PARTE 2 – Viver
Se eu achava que Grimmauld Place estava uma confusão, o Leaky Cauldron estava três vezes pior.
Primeiro porque havia quatro vezes mais gente, todas três vezes mais falantes, com volume de voz duas vezes maior do que de Molly. Com tantos multiplicadores, eu quase quis voltar para a lareira.
Arthur me saudou e me levou até o meu quarto, temendo que eu me encontrasse com Harry por acaso. Mal pude ver o bar, mas reparei que as mesas tinham sido retiradas, e havia faixas no teto, além de flores e luzes mágicas imitando a luz natural do exterior.
Parei para cumprimentar Ronald, e esse foi o meu erro.
– Olá, Ronald, como...
Uma voz fina me interrompeu:
– Oh, eu tenho certeza de que ele está bem, muito bem!
Virei-me para ver Hermione, tornada Weasley no começo do ano, num vestido de festa, olhos faiscando.Ela continuou:
– Ele precisa estar muito bem, já que não está fazendo nada para ajudar na festa!
– Mas Mione...
– Por que não está dobrando os guardanapos em forma de cisne? Você aprendeu a fazer isso no casamento de Bill!!
Tentei ser polido e atrair a atenção dela:
– Hermione, você está linda.
– Obrigada, Remus. E foi uma boa tentativa, mas eu ainda estou muito irritada com Ronald. Hoje é um grande dia na vida do melhor amigo dele, e eu acharia que ele gostaria de participar disso, mas não! Ele fica com aquela cara de pouco iluminado que ele sempre tem...
– Ei!
– ... e fica dando uma de desentendido, só andando entre as mesas, como se esse fosse seu trabalho!
– E você, dona Sabe-Tudo, não sabe o que eu tenho que fazer! Eu tenho que andar entre as mesas e ver se está tudo em ordem!
– Crianças, comportem-se – disse Arthur, puxando-me.
Entrei no meu quarto, e uma bela parte do clã Weasley estava lá: Charlie, Percy e George. Arthur se juntou aos filhos. Charlie foi quem gritou, erguendo um copo:
– Ei, Remus!
George me empurrou:
– Vamos, homem, venha!
– Mas o que é isso tudo?
– Bom, já que você não teve uma despedida de solteiro decente, resolvemos lhe dar uma.
– Agora? Eu vou me casar daqui a uma hora!
– Ah, antes tarde do que nunca!
– Afinal, Harry teve a dele, por que você seria diferente?
– É a Lua Cheia que decidiu aparecer bem no dia que iríamos raptar você.
– E não faz sentido fazermos uma despedida de solteiro-surpresa se você já estiver casado!
– Então, eis aqui: tequila, um dançarino e uma mala cheia de brinquedinhos!
– E vamos mandar ver!
O fato de Percy ter sido o autor da última frase me deu a certeza de que eles estavam "preparados" para essa festa desde a noite passada.
Eu nem tinha conseguido protestar decentemente, quando Bill entrou:
– Já começaram? Ótimo!
– Você sabia disso?
– Fui eu que organizei, Remus! Relaxe e goze!
Não acredito que em apenas uma hora eles tivessem conseguido me embebedar a ponto de eu não conseguir dar nó na gravata. Todos os Weasleys, a pretexto de me introduzirem a família, estavam me ajudando a pôr os trajes cerimoniais, como se eu fosse uma noiva Muggle inexperiente.
– Uma coisa usada, uma coisa azul, uma coisa emprestada...
– Não é como se fosse meu primeiro casamento. Eu sei o que eu estou fazendo!
Percy quase tropeçou:
– Eu empresto as minhas abotoaduras!
– Elas não são suas – lembrou George. – São do tio Bilius.
– Mas são emprestadas, não são?
– E tem alguém ajudando Harry? – eu indaguei. – Ele não está sozinho, está?
– Não, Ron e Hermione estão com ele.
– Tem certeza? Eu vi Hermione brigando com o Ron.
– Ah, isso é preliminar para sexo. Aposto que eles estão num cantinho escuro agora mesmo, pulando feito dois coelhinhos.
– Oh yeah, hormônios da gravidez – sorriu Bill. – Eu me lembro.
– Vocês vão dar um irmãozinho para Teddy?
Eu estava em pé, e quase caí com a pergunta de Percy.
– Oh... bom... eu...
Uma sonora gargalhada coletiva ressoou pelo quarto.
– Calma, homem, não é uma intimação.
Uma batida soou à porta e uma voz feminina indagou:
– Estão todos decentes?
– Pode entrar.
Ginny, o rosto vermelho e inchado, pôs a cabeça para fora e avisou:
– O Sr. Diggory já está aí para oficiar a cerimônia. Vocês devem descer. Aberforth também acabou de chegar.
– Obrigada, querida – disse Charlie.
Ela fechou a porta e todos se entreolharam, constrangidos.
– Ela disse que não viria.
– Não, George, nós achávamos que ela não viria.
– É bom ficarmos de olho nela.
– Se eu conheço Fleur, ela provavelmente está cuidando disso agora mesmo.
Arthur chamou:
– Bom, eu tenho que ir. Vou levar Harry até o altar. E acho que...
Foi interrompido pela chegada de Aberforth Dumbledore:
– Quem quer se casar hoje?
Sorri, o álcool falando:
– Só se for com Harry...
Aberfort sorriu:
– Ah, essas crianças. Vamos, vamos, gente, que o povo está esperando.
O álcool estava realmente alto no meu sangue:
– Mas por que toda essa pressa? Podemos esperar um pouco...
– O que é, Remus? – quis saber Bill. – Não está pensando em desistir, está?
– Não, mas... aqui está tão bom... – Meu olhos estavam pesados, a cabeça também.
– Ai meu Merlin, ele quer dormir!
– Mas o que vocês puseram nesse firewhisky? Ele não vai ter tempo de se recuperar.
Molly chegou nesse momento:
– O que está demorando tanto? Harry está aí!
– Vamos lá, Remus! Vamos, hora de se casar!
Aberforth e Arthur me ajudaram a sair do quarto. Descer as escadas foi um desafio. Eu vi uma festa bem bonita, aliás, linda, para dizer a verdade. Havia muita gente, e os jornalistas estavam sendo magicamente mantidos fora. Isso eu sabia na minha mente racional – aquela que não estava funcionando naquele momento.
