Bem, este capítulo tem um tom um pouco mais sério(e portanto BEM monótono) pois se foca mais em alguns sentimentos e percepções de certos personagens, dando também uma vazão as possíveis "soluções" para os mistérios que rondam Asgard.
Antes de começar esse capítulo, vou antecipar aqui alguns elementos que são muito importantes para se entender as divisões na ambientação futura da fic, embora eu diga aqui que devo retoma-los muitas outras vezes desde aqui.
Na mitologia nórdica se acredita na existência de 9 mundos, cada um com sua particularidade(e cuja interpretação varia de autor para autor pois a cosmologia nórdica é muito dúbia, possibilitando "n" interpretações). Portanto, não estranhem o uso da palavra MUNDO(dos homens, dos elfos, dos deuses, dos gigantes, etc.) em alguns momentos da fic, ela faz parte deste contexto mitológico.
Sobre essa mesma questão, neste capítulo já são citados 2 mundos(Vanaheim e Ásgarður) que são explicados também no capítulo. Ambos irão se encaixar aqui dentro do mito da Guerra dos Deuses, onde vou mostrar a vocês que os deuses nórdicos possuem divisões em dois panteões(Aesir e Vanir), que hoje não são tão ressaltadas pois houve uma união.
Sem mais delongas, uma boa leitura a todos.
O Vazio
"Me leve para a margem sul
Dentro do vazio desobstruído
Minha busca por algo mais.
Me leve para um plano superior
Dentro do vazio desobstruído
Algumas coisas simplesmente não podem ser explicadas. "
(Nevermore- Emptiness Unobstructed)
Era mais uma das costumeiras tardes frias em Asgard. Ao se olhar pela janela era possível avistar a neve caindo suavemente pelo céu constantemente acinzentado, tornando todo cenário do lado de fora do palácio asgardiano tristemente branco, sem um único sinal do tão aconchegante sol ao qual Saori tanto apreciava.
Ali, naquele reino que levava o nome da morada dos deuses nórdicos[1], foi onde Athena e seus guerreiros ainda vivos haviam encontrado apoio após as violentas batalhas contra Hades e também Ártemis, que acabaram por destruir grande parte da estrutura muito antiga do Santuário. Mesmo com as obras de reconstrução na Grécia ocorrendo intensamente por já alguns meses, muito ainda devia ser feito para que o local sagrado da deusa da sabedoria e justiça voltasse a ser o que era anteriormente.
O ânimo de todos nos últimos tempos não poderia estar menos exaltado, ainda mais agora, com tanto mistério pairando no ar.
Nos últimos dias, Saori se reunia constantemente com Hilda de Polaris, que parecia tão mergulhada em dúvidas quanto à própria deusa grega. Ambas sentiam em seus corações que Odin estava por trás da volta dos Cavaleiros de Ouro, mas ainda sim não conseguiam encontrar respostas exatas para muitas perguntas que ficavam pendentes. Osilêncio que o deus idolatrado em Asgard deixava à própria representante na terra tornava cada novo momento um torturante meio de se questionar para aquelas duas mulheres, que pareciam estranhamente perdidas em um mar turbulento de perguntas.
– Você acredita? – perguntou Saori, observando naquele instante pela janela alguns cisnes brancos pelo céu, que voavam formosamente em uma vigorosa posição em "V".
– Acredito? – perguntou Hilda sem entender exatamente o que era aquele questionamento da jovem que lhe fazia companhia todos os dias naquela mesma sala restrita do palácio Valhalla.
– Acredita mesmo que algo está para acontecer?
Saori se virou e fitou o rosto de Hilda, que a olhava com certa surpresa estampada no rosto. As duas se encararam por instantes em total silêncio, numa atmosfera de sentimentos totalmente carregados de receio, como se aquela pergunta fosse um verdadeiro incômodo do qual ambas desejassem fugir, já que a paz que viviam até então era um bem delicioso de se ter. Era uma raridade.
– Sim. – respondeu enfim a sacerdotisa com sinceridade. – No meu coração algo me diz que é apenas uma questão de tempo para conhecermos a verdade dos nossos temores.
Athena se virou mais uma vez na direção da janela, com um sentimento angustiante de temor pela possibilidade de uma nova luta. Um mal estar mental, fonte de seu lado ainda humano, tomou conta dela, a fazendo sentir pela primeira vez que a paz estava finalmente à beira de um precipício do qual não poderia enxergar o fundo. Esta possível união entre mundos tão distintos, mais precisamente entre a força de Odin e Athena, dois deuses de guerra e sabedoria, fazia com que ela aquela jovem fosse confrontada diariamente com enigmas quase impossíveis de se resolver.
O terror dos ares novos a amedrontava secretamente. Seria tola se dissesse que não, por mais que buscasse não demonstrar a mais ninguém.
Mergulhada em longínquos pensamentos, ela notou, por entre toda a paisagem simplória asgardiana, a estátua imponente de Odin, vigorosa em tamanho e força. Essa era de um rico talhar, perfeita em cada detalhe que a neve ousava cobrir de forma natural, dando à imagem do deus nórdico o ar branco do Norte. Bastou apenas alguns segundos a olhar aquela representação simbólica para que Athena tivesse o primeiro relampejo do que deveria fazer como uma verdadeira deusa da sabedoria: buscar... buscar mais onde pudesse, afinal, essa é a natureza verdadeira de quem deseja conhecimento.
– Odin é um deus sábio, Athena. – disse Hilda se aproximando e tirando Athena daquele estado transitório de pensamentos no qual se encontrava – Se ele está realmente por trás da volta dos seus cavaleiros, como nós acreditamos, é porque ele sabe que não pode vencer uma batalha sozinho.
– Mas que batalha seria essa, me diga? O que seria exatamente o dia que escuto em mitos incompletos e temo em meu íntimo? – perguntou em aflição não a deusa Athena, mas mais uma vez seu lado humano – O que nos aguarda em breve?
– Não tenho essas respostas. – disse tristemente a sacerdotisa, voltando a se sentar na mesma poltrona vermelha de antes logo em seguida. – Mas posso encontrar alguém que talvez nos ajude esclarecer certas dúvidas.
Saori se virou mais uma vez na direção da asgardiana, interessada no que ouvia. Tinha a certeza que precisava explorar novos horizontes para expandir as respostas que possuía e, por isso, fitou o rosto sereno de Hilda com curiosidade. Esperava agora com ansiedade por um nome, uma simples nota agradável que preenchesse todo aquele vazio deixado pelo silêncio.
– Quem?
– Há um lugar secreto na Suécia chamado VanaLand[2], onde vivem algumas sacerdotisas da deusa que ensinou a Odin os mistérios da poderosa magia seiðr[3], importante em caráter divinatório. Se este for seu desejo, posso providenciar um falcão mensageiro com um recado. – disse Hilda, com certo tom dúbio.
– Um recado? – repetiu a deusa em provação, sentindo que a sacerdotisa vacilara completamente ao sugerir aquela saída, como se carregasse duvidas sobre se aquilo era de fato o único meio de se atingir as respostas. Hilda sempre mostrava uma força avassaladora mesmo diante das situações mais extremas e naquele momento, estranhamente, tudo em torno da asgardiana parecia um antro de questionamentos secretos.
Athena resolveu que era melhor refletir delicadamente sobre o assunto. Havia coisas no universo das quais ela ainda não sabia, mesmo com toda sabedoria...
– Sei que percebeu o tom vacilante em minha voz e não está errada em desconfiar o porquê, Athena. – sorriu a sacerdotisa – VanaLand é o território dos seguidores daqueles deuses que no passado guerrearam contra Odin e, por mais que eles hoje sejam atuais aliados, é preciso ter cuidado.
– Houve uma guerra entre os deuses nórdicos? – perguntou Saori com surpresa. – Não me recordo de ouvir algo assim.
– Realmente não deve ter ouvido. Esta guerra foi muito antes de Odin descer uma vez ao mundo dos homens e ser conhecido então pelo Olimpo. Isso hoje não passa de um relato longínquo, mas que ainda é muito lembrado por aqui. – disse a sacerdotisa – Deseja escutar o que aconteceu?
– Sim Hilda.
A regente de Asgard se levantou de onde estava sentada e caminhou na direção de um quadro onde uma figura representando a geleira daquele reino onde estavam era retratada com extrema fidelidade, tal como se o quadro fosse uma foto.
– Desde eras muito antigas há dois importantes grupos de deuses nórdicos: os Aesire os Vanir. – começou a asgardiana. – Odin, o grande deus supremo, é um dos Aesir, assim como seus filhos, sua esposa e outros deuses que habitam o mundo de Ásgarður.No entanto, no mundo de Vanaheim[4], onde o antigo deus supremo dos mares e ventos Njord[5] nasceu, viviam os deuses Vanir, figuras associadas à fertilidade e a natureza. Há muito tempo atrás esses dois grupos entraram em guerra após Odin e os demais Aesirtorturarem e queimarem Gullveig, uma amiga dos Vanir[6] que visitara Ásgarður e cansara todos os deuses daquele mundo com suas palavras carregadas de amor excessivo pelo ouro. Dizem que a ambição dela era tão ultrajante que levou os Aesir ao extremo, fazendo até mesmo com que eles desrespeitassem as próprias leis da hospitalidade. – disse Hilda se silenciando por alguns segundos, como se tomada pela reflexão – Gullveig foi queimada três vezes e três vezes ressuscitou, mostrando sua força àqueles deuses que a enfrentaram com tanta ousadia. E então, irritados com o tratamento que a amiga havia recebido em Ásgarður, os deuses Vanir se preparam para uma guerra contra os adversários, o que Odin, em toda sua sabedoria, tomou conhecimento com muita rapidez. Assim, encontrando-se em campo, os dois grupos de deuses lutaram em uma batalha que parecia jamais terminar, já que suas forças eram equivalentes. Tão equivalentes que os próprios rivais acharam que seria certo um acordo, onde o combate terminasse com uma aliança final de paz, criando assim laços da união que dura por eras.[7]
– E por que então teme a ideia desta aliança, Hilda? Sinto sua voz vacilar com a ideia de pedir ajuda aos seus aliados antigos.
Hilda pareceu hesitante em responder. Os olhos azuis da asgardiana percorreram todo o ambiente, parando finalmente diante do quadro simples na parede, como se o analisasse de maneira nostálgica.
– Eu temo a natureza frágil de nós humanos Athena, sempre movidos por uma força maior em nossas escolhas. – disse a sacerdotisa em tom baixo – O que os deuses escolhem nem sempre se aplica a vontade daqueles que os representam na terra, pois somos humanos e incrivelmente flexíveis.
– Está querendo dizer que as mesmas sacerdotisas que iremos consultar para maiores esclarecimentos talvez sejam voláteis em relação à ideia de ajudar existente em uma aliança?
– É uma visão popular. – respondeu – As sacerdotisas de Frøya[8], as quais chamamos de seiðkonas e algumas vezes de völvas, quando nos referimos às videntes, são desde eras mitológicas mulheres respeitadas e temidas. Podem tanto ajudar com seu profundo conhecimento quanto prejudicar um homem se tentadas a isso. Não são raros aqueles que sofreram os augúrios de sua força negativa como também não são raros os que se beneficiaram de seus dons. Ficar sob as forças delas é algo preciso e na pior das hipóteses perigoso.
– Conheci pessoas temidas pelas suas imagens e que salvaram a humanidade quando foi preciso. – disse Athena, se recordando naquele momento de dois de seus cavaleiros até então "ditos" como definitivamente mortos pois ainda não haviam retornado. – Não custa tentar buscar ajuda.
– Sim. Carrego comigo a certeza que as sacerdotisas da deusa Frøya são a nossa única esperança diante o silêncio de meu senhor Odin. Porém, receio que talvez elas possam se negar a nos ajudar, independente da aliança antiga dos deuses. E elas teriam motivo para isso.
– Qual?
O silêncio se fez na sala, sendo quebrado apenas quando a sacerdotisa de Asgard abaixou a cabeça e resolveu falar em um tom que carregava lamento em cada palavra. Um triste lamento vindo de um longo período de silêncio
– O passado... o meu terrível passado.
Athena fitou a imagem da jovem asgardiana, que fitava agora o chão fixamente. A deusa em corpo humano sabia muito bem do que se tratava o "passado" referido pela sacerdotisa e, no fundo, sentia um pesar absoluto ao ver aquela mulher que tanto admirava destruída em sórdidos pedaços. Notava, atentamente, o fantasma da dor surgir através da força, algo que não importava quanto tempo passasse, deixaria cicatrizes por toda uma eternidade. Cicatrizes essas que Saori também carregava pela própria experiência.
– Foi um destino do qual sabemos que jamais poderia escapar, Hilda. Nem mesmo Odin foi poupado nas eras mitológicas do mal existente naquele anel[9]– disse a deusa buscando não só palavras de conforto, mas que carregassem a verdade – Não se culpe por aquilo que não pode controlar. A natureza daquele objeto era a de uma maldição antiga.
– A dor que carrego comigo hoje consegue ser muito mais forte do que aquela maldição destrutiva que me dominou em segundos. – confessou a asgardiana, enquanto os olhos azuis enchiam-se de lágrimas de tristeza – É difícil esquecer o mal que atraí até a mim... é difícil aceitar que o monstro que destruiu muitas vidas e também a paz de meu povo fui eu! Sinto como se minha vitalidade fosse injustificável diante dos meus atos, como se meu sangue fosse impuro demais para meu cargo. O erro que causei deixou danos irreparáveis e ainda pode fazer com que várias portas sejam fechadas quando preciso. Portas que poderiam nos trazer uma luz nesse momento.
Saori caminhou até Hilda e num ato inesperado abraçou a sacerdotisa, que aceitou aquele gesto de muito bom grado. A asgardiana sentiu naquele mesmo instante o delicioso conforto do contato divino, algo que só sentia quando Odin lhe vinha em preces e dava a ela um pouco do calor da fé nórdica. Porém, ao contrário do toque do deus de Asgard, sempre forte e instigador tal como o de um pai a proteger seus filhos, o abraço de Athena possuía todo o toque materno da calma e da paz. E era essa fonte acalentadora, sempre distante de sua posição como sacerdotisa, que Hilda precisava naquele momento. Era esse tipo conforto que a asgardiana necessitava naquele instante, algo que fosse além da mensagem de que deveria se manter forte e esquecer qualquer dor do passado.
Tudo que precisava era apenas de um abraço amigo de alguém que, assim como ela, fosse responsável pelo mundo e não a fizesse se sentir tão só naquela longa caminhada, tão cheia de caminhos obscuros.
A solidão podia ser sufocante a alguém em cujas mãos se está o destino da humanidade.
– Jamais deve abandonar a busca por uma luz, Hilda. – disse Athena enfim, pegando logo em seguida nas mãos da amiga – E não me refiro nesse momento apenas as respostas para nossas duvidas, as quais devemos sempre ir atrás com coragem e sem medo, mas sim em relação ao seu próprio perdão. É seu primeiro passo. Sei que já deve ter ouvido isso das pessoas que a amam mas precisa continuar firme e forte, sem vacilar, pois a sua escuridão será o começo de uma noite sem fim para todos aqueles que confiam em você. E essa, você sabe, é a sina da nossa responsabilidade.
As duas se olharam com amizade, pois sabiam o quanto aquelas palavras ditas por Athena eram de natureza verídica. Se fraquejassem em algum momento, devido toda à dor vinda das próprias missões humanitárias, suas consciências seriam atormentadas para sempre por cada rosto que um dia depositou algum tipo de voto nelas, fosse de confiança ou fidelidade. De todos os males vindos da obrigação, essa era a sina mais pesada e dolorosa a qualquer figura de carne ainda mortal, pois os sentimentos de tristeza sempre pareciam vir à tona em horas sofríveis, tornando o fardo mais pesado e muitas vezes pessoal. Porém, ainda sim, mesmo diante de tantos obstáculos terríveis e dificultosas provações, Hilda e Athena sabiam que não poderiam abrir mão de suas responsabilidades, pois no fim de um imenso túnel escuro surgia sempre o crescente rio das vidas protegidas e a renovada esperança. Isso era não só uma justificativa para seguir em frente, mas uma motivação carregada de amor e humanidade.
Ser um líder era se doar muito sem exigir o retorno, embora esse viesse em cada sorriso ainda vivo, alimentando assim a força que era preciso ter para se levantar de quedas dolorosas.
Naquele instante Hilda queria chorar. Queria chorar pois sentia ainda o peso vindo dos próprios atos durante o domínio do Anel, algo que lhe atormentava a consciência por anos. No entanto, aquela conversa surgida entre duas pessoas com missões tão parecidas, serviu como um novo despertar para a asgardiana, algo que precisava realmente ouvir para buscar a saída da escuridão dos próprios erros.
Chegaria a hora que a sacerdotisa deveria doar-se cem por cento a uma missão muito maior e, portanto, precisava lutar contra a cegueira causada pela própria repreensão. Era preciso observar que havia muito mais do que apenas sua dor. Havia a dor que os outros sentiam quando ela se sentia fraca e, sua fraqueza era uma queda terrível ao bem da humanidade.
A missão apenas começava.
– Suas palavras são dignas de uma deusa de sabedoria, Athena. Sou grata a elas. – disse Hilda, apertando forte as mãos da deusa- humana – Ofereço mais uma vez como minha gratidão aquilo que sei que posso fazer: ajuda.
– Sempre me ajuda, Hilda de Polaris. Eu e meus cavaleiros estaríamos vivendo o terror do desconhecido se não fosse você nos acolher em Asgard.
– É minha obrigação por tudo que fiz. – disse Hilda, sustentando agora um olhar mais forte e obstinado ao entrar naquele assunto, sempre tão terrível de ser lembrado – Foi a maneira que encontrei para o meu recomeço.
– E para o meu também, não é? – disse Saori com um sorriso simples , soltando as próprias mãos das da asgardiana e suspirando ao se recordar de seu antigo lar – As obras na Grécia estão indo bastante devagar... creio que talvez eu possa nunca mais a ver se ofim for uma verdade iminente.
Naquele exato momento Thor de Phecda, o Guerreiro Deus que representava a Estrela Gama da Constelação de Ursa Maior, adentrou naquela sala se ajoelhando respeitosamente diante das duas mulheres, pondo logo em seguida seus dois machados sobre o chão, em um sinal de submissão.
– Princesa Hilda, hoje serei eu quem a acompanhará até a estátua de nosso deus Odin para a oração diária.
– Obrigada Thor. O agradeço pela companhia e proteção.
Thor esboçou um sorriso que, apesar de seu rosto intimidante pela grande estatura do rapaz, o tornou bonito e até mesmo mais amigável.
– E deusa Athena... – continou o guerreiro de Phecda, olhando com profundo respeito para a figura da encarnação da deusa grega da sabedoria – Shion pede para que a avise que está a seu dispor neste momento para a reunião diária.
– Diga que o aguardo.
– Sim Athena.
O guerreiro deus se levantou deixando bem visível toda sua altura bastante exagerada, que apenas perdia em tamanho para a figura terrível dos jötnar[10] da mitologia nórdica. Hilda, naquele mesmo instante, se dando conta que a hora da oração havia enfim chegado naquele dia, caminhou na direção do jovem guerreiro de coração simples, virando-se na direção de Athena mais uma vez antes de sair pela porta imensa de madeira já bastante antiga.
– Após a reza solicitarei imediatamente o falcão mensageiro, Athena. Espero que dentro de alguns dias chegue uma resposta.
– Enquanto isso, aguardemos com grandes expectativas.
A sacerdotisa sorriu mais uma vez, saindo logo em seguida com seu guerreiro deus e deixando Athena sozinha na sala fria e grande do castelo Valhalla.
E ali, por longos instantes, ficou a deusa a pensar, esperando até sua próxima reunião.
Essa não tardou a chegar.
...
Desde que havia despertado naquele reino frio de Asgard, Aldebaran havia se mostrado um dos mais interessados nas atividades locais. Seu ritual sagrado era acordar cedo todos os dias, por volta das quatro e pouco da manhã e, após um bom café da manhã reforçado no palácio Valhalla, caminhava até a vila asgardiana, onde ajudava uma tradicional família de produtores de vacas de leite. Tinha descoberto no manejo desses animais um prazer até então desconhecido e muitas vinham sido as vezes que havia deixado alguns confortos no templo sagrado de Odin para se dedicar aquilo que tanto gostava.
Naqueles tempos, os cavaleiros pareciam predispostos a coisas que fugiam totalmente às suas restritas tarefas de proteção.
Naquela tarde, enquanto estava sentado em um banquinho de madeira com uma bezerrinha a lhe sugar os dedos como se fossem as tetas da mãe, Aldebaran olhou para o céu lúgubre sobre a cabeça e deu um longo suspiro carregado de saudades do local que o acolhera como um protetor da humanidade: o Santuário. Não podia negar que sentia uma falta imensa de todos os pilares sagrados do recanto da deusa Athena, pois era lá que havia estado muito tempo como um homem que lutava em prol da justiça. Gostava da brisa mediterrânea, da visão do sol se pondo no fim de tarde e claro, das belíssimas praias gregas ao longe, que tornavam todo aquele local na Grécia único.
Não havia em todo mundo um templo tão exuberante em paisagem quanto o da deusa grega da sabedoria.
Para o Cavaleiro de Touro, Asgard era um reino belo, ele assumia, mas sua beleza era de um tipo diferente, estranha aos olhos acostumados à imagem de uma linda luz dourada, o que passava, portanto, uma visão de vazio, tristeza e nebulosidade naquele mundo branco em que ele estava inserido.
Esta era a imagem que o cavaleiro tinha agora ao olhar para aquele céu sem o formoso azul que coloria a vida e o espírito.
Naquele local frio onde Hilda de Polaris era a regente, toda a definição do belo consistia justamente na simplicidade e na tradição, características que tornavam o povo que ali residia uma raridade se comparado aos padrões gregos do Santuário. Aldebaran havia percebido, desde a primeira vez que pisara na superfície gélida, que os asgardianos eram um povo de fortes crenças, de fé acentuada, de coragem vasta e muita força de vontade. Se reuniam todos os dias para fazerem suas preces à Odin e jamais, não importava a dor que sentissem, jamais mesmo eles abandonavam o fervor em seu deus silencioso. Isso deixava uma reflexão bastante dura: quantos cavaleiros e aprendizes algum dia já haviam virado as costas a deusa Athena na primeira oportunidade, quando sua volta não era nada mais que uma suposição?
O taurino conhecia alguns homens que se encaixavam naquilo e em seu coração carregado de bondade os perdoara. Sabia que aqueles mesmos santos eram agora atormentados pelos próprios fantasmas do sofrimento.
Não haveria pior castigo a um cavaleiro de Athena do que a própria reprovação.
– Aldebaran! – surgiu uma voz feminina, fazendo o grande Cavaleiro de Touro despertar de sua reflexão solitária e sorrir com aquela interrupção bem-vinda – Sabia que o encontraria por aqui. Você não desgruda mais destes bichinhos!
Ele levantou os olhos castanhos na direção da voz feminina e fitou a figura delicada de Fler, irmã da sacerdotisa de Asgard. A jovem de longos cabelos loiros e ondulados era uma das melhores companhias naquele reino para qualquer um que carregasse um bom coração, como era o caso do taurino.
– Acho que estou sofrendo a influência da minha constelação. – riu Aldebaran, coçando a cabeça desconfortavelmente pelo comentário sem graça, mas que fez a jovem rir de maneira divertida. – Algum problema no palácio Valhalla?
– Nenhum. Na verdade vim te chamar para a oração diária. Lembra que você e Mu me pediram ontem para que os chamasse?
– Por Athena, tinha me esquecido disso! – disse o taurino batendo na cabeça e se levantando de sobressalto do banquinho, constrangido por aquela atitude tão absurda por parte de um Cavaleiro de Ouro.
– Ei, não precisa se desesperar! – riu Fler ao ver a pressa do amigo.
– Eu prometi que iria à senhorita e também à Hilda e Athena, portanto tenho apenas que pedir minhas sinceras desculpas por este meu esquecimento.
– Desculpas aceitas. – disse a asgardiana, abrindo com cuidado um velho portão de madeira, evitando assim que algumas bezerrinhos mais agitadas escapassem – Então vamos lá?
Aldebaran olhou primeiramente para a própria condição, notando que estava sujo dos pés até as partes superiores, e assim, logo em seguida, fitou a princesa asgardiana bastante envergonhado por se encontrar de tal maneira. Pois, sabendo que ia a um local estranho a sua cultura, ele tinha pleno conhecimento que não estava em condições apresentáveis naquele momento tão importante que se daria em breve. Estava totalmente "enfeitado" pelo estrume de vaca, que não era obviamente algo muito agradável aos olhos e narizes sensíveis.
– Bem, eu...
– Mu e Kiki já devem estar por lá. – completou Fler de maneira confortante – Então não se preocupe, os carneiros que eles cuidam são mais mal cheirosos do que todas essas vacas as quais você é responsável.
O taurino riu com o comentário sincero, lembrando imediatamente de seu sempre amigo Mu de Áries, que atualmente ajudava outra tradicional família asgardiana, responsável pelos ovinos de Asgard.
– Se é assim, eu vou. – disse o Cavaleiro de Touro se sentindo acolhido pela princesa.
Com cuidado ele saiu então daquelas instalações dos bezerros, nas quais se encontrava desde a manhã fria. Fechou o portão de madeira que Fler segurava fitando com amor os animais que haviam o seguido agitadamente e, assim que se aproximou mais da asgardiana, a viu torcer o nariz com a sua aproximação malcheirosa, o que causou risadas de ambas as partes pela situação. Risadas essas que não morreram tão cedo.
Logo Fler e Aldebaran caminhavam pelas terras frias de Asgard enquanto a neve os acompanhava vindo diretamente do céu em pequenos flocos, esses que caiam suavemente sobre o rosto do taurino, dando um toque frio porém inesquecível às emoções daquele grande homem, sempre tocado pela simplicidade da natureza.
A neve podia ser agressiva, mas também um fruto de sonhos inocentes de infância, que remetiam o Cavaleiro de Touro a uma época muito longínqua. Época essa que jamais voltaria.
– O povo de Asgard fica muito feliz em ver que muitos cavaleiros de Athena têm se juntado a nossa oração diária. Eles se sentem mais confortáveis e confiantes com a presença de vocês por perto. – disse Fler, fazendo a atenção do taurino se encaminhar totalmente para ela.
– O conforto deles tem haver com o que nossa volta implica, não é mesmo?
– Também. – respondeu a princesa, acenando para algumas pessoas ao longe que se direcionavam também ao local de oração – Desde que os guerreiros deuses voltaram, muito antes de vocês cavaleiros de Athena, os asgardianos já havia entrado em um estado absoluto de frenesi pois notaram com clareza que Odin estava olhando por nós. Mas agora a agitação está muito maior pois acreditam que os presságios do fim de nosso mundo sejam uma verdade e que vocês estão aqui por escolha de nosso deus, para nos ajudar a combater os inimigos e evitar que isso aconteça.
Por instantes Aldebaran ficou pensando naquilo que Fler dizia enquanto continuavam a andar. Em conversa com sua deusa ela já havia dito que havia uma possibilidade tremenda de que a volta de seus homens fosse um reflexo da vontade de Odin, o único que conhecia os aspectos sombrios do futuro com clareza. A dúvida que todos tinham no entato era: o que os esperava exatamente? Seria isso tão grave, como as crenças asgardianas levavam a crer, a ponto do deus nórdico precisar da ajuda de reles mortais que nada tinham haver com sua força na terra? Ou eles, de forma indireta, talvez teriam pois eram guerreiros protetores?
O Cavaleiro de Touro sentiu naquele momento a sensação incômoda causada por aqueles pensamentos, pois tal como qualquer santo de Athena ele lutava contra as forças que destruíssem tudo aquilo que conhecia como a natureza da humanidade.
A ideia de um ponto final onde toda aquela luta fosse em vão era muito mais amedrontadora do que a ideia de longas batalhas duríssimas.
No entanto, mesmo diante desta estranha inquietação causada por uma possibilidade terrível, a melodia do harpista que o acordara da prisão do corpo ainda ecoava em sua mente, com uma mensagem oculta de fé e esperança, pedindo secretamente para que ele não desistisse jamais. Pedindo para que ele continuasse sendo o que nascera para ser: um cavaleiro da justiça.
"Siga em frente com sua força como tantas outras vezes, Cavaleiro de Athena", era o que o dono da bela melodia dissera enquanto o taurino fora tomado pelo mundo da paz no mesmo instante que seu cosmo havia atingido o ponto máximo, dias atrás. Jamais aquele guerreiro podia esquecer o impacto daquelas palavras, que o levaram a sensação divina de sentir a vida após um grande castigo de escuridão.
– Então era Odin o harpista mágico? – perguntou Aldebaran automaticamente devido àquelas lembranças que lhe vieram à mente, se recordando agora da mais bela melodia que havia ouvido em toda sua experiência. Fora o som mais sutil aos seus ouvidos, beirando o campo do divino em cada nota. Nem mesmo Orfeu de Lira, cavaleiro de Athena com um dom extremamente elogiado antigamente no Santuário, foi capaz de tanto no passado.
– Não sabemos. – disse Fler desanimada, mas surpresa por aquela pergunta – Mas a possibilidade é que não seja.
– E quem seria capaz de algo tão incrível?
– Alguém muito forte em quem Odin confia.
Em quem Odin confia... e quem seria exatamente? Quem seria digno de uma tarefa tão árdua como aquela?
Por mais que quisesse continuar naquele assunto, aquela conversa com Fler se encerrou ali pois, naquele mesmo instante, ambos chegaram diante da estátua do deus de Asgard, onde muitas pessoas já estavam reunidas à espera de Hilda de Polaris. Era este o momento onde todos, independente de suas afrontas pessoais, se reuniam ali buscando mais uma vez agradecer e também poupar aquelas terras frias sofríveis de mais dor.
A oração era a esperança em uma vida calma.
– Ei, Aldebaran! – gritou-lhe uma voz que o taurino reconheceu rapidamente como sendo de Aiolos de Sagitário, cavaleiro lendário e também admirável em exemplo. Ao se virar na direção do som, Aldebaran se deparou imediatamente com o sagitariano junto a Aiolia e Mu, velhos colegas de Santuário, para os quais acenou e se aproximou deixando sem querer para trás a jovem Fler, que já tinha sido "capturada" por uma multidão de pessoas a interroga-la sobre os últimos acontecimentos em Asgard.
– Por Athena, você e Mu estão fedendo pra caramba! – disse Aiolia, cobrindo o nariz e fazendo uma careta exagerada diante da aproximação do taurino.
– Talvez se movesse essa sua bunda do castelo para ajudar em alguma atividade também estivesse cheirando mal. – retrucou Aldebaran, vendo que o Cavaleiro de Leão esboçara um sorriso diante da frase provocativa.
– Mas eu faço!
– Sim, faz, se discutir com os guardas asgardianos for considerada uma atividade diária.
– Ele agora vai deixar todos eles em paz, tenho certeza, pois o antigo motivo dele brigar retornou. – comentou Aiolos, vendo o irmão se impacientar com o comentário – Soube que Milo despertou hoje, Aldebaran?
– Eu senti o cosmo dele ainda há pouco junto ao do harpista. Ia sair da vacaria para procurar por eles, mas tudo que senti sumiu da minha percepção assim que segui em frente.
– E por isso sobrou para mim! Tive de ir atrás do artrópode quando ele despertou ou ele ia morrer sozinho.
– Milo tem sorte, Aiolia. Justamente você que ele tanto adora, foi busca-lo no meio do nada, dando a ele com certeza uma recepção bastante calorosa. – riu o taurino, vendo o amigo ao qual direcionava aquelas palavras revirar os olhos com aquilo – Como ele está afinal?
– Bem. – disse o Cavaleiro de Leão – Tão resmungão e falador quanto antes.
– Certas coisas jamais mudam, penso eu.– comentou Aldebaran. – E por falar nesse assunto do retorno... onde está o harpista, Aiolia? Não o vejo ao seu lado como você disse que faria para mostrar que Mu e Shaka são dois incompetentes.
O leonino olhou desconfortável para os demais companheiros ali presentes, parecendo bastante irritado com aquela provocação que fora calculadamente gerada devido um infeliz comentário de Aiolia há alguns dias atrás, sobre como os dois colegas de Santuário eram lentos demais para buscar algo importante.
– Ele viu que a minha posição e do Cavaleiro de Virgem a respeito de um possível efeito ilusório não era uma brincadeira. – disse o ariano – O harpista consegue tornar as dimensões do local onde cada cavaleiro desperta muito maiores do que de fato são.
– É como caminhar sem nunca chegar onde se quer. – completou o leonino, completamente vencido.
– Eu já havia dito isso ao Aiolia. – comentou o Cavaleiro de Sagitário – Mas ele parece não perceber com a mesma facilidade que todos os outros uma situação tão delicada como essas.
– Está me chamando de burro, irmão?
– Não, apenas de teimoso e arrogante.
– Arrogante? Por Athena Aiolos, que ridículo! – esbravejou Aiolia, ofendido – Eu só achei que Mu e Shaka talvez tivessem com problemas por terem recém- despertado.
– Sim, eu sei. – ironizou o sagitariano com um sorriso sarcástico – Vou considerar que você não era um cavaleiro recém-desperto também, irmão.
– Eu jamais subestimo as percepções do meu amigo aqui. Elas estão sempre corretas mesmo que os ventos soprem o contrário. – comentou Aldebaran, batendo nos ombros do Cavaleiro de Áries com força enquanto o último dava um breve sorriso – Bem, ao menos conseguiu descobrir algo por hoje, Aiolia?
– Nada, nem mesmo uma pegada na neve. Aquele harpista é muito mais sagaz do que imaginava.
– Então continuamos na mesma situação...
– Infelizmente sim, Aldebaran. – completou Mu. – Estamos apenas caminhando em círculos.
Aquelas eram as palavras que todos eles não desejavam ouvir, pois essas mostravam a incapacidade de cada um em solucionar aquele problema de suma importância. Isso, claramente, começava tornar toda situação bastante preocupante, pois quanto mais eram bombardeados com as possibilidades de descobrir algo, mais parecia que se distanciavam de alguma maneira daquilo que buscavam, como se induzidos a sempre seguir sem respostas.
– Eu não gosto desta situação.
– E quem gosta, Aiolia? – comentou Aiolos, que de repente se atentara em um ponto fixo na multidão, fazendo os três cavaleiros ali presentes buscarem a mesma direção com curiosidade.
Naquele instante, os quatros permaneceram se silenciaram por completo pois Hilda de Polaris surgiu por entre o movimento local, com um sorriso simples no rosto e o ar de liderança que só ela tinha. Uma liderança que não beirava à arrogância típica de tantos cavaleiros, mas sim a simplicidade de uma mulher que compartilha, divide e se sente parte daquele todo onde lidera com força.
A sacerdotisa de Asgard era alguém admirável a qualquer olhar.
Tão rápido quanto a figura da princesa surgiu, passando por cada pessoa e lhe tocando as mãos como um gesto de força, todos ali presentes começaram a segui-la ansiosos, buscando maior aproximação com aquela que era a voz de Odin na terra. Logo a imagem grandiosa de Hilda sumira por completo no amontoado de asgardianos, que começavam a caminhar atrás da princesa respeitosamente.
– Devíamos fazer o mesmo que todos eles?
– Espere um pouco Aiolia. Deixe-os ir na frente. – disse Mu de Áries, recebendo um aceno positivo de Aiolos – Eles precisam do conforto causado pela proximidade com aquilo que os protege. Aguardemos seus passos por alguns instantes.
Com aquelas palavras sábias do ariano, os quatro cavaleiros de Athena permaneceram no mesmo local onde estavam, esperando que muitas pessoas passassem por eles para só então avançarem, se unindo assim àquela multidão que aguardava pelas palavras da sacerdotisa de Asgard.
Os momentos que antecediam aquela importante atividade diária eram carregados de emoções, pois cada coração era preparado silenciosamente para abrir-se em breve ao deus daquele reino.
Quando a oração enfim começou, todos se abaixaram na neve em um sinal de devoção e amor, ao mesmo tempo que o cosmo pacífico de Hilda surgiu grandioso, se espalhando por todo o local e tranquilizando qualquer aflição humana.
Aldebaran, tomado pela sensação de sentir pela primeira vez o toque cálido da energia da sacerdotisa, fechou os olhos castanhos, abrindo seu interior para ser tocado pela força da prece asgardiana. Aquele era um momento de ser envolto em palavras e senti-las verdadeiramente com o coração, e por isso buscara interromper o sentido da visão naquele instante, possibilitando assim apenas ser envolvido naquele ambiente.
Sentir era a força que o tomava por inteiro agora.
Ele ouvia atenciosamente a cada palavra dita por Hilda. Palavras tristes, carregando a dor das provações vividas em terras frias. Como alguém podia viver em mundo tão distante, frio e sem sol? Era essa pergunta que mais rodeava a mente do Cavaleiro de Touro, que sentiu uma estranha vontade de chorar ao ouvir tantas palavras que indicavam a verdade por trás do dia-a-dia dos asgardianos, uma verdade cinzenta. Era algo que conhecera tão pouco mas que fora o suficiente para fazê-lo se sentir bastante longe daquelas situações rotineiras, sendo, portanto, quase impossível não se perguntar como alguém podia ser forte mesmo com tantos obstáculos. Que força era aquela que mantinha aquele povo tão sofredor?
A resposta àquela perguntava estava ali, justamente naquela oração, tal como os cavaleiros tinham em seus corações quando enfrentavam épocas danosas. A única coisa que mudava em cada situação era a quem direcionavam sua força para se manterem sempre em frente, pois Asgard tinha amor por Odin e o Santuário por Athena.
Eram lugares completamente distintos, porém de algum modo semelhantes. Haveria lições que aquela convivência poderia providenciar com toda a sensibilidade do presenciar.
Aldebaran fechara-se completamente em seu mundo reflexivo, tomado por suas próprias sensações e emoções naquele momento, que afloravam velozes com cada palavra daquela oração. Porém, retirado deste estado supremo num segundo qualquer, ele fora confrontado com a sensação do cosmo forte de Hilda que sumiu bruscamente, como se fosse tirado do estado pacifico por algum tipo de controvérsia. Um choque de realidade talvez.
Quando o Cavaleiro de Touro abriu os olhos finalmente, nervoso pelo andar das coisas, viu que muitos murmúrios ecoavam pelo ambiente de forma inesperada para um local de oração. Alguns asgardianos choravam de felicidade, outros riam como loucos e outros ainda ousavam levantar-se em gritos ferozes, como os de guerra. Um cenário peculiar, estranho e completamente sem sentido para ele, que segundos atrás fora tomado pelo poder intenso da sacerdotisa. Se torna preciso dizer que mesmo diante desta cena, todos ali, independente do que faziam agora, fitavam a estátua do deus de Asgard naquele instante, com os rostos mais diversos em expressões.
E o taurino notou este detalhe rapidamente.
Tamanha foi a surpresa de Aldebaran ao virar-se também naquela mesma direção pois, quando olhara finalmente para imagem de Odin, tão vigorosa e intimidante, notara a presença de dois belos corvos pousados sobre os ombros da estátua. Estes estavam a olhar para toda aquela multidão com profundo ar de curiosidade, característico daquela bela espécie.
– Que diabos está acontecendo? – se perguntou o taurino bastante confuso ao perceber todo o alvoroço da multidão em relação àquelas presenças completamente inesperadas.
Mu de Áries permaneceu em silêncio por algum tempo como resposta a pergunta do amigo. Estava tão questionador quanto o próprio Aldebaran, embora seus olhos violetas parecessem muito mais espertos sobre o que de fato ocorria. Ele sabia a verdade, era fato.
– O povo parece acreditar que são Hugin e Munin, os corvos de Odin. – disse em tom calmo, embora a expressão no rosto fosse a da surpresa.
– Corvos de Odin? – perguntou Aiolia, vendo um guarda de Asgard começar a gritar palavras em islandês e fazer todos os demais ali presentes aplaudirem com fervor.
– Os asgardianos acreditam que, desde as eras mitológicas, Hugin e Munin são os verdadeiros informantes do deus de Asgard sobre tudo que acontece no mundo dos homens. – comentou Aiolos.
– Uau. – assobiou o leonino surpreendido – Como sabe disso, irmão?
– É só conversar meia hora com qualquer pessoa que reside neste reino. Eles gostam de falar sobre suas crenças porque sentem um orgulho tremendo delas.
Os quatro fitaram mais uma vez as aves negras, que permaneciam ainda sobre os ombros da estátua de Odin, tal como a posição delas diante das mais famosas representações do deus nórdico. Aquele era o local onde ambas sentavam-se para sussurrar as verdades sobre os homens ao supremo senhor de Ásgarður.
Se aqueles não eram de fato os dois animais mitológicos seria a mais estranha coincidência que aquele pouso tivesse se dado justo ali, naquele reino distante onde a força mais amada pelo povo era a de Odin, cujos animais simbólicos eram justamente aquelas aves de penas escuras.
Corvos eram raramente vistos naquela região, tal como aquele alvoroço todo indicava. Portanto, Hugin e Munin nunca estiveram tão próximos da realidade quanto naquele instante.
Em pouco tempo os lindos animais levantaram um voo nobre, contrastando com a paisagem totalmente branca de Asgard e assim tornando o céu mais diversificado em composições. Num piscar de olhos aquelas aves sumiram velozes. Velozes como uma força sobrenatural a qual ninguém podia acompanhar com os olhos, apenas perdê-la e se deixar iludir achando que aquilo não passara de uma visão causada pela loucura.
Uma estranha loucura movida pela fé em um deus silencioso.
Com toda aquela visão tão passageira, tudo que restou em Asgard era agora os comentários. Aldebaran e seus companheiros entraram de cabeça nesta mesma onda sinérgica que nunca antes haviam procurado, pois eram mais movidos por certezas do que pelas duvidas de fato. Isso geraria frutos, evidentemente. Frutos aos quais todos eles deveriam colher na busca incessante pelas respostas que aquele momento havia deixado, mesmo que implicitamente.
O resto daquela oração, pois esta continuou com mais firmeza após o "incidente", fora toda tomada pelo mais devoto sentimento de felicidade e também de questionamentos. Pois, não só os asgardianos tiveram a certeza que não estavam definitivamente sós naquele reino... os cavaleiros haviam sido tocados pela segunda vez por uma verdade óbvia. Verdade essa que o taurino preferia antes sentir como sendo remota.
Odin não era uma ilusão longínqua. Era uma realidade bastante próxima...
... e Ele parecia os vigiar...
...
Os cabelos grossos esvoaçavam diante do vento cortante que apenas poupava a face daquela amazona, coberta por uma inexpressiva máscara, algo que ela jamais abandonava, não importava as alterações nos pensamentos de quase todas as mulheres que lutavam por Athena. Para Shina aquele acessório era um utensílio indispensável, uma maneira de se sentir igual em um meio onde o sexo masculino era ainda a grande maioria.
Os velhos costumes dificilmente a abandonavam.
Ela não gostava nada de Asgard, tinha na verdade lembranças bastante desagradáveis daquele lugar inóspito que já havia se voltado contra a força de Athena no passado, o que obviamente a amazona não esqueceria com a mesma facilidade que outros tantos fizeram tão rapidamente. Shina podia dizer claramente que não apreciava a ideia de receber ajuda de antigos inimigos, mas ninguém se importaria com sua opinião já que a culpa pela maldade de Hilda no passado recaíra completamente sobre o amaldiçoado Anel do Nibelungo, pelo qual até mesmo Odin se sentira tentado nas eras mitológicas.
Para a amazona o fato do objeto ter sido destruído por Seiya não importava muita coisa. Sabia, em seu íntimo, que Asgard ainda não era um local tão seguro quanto todos pareciam crer em suas profundas ignorâncias. Aquilo que acontecia agora, a notícia que chegara até ela sobre a volta dos Cavaleiros de Ouro, a deixara mil vezes mais com o pé atrás a respeito desta simples questão que a intrigava desde que a ajuda surgira.
O que viria em breve?
Por aqueles dias, Shina havia ouvido notícias de que não havia dedo de Athena na volta daqueles guerreiros e muito menos de algum deus grego, já que por 1 ano Saori havia sido completamente contra o castigo imposto pelo panteão do Olimpo, sem sucesso algum no entanto em reverter aquela situação. Tudo que a deusa havia recebido como resposta quando lutara pelos próprios santos de sua elite era que o castigo dos Cavaleiros de Ouro não seria mudado, pois Zeus achava que cada deus era responsável pelo destino dos próprios homens enquanto os demais deuses acreditavam que cada cavaleiro deveria pagar eternamente pela própria ousadia de afrontar um poder superior.
Era certo que Shina achava de extrema covardia um castigo como esse que foi atribuído a todos os dourados, pois sabia o quanto muito daqueles homens tinham mostrado um valor inestimável ao proteger a humanidade do mal causado pelas mesmas figuras que deveriam amparar os mortais... no entanto, seria justa a volta de cada guerreiro enquanto tantos outros homens morriam e jamais teriam suas vidas de volta? Queria a amazona saber e entender o que seria exigido em troca por tanta generosidade concedida a Athena. Algo seria, sem sombras de dúvidas.
Deuses eram figuras cheias de intenções...
A Amazona de Cobra estava distraída, tão envolta em seus pensamentos carregados de duvidas e revoltas, que mal reparou quando adentrara no imenso palácio Valhalla, já conhecido por ela. Este era de uma arquitetura um tanto quanto simplória, o que tornava o ambiente muito triste, sem a glória que ela via antigamente na Grécia a cada vez que adentrava pela imensidão do templo do Grande Mestre, sempre bonito, vivo e até mesmo luxuoso. Os corredores do palácio asgardiano eram longuíssimos, gélidos e com poucos adereços que tornassem o local mais aconchegante ou até mesmo agradável ao olhar. Na verdade, tudo ali causava a impressão de um profundo vazio, o que era compreensível quando grande parte da população do reino passava por épocas de duras privações durante algumas estações do ano agressivas.
– Mas vejam só quem retorna a essas terras detestáveis!- surgiu uma voz grossa que dissera a última palavra em um tom completamente irônico, como se buscasse retratar um pensamento oculto da própria amazona o que, realmente, não deixava de ser verdade.
Shina não precisou procurar pelo autor da frase para saber quem era. O conhecia pouco mas o suficiente para saber que ele era alguém de extrema força e arrogância e, embora o considerasse alguém de presença bastante obscura, a lembrança que a amazona sempre tinha dele era de quando o vira carregando o irmão nos braços, arrependido por todo ódio que havia destinado aquele que carregava o próprio sangue. Naquele dia, por alguma razão, a amazona havia o admirado diante daquela ação, por mais que se negasse a assumir.
– Bado de Alcor.- disse ela sem se virar, parando no caminho automaticamente, como se esperasse as próximas palavras que viriam por parte do asgardiano. Sabia que elas viriam.
– Pensei que não a veria tão cedo, Rainha das Cobras[11].
Shina odiava aquele "apelido" que já tinha ouvido antes por parte dele, pois aquilo transmitia toda a ironia e prepotência presentes na personalidade do guerreiro deus. Mesmo assim ela acabou sorrindo com certo deboche por baixo da máscara por alguma razão. Justamente ele que a subestimara em luta por Shina ser uma mulher estava ali novamente, buscando algum tipo de aproximação a qual ela queria destruir o mais rápido possível, pois a ideia de tê-lo por perto era absolutamente desagradável.
– E não veria se eu não tivesse assuntos pendentes por aqui.
Bado deu um leve sorriso de canto ao ouvir aquela resposta. Sabia que ninguém era louco o suficiente para trocar o calor da Grécia pelo frio cortante de Asgard, o que não seria diferente com aquela amazona de estranho sangue quente. Todos os dias ele ouvia aprendizes e guerreiros de Athena reclamando daquela condição climática tão debilitante na qual eles se encontravam agora por tanto tempo.
– Shun me disse que você tem feito de tudo para não pisar por aqui. – comentou Bado em tom sarcasticamente ofendido – Não está preocupada com o destino de sua deusa em Asgard?
Oculta pela máscara, a amazona de cobra arregalou os olhos esverdeados com aquele comentário. Não só pela fúria que sentiu pela repreensão que recebera descaradamente por parte dele, um antigo inimigo que lhe mostrara claramente que ela foi negligente por puro egoísmo... ela também se sentiu estranha pois percebeu que ele estava a investigando por alguma razão. O que quer que fosse havia a deixado bastante inquieta.
– Shun deveria cuidar da vida dele e você parar de bancar um bom exemplo. Se intrometa em assuntos que dizem respeito a Asgard, guerreiro deus de Alcor.- respondeu ela secamente, voltando a caminhar irritada, buscando ignorar a presença daquele homem.
Ele riu por instantes, a fazendo estreitar os olhos por tanta ironia. Ela odiava isso.
– Não dizem mesmo, Shina?- retrucou ele em um tom sério, mas ainda provocativo, sem se mover de onde estava – Devo te lembrar mais uma vez que o Santuário inteiro está estabelecido nas terras do deus Odin? Talvez o que faz ou deixar de fazer seja de meu interesse também, amazona. Sua proteção é agora a minha responsabilidade.
A fúria que Shina sentiu por aquele comentário absurdo, porém causado por uma escolha de Athena a qual a amazona desaprovava, fez com que ela ficasse completamente impaciente e se virasse na direção daquele homem desagradável sem pensar duas vezes, desejando lhe atirar milhões de ofensas, tamanho seu orgulho ferido por ele a tratá-la como negligente e indefesa.
Porém, antes de terminar o que iria de fato falar, tudo que a amazona presenciou era apenas o imenso vazio no corredor longo do palácio. Nada, absolutamente nada estava ali naquele instante. Era como se estivesse estado sozinha todo aquele tempo e tivesse tido algum tipo de ilusão ridícula.
Bado, tal como já lhe era natural, havia sumido velozmente a deixando ali, no completo vácuo. Ele fazia isso muito bem, ela tinha assumir... era quase impossível saber se o guerreiro deus ainda estava ali, oculto nas sombras como já era peculiar dele, ou se havia ido embora mesmo, como tudo parecia indicar.
Shina se viu fechando o punho com raiva por aquela brincadeira estúpida, enquanto passos que surgiam agora pelo corredor fizeram com que ela mudasse de foco imediatamente, ainda sentindo a face queimar pela raiva que a tomou devido o que havia acabado de acontecer. Ela se sentia uma completa idiota.
Ao começar a se atentar aos passos que ecoavam, Shina pensou nos primeiros instantes que se veria cara a cara com a figura prepotente de Bado surgindo pelo corredor, pois o andar altivo parecia predominar em cada avançar de quem se aproximava. No entanto, tamanha foi a surpresa dela ao se ver diante da cópia fiel do rosto que esperava ver.
– Shina de Cobra?- perguntou o rapaz que surgia com clareza na vista dela, se curvando gentilmente a uma certa distância da amazona, de maneira bastante respeitosa como sua posição nobre o mandava fazer.
– Sim.
– Deve se lembrar de mim. Sou Shido de Mizar. – respondeu ele com um sorriso gentil, completamente diferente daquele que a amazona se recordava brotando no rosto de Bado diversas vezes enquanto lutara com o asgardiano no passado – Hilda me informou que você chegaria ainda hoje e pediu para que a acompanhasse até seus aposentos.
– Vim conversar com Athena, não ficar presa neste palácio.
A surpresa no rosto do guerreiro deus por aquela reação imediata da amazona foi facilmente notada por Shina, que segurou um riso prazeroso com aquilo. Adorava causar aquele desconforto repentino em homens de posições elevadas.
– Estou ciente. – respondeu Shido com firmeza, mantendo a compostura – No entanto, Athena está neste instante em conversa com Shion...
– Shion? – interrompeu ela surpresa, se lembrando do Grande Mestre – Não sabia que ele tinha retornado. Soube apenas de Aiolia, Aiolos, Aldebaran, Máscara da Morte, Dohko, Mu e Camus.
– Encontraram antes de ontem Shaka, Shion e Afrodite. Hoje pela manhã Shura e ainda há pouco Milo.
A amazona ficou pensativa por alguns instantes, digerindo aqueles nomes conhecidos por qualquer um que lutara no Santuário. Sabia, no entanto, que faltava dois deles entre todos aqueles que carregavam a honra de serem considerados os mais fortes . E esses foram justamente os mais impactantes a vida de todos no passado.
– Saga e Kanon? – perguntou ela.
– Nenhum deles foi visto por enquanto.
Não que quisesse rever os gêmeos, muito pelo contrário, Shina apenas temia que quem é que estivesse por trás da volta dos cavaleiros tivesse um interesse em especial naqueles dois homens de força sobre-humana. Isso podia ser um péssimo sinal, obviamente, e por isso precisava saber mais.
– Diga-me Shido: o que você sabe sobre essas voltas? – disparou.
O guerreiro deus logo entendeu a que ponto a amazona queria chegar. Bem, era verdade que Bado já havia o alertado que a Rainha das Cobras era com certeza alguém de personalidade forte, sem rodeiro algum, e por isso Shido não teve muito dificuldade em entrar naquele jogo onde era constantemente atacado. Ela não seria a primeira e muito menos a última a fazer aquilo, já que tudo indicava que Odin era quem trouxera todos os cavaleiros de volta a vida e portanto o alvoroço dos guerreiros de Athena fosse constante.
– Sei tanto quanto você, Shina.
– Hum, não é possível que um guerreiro deus seja tão ignorante sobre o que se passa na terra que protege. – ironizou a amazona, buscando arrancar alguma resposta do asgardiano com aquilo – Hilda com certeza te contou alguma coisa importante...
Shido suspirou e sorriu para a amazona, cordialmente.
– Shina, queira me perdoar realmente, mas muitos assuntos da senhorita Hilda são exclusivos ao conhecimento dela. Tudo que eu faço é cumprir ordens, assim como você. – respondeu o asgardiano de forma educada – Além disso, tenho certeza que se Hilda sabe de algo, Athena já está devidamente informada. Não há segredos em nossa aliança.
– É mesmo? Então diga ao seu irmão para parar de brincar de assombração, pois tenho certeza que um aliado não precisa se manter espreitando pelos cantos tão cheio de "segredos". – ironizou a amazona – Vejo isso como um mal sinal, Shido de Mizar.
Era a primeira vez que o guerreiro deus ficava sem palavras, afinal, aquela fala se referia a alguém que amava de todo coração. Sabia que aquilo que Shina havia acabado de dizer era realmente uma falsa impressão, porém, se estivesse na posição da amazona teria sentido a mesma coisa. Não tirava a razão dela.
Bado continuava se ocultando, como nos velhos tempos antes da chegada do anel amaldiçoado. Com certeza aquele comportamento seria mal interpretado pelos aliados do Santuário, enquanto, na verdade, tudo não passava de um costume solitário do irmão, que via nas sombras toda uma vida a qual dificilmente se desapegava.
– Diga-me guerreiro deus: Onde posso encontrar minha deusa Athena?
Shido estava derrotado e sabia que não havia mais o que fazer para enrolar a amazona. Shina era uma forte aliada.
– Acompanhe-me. – disse ele com gentileza, lançando em seguida um olhar de relance na direção onde o irmão mantinha-se oculto, em completo silêncio, como se não estivesse ali.
"Espero que considere o que ela disse sobre este seu costume. A impressão que passa é negativa para Asgard." ,disse Shido pelo cosmo.
"Assim como é verdade que você não é tão ignorante a respeito do que está acontecendo, meu irmão. Precisa descobrir quem é aquela mulher que conheceu dias atrás e não se deixar levar pelas ilusões românticas de um homem qualquer. Ela tem mais respostas do que seu pau pode imaginar.", disparou Bado sumindo de verdade logo em seguida e deixando um Shido incomodado a caminhar pelos longos corredores do palácio.
...
Como a última encarnação em corpo humano ela o conhecia pessoalmente muito pouco, era verdade, mas como deusa, fitando aqueles olhos violeta tão estranhamente conhecidos, Athena conseguia mergulhar em longas décadas de reconhecimento, onde o teve como o mais forte aliado ao seu lado.
Aquele homem de expressão serena era Shion de Áries ou melhor dizendo, o Grande Mestre, e a ele seria sempre grata. Uma gratidão que nenhuma palavra seria capaz de expressar dignamente.
Com uma força tremenda na posição de líder, Shion sempre era capaz de mostrar porque era considerado uma lenda no Santuário, fama esta construíra por anos e mais anos de grande sabedoria. Ele não só fora um dos poucos sobreviventes da Guerra Santa de 1741, como após isso também ordenara a reconstrução do Santuário e atuara nela fixamente, criando toda a estrutura conhecida até então, carregada de todos os padrões tradicionais do patriarca.
Athena o admirava e escutava sempre o que ele tinha a dizer, pois sabia que aquele homem era um conforto do qual precisava. Podia ver na expressão do lemuriano que, apesar dele ainda sofrer os terrores do passado aos quais lhe eram profundamente dolorosos como a muitos cavaleiros, ele ainda tinha toda a força que precisava para não cair em desespero. Uma coisa que só a experiência e a maturidade eram capazes de providenciar.
– Fico feliz que tenha vindo até mim, Shion. – disse Athena, vendo que o cavaleiro de face extremamente jovem se sentava em uma poltrona após um indicativo dela para tal – Pensamos exatamente a mesma coisa, pois ia naquele mesmo momento pedir para que o chamassem para lhe perguntar se tem obtido algum sucesso nas suas investigações.
– Agradeço sua atenção, Athena. – respondeu o ariano respeitosamente – Sobre a questão, afirmo que tudo que tenho são ainda hipóteses.
– Então ainda não sabemos quem é o harpista?
– Não. Mas assim como Dohko de Libra também carrego a certeza de que ele não era Odin.
Athena suspirou com aquele comentário, embora também sentisse aquilo como uma verdade inegável. Tal como Shion, Dohko e Hilda, a deusa notava cada vez mais que o condutor da música que cada cavaleiro comentara com encantamento não era o deus Asgard, embora todos desconfiassem que ele estivesse indiretamente relacionado com a questão do retorno de cada homem, pois apenas alguém com poder sobre a vida e morte seria capaz de dar um corpo mortal a um humano. Odin sempre fora capaz, o que havia mostrado com mais realidade quando cada um de seus guerreiros deuses voltara a pisar naquelas antigas terras frias na Islândia.
Então quem de fato esteve presente naquele momento que todos relatavam como "o despertar de um cavaleiro"? Aquela dúvida não era de verdade a única questão que Athena se preocupava em solucionar rapidamente. Havia outras de igual importância que pareciam quase sem solução, o que a deixava transtornada em toda sua sabedoria divina.
Ela se sentia mal com toda aquela falta de respostas. E uma, talvez a principal, relacionada à vida de seus homens a intrigava mais do que tudo...
– E quanto a Saga e Kanon? Teve alguma informação sobre eles na vila que percorreu essa manhã, Shion? – perguntou, com esperanças de ouvir que algo estava a salvo, mesmo longe de suas mãos.
– Nenhuma, Athena. Ninguém reconhece a descrição dos dois.
E com aquela resposta recebida, tão terrivelmente antagônica àquilo que desejava, a menina-deusa sentira que continuava a falhar em sua missão. Um grande vazio a permeou no silêncio daquele momento, tornando-a, por alguma razão, incompleta, pois sentia que não conseguia alcançar até mesmo seus próprios cavaleiros.
Em seu íntimo, Athena não podia acreditar que Saga e Kanon estavam realmente mortos, como todos insistiam em dizer, como se aquilo fosse uma forma de puni-los por todos os erros que haviam cometido. Para a deusa era visível que havia algo mais na ausência de ambos, não um detalhe de morte, mas sim uma distância impenetrável. Era este detalhe que sentia que fez com que o sentimento de incapacidade dela fosse imenso e doloroso naquele instante, pois ela era responsável pelos gêmeos, carregando assim o peso de não toca-los com sua força divina quando eles precisavam.
– Sinto que um dos dois já despertou aqui na terra, mas sou incapaz de alcança-lo com meu cosmo. – comentou a deusa, no mesmo momento que acabara sendo interrompida, pois Shina de Cobra adentrara na sala com rapidez, fazendo uma grande reverência às duas figuras superiores que ali se encontravam.
– Athena. Grande Mestre. – disse respeitosamente a amazona, que abaixara a cabeça e só a levantaria quando enfim alguém que lhe dirigisse alguma palavra.
O desconforto causado por aquela interrupção abrupta foi visível no semblante do Grande Mestre, que olhava para Shina com um olhar recriminador pela atitude desrespeitosa dela ao adentrar na sala sem solicitação prévia. No entanto, Shion calou-se onde estava, pois aquele momento seria do julgamento da deusa e não o dele. Perto de Athena ele era apenas um servo a respeitar, embora soubesse que tinha ainda a liderança que ela havia o entregado em toda confiança.
– Shina. – disse Saori sorrindo para a amazona e indicando que se aproximasse. – Fico feliz que tenha ouvido aos meus chamados e voltado à Asgard.
A amazona se ergueu de onde estava, caminhando com seu andar pesado, carregado de sua arrogância e prepotência tão típicas. Mesmo cheia dos defeitos de superioridade, ela era de grande lealdade para com o Santuário e por isso Athena a admirava. Nutria imensa gratidão pela jovem.
– Vim imediatamente, Athena, como me foi solicitado. Porém, as notícias não são boas...- comentou a amazona – Estamos com muitos problemas pela Grécia. As obras do Santuário tem andado em ritmo muito lento e a Vila Rodório está pouco protegida depois de ter sido reconstruída com a ajuda de Julian Solo. As amazonas e cavaleiros responsáveis pelos territórios gregos nessa estação estão tendo trabalho em acalmar os ânimos, pois os habitantes da vila se sentem inseguros, já que os rumores vindos de Asgard chegaram finalmente até lá.
– Como chegaram?
– Provavelmente através de algum cavaleiro que bebeu um pouco a mais e acabou abrindo a boca.
Athena deu um sorriso simples em relação aquele assunto, bastante humano, enquanto Shion parecesse entristecido com a notícia tão desagradável. Já não se faziam cavaleiros como antigamente...
– Agradecemos pelas informações, Shina. – disse Athena – Saiba que eu e o Grande Mestre já estamos tomando as devidas providências sobre esse assunto, pois recebemos ainda ontem os relatórios de algumas amazonas que por lá estão. Todos estão inseguros.
– Sim. A falta de sua presença e de todo Santuário deixa todos preocupados com o futuro.
– Pois não temam isso! Estamos longe em presença, mas jamais abandonamos aquele local. – comentou a deusa. – Nossos corações e responsabilidade lá ainda residem.
Shina concordou em silêncio, aguardando com certa impaciência a chegada do assunto que de fato a levou até ali. Sabia que havia algo e aguardava com ansiedade, pois sair do Santuário não era agradável naquela época. Ela não conseguia gostar de Asgard.
– Bem, eu a chamei por uma razão. – disse Athena diretamente, vendo que sua amazona não queria mais rodeios– Alguns dos cavaleiros envolvidos em uma missão de busca estão deixando Asgard nesta época. Portanto irei precisar que, com sua perspicácia, busque mais informações em todas as vilas sobre qualquer tipo de atividade diferente. Movimentos, pessoas, fenômenos... todo esse tipo de coisa deve ser considerada. Se desejar, indique mais algumas amazonas para ajuda-la, se assim precisar.
Athena e Shina olharam naquele instante para Shion, que parecia bastante calmo com a notícia, afinal, sabia que seria substituído quando fosse voltar para tomar as rédeas da construção do Santuário. Essa era a missão dele mais uma vez.
– Agradeço a confiança depositada em mim. – disse enfim a amazona, que por instantes havia ficado em completo silêncio, totalmente surpresa pela missão. Se sentia orgulhosa por ter sido escolhida para algo de suma importância, geralmente dado aos cavaleiros de posições superiores.
– Estamos passando por situações complicados, Shina. Fico feliz de tê-la ao meu lado neste momento.
Saori encarou a figura de sua amazona, coberta rigorosamente pela mesma máscara que a caracterizava. Sabia que por trás daquele objeto, Shina sorria com ternura. E realmente aquilo era uma verdade, pois o coração daquela mulher fora totalmente tomado pela sensação de gratidão por aquelas palavras sinceras, coisa que a deusa sentia que devia à ela há muito tempo.
Feliz por aquela missão recebida, a amazona de Cobra fez uma nova reverência e deixou o ambiente, sendo observada por Shion e Athena, que secretamente faziam-se perguntas interiores.
– Acha mesmo que fez a coisa certa? Shina talvez não seja a mais recomendada. Há uma fúria estranha em sua natureza.
– Meu coração diz que essa missão é para ela. – comentou Athena, vendo Shion a olhar com curiosidade, pois notara algo na voz de sua deusa – Não me pergunte o porquê.
E ambos ali ficaram por longos instantes em uma conversa sobre as responsabilidades que cada um dos dois teria em breve. Elas seriam cansativas, sabiam.
A vida continuava assim como a defesa da humanidade.
...
O céu começava a dar os primeiros sinais da escuridão bastante prolongada do inverno islandês[12] quando Hilda abrira os olhos diante da estátua de Odin, saindo de seu agradecimento silencioso, que durava mais de 1 hora. A oração já havia acabado fazia certo tempo porém ela e mais alguns asgardianos ainda permaneciam no mesmo local, encantados por aquilo que havia acontecido anteriormente durante as preces.
Era como se fossem incapazes de sair dali depois de tudo.
A presença dos corvos de Odin era ainda forte em cada mente que vira a cena, mesmo que essa tivesse sido tão passageira que causara até mesmo a sensação de um mergulho intenso em um estranho sonho do qual apenas doces recordações de um desejo pareciam ficar. No entanto, aquilo que acontecera não fora o fruto do subconsciente asgardiano... fora algo extremamente real em força! E Hilda agradecia por aquilo.
Para ela, aquelas presenças, as quais ela tinha toda o conhecimento possível para confirmar com certeza que eram os corvos Hugin e Munin, havia sido um momento único. Depois de longos meses onde o deus de Asgard se mantivera em silêncio diante de sua representante, aquele acontecimento havia sido um grande alívio para ela. Mas mais do que isso ... os corvos eram a própria mensagem de Odin, dizendo que de alguma forma estava ali, os vigiando, mesmo que Hilda não pudesse sentir agora a presença de seus deus como antes.
Por um longo tempo ela havia achado que fora rebaixada por Odin por não ser merecedora da dádiva da representação na terra, pois seus crimes cometidos eram de natureza terrível. No entanto, a sacerdotisa estranhava que mesmo sem ser tocada pela força do deus de Asgard em suas preces, o reino ainda estava firme e forte, mostrando então que algo não estava perdido como acreditava.
Porém, por mais que quisesse dizer para si mesma que nada se perdeu quando olhava ao redor e tudo estava seguro, naquela caminhada de grandes responsabilidades seu coração fora quebrado e isso erra terrível. Sua natureza humana havia sido derrubada... e a volta de Siegfried de Dubhe, representante da Estrela Alfa da Constelação de Ursa Maior, havia sido talvez a maior provação de Hilda, o que a fizera se sentir culpada, destruída e acima de tudo machucada.
De todos seus guerreiros deuses, os quais ela apreciava bastante, justamente aquele ao qual amava carregava as maiores cicatrizes do passado... pois, ao ter lutado com o general marina Sorento de Sirene, Siegfried não só perdera a própria vida para salvar Hilda, mas em um ato desesperado destruíra um dos sentidos, o qual mesmo com uma nova vida parecia ainda prejudicado. O guerreiro deus, que com a ajuda financeira de Julian Solo e do próprio Sorento havia sido submetido a uma cirurgia de reconstrução do tímpano[13], não recuperara a audição por completo e portanto escutava bem menos do que antigamente, para o desespero dela, que ao encara-lo sentia o peso das próprias ações.
"Talvez isto seja um desejo de Odin", ele sempre dizia a Hilda, que se lembrava agora de Siegfried lhe relatando que quando esteve no Salão dos Mortos[14], no mundo deÁsgarður, o próprio deus havia dito ao guerreiro que confiava a vida da própria representante na terra e ele como faria a poucos.
E com isso Hilda se sentia mais culpada e também negligente. Jamais culpava Julian Solo ou o general marina pelo que acontecera a Siegfried pois para ela, atirar a culpa aos outros era uma grande insensatez quando as próprias atitudes levaram a muitos transtornos.
Havia humildade no coração da princesa de Asgard e isso era inquestionável.
Lembrando-se imediatamente da conversa que tivera ainda naquele dia com Athena, que a confortara completamente naquela dor sentida, Hilda se virou na direção de Thor de Phecda, que ainda vigiava sua sacerdotisa como de fato deveria fazer. A asgadiana se recordou naquele instante que devia um grande favor à deusa grega e o faria naquele exato momento. Era apenas o território de VanaLand, conhecido pela estrutura mágica que o envolvia, que podia quebrar o vazio do silêncio que Odin impunha, testando a todos na terra.
– Preciso que me traga um falcão e uma folha para uma carta. – disse ela em tom sereno, notando que a expressão do guerreiro deus mudara com o citar da ave, simbólica na mitologia por estar relacionado à deusa Frøya.
– Senhora Hilda, pode ser perigoso. – alertou ele se sentido ousado, embora seu sentimento fosse devido a todo receio. – E não devo deixa-la sozinha nessa época de tantas duvidas.
– Não estou só, Thor. Odin está ao meu lado. – disse com um sorriso, vendo o guerreiro deus se envergonhar com o próprio comentário – Sei que pode ser perigoso pedirmos ajuda, porém devemos arriscar. É a nossa única opção agora.
Ele a encarou com olhar duvidoso porém acatou com a ordem sem maiores pronunciamentos afinal, acreditava que ela sabia muito melhor do que ele o que de fato estava fazendo. Assim sendo, Thor de Phecda sumiu por entre a paisagem branca, numa velocidade que Hilda sabia que o faria retornar o mais breve possível para onde ela se encontrava agora.
Seus guerreiros deuses eram bastante cuidadosos e excelentes amigos. Devia muito a eles.
Sozinha , não fosse um ou outro homem do povoado Asgard que ainda ficara ali a espera de um possível retorno dos corvos de Odin, Hilda se viu a olhar por aquele ambiente no qual estava inserida, tomada pelo sentimento de gratidão. Tudo era frio, por hora triste e também estranho, no entanto ela amava cada nuance daquele reino de todo coração. Era não só seu lar, mas aquilo que ela protegia dia-a-dia em cada oração, em cada desejo e em cada passo que dava. E a cada novo despertar do amor que ela tinha ao olhar com seus olhos azuis claros pela paisagem asgardiana, as palavras ditas por Athena sobre o vacilar de qualquer uma delas ser a escuridão de muitos homens faziam mais sentido. E também davam a sacerdotisa mais força para ela crescer e combater seus monstros de dor.
A neve começava a cair forte, mas naquele momento a fizera se sentir repleta novamente, independente do frio causado. Hilda não só tinha Odin ao seu lado, tinha também a natureza das inúmeras vontades e também a sabedoria da deusa grega, todos elementos que a fizeram sorrir como uma criança ao ver um mundo se moldar aos seus olhos.
O mundo sempre esteve ali, mas ela havia o enxergado com mais dificuldade quando se sentira fraca em seguir.
Não demorou muito para que alguém chegasse com o falcão e a carta. E, para surpresa da asgardiana, era Siegfried quem trazia ambos, vindo no lugar de Thor de Phecda.
Trajado em sua armadura que dava a ele o ar forte de um homem de Asgard, o guerreiro de Dubhe se aproximou olhando fixamente para Hilda, não só em um misto de devoção e submissão, porém de um amor que ele guardava para si pois ambos pareciam em limites diferentes no quesito distância. Não que fossem receosos em se expressar, embora o silêncio ainda persistisse, mas a asgardiana parecia muitas vezes não conseguir olha-lo sem culpa. E isso o destruía muito mais que muitas batalhas.
– Princesa Hilda. – disse ele abaixando a cabeça, não se ajoelhando em reverência pois um falcão- gerifalte[15], ave vigorosa de plumagem branca e com nuances em cor marrom, ocupava um dos braços do guerreiro.
Hilda se aproximou dele e acariciou o belo animal pousado, enquanto Siegfried ergueu a cabeça e logo dirigiu um sorriso aquela mulher que sempre lhe roubava o coração, fazendo assim com que ela o olhasse profundamente dentro dos olhos azuis cristalinos. Era sempre nesta troca intensa, quieta, porém extremamente explícita em mensagem que ficavam todas palavras ainda ocultas, mesmo que muitas vezes não precisassem de muito para saberem o que de fato acontecia.
A asgardiana sorriu para Siegfried, enquanto a neve veio mais forte como cenário romântico, caindo no rosto de Hilda e levando o guerreiro deus a erguer um dos dedos para retirar alguns flocos brancos, embora esses não tirassem em nada a beleza dela ao ficarem retidos. Era apenas o desejo de tocar naquela mulher que o movia agora, de forma irresponsável a própria posição ele diria, mas de todo coração. E os olhos dela a brilharem como se refletissem a beleza das estrelas, fazia com que o guerreiro deus soubesse que não cometia um erro. Independente de sua condição, ela também lhe tinha devoção.
– Está feliz, princesa Hilda. – ele comentou, a vendo sorrir com mais intensidade – Vejo algo se iluminar em seu rosto.
– São as descobertas de um dia... – ela respondeu em tom mais alto vendo ele se esforçar, embora conseguisse a escutar naquele instante – e também o toque da sua mão.
Hilda percebeu que havia falado baixo demais as últimas frases, pois Siegfried havia ficado com um semblante um tanto quanto decepcionado com ele mesmo. E de fato estava, pois as vezes se sentia incapaz de algo tão simples, quando devia a ela o mundo.
A sacerdotisa o encarou, desta vez evitando qualquer tipo de sentimento de pena ou culpa própria que queria vir a tona, pois sabia que já perdera muitas coisas com aquele tipo de comportamento tão depreciativo. Antes que o guerreiro deus de fato mostrasse todo incomodo da situação, ela lhe respondeu pelo cosmo.
" Você me faz feliz".
Corada como nunca antes e com as forças muito mais renovadas depois de cada lição moral daquele dia, Hilda pegou o pedaço de papel que Siegfried carregava e se pôs a escrever uma rápida carta com um pedido de ajuda para VanaLand, a qual o guerreiro deus quase nem se importou, pois havia ficado a observar os gestos da asgardiana minuciosamente. Ele a estudava mesmo querendo lhe dirigir milhões de palavras, embora deixasse que o silêncio não atrapalhasse a missão da sacerdotisa. Sua amada sacerdotisa.
Terminada as palavras que talvez salvariam Asgard do silêncio, Siegfried prendeu a mensagem fechada sob o falcão, que logo ganhou os céus com rapidez em direção ao templo da Suécia, onde muito seria decidido.
– Você também me faz feliz, princesa Hilda. Mais do que imagina. – ele respondeu a fitando com amor e recebendo um sorriso dela em troca, enquanto as mãos dela repousaram em um de seus fortes braços.
E os dois ficaram a olhar para o céu de Asgard em silêncio mais uma vez, não querendo adiantar seus passos agora, mas sim viver o momento. E este, por mais que fosse focado em algo tão simples, havia preenchido todo o vazio presente entre eles, pois, as primeiras palavras enfim haviam vindo com a naturalidade do amor.
Os medos, as penas e as culpas pareciam agora problemas muito distantes... como todo o mundo ao redor.
... Continua ...
1] Mesmo nome pois Asgard, na mitologia nórdica, é onde os deuses(mais precisamente os Aesir) moram. Neste capítulo usei a palavra equivalente em islandês ao nome Asgard( Ásgarður) para designar o mundo, mas será mais comum a referência a morada dos deuses ou mundo dos deuses, para não confundir tanto assim. [2] VanaLand foi o nome escolhido por mim para o território na terra dos seguidores dos principais deuses Vanir(Frøya, Freyr e Njord). O nome é um equivalente ao próprio Vanaheim(pois o mundo também às vezes é chamado de Vanaland), embora eu o tenha colocado pois em uma pesquisa soube que VanaLand também é citado em uma passagem da Edda como algum lugar(fictício) na Suécia. A escolha da Suécia é puramente porque Freyr era considerado o deus patrono do país, e a dinastia sueca Yngling, segundos os mitos, foi criada pelo próprio deus(portanto todos os reis daquela dinastia se consideravam descendentes de deuses). [3] Seiðr é uma magia de caráter xamânico nórdica. É relacionada a deusa Frøya e existem grandes sub-divisões dentro desta magia, que pode ser usada também para o bem quanto para o mal. Antigamente eram as mulheres as principais praticantes da magia, sendo que os homens praticantes eram considerados afeminados(e por sinal vestiam-se como mulheres na prática). As praticantes eram conhecidas como seiðkonas, spákonas(termo mais associado a práticas benéfica do que o primeiro) e também völvas(sendo esse termo mais utilizado para videntes). [4] Vanaheim, a morada dos deuses Vanir. [5] Njord é um importante deus Vanir. Seus filhos são Freyr e Frøy. [7] O mito da Guerra dos deuses não termina apenas na aliança. Assim que fizeram a aliança foi estipulado um termo de paz, onde trocassem suas forças. Nele, os Vanir mandaram o deus Njord a e junto foram os filhos dele, Frøya e Freyr . Os Aesir, com o mesmo intuito, mandaram duas figuras importantes: Hænir, que junto a Odin participou da criação dos homens; e Mimir, considerado o deus mais sábio de todos, pois sendo o guardião da Mímisbrunnr( a fonte da sabedoria) bebia da fonte e tinha um conhecimento de muitas coisas. [8] Frøya é um nome antigo utilizado para se referir a deusa Freyja. Para não causar muita confusão, usei esse termo para a deusa e o nome Fler para a irmã de Hilda de Polaris. [9] O Anel do Nibelungo, famoso na saga de Asgard em Saint Seiya, na mitologia nórdica é um anel forjado por um anão do povo dos nibelungos(um povo que na mitologia nórdica, segundo algumas pesquisas que fiz pela internet, habitava as terras gélidas de Niflheim, um dos nove mundos designados na cosmologia nórdica) chamado Andvari, que o amaldiçoou ao entregar a Loki a contragosto. [10] Jötnar( singular- jötun) são os gigantes na mitologia nórdica. [11] Tirado de quando Bado chama a Shina de Rainha das Cobras, no anime. [12] A Islândia possuía invernos com pouca luz solar. Os islandeses têm em média d horas de luz solar, enquanto o resto é a escuridão nesta estação. Em compensação em outras épocas como verão(mais precisamente no começo dele), o país é tomado pelo excesso de luminosidade, não havendo uma noite específica como no Brasil, e sim 24 horas de luz. Um fenômeno que aparece na Islândia( como em outros países) é o Sol da Meia Noite. [13] Segui a ideia que Siegfried furou apenas os tímpanos(que é vista em vários sites). Há de fato uma cirurgia de reconstrução, embora ela não tenha 100% de garantia de sucesso e portanto o guerreiro deus aqui não está totalmente surdo, mas sua audição não foi muito bem recuperada. [14] É o salão Valhöll(ou, tipicamente falando, Valhalla, mudei o nome pra não ter muita confusã) onde os guerreiros mortos que são escolhidos por Odin vão se estabelecer. Lá eles lutam, morrem, revivem e se preparam até a chegada do Ragnarök, onde os confrontos finais se darão. [15] O falcão- gerifalte é uma ave símbolo da Islândia. E mais detalhes só no próximo ;)
Os aspectos aqui utilizados da magia serão todos fantasiosos, embora tenham algum fruto de pesquisa.
[6] Há algumas versões sobre Gullveig. Talvez a mais provável é que Gullveig fosse uma amiga dos Vanir(embora muitos acreditem que ela pudesse ser uma deusa Vanir). Apenas relatei que era amiga, mas Gullveig era monstruosamente forte em sua força, inclusive tinha dons proféticos. Após ela ressuscitar três vezes, os deuses a chamaram de Heiðr, A Brilhante.
Há muita discussão em cima de Gullveig, pois alguns acreditam que ela pode ser um dos diversos aspectos da deusa Frøya enquanto outros acreditam que isso não é possível.
O final da estória termina com os deuses Vanir desconfiando da troca, pois Hænir era um deus silencioso enquanto Mimir não compartilhava de todo seu conhecimento. Com desconfianças, os Vanir deceparam a cabeça de Mimir e mandaram para Odin, que a conserva e com seus poderes rúnicos e a usa como um oráculo, se tornando assim um deus onisciente.
A adaptação mais famosa do mito vem da ópera do alemão Richard Wagner, Der Ring des Nibelungen.
Tanto nos mitos quando na adaptação, Odin se sente tentado pelo poder do anel.
