A Pluma de Maet
Dois Que Se Tornam Um
(by Mistress Alice)
Só eu achava que ia ser só jantar. Saímos do restaurante árabe direto para uma boate. Idéia de amigo pervertido.
Surpreendi-me que o Alcorão deixou o super-religioso- Naji sair com a gente para tal programa. E piadas religiosas à parte, eu não me enturmei na pista dessa vez. Preferi ficar sentado, bebendo.
Said deveria cobrar aluguel dos demais. Karim que o puxava para um lado, Zahi para outro... E eu bufando de ciúme já, porque ele não ficou nem um pouco comigo.
Acabei deixando de olhá-los, e olhei para o meu drink, como se fosse a coisa mais importante daquela noite.
Estava sendo...
-Está quieto... – Reconheci a voz ,mas me frustrei porque não era quem eu queria.
-Estou cansado, Caleb... Trabalhei o dia todo. – Dei um sorriso meio sem-graça, tentando mentir. – E o seu namorado, onde está?
-Ele foi ao banheiro, e não desconversa. Said sempre tem tempo para você. Ele logo vai se cansar dos dois e vai vir aqui.
Eu ri, demonstrando dúvida e desconfiança diante das palavras dele. Foi então que o sagitariano à minha frente tocou no meu queixo com o dedo dele e ergueu meu rosto. – Vocês acham que eu não reparo nas coisas.
-Pelo contrário, cara, sabemos que repara até demais. – Dei um leve sorriso, porém sem empolgação.
-Eu admiro vocês dois... Depois de tanto tempo, ainda mantém o que sentem um ao outro...
-Você e Fuad também. – O olhei, sorrindo dessa vez reconfortado.
-Lembre-se que eu guardei muito rancor por ele por ter ido embora e nem se despedido.
-Mas você o amou esse tempo todo... Mesmo com raiva. Se não fosse assim, você teria tido uma vida amorosa por todo esse tempo, certo? E não o fez.
Caleb me olhou e riu, eu sabia que estava certo. Acabei sorrindo mais ainda.
-Amor? – Ouvi a voz doce de Fuad chamar pelo namorado. O tom, assim como aquela conversa, estava ligeiramente alto.
-Eu! – Caleb então se virou para ele, que veio de encontro à nós, e assim, deixou de me tocar. E fiquei a observá-los levantar e ir até o bar.
Então desviei o olhar, voltando a notar Said. Ri baixo, Karim e Zahi discutiam, conseguia ouvir alguns palavrões. Zeus, eles se odiavam mesmo. E novamente, parei de olhar. Acho que o meu egípcio me olhava, não sei.
Finalizei meu drink, o deixei na mesa e me ajeitei mais no sofá. A música que tocava era eletrônica. Não conhecia e não entendia a letra, sei que era alemã.
Saudade das baladas árabes que eu ia com o Said na nossa terra natal. Era literalmente casa... Mesmo com as guerras e conflitos, continuava sendo nossa casa.
Fechei os olhos. Pensando o que eu iria fazer.
Não tinha mais pique para essas coisas. Vim mesmo porque ele me convidou. Só por isso.
-Odeio quando eles fazem isso.
Levei um susto moderado. A voz estava alta e brava, e eu sorri internamente. Virei meu rosto, e finalmente Said veio ao meu encontro.
-Se não fosse tão perfeito... – Ele riu, breve.
-Então... Você e o Caleb ficam bonitinhos juntos... – Ergui minhas sobrancelhas devido ao comentário.
-Do que está falando? – Eu me perdi naquelas palavras dele.
-Você sabe do que me refiro...
-Said, isso é ciúme?
-Vocês dois estavam bem juntos agora... – Então ele deixou de me olhar, e estava de bico.
Primeiro eu ri. Depois sorri abertamente.
-Uau, verdade, a gente falava de você, mas estávamos ficando pelas costas do Fuad... – Provoquei, vê-lo de bico só me encantava ainda mais. – É que sabe... Estamos aqui há um tempo, e só viu o Zahi e o Karim na sua frente.
-Os dois querem programa comigo... – O tom dele ainda foi de birra comigo, mas eu me ofendi. Então levantei.
-Que bom, aproveita com eles então. – Falei e fui para o meio da multidão, indo para o bar. Que coisa, vim e sobrei...
-Faraó! – Ouvi, mas ignorei.
Porém segundos depois, eu senti me pegarem pelo pulso. Virei para olhar, embora sabendo quem fosse. Conhecia até o jeito que ele me tocava.
-Porque ficou bravo comigo? – Acabei por olhá-lo, sério enquanto o escutava.
-Não estou bravo. Mas só vou beber algo e ir embora.
-Porquê vai me deixar aqui?
-Tem companhia melhor. Tem dois querendo fazer programas com você.
-Eu amo você. – Meu coração bateu de uma forma ao ouvir aquilo como se eu tivesse apaixonado pela primeira vez. E claro, correspondido pela primeira vez também.
-Eu também o amo. –Respondi, olhando nos olhos dele.
Said se aproximou de mim devagar. Entre nós, rolava coisas diferentes do que a situação do lugar clamava. Agitado, barulhento, pessoas apressadas.
Mas nós não. Mesmo naquele meio, não tínhamos pressa do olhar, do toque e nem da aproximação.
Arrepiei-me ao sentir o corpo dele encostar-se ao meu. E como resposta, meus lábios se encontraram aos dele. O envolvi em seu pescoço, e ele em minha cintura.
E como era de costume no nosso namoro, o tempo parou para a gente.
Nada mais e nem ninguém importava. Nem para mim, e eu sentia que nem para ele também...
