Capítulo Um
"Oh, Srta. Swan. Olhe só que lugar horroroso."
Enquanto descia da carruagem , Isabella Swan observou a passagem estreita, de paralelepípedos, entre duas fileiras de armazéns.
"Parece um beco, Alice."
"Fede a sangue. Deus nos ajude. Nós vamos ser assassinadas!"
Isabella segurou o sorriso. Sua criada pessoal era maravilhosa para fazer cachos
em seu cabelo, mas a capacidade mórbida de sua imaginação era ainda mais
incomparável.
"Nós não vamos ser assassinadas."
Depois de pensar por um instante, ela acrescentou, "Não hoje, pelo menos."
A Srta. Swan teve um a boa criação, com os benefícios da educação formal e muita atenção ao decoro. Ela estava noiva do jovem diplomata mais promissor da Inglaterra e não era o tipo de moça imprudente que se arrisca em becos suspeitos à meia-noite, com um a pistola descarregada no bolso, à procura do canalha mais infame de Londres.
Não, de jeito nenhum.Quando Isabella saiu à procura do canalha mais infame de Londres, ela esperou até o meio-dia. Isabella entrou no beco suspeito acompanhada por um lacaio, sua criada pessoal e um pouco de medo. E ela não portava nenhuma arma.Sério, de que adiantaria? Quando o homem que você procura é um lutador de boxe com 1,80 de altura e que pesa cem quilos, um a pistola descarregada não serve para nada. As únicas armas letais em questão eram os punhos dele, e um a garota só pode esperar que elas estejam ao seu lado.Edward, por favor, fique do meu lado. Só desta vez.
Ela seguiu em frente pela viela estreita e úmida, levantando a barra rendada de suas saias e tom ando cuidado para não prender o salto dos sapatos no piso irregular.
"Como o segundo filho de um marques vem parar num lugar desses?", Alice
perguntou, enquanto tentava pisar apenas nos paralelepípedos mais limpos .
"De propósito. Lorde Edward deu as costas para a sociedade anos atrás. Ele adora
a vida selvagem." Mas, por dentro, Isabella se perguntava a mesma coisa. Da última
vez em que viu Edward Masen, o homem que seria seu cunhado, ele ostentava
ferimentos graves. Não eram apenas as consequências físicas da sua pior - quer
dizer, sua única - derrota na carreira de boxeador, m as também o baque causado pela morte repentina do pai.
Na época, ele parecia estar em um momento ruim. Muito ruim. Mas não tão deprimente quanto aquele lugar.
"Aqui estamos."
Ela bateu na porta e ergueu a voz.
"Lorde Edward? Está aí? É a
Srta " ...
Ela engoliu o nome. Talvez não fosse aconselhável expor sua identidade em um lugar daqueles.
"Eu só preciso de alguns minutos do seu tempo."
Uns minutos e um a assinatura. Ela apertou o m aço de papéis em sua mão. Nada de resposta.
"Ele não está em casa", Alice disse "Por favor, Srta. Swan. Precisamos ir se quiser os chegar ao Castelo antes do anoitecer."
"Ainda não."
Isabella se aproximou da porta. Ela ouviu
ruídos lá dentro. O ranger de cadeiras
sendo arrastadas no chão. Alguns baques surdos. Oh, ele estava lá dentro e a ignorava de propósito.Ela estava dolorosamente acostumada a ser ignorada. Seu noivado havia lhe dado anos de prática.Quando ela tinha 17 anos, Lorde Jacob Masen, o belo e autoconfiante herdeiro do Marquês de Cullen, obedeceu aos desejos de ambas as famílias e lhe propôs casamento. Ele se ajoelhou na sala de estar dos Swan e colocou um anel de ouro e rubi no dedo dela. Isabella sentiu com o se estivesse sonhando.Um sonho com um pequeno problema. Jacob estava no início de uma carreira promissora em diplomacia, e Isabella era muito nova para assumir os deveres da administração de um a casa. Eles tinham todo o tempo do mundo, Jacob disse. Ela não se incomodaria com um noivado longo, certo?
"Claro que não", ela respondeu.
Em retrospecto, pensava que talvez devesse ter dado uma resposta diferente ao noivo. Com o, por exemplo, "Defina 'longo'."
Oito anos - e nenhum casamento - depois, Isabella continuava esperando. Nomento, a situação dela era motivo de piada. Os jornais de fofocas começaram a chamá-la de "Srta. Wait-More (Espera-Mais)". Os boatos a seguiam por toda parte. Todos se perguntavam o que poderia estar mantendo o futuro marquês longe da Inglaterra e do altar. Seria ambição, algum a distração...
dedicação ao dever? Ou, quem sabe, dedicação a um a amante estrangeira?
Ninguém sabia dizer. Muito menos a própria Isabella. Ah, ela tentava rir dos boatos
e das fofocas, mas por dentro... Por dentro aquilo a machucava muito. E a fazia
se sentir absolutamente só.Bem , aquilo tudo acabava ali. A partir daquele momento ela seria a Srta. Não-Espera-Mais.Isabella virou a maçaneta de bronze com a mão enluvada e a porta se abriu.
"Fiquem aqui", ela disse para os criados.
"Mas. Srta. Swan , não..."
"Eu vou ficar bem. A reputação dele é horrível, mas nós somos amigos de
infância. Eu passava os verões na casa da família dele e estou noiva de seu
irmão."
"Ainda assim, Srta. Swan... Nós precisamos combinar um sinal."
"Um sinal?"
"Uma palavra para você gritar se estiver em perigo. Algo como 'Tânger', ou... ou talvez 'muscadínia'."
"Tem algo de errado com a palavra 'socorro'?", Isabella falou com ironia.
"Eu... bem, acho que não."
"Muito bem ." Ela sorriu, incapaz de suportar a expressão de decepção da criada.
"Então vai ser 'muscadínia'."
Ela passou pela porta, atravessou um corredor escuro e chegou a um cômodo
com teto muito alto.O que encontrou fez seu sangue gelar... Oh, muscadínia.
Ela piscou e se obrigou a olhar de novo. Talvez não fosse ele.Mas não era possível confundir o perfil dele, com aquela curva acidentada que formava seu nariz, marcado por cicatrizes. Mais o cabelo bronze e farto, o maxilar forte, a largura impressionante dos ombros... Aquele era o próprio Lorde Edward Masen, empoleirado em um a viga, a cerca de quatro metros acima do
chão. Ele tinha um a corda nas mãos, que amarrava com cuidado à viga. E na
extremidade da corda havia um laço. Um laço corredio.O que ele tinha não era apenas depressão. Era algo muito pior.
E ela chegou no momento exato.
Isabella sentiu o coração palpitar em pânico. Tum-tum. Tum-tum.
"Meu lorde!", ela exclamou. "Não faça isso!"
"Srta. Swan ?", ele olhou para ela.
"Isso. Isso, sou eu." Avançou calmamente, erguendo a mão espalmada em um
gesto de paz.
"É a Srta. Swan . Isabella. Eu sei que j á tivemos nossas diferenças. Aliás, não sei se já tivemos algo que não diferenças. Mas estou aqui para lhe ajudar. E eu lhe imploro para, por favor, reconsiderar essa decisão."
"Reconsiderar." Ele olhou com firmeza para ela.
"Você quer me impedir de..."
"Isso. Não faça algo de que vai se arrepender. Você tem tanto pra viver." Ele refletiu por um instante.
"Não tenho mulher nem filhos. Meus pais estão mortos. Meu irmão e eu não nos falam os há quase um a década..."
"Mas você deve ter amigos. E possui tantas qualidades."
"Quais, por exemplo?"
Droga. Isabella devia imaginar que ele perguntaria. Ela repassou em sua cabeça
tudo o que sabia sobre a vida dele nos últimos anos. A maior parte vinha dos
jornais, e quase todas as notícias tinham sido pavorosas. Edward Masen
conquistado a reputação de ser impiedoso nas lutas de boxe e sem -vergonha em
todo o resto. Sua fama de acabar com as mulheres na cama era quase tão legendária quanto sua rapidez no ringue. Seu apelido era Filho do Diabo.
"Força!", Isabella sugeriu. "Essa é um a qualidade incrível."
Ele apertou um nó.
"Touros são fortes. Isso não os salva da morte quando não conseguem mais puxar um a carroça."
"Não fale assim. Talvez você não seja mais o campeão, mas isso não significa
que perdeu seu valor."
Ela tentou encontrar algo, qualquer coisa.
"Lembro que você deu parte dos seus ganhos para um fundo de viúvas da guerra.
Não é verdade?"
"É possível."
"Aí está. É isso. Caridade é a melhor das virtudes."
Ele terminou de atar um nó e puxou a corda para testar a resistência.
"Não adianta. Uma única boa ação não vai compensar meus pecados. E todas as mulheres que eu seduzi?"
"Eu..." Oh, céus. Como alguém consegue falar sobre essas coisas em voz alta? "Eu... eu imagino que algumas delas devem ter gostado."
E com isso ele riu. Foi uma risada seca, baixa... mas ainda assim uma risada. Riso era um bom sinal, não é mesmo? Homens que riem não se enforcam . Não devia incomodar Isabella que ele estivesse rindo dela.
"Posso lhe garantir, Srta. Swan, que todas gostaram."
Ele deixou a corda cair, ficando pendurada na viga, e então desceu por ela, usando a força de seus braços, até terminar bem diante de Isabella. Ele estava descalço e vestia calças cinzas e um a camisa de algodão com o colarinho aberto. Os olhos verdes de Edward a desafiavam a transgredir o decoro de dez maneiras
diferentes. E aquele sorriso debochado que ele mantinha nos lábios apenas afirmava que ela não tinha coragem para transgredir nada.
"Pode respirar", ele disse. "Você não interrompeu um suicídio."
Ela aceitou a sugestão. Seus pulmões foram inundados por ar e todo o resto por
alívio.
"Mas o que eu devia pensar? Você estava em cima da viga, com a corda, o laço..." Ela apontou para a evidência. "O que mais você poderia estar fazendo?"
Sem falar nada, ele caminhou até a extremidade do salão. Ali, pegou um saco de lona recheado de palha com um gancho no alto. Edward voltou e pendurou o saco na corda, fazendo o nó correr para ficar firme.
"Chama-se treinamento." Ele deu um soco no saco para demonstrar.
"Percebe?"
Ela percebeu. E então se sentiu intoleravelmente tola. Na infância, Edward
sempre a provocava, mas de todas as maldades que ele fez ao longo dos anos...
"Desculpe estragar sua diversão", ele disse.
"Minha diversão?!"
"Esse é um famoso passatempo das mulheres, sabe? Tentar me salvar de mim
mesmo." Ele lhe deu um olhar convencido e passou por ela.
Isabella ficou corada - mas essa era a palavra errada. Se "corar" fosse equivalente a um sussurro, naquele momento as bochechas dela estavam
gritando! Ridículas de tão cor-de-rosa, com o um flamingo ou algo assim . Homem desprezível, perturbador.Uma vez, quando era apenas uma garotinha, Isabella viu uma briga na vila. Um homem que com parva avelãs questionou o vendedor quanto à honestidade de sua balança. Os dois discutiram , gritaram ... e um a briga irrompeu. Ela nunca se esqueceu do modo com o a atmosfera mudou em um instante. Todos por perto sentiram a mesma coisa. A sensação de perigo formigava.Isabella nunca testemunhou outra troca de socos. Mas ela sentia o mesmo ligamento no ar sempre que Edward Masen estava por perto. Ele parecia carregar certas coisas consigo, do mesmo modo que outros homens carregavam um a maleta ou um a bengala. Coisas com o intensidade e força bruta contida -mas prestes a se libertar. A essa sensação de perigo se unia a de expectativa. E a promessa de que, a qualquer momento, as regras que governam a sociedade
poderiam perder o sentido.Sua vida de libertino era segredo para alguém? Honestamente, os espartilhos não se desamarravam sozinhos.
"Eu pensei que você tivesse parado de lutar", ela disse.
"Todo mundo está pensando que eu parei de lutar. E é isso o que vai fazer da minha volta ao esporte algo tão emocionante. E lucrativo."
Ela pensou que isso obedecia a um tipo estranho de lógica.
"Agora explique-se." Ele cruzou os braços. Aqueles braços grandes... grandes não, imensos... ah, sem palavras para definir. "O que diabos você está fazendo? Devia saber que não é bom vir a um lugar desses."
"Eu sei e não vim sozinha. Dois criados estão me esperando lá fora." Em um impulso tolo, ela acrescentou, "e nós com temos um sinal."
"Um sinal", ele arqueou a sobrancelha.
"Isso, um sinal." Ela continuou antes que ele quisesse saber mais. "Eu não precisaria vir até aqui se você tivesse deixado algum outro meio de contato. Tentei encontrá-lo no Harrington."
"Eu não tenho mais quarto no Harrington."
"Foi o que m e informaram . E então me disseram que este é o seu endereço
atual." Ela o seguiu até onde pareciam ser seus aposentos. "Você mora mesmo
aqui?"
"Quando estou treinando, moro. Sem distrações."
Isabella olhou em volta. Ela não tinha estado em muitas residências de solteiros,
mas sempre as imaginou atulhadas e cheirando a coisas não lavadas - louça,
roupa e corpos.O armazém de Lorde Edward não cheirava a nada desagradável. Apenas serragem , café e o aroma tênue de... óleo essencial de gaultéria, talvez? Mas o lugar era espartano. Em um canto viu um a cama simples, um armário e algum as prateleiras, além de um a mesa pequena com dois bancos.Ele pegou dois copos no armário e os colocou sobre a mesa. Em um deles Edward despejou dois dedos de xerez. No outro, esvaziou um bule de café e adicionou um toque de um xarope de cheiro forte, tirado de um a misteriosa garrafa marrom . A isso tudo acrescentou três ovos crus.Ela o observava, com um a vontade imensa de vomitar, enquanto Edward mexia aquela mistura repulsiva com um garfo.
"Com certeza você não vai..."
"Beber isso?" Ele ergueu o copo e engoliu o conteúdo de um a só vez, depois recolocou o copo sobre a mesa. "Três vezes por dia."
"Oh."
Ele empurrou o xerez para ela.
"Este é seu. Parece que você precisa de um gole."
Isabella encarou o conteúdo do copo enquanto ondas de náusea sacudiam seu
estômago.
"Obrigada."
"É o melhor que eu posso fazer. Como pode ver, não estou preparado para receber visitas sociais."
"Não vou tomar muito do seu tempo, prometo. Só parei para..."
"Entregar o convite de casamento. Não se preocupe, vou enviar uma carta aos noivos com os meus pêsames."
"O quê? Não. Quero dizer... Imagino que você saiba que Lorde Jacob está, afinal, voltando de Viena."
"Eu soube. E Jacob lhe deu permissão para planejar o casamento mais suntuoso que puder imaginar. Eu mesmo vou assinar as faturas."
"Bem , sim . Quanto a essas assinaturas..." Isabella torceu o rolo de papéis em sua
mão.
Ele se afastou da mesa.
"Isso tem que ser rápido. Não posso perder tempo conversando."
Lorde Edward parou debaixo de um a barra de ferro paralela ao chão, que estava a cerca de um metro acima de sua cabeça. Em um salto, ele a agarrou e então começou a se erguer, flexionando os braços... Várias vezes.
"Continue", ele disse ao ultrapassar a barra com o queixo pela quarta vez. "Eu posso conversar enquanto faço isso."
Talvez ele pudesse, mas Isabella começava a achar difícil. Não estava acostumada
a conversar com um homem seminu, ocupado com esse tipo de... exercício
muscular. Um a sensação estranha em suas veias. Ela pegou o copo de xerez e deu um gole cauteloso. Ajudou.
"Imagino que você não saiba que meu tio Harry morreu há alguns
meses."
Ela fez um gesto dispensando os pêsames antes que Edward pudesse se
manifestar. "Não foi um choque. Ele já tinha idade avançada. Mas o doce velhinho me deixou um a herança em seu testamento. Um castelo."
"Um castelo?"
Ele gemeu ao ultrapassar a barra mais uma vez. Então parou ali, os músculos tensos devido ao esforço.
"Um a pilha de ruínas no pântano, com uma montanha de impostos atrasados, eu imagino."
"Na verdade, não. O castelo fica em Kent e é um encanto. Era uma das propriedades pessoais dele. Meu tio era o Conde de Lynforth, se você não está lembrado."
Bom Deus, com o ela tagarelava. Controle-se, Isabella.
"É ideal para um casamento, então." A voz saiu comprimida devido ao esforço.
"Imagino que sim. Para o casamento de alguém. Mas estou indo para lá hoje e
passei para..."
"Contar isso para mim ." Subiu.
"Isso. E também..."
"Para pedir dinheiro." Subiu. "Como eu já disse, você pode gastar o quanto
quiser no seu casamento. Envie as contas para os administradores do meu irmão."
Isabella fechou os olhos bem apertados e depois os abriu devagar.
"Lorde Edward, por favor. Você faria a gentileza de parar..."
"De completar suas frases?"
Ela reprimiu um rosnado. Ele parou no meio do exercício.
"Não vá me dizer que eu errei alguma?"
Ela não podia lhe dizer isso. Não com sinceridade. Essa era a parte mais irritante.
"Com o eu disse", ele continuou,
"Eu estou treinando." Cada frase era pontuada por outra subida. "É isso o que nós, lutadores profissionais, fazem os. Nós nos concentram os." Subiu. "Antevemos." Subiu. "E reagimos. Se isso a incomoda,
procure ser menos previsível."
"Estou cancelando", ela disparou. "O casamento, o noivado. Tudo. Estou cancelando tudo."
Ele se soltou e pousou no chão. O ar pesou ao redor dos dois. E a expressão sombria dele contou para Isabella, sem dúvida nenhum a, que ele não tinha previsto
isso.
Edward a encarou.
Aquele mês não estava se desenrolando com o havia planejado. Ele tinha se
enfiado naquele armazém para treinar para o seu retorno. Quando enfrentasse
James Dubose pela segunda vez, seria a maior luta de sua vida e a maior bolsa já
oferecida na história da Inglaterra. Para se preparar, precisava de
condicionamento físico intenso, sono sem perturbações e com ida nutritiva... E,
absolutamente, nenhum a distração.
Então, quem resolvia entrar pela sua porta? Ninguém menos que a Srta. Isabella Swan ore, sua distração mais íntima e persistente. É claro.Os dois sempre se estranharam , desde quando eram crianças. Ela era o retrato da "rosa inglesa", com o cabelo claro, os olhos azuis e as feições delicadas. Bem -educada, acolhedora e refinada. Além de irritante de tão doce. Resumindo, Isabella Swan era a encarnação da sociedade civilizada. Tudo que Edward sempre
desdenhou. Tudo que ele tinha jurado arruinar... E devia ser isso que tornava tão
tentadora a ideia de arruiná-la.Sempre que Isabella estava por perto, ele não conseguia resistir a chocar as noções de decoro dela com um a demonstração de força bruta. Edward gostava de atormentá-la até fazer as bochechas de Isabella adquirirem um tom exótico de rosa. E ele imaginou, muitas vezes, como ela ficaria com aquele coque embaraçado pelo amor e úmido de suor.Ela era a prometida do seu irmão. Era errado pensar em Isabella daquela forma.
Mas Edward nunca fez muita coisa certa fora de um ringue de boxe. Desviou o olhar do lenço branco rendado que escondia o decote dela.
"Eu acho que ouvi mal", ele disse.
"Oh, estou certa de que me ouviu muito bem. Estou com os documentos bem aqui." Ela desenrolou o maço de papéis que trazia na mão enluvada. "Meus advogados os redigiram . Você gostaria que eu resumisse?"
Aborrecido, ele estendeu a mão para pegar os papéis. "Eu sei ler." Mais ou menos.
Da mesma forma que todos os documentos legais colocados à frente dele
desde a morte do velho marquês, aqueles estavam escritos em inglês as tão
pequenas e apertadas que eram indecifráveis. Só de olhar para aquele garrancho, Edward ficou com dor de cabeça. Mas aquela olhada rápida foi suficiente. Aquilo era sério.
"Estes documentos não são válidos", ele disse. Jacob teria que assiná-los
primeiro."
"Bem , sim . Existe um a pessoa com poder de assinar por Jacob ausência dele." Os olhos azuis dela se fixaram nos olhos dele.
Não. Edward não podia acreditar nisso.
"É por isso que você está aqui. Quer que eu assine isso."
"Isso mesmo."
"Impossível." Ele recolocou os papéis na mão dela, depois caminhou até o saco de pancada e o acertou com um cruzado poderoso de direita. "Jacob está voltando de Viena para casa. E você deveria estar planejando o casamento."
"É por isso mesmo que eu esperava ver estes papéis assinados antes de ele
chegar. Parece melhor assim . Eu odiaria participar de um conflito e..."
"E conflitos são minha especialidade", ele completou.
Ela deu de ombros."Isso."Edward baixou a cabeça e desferiu um a série de socos no saco de pancada. Dessa vez ele não estava se exibindo. Seu cérebro trabalhava melhor quando seu corpo se movimentava. Lutar o colocava no seu ponto máximo de concentração, que era do que estava precisando naquele momento.
Por que diabos Isabella queria desfazer o noivado? Ela foi um a debutante criada para conseguir um casamento vantajoso, do mesmo modo que cavalos puro-
sangue são criados para correr. Um casamento suntuoso, com um marquês rico e atraente, deveria ser o maior sonho dela.
"Você não vai conseguir um pretendente melhor", ele disse.
"Eu sei."
"E você tem que querer se casar. O que mais pode esperar da sua vida?" Ela riu com o copo de xerez na boca.
"O que mais, não é mesmo? Não é como se nós, mulheres, tivéssemos permissão para ter nossos próprios interesses ou carreiras."
"Exato. A menos..." Ele parou quando estava prestes a desferir outro soco. "A menos que exista outra pessoa."
Ela ficou quieta por um instante.
"Não existe ninguém."
"Então é só a expectativa que está deixando você nervosa. Você só está com medo."
"Eu não sou nenhuma noiva medrosa. Apenas não quero me casar com um homem que não quer se casar comigo."
"Por que você pensa que ele não quer se casar com você?" Edward soltou um gancho de direita no saco, depois um de esquerda.
"Porque eu olhei para o calendário, entende? Passaram-se oito anos desde que ele me pediu em casamento! Se você quisesse mesmo se casar com uma mulher, esperaria tanto tempo para torná-la sua?"
Edward deixou os punhos descansarem ao lado do corpo e se virou para ela,ofegante. Seus pulmões se encheram com o aroma de violetas. Droga, até o cheiro dela era doce.
"Não", ele respondeu. "Eu não esperaria tanto tempo."
"Imaginei que não."
"Mas", ele continuou, "eu sou um vagabundo impulsivo. E estamos falando de Jacob. Ele é o filho leal e honrado."
Ela arqueou a sobrancelha, expressando incredulidade.
"Se formos acreditar nos jornais de fofocas, ele tem um a amante e quatro filhos escondidos em algum lugar."
"Eu não leio os jornais de fofocas."
"Talvez você devesse, pois aparece neles com frequência."
Ele não duvidava. Edward sabia das coisas horríveis que diziam a seu respeito, e aproveitava cada oportunidade para encorajar as fofocas. Reputação não vencia lutas, mas atraía multidões e enchia os bolsos.
"Não é como se Jacob não tivesse tido razões para adiar. Ele é um homem
importante."
Edward teve que se esforçar para manter o rosto sério. Quem diria, ele fazendo elogios ao irmão. Isso não acontecia com frequência. Não acontecia nunca.
"Teve aquele posto na Índia. Depois o outro em Antígua. Ele voltou para casa entre as duas missões, mas houve algum problema."
"Eu estava doente." Ela falou e baixou a cabeça.
"Certo. Depois teve um a guerra que precisou de atenção, e outra depois dessa.
Agora que todos os tratados foram concluídos em Viena, ele está voltando para casa."
"Não é que eu me ressinta do senso de dever dele", ela disse. "Nem do quão essencial ele se tornou para a Coroa. Mas tem se tornado demasiadamente claro que eu não sou essencial para ele."
Edward esfregou o rosto com as duas mãos enquanto rosnava.
"Meus advogados me disseram que tenho base para um processo por quebra
de promessa. Mas eu não queria constrangê-lo. Agora que tenho o Castelo Twill, não preciso da segurança do casamento. Uma dissolução discreta é melhor para todos os envolvidos."
"Não. Não é melhor. Não mesmo."
Não era o melhor para Jacob, nem para Isabella. E, com certeza, não era o melhor para Edward. Tinha adiado sua carreira de lutador profissional depois da morte do pai. Ele não teve escolha. Com Jacob fora do país, Edward se viu, ainda que de má vontade, no comando da fortuna Cullen.
O lugar dele era em um ringue de boxe, não em um escritório. Ele sabia disso, com o também o sabiam os advogados e administradores, que mal conseguiam
esconder seu desdém . Eles apareciam armados com pastas, livros-caixa e dezenas de assuntos para que ele resolvesse, mas antes de Edward entender a primeira questão, eles já estavam discutindo a próxima. Cada reunião deixava-o agitado e fervendo de ressentimento - como se tivesse sido enviado para Eton outra vez.
Edward quase podia ouvir o pai se revirando na cova, cuspindo vermes ebravejando aquelas mesmas palavras irritantes e conhecidas: Filho meu não vai ser um bruto sem educação. Filho meu não vai desgraçar o legado desta família.Edward sempre foi um a decepção. Ele nunca foi o filho que seu pai queria. Mas fez sua própria vida, ganhou seu próprio título - não de "lorde", mas de "campeão". Assim que Jacob voltasse para a Inglaterra e se casasse, Edward estaria livre para lutar de novo e recuperar seu título.Se Isabella cancelasse o casamento, contudo...? Seu irmão viajante poderia lhe dar as costas e desaparecer por mais oito anos.
"Jacob, provavelmente, também gostaria desse mesmo desfecho", disse Isabella.
"Ele gostaria de escapar do compromisso, mas sua honra não permitiria que ele
o dissesse. Quando souber que a dissolução está feita, imagino que ficará aliviado."
"Jacob não vai ficar aliviado. E eu não vou deixar que você faça isso."
"Eu não quero briga." Ela enrolou os papéis e bateu a mão no alto deles. "Por favor, perdoe minha intrusão. Vou embora, agora. E vou levar estes documentos comigo para Kent. Se você mudar de ideia quanto a assiná-los, vou estar no Castelo Twill. Fica perto da vila de Charingwood."
"Não vou assinar. E guarde minhas palavras, você não vai pedir para que ele os assine. Quando Jacob voltar, verá que as fofocas não têm fundamento. Você vai se lembrar das razões pelas quais aceitou ser a noiva dele. E irá casar com ele."
"Não. Não vou."
"Pense bem. Você será uma marquesa."
"Não", ela disse. "Não vou mesmo."
O tom de voz baixo e solene de Isabella irritou Edward mais do que gostaria de
admitir. Diabo, até as palmas da mão dele estavam começando a suar. Era com o
se ele pudesse sentir que sua carreira - tudo pelo que tinha trabalhado, a única coisa que fazia sua vida valer a pena - escorregasse de suas mãos.Ela se moveu em direção à saída e ele se apressou para pegá-la pelo braço.
"Isabella, espere."
"Ele não me quer." A voz dela falhou. "Você não consegue entender isso? Todo mundo sabe. Eu demorei tempo demais para ver a verdade. Anos demais. Mas cansei de esperar. Ele não me quer mais e eu não o quero. Tenho que proteger
meu coração."Maldição. Então era disso que se tratava. Ele deveria ter imaginado. A razão para a relutância repentina dela era tão evidente quanto o leão no brasão dos
Cullens.Edward era o rebelde da família, mas Jacob tinhas sido esculpido na mesma pedra de onde saiu o pai. Honrado, orgulhoso, inflexível. E, acima de tudo, sem vontade de demonstrar emoções. Edward não tinha nada em com um com um a debutante da sociedade, m as sabia com o magoava se sentir indesejado pelo Marquês de Cullen, ele passou a própria adolescência faminto pelo menor sinal de aprovação ou afeto de seu pai - e se odiava porque esses sinais nunca vieram.
"Jacob quer você." Ele impediu a objeção dela massageando o braço dela com seu polegar. Deus, como sua pele era macia. "Ele vai querer. Faça seus planos de casamento, Isabella. Porque quando ele a vir outra vez, o que irá sentir vai ser como um soco nas costelas. Vai vê-la naquele vestido grandioso, rendado, com florzinhas espalhadas pelo seu cabelo ao mesmo tempo que sentirá o peito inchar e quase
explodir de orgulho a cada passo que você der. E, acima de tudo, ele vai querer
ficar diante de Deus, amigos e família, de toda a sociedade londrina, só para dizer para todo mundo que você é dele. Dele e de ninguém mais."
Ela não respondeu.
"Você também vai querer isso." Ele apertou de leve o braço dela antes de soltá-la, então tocou rapidamente o queixo de Isabella. "Guarde minhas palavras. Vou ver você se casar com meu irmão dentro de um mês - ainda que eu mesmo tenha que planejar o maldito casamento."
"O quê?!" Ela estremeceu. "Você? Planejar o casamento?"
Um sorrisinho brincou nos lábios dela enquanto Isabella olhava para as vigas expostas do teto, as paredes de tijolo à vista, os móveis toscos... Depois se voltou para ele - a coisa mais bruta e deselegante naquela sala.
"Agora estou quase com pena de o casamento não acontecer", ela disse, afastando-se. "Porque isso seria engraçado de ver."
Até quarta gurias Robsteijos