento e refugiou-se em orações. Precisava clarear a mente para o que estava prestes a fazer...e também precisava tirar de sua mente o que Black Hat fizera.
Como agora todos em seu pequeno circulo familiar sabiam, o sacerdote não era indiferente ou ignorante a respeito de sexo. Tivera uma filha com Shannon aos 22 anos e só então a Igreja viera até ele. Ele sabia o que era desejo e sabia o que era sublimá-lo...fizera isso por 18 anos. Mas agora Hat resolvera atacá-lo consciente e inconscientemente. Sim, porque o sacerdote sabia que mentir para si mesmo era um pecado tão grande quanto qualquer outro e ele sempre se sentira atraído por Hat...desde que ambos passaram a trabalhar juntos na mesma equipe. O que o vampiro fazia agora não só o abalava como o tentava, e isso era perigoso, muito perigoso.
oOoOo
tbc...
N/A: Obrigada a orionastro e thelizfantasy09 pelos reviews! Só continuo essa fic por vocês! XD é, sou uma autora carente!
