A sentença
(Londres, 12 de agosto de 2008, terça-feira)
Harry se sentou no lugar indicado por Hermione e olhou ao redor. Havia uma tribuna pomposa à sua frente e à sua esquerda uma mesa com duas cadeiras como a que ele e Hermione ocupavam. Nem Draco nem seu advogado haviam chegado ainda.
"O que acontece se Malfoy não chegar a tempo?"
"Nós ganhamos a causa" Hermione falou, enquanto remexia em sua pasta e retirava alguns documentos. Ela deve ter sentido sua reação, pois acrescentou logo em seguida: "Mas não conte muito com isso, Harry. Foi ele quem marcou a audiência, não acredito que seja estúpido o suficiente para não aparecer. Honestamente, não sei como ele conseguiu marcar para tão cedo. Já estava me preparando psicologicamente para que a audiência não acontecesse antes da próxima semana."
Harry soltou um grunhido só de imaginar ter que aguardar mais uma semana. Haviam se passado apenas dois dias desde o... incidente e já havia sido difícil o suficiente.
"Bem, não me culpe se eu torcer para ele sofrer algum acidente a caminho, então" falou amargurado e Hermione lhe lançou um olhar reprovador.
Harry tornou a olhar ao redor, impaciente. Ron acenou para ele da primeira fileira de bancos e fez um sinal de boa sorte. Harry detestava perder o dia de trabalho e esperava acabar com aquilo em tempo de voltar para seu escritório. Já Ron havia agarrado a oportunidade com unhas e dentes e avisou ao irmão que não apareceria na loja o dia inteiro 'para prestar assistência emocional ao melhor amigo'.
Hermione deu um tapa em sua perna por baixo da mesa e só então Harry notou que estivera batendo o pé num gesto de nervosismo.
"Harry, por favor, pare com isso ou eu vou enlouquecer. Tente ficar calmo, ok? Vai dar tudo certo. Conheço o juiz desse tribunal e ele é uma pessoa muito correta, apesar de..." a voz de Hermione morreu de repente e ela disfarçou a interrupção remexendo em seus papeis.
Harry segurou o braço da amiga obrigando-a a encará-lo.
"Apesar de quê, Hermione?"
"Bem..." ela encolheu os ombros. "Ele é um pouquinho excêntrico, pra dizer a verdade. Mas não deixa de ser uma boa pessoa. Não se preocupe."
"Vou manter isso em mente" Harry falou sarcasticamente e deixou a cabeça pender sobre a mesa ao mesmo tempo em que bagunçava os próprios cabelos e exalava forçosamente, tentando recuperar a calma.
Sua tentativa foi interrompida, porém, pelo som de passos e Harry girou a cabeça rapidamente para ver Malfoy entrar calma e confiantemente, ignorando Ron e dando um curto aceno de cabeça na direção de seus dois antagonistas.
"Bom dia" Hermione retrucou, porém Malfoy ignorou o cumprimento. Ele trazia uma pasta muito mais elegante que a de Hermione e dedicou os próximos minutos a arrumar os próprios documentos na mesa.
"Aonde está o advogado dele?" Harry cochichou para a amiga, procurando desesperadamente algum detalhe para se agarrar.
"Aparentemente ele vai representar a si mesmo" Hermione franziu a sobrancelha. "Não é obrigatória a presença de um advogado em causas familiares, sabe. Mas confesso que isso me surpreende. Já estava preparada para enfrentar algum peixe grande, pelo que ele certamente pode pagar."
"Talvez ele se tenha em muito alta conta" Harry se agarrou firmemente àquela pontinha de esperança. "Tem certeza que ele não é advogado?"
"Eu chequei várias vezes na LSE¹" Hermione confirmou, apesar de o ar de dúvida ainda permanecer em suas feições.
Suas ponderações foram interrompidas, entretanto, quando a entrada do Juiz foi anunciada. Harry ficou em pé rapidamente ao perceber que todos o faziam. O juiz, Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore, era um senhor já de idade avançada com cabelos e barba branco acinzentado, porém de aparência um tanto enérgica. Ele tomou seu lugar na tribuna sem pressa alguma depois de se apresentado e olhou por cima dos óculos de meia-lua para os presentes antes de dizer, com voz retumbante:
"Bom dia a todos. Podem se sentar."
O sussurrar de roupas e o barulho de madeira arrastando contra o piso polido preencheu o tribunal por um momento. Harry se sentou sem nunca deixar de olhar para o homem à sua frente, tentando criar sua própria impressão a respeito. Os olhos azuis atentos e perspicazes se demoraram em Draco, que estava mais preocupado em ajeitar a própria roupa, depois em Hermione antes de se fixarem nos seus. Harry não sabia se tinha imaginado, mas poderia jurar que o juiz lhe lançara uma piscadela antes de limpar a garganta e se acomodar melhor na cadeira, apoiando os cotovelos e unindo as pontas dos dedos pensativamente.
Excêntrico era uma boa definição, na verdade.
"Bem, eu diria que temos um caso típico de Las Vegas, não fosse pela quantia milionária brilhando nos olhos de vocês. Casamentos relâmpago são muito mais comuns do que isso. As pessoas geralmente voltam mais pobres da América do que o contrário. Tenho que admitir, ganhar dez milhões de dólares não é para qualquer um! Mas chega de ponderações. Quais são os argumentos? Sra. Weasley, gostaria de começar?"
Hermione se levantou prontamente.
"Obrigada, Meritíssimo. Apesar de a situação ser comum, gostaria de frisar que meu cliente, o Sr. Potter, não está habituado a consumir álcool, pois seu organismo reage de maneira intensa. Posso assegurá-lo de que ele estava bastante alcoolizado na ocasião do casamento, portanto fora de seu juízo perfeito e plenamente incapaz de tomar uma decisão de tamanha importância. Além disso, embora o Sr. Potter e o Sr. Malfoy tenham estudado juntos, estavam há cerca de dez anos sem nenhum tipo de contato. E mesmo essa relação anterior nunca foi... hmm... amigável. Se Vossa Excelência desejar, posso trazer testemunhas que confirmarão o que digo. E, por fim, meu cliente é heterossexual, fato que pode ser verificado com seu histórico de relacionamentos, conforme Vossa Excelência deve ter verificado no processo. Desse modo, o Sr. Potter gostaria de requerer a anulação do casamento², e tenho certeza de que o Sr. Malfoy não se oporá a isso" ela lançou um olhar breve, porém penetrante, em direção a Malfoy, que se limitou a arquear uma sobrancelha em resposta. "Tenho testemunhas também de que foi o Sr. Potter quem operou o caça-níqueis que o tornou um milionário e, por mais que a moeda com que ele jogou tenha sido comprada pelo Sr. Malfoy, este a doou ao Sr. Potter. Portanto, devido a essas circunstâncias e às do casamento em si, o Sr. Malfoy não tem nenhum direito de reclamar a soma. Nem mesmo metade dela."
Malfoy estreitou os olhos perigosamente, porém Hermione susteve seu olhar com desafio até que a voz profunda do juiz quebrou o silêncio.
"Interessante, muito interessante" o juiz coçou a barba distraidamente antes de voltar a falar. "Você tem alguma testemunha de que o Sr. Potter foi de alguma forma coagido a se casar com o Sr. Malfoy?"
Harry grunhiu ao mesmo tempo em que Hermione respondia à pergunta.
"Não senhor, mas..."
"E o casamento chegou a ser consumado?"
Harry praguejou e escondeu o rosto com as mãos enquanto Hermione admitia, a contragosto.
"Sim, Meritíssimo."
Alguém xingou sob a respiração às suas costas e Harry não precisou olhar para saber que fora Ron.
"Obrigado, Sra. Weasley" o juiz a dispensou e Hermione voltou a se sentar a seu lado.
"Nós estávamos bêbados" Harry choramingou por entre os próprios dedos e Hermione deu um tapinha condescendente em seu ombro antes de cochichar.
"Continua sendo um sim, Harry. Sinto muito."
"Sr. Malfoy, você tem a palavra agora" as palavras do juiz fizeram com que Harry levantasse os olhos, ainda que a contragosto.
Draco se levantou num movimento fluido e tornou a ajeitar as vestes, completamente à vontade.
"Vossa Excelência" ele fez um leve aceno de cabeça. "Não nego que o Sr. Potter e eu estivéssemos bastante alcoolizados quando contraímos matrimônio."
Atrás de si, Harry ouviu Ron disfarçar uma risada e murmurar um 'Contraímos!' em tom de zombaria, porém ninguém além dele e Hermione parecia ter notado a interrupção e Malfoy continuou seu argumento.
"Porém, não concordo com muito mais a respeito do que a Srta. Gran... digo, Sra. Weasley tenha dito" ele pronunciou o nome com desprezo. Porém não foi a maneira como ele disse que deixou Harry preocupado, mas sim suas palavras. "Por mais típicas que possam parecer as circunstâncias - e até certo ponto, devo concordar, realmente são -, devo informá-lo que o Sr. Potter e eu temos um histórico um tanto peculiar. Costumávamos nos provocar mutuamente e às vezes até mesmo partíamos para agressão física. Qualquer um pode interpretar isso como mero antagonismo, e naquela época eu estava mais do que satisfeito em aceitar essa resposta, mas hoje eu vejo que era muito mais tensão sexual do que..."
"O quê?" a voz de Harry saiu mais aguda do que ele planejara devido ao choque.
"Protesto, Meritíssimo!" Hermione se levantou após lançar um olhar reprovador ao amigo.
"Aceito" o juiz balançou a cabeça firmemente. "Sr. Malfoy, tente basear sua petição em fatos ao invés de conjecturas. A menos que tenha alguma prova sobre o que diz, sugiro que siga adiante."
Longe de parecer abalado pela reprimenda, Malfoy pareceu satisfeito com a reação que causara.
"Os fatos" Malfoy prosseguiu, "falam por si mesmos. Vossa Excelência pode notar que a assinatura na certidão de casamento parece muito estável para alguém alcoolizado a ponto de ficar fora de seu juízo perfeito. Honestamente, se todos os casamentos em que os noivos estão bêbados fossem anulados, obviamente não haveria mais pessoas casadas!"
"E qual é o seu objetivo, Sr. Malfoy, além de apontar o óbvio?" o juiz questionou, encarando-o por cima dos óculos.
"Meu objetivo é assegurar que meu casamento com o Sr. Potter, por mais irresponsável e repreensível que possa ser, ainda assim é válido."
"O quê?" Harry exclamou ainda mais alto daquela vez e Hermione o reprovou num sussurro exasperado.
"Harry, você vai acabar piorando ainda mais as coisas se não se contiver!"
"Mas o que diabos ele quis dizer com isso, Mione?" Harry questionou a amiga, daquela vez mantendo a voz no mesmo tom sussurrado da amiga.
A expressão de Hermione denunciou sua própria confusão, porém antes que ela pudesse responder, o juiz voltou a falar.
"Você pretende continuar com o casamento então, Sr. Malfoy?"
"Não, de maneira nenhuma, Meritíssimo" Malfoy torceu o nariz, desgostoso. "Só não acredito que ele deva ser anulado. Simplesmente gostaria de solicitar a separação judicial."
"Entendo" o juiz voltou a unir as pontas dos dedos pensativamente. "E, com isso, você gostaria de garantir que metade do dinheiro ganho em Las Vegas seja seu."
"Precisamente, Meritíssimo" Malfoy se balançou nas pontas dos pés, parecendo extremamente satisfeito consigo mesmo.
"Você ficou maluco, Malfoy?" Harry se levantou de repente sem conseguir mais se conter.
"Harry!" Hermione implorou, puxando sua manga. Porém Harry estava furioso demais para dar ouvidos às suas recomendações.
"Eu ganhei aquele dinheiro!"
"Com a moeda que eu dei para você" Malfoy retrucou. "Você não percebe, Potter? Apesar dos pesares, você tem que admitir que nós fazemos um ótimo time. Nada mais justo do que dividirmos o prêmio."
"Seu..."
"Basta, Sr. Potter" o juiz bateu o martelo, silenciando a corte e deixando apenas o zumbido do sangue nos ouvidos de Harry. "Sente-se, por favor. Sra. Weasley, contenha seu cliente. Sr. Malfoy, é o suficiente, pode se sentar" ele pareceu subitamente mais velho ao coçar a barba e se encostar novamente em seu assento imponente e provavelmente desconfortável. O juiz continuou depois de um longo suspiro. "Bem, suponho que nenhum de vocês esteja disposto a entrar em um acordo amigável em vez de jogar tudo nas minhas mãos, não é mesmo?"
Apesar do tom, Harry não achou que o homem realmente esperasse uma resposta. De qualquer forma, apenas o modo como ele e Malfoy se encararam, cheios de hostilidade, pareceu ser resposta suficiente para o juiz, que continuou.
"No meu tempo as coisas eram muito diferentes, rapazes. E não apenas porque não haviam uniões reconhecidas pela lei de pessoas do mesmo sexo. O próprio casamento era algo sagrado. As pessoas levavam à sério os votos que faziam. Ou pelo menos passavam essa impressão enquanto traíam seus cônjuges" ele acrescentou depois de uma breve e pensativa pausa. "Enfim, as pessoas tentavam mais, se esforçavam mais para dar certo, porque geralmente era a única chance que tinham de constituir uma família respeitável! Dói muito saber como os casamentos podem ser desfeitos com a mesma rapidez e descaso com que são feitos hoje em dia."
Ele fez outra pausa para encará-los por cima de seus olhos azuis brilhantes e Harry teve a impressão de que o homem havia até mesmo lançado um olhar para Ron na arquibancada. Mais do que as palavras, aquele olhar penetrante causou a Harry um mal pressentimento sobre o rumo que aquilo estava prestes a tomar. Infelizmente, as próximas palavras proferidas pelo juiz só fizeram confirmar suas expectativas.
"Aqui está a minha decisão: vocês dois estão, de agora em diante, sentenciados a viverem como um casal, se quiserem ter alguma chance de colocar as mãos nesse dinheiro."
"O quê?" daquela vez foi Malfoy quem exclamou, uma vez que Harry havia arregalado os olhos e perdido a voz. Hermione sufocou um gritinho ao seu lado. Malfoy continuou, parecendo lutar para recuperar o autocontrole. "Com todo o respeito, Meritíssimo..."
"Sr. Malfoy, permita que eu termine a minha sentença" o homem o interrompeu novamente. "Durante seis meses, você e o Sr. Potter deverão viver sob o mesmo teto, sob fidelidade conjugal e aprender a agir como um verdadeiro casal. Findado este prazo, vocês serão convocados para uma segunda audiência onde será decidido sobre o destino da quantia em dinheiro. Um de nossos profissionais acompanhará o caso de perto para que os senhores não se sintam tentados a trapacear. Vou assegurar pessoalmente que a pessoa designada não se deixe enganar facilmente. E é claro que as partes podem tentar entrar com recurso para liberar a soma, mas, se querem um conselho, não percam muito do precioso tempo de vocês com isso, pois algo me diz que vocês vão precisar de cada um desses cento e oitenta dias para cumprir minha sentença - o que, asseguro, é a maneira mais rápida e segura de qualquer um de vocês conseguir colocar as mãos nesse dinheiro. Ah, e antes que os senhores me perguntem, eu não aceitarei nenhum tipo de acordo entre as partes de agora em diante. Qualquer entendimento somente será reconhecido perante esta corte ao final desse prazo. E toda e qualquer desobediência a esta sentença implicará na impossibilidade de qualquer uma das partes reaver o dinheiro na próxima década, não tenham dúvidas quanta a isso. Fui claro?"
"Ele não pode fazer isso, pode?" Harry sussurrou após um longo e pesado silêncio e teve a impressão que o juiz ouviu cada palavra do que disse.
"Receio que sim, Harry. Sinto muito" Hermione parecia tão desolada quanto Malfoy parecia inconformado.
"Excelência, se o senhor me permite..." Malfoy começou a falar, porém o juiz o interrompeu prontamente.
"Permissão negada. Respondam a minha pergunta, por favor: fui claro?"
"Sim, Meritíssimo" Hermione respondeu bravamente enquanto as narinas de Malfoy se alargavam e retraíam repetidamente.
"Sr. Malfoy?"
Malfoy lançou um olhar enraivecido em direção a Harry como se fizesse questão que ele soubesse o quanto o culpava por tudo aquilo.
"Sim, Excelência" Malfoy concedeu finalmente e o juiz bateu o martelo, fazendo com que Harry se sobressaltasse.
"Excelente. Vejo vocês novamente dentro de seis meses e nem um dia antes. Boa sorte a todos nós. Adeus."
-oOo-
"Dá para acreditar na audácia desse cara?" Harry afrouxou a gravata enquanto se apressava para deixar o Tribunal antes que fosse obrigado a ver Malfoy novamente. "Se ele pensa que eu vou deixar que ele pegue o meu dinheiro assim tão fácil..."
"Para quem me garantiu que isso não tinha nada a ver com o dinheiro, você parece bastante possessivo agora" Hermione falou um pouco ofegante enquanto se esforçava para acompanhar seus passos. O barulho dos seus saltos batendo no chão com mais força que o necessário ecoava nos salões amplos do prédio e Harry sabia que, apesar das palavras, a amiga não estava nada satisfeita com o desfecho da audiência.
"Não é pelo dinheiro" Harry afirmou novamente entredentes. "Você me conhece, Mione. Sabe que eu abriria mão dele para qualquer outra pessoa. Não é como se Malfoy fosse um pobre coitado. Ele provavelmente já gastou mais num único dia do que eu vou ganhar numa vida toda de trabalho".
"Eu sei, mas... Sinceramente, não sei se essa picuinha entre vocês compensa seis meses de convívio forçado..."
"Espera, você não está pensando em aceitar essa história de 'vida de casal', está?" perguntou Ron, a quem Harry evitava encarar a qualquer custo, tentando não pensar em qual parte daquela audiência ele estaria remoendo no momento. O ruivo não parecia se esforçar para acompanhá-los com suas passadas longas.
"Não é como se ele tivesse muita escolha, Ron" Hermione interveio. "Agora é tudo ou nada".
"Então que seja nada!" Ron gesticulou enfaticamente, fazendo com que Harry e Hermione se voltassem para ele ligeiramente espantados. "Ei, não olhem para mim com essas caras de espanto. Eu gosto de dinheiro e dez milhões de dólares não é qualquer quantia..."
"Cinco, se Malfoy conseguir convencer o juiz" Harry interrompeu, desgostoso.
"Que sejam dois!" Ron continuou. "É dinheiro pra caramba, na minha humilde opinião! Ainda mais parase ganhar de um dia para o outro! Mas, ainda assim, não sei se eu pagaria esse preço".
"Mas, Mione..." Harry só parou quando finalmente chegou ao pé da escadaria exterior do prédio. "Eu posso simplesmente me recusar a cumprir essa sentença?"
"Claro" Hermione encolheu os ombros. "O juiz não pode obrigar você a viver com Malfoy nessas circunstâncias. Mas também é provável que nunca mais veja a cor desse dinheiro se não aceitar os termos dele".
Harry colocou as mãos na cintura e deu alguns passos em círculo enquanto tentava colocar os pensamentos em ordem.
"Tem certeza que não existe nenhuma brecha nessa história para uma contestação, Mione?" perguntou, por fim.
"Desculpe, Harry" a amiga mordeu o lábio inferior e desviou o olhar, parecendo envergonhada.
"Ora, vamos, Mione, isso não é hora para falsa modéstia" Ron sacudiu os ombros da esposa. "Você é uma puta advogada! Se tem alguém que pode fazer isso, esse alguém é você".
"A questão não é essa, Ron! Eu não posso permitir que Harry tome uma decisão baseada em algo que não tenho certeza! Pode ser que eu consiga entrar com um recurso, mas conheço a reputação desse juiz e ele não costuma deixar pontas soltas" ela voltou-se para o amigo com ar consternado. "Você tem que estar ciente, Harry, de que se desistir agora, provavelmente estará desistindo do prêmio".
"Vai amarelar, Potter?"
Os olhos de Harry se estreitaram automaticamente antes que ele se voltasse para Malfoy. Este parecia relaxado com seu sorriso desdenhoso e as mãos nos bolsos, permanecendo no segundo degrau da escada provavelmente com o único objetivo de encará-lo de cima.
"Cuidado com o que fala, Malfoy. Se eu desistir, ninguém ganha nada".
"Talvez" Malfoy se aproximou despreocupadamente. "Ou talvez eu consiga comprovar a sua falta de interesse no dinheiro e fique com ele todo para mim".
Harry não pôde evitar procurar os olhos de Hermione. Porém, ao invés da expressão de incredulidade que esperava da amiga, só encontrou mais insegurança.
"Duvido que você conseguiria, Malfoy" provocou Ron.
"Quer apostar, Weasel?"
Ron abriu a boca para responder, porém tudo que conseguiu articular foi um grunhido de dor diante da cotovelada que ganhou da esposa nas costelas.
"Gostaria de ver você tentar, Malfoy" Harry devolveu o mesmo tom venenoso do outro. "Mas não estou planejando desistir nos próximos seis meses".
Por um instante, Harry pensou que Malfoy pareceu aliviado e imaginou que talvez estivesse mesmo subestimando a reputação de Dumbledore.
"Ótimo" Malfoy estendeu um papel que Harry aceitou mecanicamente. "Aqui está o meu endereço. Melhor não demorar para se mudar. Não que eu esteja ansioso por isso, mas duvido que a terapeuta ligue antes de aparecer".
"Ei! E quem disse que eu tenho que me mudar para o seu apartamento e não o contrário?" Harry estendeu o papel de volta, porém Malfoy o ignorou.
"Nem fodendo eu moro no seu muquifo, Potter".
"Você nem ao menos sabe aonde ele mora, como pode..." Ron se indignou, porém foi cortado por Malfoy.
"Apareça, ou não apareça, a decisão é sua, Potter" Malfoy deu as costas e se afastou sem mais nenhuma palavra.
"Grosso" foi o pronunciamento de Hermione.
"Eu disse" Ron meneou a cabeça. "Não vale o esforço, Harry. Ele está blefando sobre conseguir o dinheiro só para ele, certo Mione?"
"Honestamente, não sei, Ron. Até hoje eu nem sabia que ele advogava! Quem garante que ele não conseguiria? Não gosto nada disso..."
"Bem, não estou me divertindo, também" Harry suspirou e acenou para um táxi que passou direto. "Mas não estou disposto a correr o risco de deixar aquele babaca levar o dinheiro todo. Antes nenhum de nós dois do que ele".
"Ei, cara, nós estamos de carro" Ron apontou para o outro lado da rua. "Podemos deixar você em casa".
Harry agradeceu à contragosto. Na situação em que estava, preferia passar meia hora silenciosa num táxi do que dez minutos na companhia dos amigos.
"Então..." Ron começou, assim que os três entraram no carro. "Quem é que diz 'consumar o casamento' esses dias?"
"Ron!" Hermione exclamou e Harry afundou no banco de trás.
-oOo-
(14 de agosto, quarta-feira)
Harry teve que apoiar a pesada caixa que carregava num joelho para poder apertar o botão do sexto andar no elevador.
"Vamos, vamos, vamos" ele murmurou entredentes para as portas do elevador enquanto dava um sorrisinho sem graça para o porteiro. Não fora nada fácil convencê-lo de que não precisava subir pelas escadarias, pois não atrapalharia ninguém se subisse pelo elevador. 'Veja só, ainda sobrou um espação!' ele argumentava em pensamento enquanto se encolhia o máximo possível num canto. O porteiro ficou encarando até as portas do elevador se fecharem por completo e só então Harry relaxou uma pequena fração, pois a alça da mala que carregava num dos ombros estava ameaçando escorregar a qualquer momento. Fixou os olhos no mostrador logo acima e começou a murmurar um mantra.
"Por favor, não pare, por favor, por favor... Ah, qual é?" Harry praguejou quando o elevador desacelerou no quarto andar. Sorriu para a garota que esperava para entrar, porém recebeu um olhar tão carregado de desdém que quase voltou a xingar. Era de se esperar que o prédio aonde Malfoy morasse fosse habitado por pessoas mesquinhas e esnobes como ele.
Para não contrariar a maré de azar na qual Harry se encontrava, o elevador também parou no quinto andar, apesar de não haver ninguém esperando para entrar. Quando finalmente atingiu o sexto andar, Harry quase tropeçou na pressa de chegar logo em seu destino. Praticamente jogou a caixa na porta do apartamento 63 e finalmente deixou a mala escorregar para o chão com um gemido, ajeitando a alça torcida da mochila.
Hesitou antes de tocar a campainha, mas já havia chegado longe demais para desistir e empurrou o botão com determinação. A porta parecia reforçada o suficiente para não deixar passar nenhum som, mas Harry apertou uma segunda vez quando se passaram alguns longos segundos sem resposta. E outra vez. A quarta foi praticamente uma agressão ao botão, junto com algumas pancadas nada gentis.
"Merda, Malfoy, eu sei que você está aí! O porteiro já me anunciou, seu filho de uma..."
A porta do elevador se abriu e Harry engoliu o resto da sentença. Um senhor muito bem vestido o encarou de maneira desconfiada enquanto rumava para o apartamento vizinho.
"Boa noite" Harry cumprimentou, porém só recebeu um grunhido de volta antes que a porta se fechasse em sua cara.
"Só pode ser brincadeira" Harry exclamou incrédulo antes de atacar o botão novamente e segurá-lo por um longo período. Aquilo teria sido mais assegurador se Harry ouvisse algum barulhinho irritante do lado de dentro, mas não conseguia ouvir nada, mesmo encostando o ouvido na porta. "Merda".
Harry deu um último soco na madeira trabalhada e lustrosa da porta e escorregou para o chão, sentando-se com as pernas esticadas de exaustão. Arrependeu-se profundamente dos acontecimentos dos últimos dias e, mais recentemente, de não ter pedido ajuda a Ron e Hermione. Sabia que seus amigos não teriam medido esforços para ajudá-lo, mas não sem antes perguntarem se ele tinha certeza do que estava fazendo, ou se aquilo tudo valia a pena. Mais do que evitar aborrecimentos, Harry estava determinado a seguir adiante com aquilo e não queria correr o risco de ter sua resolução abalada. Arrependeu-se também de não ter pedido o número do telefone de Malfoy, nem que fosse para deixar mensagens nada educadas sobre como ele era um bastardo mesquinho e metido à besta...
"Opa!" Harry exclamou quando a porta se abriu de repente, fazendo com que caísse para trás e desse de cara com a barra do roupão de Malfoy.
"Ei!" exclamou Malfoy dando um passo para trás e apertando o tecido atoalhado junto ao corpo. "Não tão rápido, Potter".
"Idiota" Harry se levantou, mostrando os punhos ameaçadoramente para o outro. "Achou que eu ia desistir só porque você demorou meia hora para me atender?"
"Eu conheço sua teimosia melhor que isso, Potter. Estava tomando meu banho".
"Ah, claro. Sinto muito por atrapalhar seu banho, Vossa Alteza. E a esfoliação. E o creme de beleza, que segundo as instruções deve ser espalhado trinta vezes no sentido horário e outras trinta no sentido anti-horário..."
"Engraçado como sempre, Potter" Malfoy retraiu o lábio superior numa caricatura de sorriso e deu um passo para o lado para abrir caminho. "Agora ande logo antes que eu desista e ligue para o porteiro pedindo para chamar o segurança".
Harry mordeu a língua para não dar uma resposta atravessada. Não duvidava que Malfoy cumprisse a promessa só para mostrar quem mandava em seu território. Transformando sua raiva em movimentos bruscos, passou a alça da mala novamente pelo ombro e apanhou a caixa do chão sem se dignar a pedir ajuda.
O lado de dentro do apartamento era luxuoso, porém muito menos extravagante do que Harry esperava. A sala abrigaria com folga seu apartamento inteiro e era dividida em dois ambientes: uma para visitas e outra de entretenimento. À direita, Harry vislumbrou duas comunicações, uma para a cozinha e outra para a sala de jantar, e à esquerda outra comunicação deveria levar aos aposentos.
"Se Vossa Impaciência puder aguardar alguns minutos enquanto eu me visto..." Malfoy comentou já se dirigindo para a esquerda. "Não vá ficando muito confortável. Ainda tenho que passar algumas regras para você..." ele avisou antes de sumir pelo corredor.
"Quanta hospitalidade" Harry fungou e meneou a cabeça, deixando seus pertences ao lado da lareira antes de começar a explorar.
A sala de visitas era composta por uma lareira elétrica, uma estante de livros (a grande maioria de Direito), uma mesinha de centro, uma poltrona e um sofá requintado. Opostamente havia uma estante baixa com uma tevê de LED (que dificilmente caberia na sala do apartamento de Harry) com Home Theater e um aparelho de DVD, outra mesinha de centro e outro jogo de poltrona e sofá de aparência mais aconchegante, porém não menos requintados. As cores eram sóbrias e sólidas, sendo que apenas os tapetes persas emprestavam alguma coloração e estampa aos ambientes. Porém os lustres chamavam mais atenção com suas pedrarias, sua sinuosidade e a riqueza de detalhes.
Terminada a inspeção na sala, Harry passou para a cozinha com sala de jantar acoplada. O design era bastante moderno. Havia um balcão do tipo americano, fogão cooktop, forno elétrico, geladeira de duas portas e estava tudo muito limpo e bem-arrumado. Harry não teve dúvida de que havia alguém por trás de toda aquela arrumação que não seu anfitrião. O mármore preto predominava na pia, nas bancadas e na mesa de jantar, porém havia alguns pequenos e estrategicamente posicionados detalhes em vermelho, destacando contra o mármore preto e o branco das paredes e do chão.
Harry estava examinando o conteúdo dos armários para checar se estava tão bem-equipada em termos de utensílios quando Malfoy limpou a garganta.
"Já que você já conheceu a minha cozinha, vou mostrar os seus aposentos" ele deu meia volta e Harry o seguiu, sem conseguir deixar de imaginar como seria seu quarto. Com um pouco de sorte, seria uma suíte com grandes janelas voltada para o nascente ou poente e...
"Aqui está" seu sonho teve um fim repentino na sala, quando Malfoy apontou para o sofá diante da televisão.
"O quê?" Harry perguntou, indignado. "Eu vou dormir no sofá?"
"Se preferir o chão, fique à vontade" Malfoy deu de ombros. "O tapete é bem macio."
"Isso é algum tipo de brincadeira?" Harry não era ingênuo a ponto de esperar o melhor dos tratamentos na casa de Malfoy, mas também não achava que ele fosse capaz de ser tão pouco educado. "Não venha me dizer que este apartamento imenso não tem um quarto de visitas sequer!"
"É claro que tem, mas não está disponível no momento. Nem estará num futuro próximo".
"Você tem algum companheiro de quarto? Parente? Inquilino ou coisa do tipo?"
"Não".
"Quem, então?"
"Ninguém. Somos só você e eu, querido" Malfoy zombou.
"Ora, que diabos!" Harry passou por ele sem dar tempo para que o impedisse e se dirigiu para o acesso oposto ao da cozinha, saindo num corredor onde encontrou quatro portas. Uma levava a um banheiro social e, opostamente, a porta entreaberta revelava um escritório, que Harry não perdeu tempo inspecionando após constatar que não havia nenhuma cama.
"Ei!" Malfoy o alcançou bem no momento em que Harry abriu a porta da esquerda, no final do corredor. "Essa é a minha suíte. E você está fora de si se acha que vou dividi-la com alguém. Muito menos com você!"
Harry vislumbrou uma cama king sise impecavelmente arrumada, uma cortina cobrindo toda a parede de trás, um grande armário embutido do lado esquerdo e uma porta entreaberta de onde escapava um vapor perfumado, que certamente levava ao banheiro particular de Malfoy. Sem dizer nenhuma palavra, Harry deu meia volta e testou a quarta e última porta.
Estava trancada.
"Hunf!" Malfoy desdenhou, cruzando os braços. "Eu disse que não está disponível".
"Por quê? O que há nesse quarto?"
"Nada... Está em reforma" Malfoy acrescentou, como se houvesse acabado de lhe ocorrer.
"Então abra. Quem sabe eu não possa dar um jeito nele por enquanto, só até nós resolvermos a nossa... situação".
"Ou você pode resolver a nossa situação agora mesmo abrindo mão do dinheiro".
"Há! Vai sonhando. Vamos, abra logo!" Harry sacudiu a maçaneta com veemência, esperando destrancá-la por pura teimosia, caso necessário.
"Não vou abrir e quero ver você tentar me obrigar"Malfoy levantou o queixo pontudo desafiadoramente.
"Então pelo menos me diga o que há do lado de dentro. É óbvio que você não estaria tão relutante em abrir se realmente não houvesse nada".
"Não há nada que seja do seu interesse, Potter. Agora por que você não..."
"Por que você não abre a porcaria dessa porta, Malfoy, e muda o que quer que seja para o seu quarto ou o escritório, ou joga no lixo, qualquer coisa! Eu não vou passar seis meses dormindo num sofá!"
"Então fique à vontade para voltar para a sua caminha confortável. Garanto que todo mundo sairia ganhando. Você não vai ter dor nas costas e eu vou ficar ligeiramente mais rico". Malfoy deu-lhe as costas e voltou pelo corredor em direção à sala. "Agora, se você tiver terminado de chorar como um bebezinho, tenho assuntos mais importantes a tratar".
Harry esmurrou a porta, praguejou e respirou fundo, voltando para a sala com toda a dignidade que lhe restava, prometendo para si mesmo que aquela situação iria mudar, mais cedo ou mais tarde.
"Você se esquece, Potter" Malfoy continuou assim que Harry pôs os pés de nova na sala "de que teremos visitas periódicas de um psicoterapeuta ou um assistente social para verificar o cumprimento da nossa sentença. Se você fosse esperto o suficiente, eu não teria que apontar que o fato de você manter um quarto separado não atestaria a favor da nossa perfeitamente saudável vida conjugal".
"Como se dormir no sofá fosse muito melhor!" Harry retrucou, incrédulo.
"E isso nos leva à primeira das regras" Malfoy se sentou numa poltrona e gesticulou para que Harry se sentasse em sua 'cama'.
Harry cruzou os braços e petulantemente permaneceu onde estava. Malfoy rolou os olhos e prosseguiu.
"Quero que você memorize muito bem a arrumação do meu apartamento do jeito que está. Tudo o que você tirar do lugar, deverá ser recolocado exatamente onde estava. E tudo o que você sujar, é claro, você limpa. Se você mantiver tudo organizado, não haverá motivo para qualquer um desconfiar da sua... cama. Você também deve pedir minha permissão antes de usar qualquer de meus itens pessoais. Com esses princípios em mente, pode ficar à vontade para utilizar a cozinha, esta sala e o banheiro de visitas. Os demais cômodos você só poderá utilizar sob minha autorização expressa e em caso de vida ou morte. E antes que você tente, meu computador pessoal está bloqueado com senha. Mas acredito que você tenha seu próprio computador?"
Harry levou algum tempo para sair do estupor antes de responder à pergunta.
"Claro, tenho meu notebook" ele imaginou que aquilo ainda ia longe, portanto acabou se sentando no sofá.
"Ótimo" Malfoy continuou, como se não estivesse dizendo nada de extraordinário. "Quanto à geladeira, as duas prateleiras de cima são minhas e as duas de baixo são suas. Não vou admitir que você consuma algo meu sem consentimento, assim como eu não vou mexer no que for seu. Qualquer coisa fora de lugar deverá ter sua identificação. Não quero roupas ou calçados espalhados pela casa. Tem um armário desocupado no banheiro, você pode manter seus pertences guardados e fora de vista lá dentro. Quanto a..."
"Espera, espera, espera" Harry interrompeu, tentando assimilar o que Malfoy havia acabado de falar. "Você está me cedendo um armário de banheiro para que eu guarde todas as minhas coisas?"
Malfoy lançou um olhar desdenhoso em direção às bagagens de seu hóspede do outro lado da sala.
"Bem, não é como se você tivesse muita coisa".
"Aquilo é só o que eu consegui carregar por hoje! E, mesmo não sendo muita coisa, duvido que caiba tudo dentro de um armário de banheiro, Malfoy! Além do mais, eu tenho roupas que precisam ser passadas e penduradas, ou dobradas corretamente dentro de uma gaveta!"
Malfoy rolou os olhos novamente.
"Está bem, vou desocupar uma parte do guarda-roupas do escritório para você. Feliz?"
"Eu respondo essa pergunta depois de ver essa tal parte do guarda-roupas" Harry resmungou, ao que Malfoy não deu atenção.
"Como eu dizia, quanto à visitas, elas devem ser evitadas. Caso seja absolutamente necessário, você deve pedir minha permissão antes de trazer pessoas para cá. Providenciei uma cópia da chave da porta principal para você" Malfoy gesticulou para a mesinha de centro, onde só então Harry notou haver uma chave solitária.
"Quanta consideração! Cheguei a pensar que você iria me tratar como um cachorro, só me deixando sair para passear quando fosse conveniente" exclamou, porém Malfoy não lhe deu atenção.
"Você deve me pagar o aluguel em trinta dias a partir de hoje. O valor..."
"Epa, epa, epa! Eu acho que você tinha dito que o apartamento era seu!"
"E é, mas pedi para uma amiga avaliar o valor do aluguel. Você pode chamar alguém da sua confiança para avaliar também, se não acreditar na minha palavra" Malfoy respondeu com toda tranquilidade.
Harry se limitou a encará-lo em silêncio, tamanha a sua incredulidade.
"O que foi?" Malfoy se defendeu. "Você não achou que iria morar aqui de graça, achou?"
"Quem... Me diga, que tipo de pessoa cobra aluguel do cônjuge?"
"Tudo bem, você pode pagar metade, bebê chorão" Malfoy falou com desprezo.
"Malfoy!" Harry exclamou, se imaginando sacudindo-o para ver se colocava algum senso naquela cabeça de vento. "Eu tenho meu próprio apartamento! Por que diabos eu pagaria aluguel para você? E não estou falando de morar 'de graça', estou falando de ajudar com as despesas, sabe? Coisas que os casais de verdade fazem. Metade, metade".
Por um momento, pareceu a Harry que Malfoy não havia pensado naquela possibilidade. Porém ele disfarçou rapidamente com uma de suas caretas desdenhosas que eram sua marca registrada.
"E o percentual não está em negociação" Harry emendou, antes que o outro começasse a barganhar. "É cinquenta por cento para cada um".
"Que seja. Agora, se você permitir, eu gostaria de continuar com as regras de convívio. Você pode usar essa televisão à vontade, desde que o volume seja razoável. As regras do condomínio ditam que não deve haver ruído depois das dez horas da noite e..."
Harry se acomodou melhor no sofá e suspirou resignado. Aquilo ainda ia longe...
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Notas: ¹ Ordem dos Advogados da Inglaterra (Law Society of England).
² Os casamentos civis só foram oficialmente legalizados na Inglaterra em 2013, com a assinatura de um decreto de lei pela Rainha Isabel II, e provavelmente só passarão a ser celebrados no país neste ano de 2014. Porém, as uniões civis já eram reconhecidas desde 2005, quando passaram a ter os mesmos direitos parentais que os casais heterossexuais, portanto acredito que teriam o mesmo tratamento no caso da separação.
Ok, vocês mereceram uma atualização rápida depois de tanta generosidade com as reviews rsss. Muito obrigada por me acolherem depois de todo esse tempo! Não esperava que tantas pessoas conhecidas aparecessem! Reforço meus agradecimentos a todos que comentaram. Para quem não logou também: Mokona, Carolzinha, Lis Martin, Jujumalfoy e pessoa que não se identificou, muito obrigada!
Fiquem a vontade para encher minha caixa de emails com mais reviews! XD
