Capítulo 2: Primeiro passo

Não sou uma pessoa muito esquisita, bem, pelo menos não mais que a maioria. Simplesmente não sou igual ao meu irmão, sempre imprevisível e brigão. Ele sempre achou que bater de frente é um meio perfeitamente legitimo de comunicação. Passei minha vida toda observando-o como um camundongo observa um gato, todo encolhidinho e silencioso, com a seguinte teoria: se ninguém percebe que estou ali, não tinha como começar uma briga comigo.

Confesso que essa personalidade não era bem o perfil que se encaixava em minha profissão. Sou advogado, assim como meu irmão, me formei aos trancos e barrancos no primeiro semestre do ano retrasado e graças ao meu irmão consegui um emprego de auxiliar em uma firma de advocacia de grande prestigio em Tóquio, a Jones Day.

Tenho um chefe estressado, uma mesa minúscula e entulhada de trabalho, alguns poucos colegas que adoro e diversas funções, desde estar à frente de casos pequenos até servir café nas reuniões de manda-chuvas. Não é bem um emprego glamoroso, mas é um emprego, pois afinal pagava minhas contas e eu finalmente era uma pessoa independente vivendo em uma grande metrópole. Ninguém diria que vivi na asa do meu irmão até a formatura, pois afinal eu me virei muito bem desde que me formei.

A princípio eu vivia em um apartamento tão pequeno que até mesmo pra pensar eu tinha que ir pra fora, pois não tinha espaço. É claro, que desde que eu e o Hyoga começamos um relacionamento sério eu passei a morar no apartamento dele, bem mais espaçoso e com as prestações em dia, diferente do meu.

O importante é que vivíamos na capital, e eu adoro a capital, tudo aqui é mais acessível, gosto de todo esse ar tecnológico, é como viver no futuro, fazer compras mais ainda, não é de se admirar que meu cartão de crédito vive estourado, mas isso não vem ao caso. Afinal eu tenho o Hyoga comigo, pra me ajudar e me manter na linha.

...

Como conheci Hyoga?

Bem, pra começar, trabalhar na Jones Day não é nada fácil, chega uma hora que você acha que cortar os pulsos ou se jogar de um arranha céu com cem quilos de entulho amarrado no corpo e um saco de ratos enfiado na cabeça é uma ideia bastante atraente. Eu andava tão atolado de trabalho que mal conseguia pensar, quanto menos na minha saúde.

Isso foi em setembro do ano retrasado, assim que comecei a trabalhar na firma. Há dias não estava dormindo e nem comendo direito, vivia estressado e o café acabou se tornando afrodisíaco pra mim, esse foi o apogeu da minha loucura, uma hora eu não aguentei mais a pressão e do nada eu já estava vendo o escritório girar em círculos com o Afrodite chamando aflito por mim sem parar.

Quando acordei já estava em uma maca em alguma sala fria com um cheiro antisséptico.

Naquela época eu odiava hospitais, odiava mesmo, me fazia lembrar de quando perdi meus pais, mas isso eu contarei mais tarde.

Eu me sentia dopado, estava tonto e aquela luz branca parecia mais forte do que devia. Foi quando eu ouvi sua voz. Uma voz calma, mas meio distante, como se ele falasse por um tudo de papelão.

−Oi, como sente? – ele perguntou se aproximando e pude ver um amarelo brilhante e aqueles olhos, olhos muito azuis, como eu nunca tinha visto antes.

Aos poucos as figuras pareciam entrar nos eixos e pude focar a imagem na minha frente.

Um médico, não qualquer médico, mais o mais bonito que eu já tinha conhecido, é claro que eu não conhecia muitos, mas sem dúvidas ele era insuperável.

−Onde estou? – digo fechando os olhos com força, parecia que eu tinha levado uma pancada forte na cabeça.

−Em um hospital, no meu consultório. – ele responde me ajudando a sentar. –Sou o Dr. Alexei, um amigo seu, Afrodite, eu acho, acompanhou você em uma ambulância até aqui, mas como foi apenas um desmaio então permiti que você ficasse aqui, é que os leitos estão meio lotados, então não achei prudente encaminha-lo pra um, afinal não é nada sério.

−Parece que fui atropelado por um caminhão. – me queixo enquanto localizo um galo atrás da minha cabeça.

Ele toca no mesmo local que eu, sinto uma fisgada de dor quando ele toca no galo.

−Você bateu a cabeça quando desmaiou. – ele comenta. –Vou solicitar que faça uma radiografia pra verificar se não houve danos maiores.

Ele tirou uma pequena lanterna do bolso no jaleco e acendeu diante dos meus olhos, me fazendo recuar pelo reflexo.

−Quietinho. – ele diz segurando meu queixo delicadamente pra me manter quieto e me analisar.

Olhos azuis muito concentrados, totalmente profissional. Seu perfume chegava até minhas narinas e me davam uma tremenda vontade de pular no seu pescoço pra poder sentir mais de perto aquela fragrância.

−Shun, certo? – ele disse assim que terminou. Apenas aceno confirmando.

−Você está com uma imunidade baixíssima, por isso o desmaio. Não anda se alimentando e nem dormindo normalmente? – ele diz num tom repreensivo.

−Mais ou menos. – digo sem jeito.

−Devia se cuidar melhor. – ele diz se afastando e indo até sua mesa no canto da sala. –Vou receitar uns suplementos, mas você tem que regular uma alimentação saudável e começar a praticar exercícios, e pelo amor de Deus, durma pelo menos sete horas por dia. – ele parecia um tanto aborrecido.

−Vou tentar, é que meu trabalho é um pouco puxado demais.

−Mais um motivo pra manter uma boa saúde. – ele me adverte enquanto começa a escrever em um formulário.

Fiquei sem jeito apenas aguardando.

−Ahn, err... o meu amigo ainda está aqui?

−Na recepção. – ele diz sem tirar os olhos de sua tarefa.

Assim com a Esmeralda ele também era um gaijin, apesar de eu ainda notar leves traços asiáticos em seu rosto, olhos pouco estreitos, mas aqueles cabelos sem dúvidas não eram daqui.

Não me surpreendi em acha-lo atraente, já sou bem resolvido quanto a minha bissexualidade.

Mas só pra constar eu ainda prefiro homens. E ele sem dúvidas era do meu tipo.

−Você é bem novo pra ser médico. – tento puxar assunto, mas ao invés de me responder ele simplesmente me ignorou.

Não me abalei, sei que pessoas tão bonitas são antipáticas na maioria das vezes, mas alguma coisa me dizia que ele não era assim. Talvez se eu falar sobre meu caso ele se mostre mais interessado.

−Vou ficar aqui por quanto tempo?

−Só mais um pouco, pra tirar a radiografia, vou encaminha-lo pra lá agora.

Ele levantou-se e me entregou um papel, segui suas instruções e em meia hora eu voltei pra sua sala com a radiografia da minha cabeça, só que ele já estava atendendo outro paciente, então tive que esperar na porta.

Quando finalmente terminou eu entrei.

−Voltei! – me anuncio com mais animação que o necessário.

Ele apenas ergueu os olhos de uns papeis e deu um leve sorriso.

−Bom, vamos ver isso. – disse pegando a radiografia que fiz e colocou num painel com luz atrás. –Parece tudo em ordem. – ele diz concentrado.

Admirei seu perfil enquanto estava concentrado. Não é muito comum eu ter a sorte de ficar perto de um cara assim, que exalava feromônios.

−Será que vou precisar fazer cirurgia? – brinco.

Ele sorri sem me olhar.

−Talvez tenhamos que retirar seu cérebro para análise. – ele finalmente me encara sorrindo. –Não se preocupe que é um procedimento bastante simples, basta que você se voluntarie como cobaia. – diz piscando pra mim.

Se tem uma coisa que o deixou mais sexy foi isso, do nada eu já estava rindo como um idiota, e olha que a piada nem foi tão boa assim. E ele ainda fez parecer o gesto mais simples do mundo. Eu já estava ficando eufórico só de imaginar uma noite com ele.

−Bom, é só isso. Como tudo está em ordem então você já pode ir, mas antes vou receitar uns suplementos pra você. E por favor, cuide-se melhor Shun. – provavelmente ele tratava todos os pacientes chamando pelo primeiro nome, eu sei, mas me senti encantado em ouvi-lo chamar meu nome, com aquela voz.

Rápido, peguem um balde, eu estava derretendo.

Nunca fui do tipo que parte pra cima, sou muito tímido, tanto que chega a irritar. Mas era tão raro eu sentir o que estava sentindo naquele momento, aquela empolgação de estar diante de um completo estranho.

Depois de vê-lo terminar de escrever a receita e me entregar minhas expectativas iam diminuindo. Eu nem sabia se ele já era comprometido, não era casado, afinal não tinha aliança, mas ainda tinha a grande possibilidade de ele ter uma namorada, um homem desses não ficaria solteiro por muito tempo. E o problema maior, eu sou um homem, ele deve gostar disso, posso até acabar o ofendendo se pedir seu telefone.

O problema era que quando eu fosse embora daquele hospital as chances de eu nunca mais vê-lo eram altíssimas. A não ser que fizesse algo a respeito.

−Obrigado, senhor Alexei. – começo a me desanimar, preciso tomar uma atitude, mas sou tão idiota que comecei a me encaminhar para a saída de sua sala.

−Cuide-se. – ele avisa antes que eu saia e volta-se pra sua mesa. Sem parecer nenhum pouco abalado com aquela despedida. Tá certo que mal nos conhecemos, mas eu queria muito que ele tivesse gostado mais de mim, o suficiente para pedir meu telefone.

Droga! Quem não arrisca, petisca. Subitamente eu tive certeza: ia ser sincero e honesto, vamos lá, eu consigo fazer isso. O que eu tinha a perder afinal de contas?

Tomei coragem e me aproximei novamente de sua mesa.

Ele ergueu aqueles olhos azuis pra mim, não entendendo minha atitude.

−Algum problema? – ele pergunta.

−Escute, que tal saímos para tomar um drinque, qualquer hora dessas?

Ele ficou com cara de quem tinha acabado de ser atropelado por um trem.

−Você está me convidando pra sair?

−Estou – confirmei, com voz firme, nem eu conseguia me reconhecer agora. –Estou, sim.

Depois de alguns instantes ele perguntou, parecendo perplexo:

−Mas... e se eu recusar?

−Eu simplesmente terei que superar.

Ele olhou pra mim com uma expressão muito parecida com a de desespero e o silencio se alongou por um tempo interminável. Ouvi uma explosão abafada (deve ter sido minha autoconfiança) e de repente fiquei com uma vontade louca de ir embora dali.

−Você tem um cartão? – ele finalmente perguntou.

−Claro! – eu sabia reconhecer uma rejeição de longe, afinal já tive várias.

Mesmo ciente disso e um tanto desanimado eu peguei minha carteira e tirei dela meu cartão da empresa, com minha função de filiado Junior da firma escrito abaixo do meu nome.

Nós dois ficamos olhando para o cartão. Então eu enxerguei tudo pelos olhos dele.

−Você é advogado? – ele perguntou me encarando como se não acreditasse.

Não me surpreendo com essa dúvida, eu não tinha mesmo o perfil da minha função.

−Sim, Junior. – explico sem jeito. –Bom... Ahn... tchau.

−Sim, então... tchau. – respondeu ele, ainda perplexo.

Então é isso... a gente ganha uma rodada, perde outra, tem um monte de peixes de onde esse veio. O problema é que eles são inacessíveis pra mim.

Aquela noite eu acordei às três da manhã pensando em Alexei. Eu realmente achei que poderia haver algo entre nós. Bom, estou acostumado com isso.

Em Tóquio as coisas são assim: duas pessoas se conhecem, contam uma a outra absolutamente tudo sobre suas vidas, criam uma ligação genuína e depois nunca mais tornam a se ver. É muito legal. Quase sempre.

Eu não queria que meu encontro com Hyoga fosse desse tipo, e nos dias que se seguiram fiquei meio na expectativa cada vez que o celular tocava ou um e-mail chegava, mas... nada.

...

Ikki veio me ver pra administrar a última dose de medicamentos do dia, pegou a listinha escrita em um pedaço de papel e foi amontoando comprimidos na mão.

−Boa noite Shun – disse ele. –Durma bem. – com um ar de ansiedade, acrescentou: −Não gosto de largar você aqui embaixo sozinho, com eu e Esmeralda lá em cima.

−Tá tudo bem, Ikki. Com esse joelho estourado é mais prático eu ficar aqui embaixo.

−Eu me culpo por isso – desabafou, com súbita emoção.

Ele se culpava? Que papo era esse?

−Eu devia ter cuidado melhor de você.

−Mas, Ikki, eu estou ótimo. Não fique desse jeito, não se sinta culpado.

−Sou seu irmão, meu papel é me sentir culpado. – com mais transbordar de ansiedade, perguntou: −Você não está tendo pesadelos?

−Não, nada de pesadelos. Não tenho sonhos de nenhum tipo. – deve ser por causa dos remédios.

Ele franziu as sobrancelhas.

−Isso não está certo – afirmou. –Você devia estar tendo pesadelos.

−Vou tentar – prometi.

−Bom menino! – ele beijou minha testa e apagou a luz depois de passar pela trilha de moveis. –Você sempre foi um bom menino – disse parando em frente a porta. –Um pouco esquisito, mas um bom menino.

...

Na segunda vez que encontrei o Hyoga eu estava em um coquetel em um hotel de Chiyoda, tinha vindo recepcionar a chegada de um cliente que meu chefe está cuidando do caso. Mas o cliente era um completo babaca, não é a toa que está com o processo de divórcio com a ex-mulher que quer lhe espremer cada centavo do bolso. Em vez de conversar sobre o caso ele decidiu se assanhar pra algumas mulheres no bar do hotel. Estou louco pra dar o fora daqui, mas meu chefe deixou bem claro que eu deveria marcar presença pelo menos por umas duas horas.

Aqui parece o ponto de encontro pros empresários esnobes que tem vários processos amarrados no pescoço, então não é de se admirar que tenha um banco de coroas bêbados por toda parte.

−E aí garoto. – outro bêbado vem bater papo comigo, não importa o quanto eu me esconda, eles sempre me notam.

−Oi. – digo seco.

−Você parece o cara mais jovem daqui, se perdeu da mãe?

−Desculpa, não estou interessado em conversar ladainha.

−Que mal humor garoto... Em que você trabalha?

−Faço test drive em sapatos ortopédicos. – respondi, acho que essa é a desculpa menos criativa que dei hoje.

−Que legal! – ele respirou fundo antes de se lançar no espaço. –Eu trabalho com blá-blá-blá...

Nesse instante um canapé bateu no pé do ouvido do carinha, e, assim que ele virou a cabeça, procurando quem arremessara o torpedo, com olhos explodindo de raiva, eu saí de fininho.

Deu nove horas então resolvi cair fora, tinha marcado de assistir uns filmes com o Afrodite mais tarde.

Depois de avisar o cliente do meu chefe que eu já ia embora. E aturar mais uma longa ladainha da parte dele eu finalmente consegui permissão pra sair. Ia trilhando caminho pra me esquivar de alguns bêbados quando aquele sujeito me avistou de novo, provavelmente pra continuar seu monologo.

−Ah, aí está você. – ele diz quando me vê, e passa cambaleando pelo salão. –Como eu estava dizendo... blá-blá-blá... –continuou falando, de onde sai tanta saliva?

−O que você disse que fazia mesmo? – ele voltou a perguntar pela milésima vez.

Estava decidindo se respondia que era fonoaudiólogo de elefantes ou o inventor das aspas quando uma voz se intrometeu na conversa:

−Você não conhece o famoso Shun Amamiya?

−Como?... – o velho bêbado perguntou.

Como?... foi o que eu também pensei ao virar pra trás. Era ele. O cara, o médico, o mesmo que convidei pra sair e me esnobou. Usava uma jaqueta jeans e uma camiseta e calças simples e trouxe a brisa da noite com ele, renovando o ar do salão.

−Isso mesmo, Shun Amamiya. Ele é um... – olhou pra mim, encolheu os ombros e foi em frente –Um ilusionista?

−Sou ajudante de mágico – corrigi. –Passei em todas as provas de Magia Avançada, mas as roupas de ajudante eram muito mais interessantes.

−Irado! – exclamou o bêbado, mas não estava mais olhando pra ele, meus olhos miravam Alexei, que se lembrou do meu nome mesmo depois de sete semanas.

Ele parecia mais jovem, mais enérgico. Havia também um brilho em seus olhos que não estava ali da outra vez.

−Ele desaparece... – explicou Alexei –E então, como num passe de mágica, reaparece.

Ele ficou com meu número de telefone, mas nem se deu ao trabalho de ligar e agora sacava uma das frases mais manjadas que eu já ouvira. Olhei pra ele, analisando-o com frieza. Qual era o jogo daquele cara?

Seu rosto não entregou minha resposta, mas eu continuei olhando-o mesmo assim. E ele pra mim. No que me pareceu décadas depois, alguém perguntou, com voz longínqua.

−Para onde você vai?

−Heim? – o alguém era o bêbado. Fiquei surpreso ao perceber que ele ainda estava ali depois de todos esses anos. –Para onde é que eu vou? Quando?

−Quando desaparece num passe de mágica. Abracadabra!

−Ahn... eu fico atrás do palco. – me virei para Hyoga e, quando os olhos dele se encontraram com os meus, uma brasa de fogo fez minha pele ferver.

−Irado! – repetiu o velho bêbado –E quando ele corta você ao meio, qual é o lance?

−Pernas falsas – explicou Hyoga, mal movendo os lábios pequenos. Seus olhos continuavam grudados nos meus.

Deu quase para sentir o sorriso do pobre bêbado murchando devagarinho em seu rosto.

−Vocês dois já se conheciam?

Hyoga e eu olhamos juntos para ele, e então tornamos a olhar um para o outro. Já nos conhecíamos?

−Sim! – respondemos ao mesmo tempo.

Mesmo que eu não desconfiasse que algo estava acontecendo entre mim e Hyoga, só pela atitude do bêbado já era um sinal: recuou um passo.

−Divirtam-se, crianças – desejou ele com ar de derrota.

Hyoga e eu fomos deixados a sós.

−Curtindo o coquetel? – ele me perguntou.

−Não. Tô odiando!

−É... – ele avaliou o salão com cuidado. Seu olhar passeou por cima da minha cabeça. –Aqui não há quase nada que preste mesmo.

Nesse instante um ruivo, um homem que eu descreveria como meu tipo preferido até conhecer Hyoga, se colocou entre nós e perguntou:

−Onde foi que você se enfiou, Hyoga? Você sumiu!

Um olhar fugaz passou pelo rosto de Hyoga: será que nunca conseguiríamos ficar a sós? Mas logo ele sorriu e disse:

−Shun, este é meu irmão, Camus. Ele é advogado também. – ah, agora compreendo o que ele fazia aqui, deve ter algum cliente em meio a esses velhotes bêbados também. −E este é o companheiro dele, Milo.

Milo era um loiro de tirar o folego, e diferente dos dois irmãos pálidos, ele tinha um bronzeado cintilante e uniforme.

−Oi – cumprimentou ele.

−Prazer – repliquei.

Com ar agitado, Camus me perguntou:

−Esse lugar é um porre, você não acha?

−Ahn...

−Você está do lado dos mocinhos – assegurou Hyoga. –Pode falar a verdade.

−Então tá... Superporre, tá feia a coisa!

−Haja saco! – foi a contribuição de Milo. –Vamos circular por aí – sugeriu Camus. –Quando mais cedo começarmos, mais depressa poderemos cair fora. Desculpem, sim?

−Pode vazar na hora em que não aguentar mais, Hyoga. – Camus avisou Hyoga, e ficamos novamente a sós.

−Quer dar o fora daqui? – Hyoga finalmente me perguntou.

Vamos...?, pensei. Olhei pra ele, irritado com sua presunção. Esse lance precipitado, tipo vamos-nos-pegar-agora-mesmo, é legal quando se tem dezenove anos, mas eu já estava com vinte e cinco e não 'dava o fora dali' com homens que eu não conhecia.

Respondi na mesma hora?

−Vamos!

Três segundos depois já estávamos na porta de saída. Estávamos no outono, e o clima estava um pouco frio, então coloquei meu casaco quando alcançamos a rua.

−Gostei do seu visual. – Hyoga recuou um passo para me avaliar de cima a baixo. –Gostei muito.

Eu estava com meu terno preto, minha vestimenta comum de trabalho.

Eu também gostei do visual dele. As calças e jaqueta jeans, e aquela camiseta que o deixava mais sexy ainda pela simplicidade. Não que eu pretendesse entregar o ouro contando isso a ele, afinal ele não precisava saber que estava bonito.

−Tem só uma coisinha que eu queria esclarecer – disse eu, com ar meio zangado: −Eu não desapareci. Simplesmente fiquei na minha. Porque você não quis sair comigo pra tomar um drinque, lembra?

−Mas eu queria sair com você. – parei de andar no mesmo momento, ele queria sair comigo? –Queria de verdade, desde o instante que você entrou no meu consultório, só não estava certo se ia rolar.

−Como assim não estava certo?

−Não estando.

−Não entendi nada... deixa pra lá. Pelo menos por enquanto.

Dois quarteirões adiante, encontramos um barzinho esquisito e começamos a beber e conversar.

Como Hyoga me pediu com jeitinho, contei a ele tudo sobre minha gloriosa carreira de advogado.

−Agora me fale de você. – pedi.

−Não, vou deixar que você mesmo fale.

Pensei por alguns instantes.

−Então tá... você é filho de um czar tirano que saqueou milhões do seu povo e foi deposto. – sorri de leve por pura crueldade. –A grana está escondida e você e seu irmão pretendem resgatá-la. – ele foi ficando cada vez mais preocupado à medida que sua identidade piorava, acabei ficando com pena dele então o redimi. –O motivo de você querer tanto achar o dinheiro é a vontade de devolve-lo ao seu povo miserável.

−Obrigado – ele sorriu. –Tem mais alguma coisa?

−Você também foi casado com uma atriz italiana pornô.

Ele riu, um sorriso lindo.

−Certo. Ah, como está sua saúde? Tem seguido minhas sugestões?

−Sim, bom, mais ou menos, as vezes eu me descuido. – digo envergonhado.

−Garoto, garoto.

Ele tinha um sotaque, e eu achava isso incrivelmente sexy.

−Falando sério, você é de onde? – fiquei curioso com a origem daquele sotaque.

−Sou russo. – ele responde.

Um comichão de desejo me invadiu. Era parecida com a sensação de fome, só que pior. Eu queria sexo, sexo com ele. Eu heim!... é melhor ficar de olho nisso. Qual diagnostico será que ele daria?

−Que tal jogar sinuca? – sugeri.

−Você joga sinuca?

−Jogo. – na verdade só joguei algumas vezes com meu irmão, mas até que eu mandava bem.

Depois de vinte minutos conversando e enfiando bolas em caçapas de crochê que me faziam lembrar testículos, derrotei Hyoga.

−Você é bom nisso. – elogiou ele.

−Foi você que me deixou ganhar. – eu o espetei no estomago com meu taco de sinuca. –Nunca mais repita isso.

Ele abriu a boca pra protestar e eu o espetei com o taco com um pouco mais de força. Humm... barriga de tanquinho lisa e dura. Mantivemos olhar um no outro por vários segundos, e então, em silencio, recolocamos os tacos no suporte da parede.

Quando o bar fechou, às quatro da matina, Hyoga se ofereceu pra me levar em casa, em seu carro que deixou no hotel. Hyoga e eu não trocamos nem uma palavra enquanto ele me levava. Dei uma olhadinha discreta nele, meio de lado. As luzes da cidade passavam céleres pelo seu rosto e era impossível analisar sua expressão. Me perguntei o que aconteceria em seguida. De uma coisa eu tinha certeza: depois do fora que eu levei, nem pensar em lhe oferecer cartões de visita ou chama-lo pra sair com um sorriso amigável.

Chegamos diante de um prédio todo capenga.

−Eu moro aqui – anunciei.

Estávamos com aquela atmosfera em estilo "o que vai rolar agora?".

−Escute... suponho que você esteja saindo com outros caras- disse ele.

−Suposição certa. – nada como me fazer um pouco de difícil.

−Você poderia me colocar na lista de espera?

Pensei por um segundo.

−Talvez faça isso. – concedi.

−Não perguntei se ele estava saindo com alguém. Em primeiro lugar, porque eu não tinha nada a ver com isso. Em segundo lugar, algo no jeito com que Camus e Milo se comportaram comigo – simpáticos, mas não especificamente interessados na minha pessoa, como se já tivessem sido apresentados a um numero infindável de acompanhantes de Hyoga ao longo dos anos – me fez imaginar que ele saia com outras pessoas, sim.

−Você pode me dar o numero do seu celular? – pediu ele.

−Já dei – eu disse, saindo do seu carro.

Se queria tanto assim me reencontrar, ele que achasse o numero.

...

Acordei na cama estreita e me vi na sala entulhada de sofás. Olhei pra janela e abri um pouco a cortina, e observei por um tempo a pouca agitação daquela manhã.

Ikki entrou minutos depois com um nutritivo café da manhã. Comi um pouco mais, porque precisava convencê-lo de como eu me sentia ótimo.

Enquanto ele me dava banho eu ataquei:

−Ikki, resolvi voltar pra Tóquio.

−Não seja tão absurdamente ridículo!

−Minhas cicatrizes estão indo bem, meu joelho já pode suportar peso, as marcas roxas quase desapareceram.

Era realmente estranho. Eu sofri uma quantidade espantosa de ferimentos, mas nenhum deles foi realmente sério. Minha cara ficou toda roxa, mas não houve fratura de nenhum dos ossos da face. Eu poderia ter sido esmagado como uma casca de ovo ou passar o resto da vida parecendo uma pintura cubista. Eu sabia que tinha muita sorte.

−Você está com o braço quebrado, Shun. Em três lugares.

−Mas não foram fraturas expostas e quase não dói mais. Acho que está quase bom.

−Ah, você virou ortopedista agora?

−Não, continuo sendo advogado, e exijo meu direito de liberdade.

−Revogado!

−Por favor.

−Você não vai a lugar algum, rapazinho.

Mesmo assim eu calculei bem o momento para lançar a ideia naquela mesma tarde ia fazer o check-up semanal na clinica e, se os médicos dissessem que eu estava melhor, Ikki não ia ter pra quem apelar.

...

Depois de me deixarem esperando um tempão, eles tiraram uma radiografia do meu braço. Como eu imaginei, as fraturas estavam curando bem depressa; a tipoia já podia ser removida e o gesso ficaria mais umas duas semanas, no máximo.

Em seguida fomos para o dermatologista, que informou que eu estava tão bem que já dava pra tirar os pontos do rosto, e nem eu contava com isso. Doeu, mas pelo menos meu rosto estava mais normalzinho.

Depois fomos para outro médico que me cutucou e espetou todos os meus órgãos internos. Segundo ele, todas as marcas roxas e inchaços estavam diminuindo.

Na verdade só tinha um médico que eu queria que tocasse em mim, mas ele não estava aqui, e era pra ele que eu devia voltar.

−Ele está falando em voltar pra Tóquio – explodiu Ikki. –Diga que ele ainda não está bem pra viajar.

−Mas ele aguentou bem a viajem de lá pra cá. – argumentou o médico.

Ikki fuzilou-o com o olhar, e embora não tivesse respondido nada, nem em voz baixa, a frase "Vá se foder, seu babaca" ficou implícita, suspensa no ar.

Voltamos pra casa num silencio macabro, pelo menos o Ikki, eu estava feliz.

−E quanto ao seu joelho estourado? – ele perguntou subitamente animado. –Como é que você pode voltar para Tóquio se não consegue subir nem mesmo um degrau?

−Vamos fazer um trato – propus. –Se eu conseguir subir até o topo da escada lá de casa sem dor, você aceitará que eu estou bem o bastante para ir embora.

Ele concordou porque achou que eu não tinha a mínima condição de conseguir isso.

Não imaginou o quanto eu estava determinado a voltar para Tóquio. Eu ia conseguir. E consegui mesmo – embora tenha levado mais de dez minutos, me deixando empapado de suor e meio enjoado de dor.

O que Ikki não sacou é que mesmo que eu não tivesse conseguido passar do primeiro degrau eu iria embora de qualquer jeito. Precisava voltar, e já começava a entrar em pânico.

−Viu só? – soltei o ar, sentando no patamar. –Estou ótimo.

−Shun – reagiu ele. –Há outros problemas com você, além das feridas físicas.

Processei a frase lentamente.

−Sei disso, Ikki, mas eu tenho que voltar. Preciso voltar. Não quer dizer que eu vá ficar lá pra sempre. Quem sabe eu até retorne bem depressinha, mas no momento, eu não tenho escolha, tenho que voltar pra lá.

Algo na minha voz o convenceu, porque ele pareceu desistir da luta.

−Acho que hoje em dia as coisas são assim mesmo – disse ele. –É preciso virar a página, seguir em frente. – com o ar triste ele continuou. –Talvez você considere a ideia de fazer algumas sessões de terapia.

−Sim, claro. – nem pensar, não quero saber disso. Falar a respeito do que aconteceu não ia mudar nada.

−Hummm. Vamos lá, é melhor contar a Esmeralda, talvez ela berre um pouco, mas ignore-a.

−Isso é insanidade! – declarou ela.

−Já está decidido Esmeralda. Ele quer ir. – Ikki disse triste também. –Bem, vou ligar pro Shiryu.

Então eles pediram ao Shiryu que viesse me buscar.

Notas finais do capítulo

Muitos misterios.
O que Shun encontrará quando finalmente voltar pra Tóquio?
Só no próximo. ;)
bjs