Capítulo 2: Sonhos
Tokyo, muitos anos depois:
Kagome Higurashi acordou de supetão, suando frio. Era a terceira vez naquele mês. Era sempre a mesma coisa, o pesadelo começava e em seguida quando ela tentava acordar sentia seu corpo preso. A garota havia visitado tantos médicos e os mesmos diziam que ela sofria de "paralisia do sono", mas nenhum nunca soube responder o porquê de dela somente sofrer do mal com o mesmo sonho. Uma coisa horrível de se conviver, ela sentia.
Dos 23 anos de vida da garota, mais da metade havia sido atormentada pela maldita síndrome. Kagome havia desistido de se revoltar quando havia aproximadamente 18 anos, decidindo que seria assim até o fim de seus dias. Ela geralmente era uma garota alegre e cheia de positividade, procurando sempre o lado bom das coisas. Fisicamente, ela era uma menina linda com cabelos negros e longos e olhos tão azuis que eram desconcertantes. Causava inveja em muitas pela sua beleza natural – que ela parecia nunca notar ou se importar – porém, nunca havia se apaixonado de verdade. Mas achava que conhecia a sensação graças a esse sonho de tantos anos...
Viu no relógio em sua cabeceira que ainda eram 3:14 da madrugada. Olhou para os lados e reconheceu suas colegas de quarto e amigas dormindo em suas camas. Rin e Sango estudavam na mesma universidade que ela – a Universidade de Tóquio – as duas cursavam Administração e se conheceram no curso. Kagome estava concluindo o curso de Arqueologia, que ela amava. Seu sonho era trabalhar com escavações e encontrar vestígios do passado.
Kagome conhecia Sango há anos, desde o ensino fundamental. Ela era tão bonita quanto Kagome, com um corpo mais voluptuoso e com mais curvas do que a amiga – Kagome as vezes odiava o fato de ser tão pequenina – e com os cabelos tão castanhos quanto seus olhos. No início eram só as duas dividindo um pequeno apartamento no campus, mas quando Rin pediu auxílio as duas prontamente ajudaram. Rin era uma menina doce, e não foi difícil para as três se adaptarem a pequena – ela tinha a capacidade de ser mais baixa que as outras duas, com apenas 1,52 de altura e muita infantilidade positiva. Por ser mais nova – tinha apenas 20 anos – era considerada a caçula das três.
Ela suspirou, sabendo que ia ser difícil voltar a dormir e começou a pensar no pesadelo. Sempre se passava em uma parte da universidade, quando era mais nova era na escola que estudava. Ao conversar com sua psicóloga, a médica lhe disse que o local vinha do fato da garota passar mais tempo nele. Vai saber.
Kagome perambulava pelo pátio vazio, se perguntando onde estava todo mundo. Ela se sentia a beira de nervos, sentindo-se perseguida, até que de repente as luzes apareciam. Luzes azuis e verdes, atrás dela e ela corria, corria e corria.
Enquanto corria, em alguns momentos, ela conseguia perceber que estava sonhando novamente. Tentando controlar o sonho, ela tentava caminhos diferentes, mas chegava em algum beco sem saída, esperava alguns segundos e aqueles seres apareciam. Uns tinham formas de insetos, outros pareciam animais mais comuns e uns eram até humanoides, mas todos seguravam armas e falavam em uma língua que ela não entendia. Suas intenções eram obvias, levá-la dali. E finalmente, ele aparecia.
Um cavalheiro branco (ela costumava brincar consigo mesma, se achando idiota), ele tinha cabelos longos e prateados – isso era possível? – e por mais incrível que pareça, orelhas de cachorro no topo da cabeça. Ele fala, mas ela nunca entende. Ele segura sua mão e passa pelos monstros com ela firmemente segura. Eles correm mais uma vez e se escondem em uma das infinitas salas de aula. Ela quer perguntar quem ele era e porque estava ajudando, mas sua voz nunca saia e ela se limitava a olhá-lo enquanto ele se limitava a olhá-la. Às vezes ele até chegava a lhe sorrir, mas no sonho que tivera a pouco ele só tinha preocupação no rosto. E, como sempre, eles são encontrados e ela acorda.
"Sempre a mesma coisa," ela pensa indignada enquanto o sono começa a chegar a levando para um mundo escuro sem seu salvador.
No dia seguinte, Kagome acordou sentindo como se não tivesse dormindo nada. Deu um bom dia murmurado a suas colegas e juntas seguiram a pé para as aulas na universidade. O lugar era enorme e tinha mais de 30 cursos.
As três conversavam banalidades enquanto caminhavam sem pressa em direção ao conjunto de prédios. Logo que chegaram nos portões foram recebidas por um amigo e colega das aulas de Latim e Física Quântica de Kagome.
- Bom dia, garotas lindas do meu coração! – Miroku tinha um dos sorrisos mais galantes do campus. E a aparência também, se quer saber. Seus 24 anos haviam sido repletos de garotas a seus pés, procurando serem uma escolha do garoto (não que ele reclamasse). O aspirante a físico tinha os cabelos tão pretos quanto os de Kagome – que ele deixava preso em um pequeno rabo de cavalo na base da nuca – e olhos de uma cor quase única, índigo. Ele tinha feito amizade com as meninas graças à Física Quântica, aula que Kagome quis cursar como extracurricular. Ele era estudante de Bacharelado em Física. A amizade com as garotas começou quando ele "acidentalmente" passou a mão na bunda da Sango (que retribuiu com um belo tapa) ao término de uma das aulas.
- Já bajulando, Miroku? – Ironizou Sango – Deu em cima de quantas garotas essa manhã?
- Assim me ofende, Sangozinha! – O moreno fingiu tristeza e fez um biquinho para a garota.
- Até parece que não! Enfim quais os planos para a nossa sexta maravilhosa? – Rin era a simples das três, mas sempre gostou de ter uma vida social agitada.
Enquanto os três se entrosavam e combinavam a noite, Kagome suspirava. Só queria poder voltar para a cama e dormir mais tarde, mas pelo visto seus queridinhos iriam acabar a levando para sair.
"Eu decididamente preciso aprender a dizer não".
- Está quieta hoje, tudo bem Kags? – O rapaz a olhou meio preocupado. Apesar de já ter passado a mão amaldiçoada na bunda da garota – sem intenção, claro – eles se davam muito bem. Pessoas já até os confundiram por irmãos, por terem os olhos parecidos e os cabelos negros feito o breu.
- Só não dormi direito – Ela sorriu forçadamente.
Eles conversaram mais um pouco e então cada um se dirigiu para suas respectivas salas de aula. Kagome passou o primeiro tempo inteiro lembrando-se do sonho e pensando no seu salvador. Era estranho, mas sempre que acontecia dela sonhar com ele – coisa que estava se tornando mais recente – ela tinha essa estranha sensação de conforto e segurança. Mesmo com todos os monstros estranhos que a perseguiam de noite, sempre tinha o seu "anjo" para resgata-la.
"Affe, quê que eu tô pensando? É só um sonho Kagome".
- PARA DE ENCHER O SACO! – O grito de um jovem temperamental parecia retumbar pelas paredes do quarto.
- Eu já disse, não importa o quanto você grite, você ainda vai – O homem de cabelos prateados e rosto inexpressivo respondeu em tom de indiferença, ignorando completamente o escândalo do mais novo a sua frente.
- E eu já disse que não importa quantas vezes você faça essa cara de cuzão, eu-não-vou! – O rapaz rebateu, sua raiva transparecendo como nunca.
Sesshoumaru tinha o chamado o irmão mais novo para discutir o plano de ação novamente, ele só tinha uma missão, localizar e agir antes do inimigo descobrir. Seu informante havia lhe avisado sobre a vantagem que poderiam ter a alguns dias atrás, quando ouviu o líder da Milícia mandar um de seus tenentes reunir os melhores homens para uma caçada.
- Você percebe que essa pode ser nossa única chance, querido irmão? – A última parte foi dita com em certo tom de desdém – Ela pode ser nossa salvação, sugiro que me obedeça. Não podemos mais segurar o exercito inimigo aqui em Eva, precisamos ir aos extremos e arriscar ir até a Terra. – A voz de Sesshoumaru continuava estoica, mas ao fundo podia se ouvir sua autoridade.
- E você acha que eu não sei disso? Sou tão líder quanto você. Porque você não até a Terra e arrisca esse seu rabo nessa viagem por lá? Você sabe muito bem os riscos de sair desse maldito planeta! – Uma veia saltava do seu pescoço do mais jovem.
- Porque precisa ser você, porque você é o filhote, sou um melhor líder, eu fundei essa resistência, sou seu general, você vai me obedecer e isso não é uma escolha Inuyasha! – Sesshoumaru perdeu a paciência e seu corpo começou a aumentar, seus caninos a alongar e seus olhos a avermelhar.
- Feh, eu vou. – Antes que você me esmague, de qualquer maneira. Respondeu, pensando que não deveria comentar a parte do esmagamento para um general bastante irritadiço.
E o General começou a diminuir de tamanho e se acalmar.
No mesmo dia estava tudo preparado. Para se locomoverem de Eva para a Terra era necessário o uso de uma nave e existiam muito poucas delas atualmente, a maioria estava em posse do maldito ditador que comandava as Milícias. O Demônio havia começado a tentar dominar Eva a séculos, desde então assumindo o controle do pequeno e único continente habitável do planeta. Ninguém sabe ao certo de onde ele apareceu, ou o porquê, só o que a Resistência poderia saber era que ele era injusto e que devia ser destronado.
Passaram-se 220 anos desde o dia da morte dos pais de Inuyasha e o planeta estava em guerra desde então.
Sesshoumaru observava enquanto seu meio-irmão se preparava para a viagem. Depois de muita luta e conflito o animalzinho decidiu acatar suas ordens.
- Já sabe o que fazer, não sabe? – Ele perguntou enquanto observava Inuyasha organizar uma mochila.
- Sei, sei... - Ele respondeu sem olhar seu líder e irmão, colocando a mochila no ombro e embarcando na nave.
O General deu as costas a ele e foi embora sem dizer uma palavra de despedida, afinal era apenas mais uma missão e só isso. Não eram necessárias despedidas.
"Porque ele sempre tem que agir como um idiota?".
Sesshoumaru o tinha criado sozinho desde que seu pai apareceu de repente depois de uma "missão", sangrando e ferido com um bebê em seus braços. Depois de sua morte não foi fácil viver em Eva, principalmente com um recém-nascido para criar. Ainda culpava um pouco Inuyasha pela morte de seu pai e sua infância difícil – embora, sabia que o garoto não tinha muita culpa de fato – mas não tinha tempo para tais sentimentos, era jovem ainda quando assumiu a liderança da resistência contra a ditadura, era preciso foco.
Havia treinado Inuyasha para ser seu melhor soldado e caso algo acontecesse com ele, seu sucessor. Não havia tempo de arrumar uma parceira para que pudesse procriar e ter um herdeiro propriamente dito e nenhuma Youkai parecia estar à sua altura.
Assim como os terráqueos, os youkais eram humanoides, em sua maioria. Os que tinham aparências mais grotescas, eram de inteligência consideravelmente menor. Não tinha ambições, se reproduziam como malditos e eram manipuláveis, faziam ótimos peões para o exército da Milícia. Embora obviamente que não contavam somente com os youkais de baixo nível, ou a ditadura não teria chegado onde chegou.
Deixando os pensamentos sobre Inuyasha de lado, Sesshoumaru seguiu para a sala de controle para monitorar a nave que havia acabado de partir do hangar principal. Mal tinha entrado no local e seu Tenente pediu licença. Era seu espião mais confiável ele havia descoberto muitas vezes planos do maldito Dêmonio, ajudando a Resistência a frustrar suas execuções. Seu maior feito havia sido recentemente, onde ele o informara do surgimento do trunfo da Terra. O primeiro em tantos anos. Depois de Inuyasha, o Lobo era o terceiro na linha de liderança.
- Sesshoumaru. – Disse fazendo uma pequena reverência, em sinal de respeito.
- Quais as novidades? – Ele perguntou e com um gesto de sua mão indicou que o rapaz pudesse ficar à vontade.
- Ginta me informou que os suprimentos estão um pouco escassos, em breve teremos que mandar um time para uma missão de busca.
- Entendo, mas isso não é nenhuma novidade, não é? – Ele respondeu em tom irônico.
Eva começou a morrer muito antes do nascimento do General tendo somente um continente habitável no planeta. Os alimentos se esvaíram e houve escassez de água. Não existiam muitos animais tornando a caça difícil, por isso dependiam de tudo o que conseguissem plantar no solo recuperado da Resistência e nos criadouros escondidos no subterrâneo.
- É só isso por hoje. Inuyasha já foi mandado para a Terra para sua missão. Quando ele voltar, nos reuniremos para discutir os suprimentos. Ele é minha prioridade no momento. – Sesshoumaru observava o mapa e organizava mentalmente um plano de ataque às Milícias para roubar suprimentos, nem mesmo desperdiçando um olhar em direção ao outro homem.
- Ele foi até lá? – O Lobo perguntou um pouco surpreso.
- Precisávamos agir rápido, ou a Milícia poderia descobri-la antes de nós. - Ele respondeu impaciente.
- Entendo. Mande me chamar quando ele voltar – Sem mais nada a acrescentar, o Tenente se retirou sem precisar que seu líder realmente mandasse.
Espero que aquele filhote não faça nada muito estúpido.
O aposento era escuro e silencioso. Um homem de aparência sombria se encontrava sentado numa cadeira enorme na sala tão grande que fazia o assento parecer perdido. Ele sabia que tinha que agir rapidamente. Sentado ale, sua cabeça estava um turbilhão e se alguém pudesse ler sua mente, veria planos e mais planos, nenhum deles honrados. Tomou um gole de uma bebida com aspecto alcoólico e esperou o homem à sua frente se pronunciar.
- Senhor – Finalmente seus pensamentos foram interrompidos por uma boa causa. Se ele não estivesse tão ansioso por notícias como as que acabaria de receber, mandaria o maldito para o açoite.
- Quais são os assuntos da Resistência? Rápido. – Exigiu.
- Tudo como planejado senhor. Inuyasha partiu para Terra para achar a garota. – Respondeu o espião, tremendo levemente. O homem sentiu satisfação ao perceber seu inferior temê-lo tão facilmente.
- Tão previsível. – Riu com malícia. Ele esperava por esse dia, finalmente achara uma garota. Ele teria ido buscá-la pessoalmente, mas desde que o generalzinho havia sido mais rápido, porque não usar o elemento surpresa? Seu exército youkai sempre o frustrava por serem tão inúteis, porém ele os faria um bom uso agora. Eles podiam ser obtusos, mas serviam para causar caos e o Demônio não se importava com casualidades, ele queria resultados.
"Morra quem morrer. Quero esse prêmio em minhas mãos.".
- Agiu bem vindo a mim, criança. Saia. – Não esperando um segundo comando, o rapaz saiu tão discretamente quanto chegou – Sei que está aí. Reúna os homens.
Sentido a presença de seu peão esvaecer, ele se aproximou do altar que se erguia majestosamente no meio da sala. Embora tudo fosse sombrio, havia uma luz no meio da sala que teimava em brilhar forte. Ele havia tentado de tudo por anos para matar aquele brilho. Havia matado, torturado, enfeitiçado. Tudo com auxílio da pequena joia que repousava ali.
Sorrindo, Naraku observou o brilho e pensou com cobiça o quão pouco tempo seria necessário para que ele tivesse seu mais profundo e perverso desejo realizado.
