Capítulo II - A Viagem para Hogwarts
A Plataforma 9 ¾ estava apinhada de pessoas. Era o dia da partida dos alunos para mais um ano letivo na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estudantes empurravam carrinhos lotados de malas e baús, com tudo o que precisariam no decorrer do ano, afinal só estariam de volta em julho. Pais se despediam calorosamente dos filhos, dando-lhes beijos, abraços e as últimas recomendações antes da partida.
- Aldo, eu já te disse. Não precisava me trazer aqui. Eu podia muito bem ter vindo sozinha. Você mesmo não disse que estava apertado no trabalho?
- Betsy, eu sempre te trouxe na estação desde que você entrou para Hogwarts, e não é porque você está no último ano e se sente praticamente uma adulta que eu vou deixar de fazer isso. Eu gosto de vir aqui me despedir de você. E quanto ao trabalho, não se preocupe, o Alex vai me dar cobertura.
Elizabeth olhou com ternura para o irmão mais velho. Desde pequena, Aldebaran sempre fora seu porto seguro, alguém com quem ela tinha certeza que podia contar. Ela sabia o quanto o trabalho de auror era importante para Aldo. Era algo que ele levava muito a sério e fazia com competência e responsabilidade. Deixar de lado parte do dia de serviço apenas para trazê-la na plataforma do Expresso de Hogwarts era uma grande demonstração de carinho, especialmente vindo de alguém que era visto pela maioria das pessoas como um sujeito frio e reservado.
Betsy sorriu para Aldebaran, e voltou a empurrar seu maleiro. Em um canto próximo da entrada do vagão ela viu alguns colegas de classe. Lily Evans, Alice MacFusty e Susan Timms conversavam animadamente. Próximos a elas estavam os garotos que Elizabeth costumava apelidar, por brincadeira, de os quatro cavaleiros do apocalipse: James Potter, Remus Lupin, Peter Pettigrew e Sirius Black.
Sirius e Elizabeth tinham um certo grau de parentesco, já que o pai dele era primo de Marguerith, e, embora não fossem amigos íntimos, Betsy tinha uma enorme simpatia pelo jovem Black. O charmoso rapaz de cabelos negros percebeu que estava sendo observado e deu uma piscadela marota como cumprimento. Elizabeth respondeu com um aceno de cabeça.
Mais ao longe ela avistou seu outro primo, Kamus Ivory, filho da irmã gêmea de sua mãe. Lembrou-se de um comentário que seu irmão, Ludovic, havia feito sobre Kamus após a sua festa de noivado. Segundo Ludo, o caçula dos Ivory era uma figura digna de preocupação. Betsy não sabia se compartilhava ou não da mesma opinião de Ludovic. Afinal, mal conhecia Kamus, não se lembrava de jamais ter mantido com ele uma conversa que durasse mais de cinco minutos. De qualquer jeito, o primo parecia ser a última pessoa que traria problemas para a família, afinal era da Sonserina, como pregava a tradição dos Black.
A ruiva continuou passando os olhos pela multidão de colegas, mas a pessoa que ela estava procurando ainda não havia chegado.
Aldebaran postou as mãos nos ombros da irmã:
- Ainda não a encontrou?
Betsy balançou a cabeça, negativamente.
- Não, ela deve estar muito sentida comigo...
- Realmente eu deveria estar com muita raiva de você. Mas como eu consigo? - disse uma voz as suas costas.
Elizabeth e Aldebaran se viraram e deram de cara com uma jovem sorridente da mesma idade de Betsy. Tinha a pele negra, olhos amendoados e cabelos bem curtos. Elizabeth soltou sua bagagem e abraçou a amiga.
- Marion! Eu estava morrendo de saudades.
- Eu também, Betsy.
- Não quero interromper o reencontro de vocês, mas é melhor se apressarem. O trem já está prestes a partir.
- É verdade, Aldo. - disse Elizabeth, dando um beijo na bochecha do irmão em despedida e puxando a amiga pela mão, correu em direção ao Expresso de Hogwarts.
Kamus Ivory empunhava a varinha e, com um feitiço de locomoção, fazia o malão flutuar à sua frente enquanto caminhava por um dos vagões da locomotiva vermelha. O barulho das conversas e os gritos entusiasmados dos estudantes mais jovens que corriam de um lugar para o outro estavam irritando o sonserino. Finalmente ele encontrou uma cabine vazia em um dos últimos vagões do trem. Guardou as bagagens e deitou-se de forma despojada no assento estofado, apoiando a cabeça nos braços cruzados embaixo dela. O Expresso começou a mover-se vagarosamente, levando-o rumo ao seu sétimo ano em Hogwarts.
Ao pensar que aquele seria o último ano que passaria no castelo, Kamus, ao contrário da grande maioria dos seus colegas, não sentia-se nenhum pouco saudoso. Nas palavras de seu irmão, Rigel, Hogwarts era um dos melhores institutos de ensino de magia da Europa, e do mundo. Era uma grande pena que o novo diretor, Albus Dumbledore, tivesse uma política tão liberal quanto aos descendentes de trouxas. Com certeza Hogwarts não era daquele jeito nos tempos em que Betelgeuse Ivory havia estudado lá, ou então ela não teria insistido tanto para que os seus três filhos freqüentassem aquela escola, ainda que morassem na Rússia e o mais cômodo fosse estudar em uma escola daquele país. Mas, para Kamus, Hogwarts não passava de paredes de pedra que abrigavam professores e milhares de livros e estudantes. Era apenas um lugar onde ele teria que passar o ano assistindo às aulas e fingindo estudar.
Sim, fingindo. Porque, desde que prestara o seu exame de N.O.M.s, Kamus já não se preocupava com os resultados que obteria nas provas. Ele havia chegado à conclusão de que não adiantaria nada ser um aluno aplicado, pois já sabia praticamente tudo o que aqueles professores tinham a lhe ensinar. Talvez, soubesse até mais, afinal haviam certos aspectos da magia que não eram abordados no currículo escolar. Era realmente impressionante o que se poderia aprender com os antigos livros que seu finado pai, Stephanio, mantinha trancados em um cômodo secreto na mansão principal do clã Ivory.
Ouviu a porta da cabine ser aberta com ímpeto e Bellatrix Black entrou sem fazer cerimônias. A garota sentou-se no outro banco, como se fosse uma rainha que sentava-se em seu trono dourado, e cruzou as pernas, encarando-o com divertimento.
- Então é aqui que você estava se escondendo, Kamus?
- Você sabe que eu não me escondo de nada, Bellatrix. E você sentiu tanto assim a minha falta que me procurou no trem inteiro?
Bella riu, os olhos escuros brilhando com puro divertimento. Ela sem dúvidas gostava de conversar com aquele primo. Kamus era... Diferente. Intrigante, perigoso... Ela nunca sabia o que lhe aguardava quando estava com ele, e Bellatrix certamente gostava dessa sensação, gostava do imprevisível, e sabia que Kamus sentia-se exatamente do mesmo jeito.
- Se eu senti a sua falta? - Bellatrix apoiou os braços sobre as pernas, arqueando o tronco para frente - Depende... Você sentiu a minha?
Kamus sorriu de lado e virou-se no assento, apoiando o rosto em uma das mãos para encarar melhor a prima.
- Um pouco. - ele estendeu a mão livre até os cabelos de Bellatrix, colocando uma mecha encaracolada atrás da orelha dela - Você tem certas características que me agradam.
A garota molhou os lábios finos com a língua e já ia perguntar exatamente à quais características Kamus se referia quando a porta da cabine foi aberta novamente.
Um rapaz alto e moreno, de olhos esverdeados, era quem havia aberto a porta. Kamus e Bellatrix o reconheceram imediatamente, era um outro setimanista da Sonserina a cuja festa de noivado eles haviam comparecido há poucos dias atrás, Maxwell Sinn. Os olhos de Max demoraram-se alguns segundos na mão que Kamus ainda mantinha no rosto de Bellatrix e ele deu um pequeno sorriso malicioso.
- Espero não estar interrompendo a... Conversa de vocês.
- De forma alguma, Sinn. - disse Bellatrix, voltando a encostar-se no banco estofado.
Kamus também sentou-se, lançando um olhar de esguelha para a prima, como se sugerisse que eles expulsassem Maxwell Sinn dali e continuassem o que estavam fazendo antes dele chegar, mas Bellatrix apenas respondeu-lhe com um olhar irônico. Enquanto isso, Max já adentrava a cabine com o seu grupo de amigos, todos sonserinos do sétimo ano. Logo o camarote, que de início era ocupado por apenas duas pessoas, encheu-se de membros da casa da Serpente.
- Finalmente encontramos um lugar apropriado, Max! - disse Stanford Lecter, um descendente de uma importante linhagem de bruxos irlandesa, que sentou-se ao lado de Bellatrix - Este ano o trem parece estar mais lotado do que o normal, sem dúvidas Dumbledore está determinado a encher a escola com pessoas de classe inferior.
- Creio que vocês não fariam objeção à nossa permanência aqui, não é mesmo Ivory? - perguntou Max.
- Seria uma honra tê-los conosco, Sinn. Afinal você é praticamente da nossa família agora. - Bellatrix respondeu por Kamus - Espero que me perdoem, mas vou ter me ausentar por alguns minutos, preciso falar com o meu primo Regulus. - ela disse, já levantando-se - Confio que farão companhia ao Kamus no meu lugar.
- É claro que sim, Black, vá tranqüila. - respondeu Stanford Lecter com um sorriso.
- Eu te acompanho, tenho mesmo que ir procurar a minha noiva. - disse Max, apressando-se em abrir a porta para a garota como o perfeito cavalheiro que era.
Bellatrix deixou a cabine acompanhada por Maxwell e sendo alvo do olhar nada contente de Kamus. Ele logo entendeu o que a prima estava fazendo, queria irritá-lo submetendo-o à companhia dos alunos mais arrogantes que já haviam habitado a ala das Serpentes. Era como jogar Paciência com Snap Explosivo, e Bellatrix queria ver até onde Kamus seria capaz de agüentar antes de explodir.
Elizabeth e Marion já estavam completamente acomodadas em uma cabine no Expresso de Hogwarts quando a ruivinha decidiu que já era hora de tirar essa história do seu noivado com Max Sinn em pratos limpos com a amiga. Precisava saber qual seria a reação de Mari frente a tudo aquilo.
- Me desculpe, Marion. Você está muito chateada?
- Por não ter sido convidada para sua festa de noivado? Betsy, eu sei que, para mim, seria impossível ir à sua festa. Seus pais não me suportam porque eu sou filha de trouxas. O que me magoou foi só ter sabido que a minha melhor amiga estava noiva através do Profeta Diário. Você está maluca? Você só tem 17 anos!
- Eu só estou ficando noiva, Mari. Não vou me casar ainda.
- Até parece, conhecendo seus pais, assim que você botar os pés para fora de Hogwarts, eles te enfiam dentro do vestido branco em dois tempos. E o pior de tudo: Max Sinn?
- Qual o problema com meu noivo? Ele é carinhoso, bonito, educado...
- Arrogante, preconceituoso, elitista, esnobe. Betsy, tem certeza que está fazendo a coisa certa?
- Foi por isso que eu não te falei nada antes. Sabia que ia implicar. Eu não entendo por que você e o Aldo ficam me perguntando toda a hora se eu tenho certeza do que eu estou fazendo.
- É porque nós te amamos e queremos te ver feliz. E eu acho mesmo que você está entrando em uma grande roubada.
- O Max é um verdadeiro cavalheiro, Mari.
- Falando de mim, meninas? - perguntou um rapaz alto, moreno e de olhos esverdeados, junto à porta entreaberta da cabine.
- Oi, Max, só estava contando para a Marion sobre as boas novas. - respondeu Betsy, levantando-se e dando um beijo rápido no noivo.
Maxwell olhou para Marion com um ar de superioridade, dizendo:
- Como vai, Peterson?
- Muito bem, Sinn. E você?
- Melhor, agora que encontrei Elizabeth. - voltando-se para a noiva completou - Querida, estou te procurando faz um bom tempo. Queria que viajasse comigo, o que acha?
- Claro. Você vem com a gente, Mari?
- Muito obrigada, Betsy, mas eu acho que prefiro procurar as meninas e ir com elas. - respondeu Marion, lançando um olhar fulminante na direção de Max, que deu um sorrisinho sarcástico para ela, enquanto abraçava Elizabeth.
Uma garota não muito alta, de cabelos cor-de-mel, compridos e levemente ondulados, fazia seu malão segui-la com um Locomortor pelos corredores do trem. Sem dúvidas era um feitiço simples e que poupava grande esforço, uma das vantagens de já ser maior de idade era poder usar magia sempre que quisesse. Graças à sua mãe, que fizera um enorme discurso repleto de inúmeras recomendações com direito à uma lista de livros que ela deveria estudar como preparação para os exames de N.I.E.M.s, ela acabara sendo uma das últimas alunas a embarcar no Expresso de Hogwarts.
Os olhos pequenos e cor de âmbar com tons levemente esverdeados esquadrinhavam as portas das cabines. Seus amigos, que ao contrário dela não eram retardatários, disseram que estariam esperando-a naquele vagão. Ela logo localizou através de uns dos vidros a cabeça de um garoto com familiares cabelos avermelhados. Abriu a porta da cabine número 427, chamando a atenção de seus três ocupantes.
- Até que enfim achei vocês. - disse ela, arrastando o malão para dentro do recinto. Logo os dois garotos, um meio ruivo que ostentava um distintivo de monitor abaixo do brasão da Corvinal nas vestes, e outro loiro e de olhos claros se dispuseram à ajudá-la.
- Já estávamos ficando preocupados com a sua demora, Anabelle. - disse a terceira ocupante da cabine, uma garota bonita de cabelos escuros e lisos, que iam até pouco abaixo dos ombros, e estava sentada perto da janela.
- Culpem a senhora Mira Barton Timms pelo meu atraso. - respondeu Anabelle, sentando-se ao lado da amiga e pegando um dos sapos de chocolate espalhados pela mesinha repleta de doces e outras guloseimas que estava entre os dois bancos da cabine.
Mal Elizabeth virou as costas acompanhando Maxwell, Marion saiu pisando duro pelos corredores do trem. Tremia de raiva da cabeça aos pés. Sinn tinha o intragável dom de tirá-la completamente do sério apenas com um sorriso irônico. Como ela odiava aquele imbecil elitista. Max nunca perdia a oportunidade de esnobá-la ou humilha-la quando Elizabeth não estava por perto. Tudo porque os pais de Marion eram trouxas. E agora a sua melhor amiga, praticamente sua irmã de coração, ia se casar com aquele babaca. Isso era inconcebível. Marion não podia permitir uma sandice daquelas! Abriu impetuosamente a porta da primeira cabine que encontrou, assustando suas ocupantes.
- Nossa, Marion, - disse Susan Timms, uma bela italiana do sétimo ano da Grifinória, rindo - por um minuto pensei que estávamos sendo atacadas por trasgos montanheses.
- Desculpe, Susan. Não foi minha intenção assusta-las... - falou a negra, visivelmente arrependida. - Será que posso viajar com vocês?
- Claro que sim - respondeu uma jovem ruiva de brilhantes olhos verdes - Elizabeth também vem?
- Não, Lily... - Marion ficou novamente emburrada - Ela está com o noivo dela neste momento.
- Noivo?! - perguntaram Susan e Lily em uníssono.
- Vai me dizer que vocês não estavam sabendo disso? Saiu no Profeta Diário, com direito a destaque na coluna social e tudo mais.
- Eu não perco tempo lendo esse tipo de frivolidades - comentou Lily, fazendo uma ligeira careta - Esse pessoal da alta classe me cansa...
- Eu até concordo com você, mas na hora em que botei os olhos naquela foto enorme da Betsy abraçada com o Sinn, não tive como ignorar.
- Quem diria - disse Susan, balançando a cabeça em sinal de assombro - Nunca imaginei que uma pessoa dinâmica e independente como a Elizabeth ia acabar se amarrando em alguém como o Sinn. Tudo bem que ele é muito bonito, não há como negar. Empata com muitos ragazzos de minha terra. Mas, sei lá, sempre o imaginei se casando com aquela típica dondoca, vidrada em festas, roupas e jóias. E isso a Elizabeth nunca vai ser.
- E eu não sei? - Marion deixou-se cair pesadamente no assento da cabine. - Mas aquela cabeça dura não me escuta! Vai estragar a vida dela por causa dessa bobagem. - sacudiu os ombros e sorrindo, mais para convencer a si mesma que às colegas, emendou - Vamos mudar de assunto e falar de coisas mais agradáveis, sim? Aliás, cadê as outras meninas?
- Foram comprar doces, menos a Alice, que está curtindo um tempinho com o Frank. Fica aí e relaxa, Marion, ainda há tempo... Os dois não vão se casar pelo menos até o fim do ano letivo. - Susan tentava animar a colega.
Aos poucos a cabine foi se enchendo. As meninas riam, divertidas, colocando as fofocas do verão em dia, também ansiosas ante o último ano de escola. Marion olhava para elas, e, embora fosse uma pessoa usualmente extrovertida, naquele exato momento não conseguia se enturmar. Era a primeira vez nos últimos seis anos que viajava desacompanhada de Betsy. Sentia uma falta imensurável da amiga. Não conseguia relaxar, incomodada com aquele maldito noivado. Sabia que não ia dar certo... A jovem negra olhou pela janela, começava a chover com mais intensidade. A força da água e do vento batendo na janela pareciam refletir a ansiedade que consumia a garota. De repente, como um relâmpago cruzando os céus, ela teve uma idéia. Dirigindo-se para a ruiva sentada a sua frente, perguntou:
- Lily, por uma acaso você sabe onde o Potter e os amigos dele estão?
Evans apertou com força seus olhos verdes, contrariada.
- Por que eu saberia onde aquele idiota arrogante está?
- Desculpa, eu não queria te irritar, é que dada a sua história com ele, eu pensei que talvez...
- Minha história com ele?! - a ruiva começava a ficar mais nervosa. James Potter era um tópico que sempre a tirava completamente do sério. Não conseguia suporta-lo, apesar de que, no fundo, embora ainda não tivesse percebido, na realidade o que sentia por ele era exatamente o oposto do ódio. - Eu não tenho história nenhuma com aquele garoto metido e imaturo cuja maior diversão é humilhar os colegas e... e...
Percebendo que a amiga estava prestes a explodir, Susan resolveu intervir.
- O que a Marion quis dizer é que dada a sua história de atritos constantes com ele, talvez você soubesse onde o James está para poder evitá-lo.
A jovem ruiva, então, percebeu que fora demasiadamente rude com a colega.
- Desculpe, Marion, acho que fui um pouco grossa com você. Mas, eu realmente não sei onde o Potter está.
- Mas eu sei - falou uma garota baixinha de voz suave e delicada. Era Alice MacFusty, que chegara fazia pouco tempo, acompanhada do namorado, Frank Longbotton. - Eu vi ele e os amigos no vagão à esquerda, no fim do corredor.
- Obrigada - agradeceu a jovem negra, saindo apressada em direção ao local indicado.
Na verdade, não queria falar com James Potter, e sim com outra pessoa... Mas como os dois eram igual unha e carne, onde James estivesse, certamente ele também estaria. Bateu levemente na porta da cabine, sendo recebida por um garoto rechonchudo, de olhos esbugalhados.
- Oi, Pettigrew, tudo bem? Por acaso o Black está aí com você? - perguntou ela, suspendendo o corpo com a ponta dos pés para tentar ver o interior da cabine.
O garoto não respondeu, apenas virou a cabeça para o interior do recinto, dizendo:
- Sirius, tem uma garota te procurando.
Poucos segundos depois, um bonito jovem de vastos cabelos escuros apareceu.
- Ora, ora, Peterson, de todas as garotas da escola, você era uma das últimas que eu imaginei que me procuraria algum dia - disse ele, dando um charmoso sorriso - Finalmente decidiu assumir que eu sou o amor de sua vida? - piscou, sedutor.
- Vai sonhando, Black - respondeu a garota, sorrindo de volta. - Você acha que eu trocaria todos os meus admiradores para me tornar mais uma na sua vasta lista de conquistas? Por mais que a idéia possa parecer divertida, prefiro me manter aberta a outras opções de escolha... Enfim, você sabe como eu gosto de ser paparicada por muitos... Não posso decepcionar meu séqüito de adoradores.
O garoto soltou uma alta e sonora gargalhada.
- Você é muito engraçada mesmo, Marion, olhar para você é quase como ver uma versão minha de saias.
- O que você queria? Afinal, nós dois somos blackies, não é? Embora você só seja Black no nome. Mas, brincadeira a parte, eu queria conversar com você. Preciso de sua ajuda...
- Até imagino para o que seja.
- Ficou sabendo do noivado?
- Como não? Saiu em todos os jornais. Onde Elizabeth está com a cabeça para concordar com aquilo? - disse, sério.
- E, então, será que você poderia conversar com a Betsy para mim? Eu já tentei, o Aldo também... Você é primo dela, e, além disso, é muito bom de lábia, talvez consiga convence-la a não fazer essa loucura.
O semblante do rapaz tornou-se ainda mais sério, desviou o rosto do olhar ansioso da moça a sua frente.
- Marion, eu não quero parecer estar com má vontade, mas isso não vai funcionar. Eu e Elizabeth podemos ser primos de segundo grau, mas nunca fomos íntimos. Se ela não quer ouvir o irmão ou você, que tenho certeza que é muito mais família para ela que eu, o que te faz pensar que Elizabeth vai me escutar?
- Eu não sei... Foi só uma idéia, estou muito aflita... Pensei até mesmo em recorrer ao Ivory, mas do jeito que ele é tenho certeza que é capaz de me deixar falando sozinha. Você era a minha última esperança. - suspirou a garota, melancolicamente.
Sirius apiedou-se da colega de casa, e tomou sua decisão.
- Tudo bem, mesmo sabendo que não vai dar em nada, eu tento conversar com Elizabeth. Mas acho que você não deveria se preocupar tanto. Minha prima é uma garota inteligente, uma hora a ficha vai cair e ela vai perceber que o mala do Sinn é o cara mais errado que ela poderia escolher para a vida dela.
Kamus olhava pela janela da cabine a tempestade que começava a formar-se, cobrindo o céu com pesadas nuvens cinzentas. No banco oposto ao seu, Stanford Lecter estava fazendo um enorme monólogo sobre a temporada que ele e a família passaram na casa de verão que possuíam na França. Ivory já estava considerando seriamente a hipótese de lançar um Silencio no bruxo irlandês quando Maxwell Sinn retornou, acompanhado por sua prima.
Logo que chegaram no camarote escolhido pelo noivo, Elizabeth percebeu que passariam a viagem acompanhados por alguns colegas de Max.
- Ora, ora, quem diria uma leoa adentrando em um ninho de cobras - disse Stanford Lecter.
- Não diga isso, Stan, mais do que uma grifinória, Betsy é minha noiva. È praticamente uma de nós.
Elizabeth mordeu o lábio inferior, contrariada. Ela passou rapidamente os olhos pelo recinto e percebeu que a maioria daqueles que se encontravam ali eram alguns dos sonserinos mais irritantes e convencidos da escola. Maxwell poderia ter tido a delicadeza de ter procurando um camarote apenas para eles dois ou com companhias um pouco mais agradáveis. Seu consolo - e surpresa - foi ver seu primo Kamus sentado perto da janela. Talvez ele tornasse as coisas menos difíceis para ela durante todo o trajeto.
Betsy sentou-se de frente para o primo, também ficando perto da janela, e Max sentou-se ao seu lado, segurando-lhe a mão. O rapaz começou, então a conversar com os amigos, contando sobre as últimas férias de verão, sobre as viagens, a festa de noivado e os longos passeios que fizera. Os demais também começaram a narrar histórias semelhantes. Eram tantas frivolidades ditas que começaram a entediar Elizabeth. Contudo, Max parecia não notar o aborrecimento dela.
Betsy olhou, então, para o primo, como se pedisse socorro. Mas, ao perceber que era observado, Kamus lançou um olhar duro e frio para Elizabeth, deixando claro que não estava disposto a conversar com ninguém naquela cabine, e isso incluía ela.
Elizabeth suspirou e voltou seu olhar para o rapaz sentado ao lado de Kamus. Não tinha reparado que Severus Snape também estava no vagão. Snape andava sempre mal-humorado e com cara de poucos amigos, mas não custava tentar puxar papo com ele. Betsy tinha certeza que era muito melhor do que ouvir Stanford se vangloriar do seu sucesso na última caçada promovida na propriedade de seu pai. Betsy encarou Severus de forma insistente. Por breves segundos o rapaz esboçou um olhar de compreensão e até mesmo de compaixão para com o desespero da garota, mas, no instante seguinte, seu semblante voltou ao usual aspecto carrancudo. Ele se abaixou e pegou um pequeno malote contendo um kit de poções e começou a mexer nos conteúdos, como se os estivesse organizando.
Kamus até que achava a situação da prima um tanto engraçada. Estava claro que Elizabeth não pertencia àquele lugar, era uma leoa solitária cercada por serpentes, exatamente como Lecter dissera. No entanto, se Maxwell Sinn não era capaz de perceber o claro descontentamento da noiva, era mesmo um imbecil.
- Ivory?
Ele retirou os olhos de Elizabeth e encarou Stanford ao perceber que ele lhe chamara.
- Eu estava lhe perguntando, Ivory, sobre as caçadas que a sua família costuma realizar, elas são muito famosas na Rússia não? Em certa ocasião o meu avô já foi convidado para uma delas. E, me diga, é realmente verdade que o seu clã mantém a maior criação de Granianos da Europa?
- Sim. - Kamus respondeu, impassível. Era exatamente por isso que não gostava de confraternizações com os demais membros da alta sociedade bruxa, todos pareciam ansiosos para comparar suas riquezas e posses.
- É mesmo? - Max Sinn pareceu vivamente interessado - E o rebanho é composto por quantas cabeças mais ou menos?
- Eu não sei, Sinn. - Kamus encarou o noivo de sua prima com altivez - Não perco o meu tempo contando cavalos.
Elizabeth percebeu que Max não havia ficado muito contente com a resposta nada polida do seu primo, porque havia apertado a sua mão com mais força por alguns segundos.
- Isso definitivamente não é uma atitude muito correta, Ivory. - começou Stanford, com um ar de superioridade que chegava a enojar - É necessário estar completamente ciente do patrimônio que iremos herdar algum dia. Ou no seu caso, que você já herdou. Eu, por exemplo, sei de cada nuque que minha família tem aplicado. Papai faz questão de manter-me inteirado de nossas finanças.
Stanford sorria, presunçoso, ao receber murmúrios de aprovação de seus amigos. Kamus cruzou os braços, em um atitude puramente irônica.
- Faça-me um favor, Lecter, cale a boca. Já é o suficiente agüentar a sua presença, mas ninguém aqui é obrigado a ouvir as besteiras que você diz
Betsy mordeu novamente o lábio inferior e olhou depressa para Stanford. O jovem irlandês parecia ter recebido um golpe direto no estômago, a boca estava levemente aberta e os olhos arregalados. A grifinória sentiu um pouco de pena dele. Era verdade que, no fundo, ela também gostaria de dizer algo semelhante a Stan, porém, ao contrário dela, Kamus não parecia preocupar-se em ser indelicado.
A cabine mergulhou em um silêncio sepulcral. Severus Snape até deixara de organizar o seu kit de poções para observar com interesse a cena que se desenrolava.
- Como... - Lecter parecia ter finalmente recuperado a voz, e agora encarava Kamus com raiva nos olhos - Como... Você ousa, Ivory? Você não sabe com quem está se metendo...
Kamus sorriu. Um sorriso completamente frio, que não chegava aos olhos. Elizabeth logo percebeu que a ameaça de Stanford nem resvalara no primo. O jovem Ivory levantou-se para deixar a cabine, mas foi impedido pela mão de Maxwell que pousou em seu ombro direito.
- Peça desculpas ao Stan, Ivory. Desculpe-se agora e podemos esquecer essa grosseria.
- Não tenho a mínima intenção de fazer isso. - Kamus virou-se e encarou friamente o noivo de sua prima - E você não vai ser idiota o bastante para tentar me obrigar, Sinn. Apesar de não freqüentarmos o mesmo círculo, creio que um dos seus amigos já o tenha advertido sobre mim.
Betsy reparou que Kamus lançava um olhar quase imperceptível para Severus Snape. E o outro sonserino, ao invés da usual atitude carrancuda, tinha uma expressão extremamente séria nas orbes negras. Seja lá a que o seu primo estivesse se referindo, Snape havia compreendido perfeitamente pois havia levantado e postado-se ao lado de Max.
- Vamos, Sinn. - disse Snape, segurando um braço do colega - Sente-se. É melhor não arrumar briga no trem, isso é coisa que apenas grifinórios fazem.
Sem olhar para mais ninguém, Kamus abriu a porta da cabine e saiu.
Betsy suspirou enquanto Max sentava-se pesadamente ao seu lado, xingando o seu primo de incontáveis maneiras. Stanford logo juntou-se a ele para ofenderem Ivory. A ruiva olhou para a paisagem que se descortinava pela janela, tentando ignorar os jovens falastrões ao seu lado que se lamentavam pelo orgulho ferido. Começava a chover. Observando as pesadas gotas que banhavam a janela da cabine, Elizabeth não conseguiu conter o pensamento de que aquela certamente seria a pior viagem que ela já fizera no Expresso de Hogwarts desde que entrara na escola.
Notas das Autora
Ana (Meri): Nota bem rapidinha. Só de curiosidade, o Alex mencionado por Aldebaran na estação King's Cross é Alexander Sinclair, pai da Raven Sinclair do Expresso Hogwarts. Alex é o melhor amigo de Aldebaran, e, no começo da história ainda trabalha como auror. Teremos um pouco mais de Alex no decorrer de Dias Passados. E também de Gabriella, mãe de Raven.
A personagem Susan Timms, como todo mundo aqui sabe, surgiu nas fics Hades – A última guardiã e Hades- às portas do Inferno, escritas pela Silverghost (a nossa Mina MacFusty).
Hades não é nosso passado oficial, mas, como gostamos muito do enredo, estamos usando, indiretamente, alguns elementos da saga, com a devida aprovação da Silver, é claro.
