Título: Caminho do Coração


Capítulo 2 – Rompimento

Depois da curta conversa com Hermione e Gina, as crianças começaram a chegar. Alguns trazidos pelos pais e outros por locações infantis, próprias da creche, que buscavam e levavam crianças que não tinham como os pais ou responsáveis trazerem.

- Bem... – começou Hermione. – Acho que acabou a moleza.

Harry sorriu. Pronto para seu primeiro dia de trabalho.

- Fique com as crianças de três anos Harry – Remus o indicou, enquanto deixava seu filho a seu lado. – É a turminha do Léo.

- Certo – concordou.

Mas olhando todas aquelas cabecinhas, era meio difícil saber qual era a turma dos três anos. Olhou meio perdido para Gina, e ela, solícita, veio em seu socorro.

- Tome – entregou-lhe uma listinha. – Estão os nomes dos alunos. É só chamar que eles virão até você.

- E não tem aqueles arteiros? Tipo... Que não obedecem ou simplesmente te ignoram?

Gina riu. – Tem sim, mas na entrada, eles sempre obedecem, ou tem que encarar Sírius no final. E Sírius às vezes é bem assustador.

- Entendi – Harry olhou para a lista.

Começou a chamar pelos nomes, e uma fila de pentelhos medindo não mais que seu joelho, se formou em sua frente, em ordem de tamanho.

Quando todos estavam ali, Harry deu uma boa olhada nas carinhas a sua frente, mas para seu espanto, todos os pequenos se lançaram em sua direção, querendo se agarrar em suas pernas, subir no colo ou ser mimado. Gritaria e berros começaram a tomar conta da sala.

- Céus! – apelou Harry, sem saber como controlar os pequenos alvoroçados.

- Não! É meu papai! – berrou Léo mais alto do que os outros enquanto se pendurava na camisa de Harry e tentava chutar o que estava mais perto.

- Crianças! – Sírius se fez presente, falando alto e firme.

Os pequenos pararam e novamente voltaram a fazer fila em ordem de tamanho. Harry estava corado, olhando a cara de Hermione, que ria como nunca da situação, e Gina, muito pasma sem saber se ria ou se preocupava pelo estranho comportamento das crianças. Elas nunca agiram dessa forma, e isso era meio assustador.

- Sinto muito... Acho que não levo jeito para lidar com crianças – se lamentou, encolhendo os ombros e suspirando.

- Que nada Harry! Muito pelo contrário. As crianças sentem quem gostam delas, acho que você passou uma boa sensação pra elas – Remus consolou o afilhado.

- Ou talvez elas perceberam que Harry é mole e de coração grande, e pensaram 'um ótimo panaca pra nos mimar'! – debochou Sírius.

- Padfoot! – Remus o repreendeu enquanto Harry corava ainda mais.

- Eu acho que sei o motivo – interveio Hermione, apontando com a cabeça, para o garotinho ciumento que estava abraçado à perna esquerda de Harry.

- Oh! – fizeram os três, olhando para a cabecinha de negros cabelos revoltos.

- Sim Harry, aqui, você não poderá dar privilégios ao seu filho, acho que vendo ele agarrado em você, as outras crianças acharam que também podiam – Remus balançou a cabeça e estendeu a mão para o menino. – Venha Léo, vamos para a fila.

- Não! – fez beicinho e sacudiu veemente a cabeça. – Quero ficar com o papai.

- Filho, faz o que o tio Remus está pedindo. Papai está trabalhando e não pode te dar mais atenção que aos outros. – pediu suavemente.

Léo emburrou e bateu o pezinho no chão, cruzou os braçinhos e caminhou até a fila, ficando em primeiro. Isso fez Remus erguer as sobrancelhas e ver, pela primeira vez, algo familiar no rostinho delicado e no olhar cintilante, obscurecido pela raiva e pelo ciúme. E não era familiar em relação a Harry.

- Obrigado – Harry o despertou. – Irei levá-los até a sala dos brinquedos.

- Certo, se precisar, pode nos chamar – Sírius garantiu.

Harry concordou com a cabeça e estendeu a mão para seu filho, incrivelmente o mais baixo da turma. Léo segurou em seus dois dedos e o trenzinho seguiu rumo ao quarto dos brinquedos.

- O que foi amor? – sussurrou Sírius, ao ouvido de Remus, que ainda olhava para o garotinho de Harry.

- Não sei... – pensou por um momento. – Você sabe porque Finnigan está meio distante de Harry?

- Não faço a menor idéia.

- Pois eu tenho uma hipótese... Mas deixa isso de lado por enquanto, antes, irei encostar seu afilhado contra a parede e saber de certos detalhes.

Sírius até teve um calafrio, quando Lupin dava de encucar com algo, era batata na certa. Só queria saber sobre o quê, afinal de contas.


Harry conseguiu manter a calma e a euforia das crianças, os vendo brincar e às vezes participando de uma ou outra brincadeira em grupo, para incentivar e estimular a criatividade deles.

Escondeu alguns bichinhos de pelúcia, em lugares quase visíveis, claro. – Vamos procurar os bichinhos? – incentivou divertido. – Onde será que foram se esconder? Quem encontrar algum, traz pra mim.

As crianças sorriram animadas e se espalharam pela sala. Harry sorriu consigo mesmo, feliz por estar fazendo um bom trabalho. Mas algo lhe chamou a atenção. Léo estava sentado e emburrado. Olhava pra ele com um bico enorme.

Suspirando, pois já devia saber a reação do filho, se engatinhou até onde o baixinho estava.

- O que foi Léo? Não quer brincar? – acariciou a cabecinha do garoto.

- Por que papai tem que brincar com eles? – disse soluçando, os olhinhos injuriados.

- Porque os papais deles não podem brincar com eles... Eles ficam sozinhos – sussurrou bem baixo, para as outras crianças não ouvirem. – Isso não é triste?

Léo fez que sim com a cabeça, passando as palmas das mãos nos olhos lacrimosos.

- Por isso papai está brincando com eles, pra eles não ficarem sozinhos – Léo o olhou nos olhos e sorriu concordando, o que fez Harry sorrir aliviado. – Agora, não vai brincar?

Léo abriu um largo sorriso, como quem esconde uma arte. Harry ergueu uma sobrancelha, desconfiado. Então, seu filho se levantou e foi direto ao puff vermelho, pegando de trás dele uma girafa que Harry tinha escondido. Voltou abraçado o bichinho e o estendeu para ele, o peito inchado de orgulho, pois foi o primeiro a achar.

- Danadinho – Harry brincou, fazendo cócegas no garoto.

Se lembrou de uma vez que o menino pegara a varinha de Finnigan e brincando, a quebrou em duas partes. Na época, não sabia como seu filho tinha encontrado a varinha, mas agora teve certeza. Léo era esperto e vivia espiando onde Seamus escondia as coisas para ele não pegar para brincar e acabar estragando, por isso sempre acabava milagrosamente com as mãozinhas em coisas que não podia mexer.

Uma das meninas se aproximou com outro bichinho, um urso e deu a ele, recebendo um monte de cócegas também. Depois foram os outros, um por um, sem dar preferência para ninguém.

Na hora do almoço, chamou a turminha e seguiu com o trenzinho até o pátio, os acomodando numa das mesas e os prendendo nas cadeirinhas para não caírem. Quando todos estavam sentadinhos, foi até a cozinha, buscar a comida, qual não foi a surpresa de ver ali, cozinhando, Vincent Crable.

- Olá Potter – cumprimentou educadamente, para mais espanto de Harry.

- Oi Crable... Não imaginava que te encontraria aqui.

- Senhor Black e Senhor Lupin me deram esse emprego, como eu não tinha como conseguir outro... – o mais incrível era que ele estava comunicativo.

- Oh! – Harry não sabia o que dizer, mas sabia como seus padrinhos tinham um coração grande. – E Goyle? – tentou puxar assunto e se socializar com o ex-sonserino, enquanto esperava os pratinhos das crianças.

- Morreu na guerra... – Crable deu de ombros.

Harry ficou ainda mais chocado. – Sinto muito... Eu não sabia...

Realmente não sabia de muita coisa, foi uma guerra horrível para todos, tiveram perdas estrondosas, mas não chegou a saber quem se foram. Os únicos que soube que estavam vivos foram os melhores amigos, os padrinhos, fora a surpresa de saber que Sírius não havia perecido no Véu por completo. E soube da morte de Percy Weasley e Padma Patil, fora os pais de Hermione e de Dean. Dos que não tinha contato na Grifinória, não chegou a saber, logo, foi isolado por um ano, para se recuperar dos ferimentos, só recebendo a visita de Seamus e Sírius, que não lhe diziam muito sobre as conseqüências da guerra. Então, tivera de viajar para outros países, o que o fez se afastar ainda mais dos que restaram.

- E quanto ao... – Harry pensou melhor e balançou a cabeça, não, melhor não saber nada sobre ele.

- Draco Malfoy? – Crable o encarou sem expressão, enquanto lhe entregava a bandeja cheia de pratinhos.

- Bem... Sim... – ficou sem graça, era estranho perguntar sobre um rival. Não soube direito se o sonserino tinha aderido ao lado das Trevas ou da Ordem, estava ocupado demais em não morrer e matar Voldemort e salvar os amigos, mas ficou um pouco curioso em saber.

- Casou-se... Os pais morreram e ele cuida da fortuna da família. A gente ainda se fala às vezes, quando dá.

- Então ele está vivo... – Harry sorriu. – Foi bom conversar com você... Crable.

- Igualmente – e o grandalhão voltou a seus afazeres.


No fim do dia, quando as últimas crianças foram embora, Harry se juntou aos amigos, na grande sala. Sentou-se cuidadosamente num dos puffs, para não acordar Léo, adormecido em seu colo.

Notou que no meio da sala, deitados sobre uma coberta fofinha, estavam seis crianças dormindo. A maioria entre quatro e cinco anos. Quatro meninas e dois meninos.

- São nossos filhos... – Remus esclareceu, percebendo a pergunta que Harry queria fazer.

Harry piscou algumas vezes, surpreso. – De vocês?

- Sim – Sírius riu da cara do afilhado. – Adotamos... São órfãos da guerra.

Um grande e amoroso sorriso se formou nos lábios de Harry. Amava aqueles dois, pois eles eram tudo de bom nesse mundo. Não só pra ele, mas para todos que os conheciam melhor.

- Vocês realmente são os melhores.

- Só seguimos nossos corações Harry... – Lupin sorriu suavemente, mas ficou sério de repente. – Mudando de assunto, poderia nos dizer o que está acontecendo entre você e Seamus?

Harry ficou pálido, não esperava uma direta dessas.

- Por que? – Hermione se meteu na conversa, esquecendo dos três filhos, que aproveitando a deixa, passaram a detonar seu livro novo de medicina, riscando com caneta e amassando as páginas para fazerem dobraduras. – Vocês estão passando por momentos difíceis Harry?

- Na... Bem... – era constrangedor ter todos o fitando especulativamente.

Nessa hora, para alívio de Harry, o sininho da porta tocou anunciando que alguém chegara. Todos olharam para ver Ronald Weasley adentrando na sala. Ainda estava alto, talvez um pouco mais alto do que Harry se lembrava, o cabelo curto, arrepiado e bem vermelho.

Rony estancou no lugar com cara de assombro, o que levou a todos os presentes rirem, depois mudou para uma careta, torcendo o nariz em reprovação, para por fim, abrir um grande sorriso.

- Harry? – pestanejou, sem acreditar.

- Olá Rony... – disse num sorriso. – Estava com saudades!

- Eu também! – Rony se aproximou e abraçou o amigo dando tapinhas nas costas, tomando cuidado para não acordar o garotinho que dormia nos braços de Harry. – Quem é esse?

- Leonard... Meu filho – respondeu olhando para o pequeno, passando um polegar na bochecha redonda do filho.

- Ele é tão lindinho! – Gina suspirou, ainda encantada desde que soube, seguida por uma risadinha de Hermione, que também se apaixonara pelo garotinho de Harry.

- É uma graça Harry, parabéns! – Rony disse com sinceridade.

- Os seus também são.

Ao lembrar dos trigêmeos, todos prestaram atenção nos três foguinhos que rasgavam algumas páginas do livro. Nessa hora, Hermione soltou um rosnado e encarou os três pentelhos de cenho carregado.

- John, Jonny e Johnan! Vocês vão pra casa direto de castigo! – e segurando o braço dos três, para que não fugissem, saiu batendo o pé e chamando Rony. – Vamos Ronald! Seus filhos estão terríveis hoje!

- Tchau tio Harry! – gritaram em coro os pentelhos, mostrando três sorrisos idênticos, de orelha a orelha.

Harry e os padrinhos caíram na risada, enquanto Rony encolheu os ombros suspirando e se despedindo de todos, passando a caminhar desanimado atrás de Hermione e sendo imitado por uma sorridente Gina.

- Passa lá em casa Harry, estão todos sentindo sua falta – o ruivo convidou já da porta, antes de desaparecer atrás de sua esposa furiosa.

- Bem... Acho que já vou indo também – Harry sorriu aos padrinhos.

- Mas não pense que deixarei por isso... – Remus o encarou nos olhos, mostrando que levaria aquela conversa a fundo.

- OK! Vocês são como meus pais. Não poderei me livrar desse assunto certo? – disse desanimado, já alcançando a porta.

- Absolutamente certo! – mas para não manter esse ambiente desagradável, Lupin sorriu amorosamente. – Só quero sua felicidade Harry. Sírius e eu só desejamos que seja feliz.

- Eu sei...

Harry retribuiu o sorriso, afinal, nunca contestaria o amor que esses dois grandes homens possuíam no peito. Tanto, que para recompensar tanto sofrimento, abriram uma creche, adotaram seis crianças que nunca tinham visto na vida, deram emprego a Crable, a Hermione, a Gina e acima de tudo, o procuraram para saber como estava. Só tinha que se orgulhar deles.


Em casa, Harry tratou de colocar o filho na cama, tirando os sapatinhos e a blusa de frio, para que dormisse confortavelmente. Olhou as horas e eram quase nove da noite. Acariciou mais uma vez os cabelos de Léo e deu-lhe um beijo na testa, cobrindo-o e apagando as luzes e se retirando com cuidado, para não acorda-lo.

Quando desceu as escadas até a cozinha, encontrou Finnigan encostado no balcão que outrora colocara as compras.

- Boa noite... Como foi o treino? – Harry sorriu, chegando mais perto e lhe selando um beijo.

- O de sempre... – Seamus deu de ombros, mas o olhava desconfiado. – Onde esteve?

- Você nem imagina – Harry riu enquanto preparava algo para comerem. – Sírius e Remus vieram aqui e me propuseram um emprego.

- Que bom! – sorriu pela felicidade do outro. – Então, você vai trabalhar aonde?

- Eles abriram uma creche, posso trabalhar sem ficar longe do Léo – comentou ainda sorrindo, enquanto enchia um copo com suco de abóbora. – Eu estava cansado de ficar parado.

- Mas você poderia ter continuado como Auror, ninguém te impediu de seu serviço.

- E largar Léo? Novinho desse jeito? Oh não! Preferi assim, deixar de ser Auror.

- Deixasse com uma babá, sei lá...

Harry o encarou nos olhos, não gostando nada do modo como Seamus falava, mas ficou calado, mantendo um tenso silêncio. Não responderia algo tão seco como o que acabara de ouvir. Virou de costa e continuou com o que estava fazendo.

Percebendo, Seamus se aproximou e o tocou no rosto. – Ei, eu estou feliz que tenha um serviço.

- Eu sei... – Harry comentou, se desvencilhando do toque.

- Qual o problema Harry? – ficou irritado.

- Qual o seu problema Finnigan? – retorquiu o encarando com raiva. – Por que trata o Léo assim? Ele sente... Eu sinto!

Seamus não respondeu, então, Harry sussurrou como se doesse. – É seu filho também...

- Quem garante? – atacou com desprezo na voz, mas um tapa o calou.

Enquanto o rosto de Seamus avermelhava e ardia, a mão de Harry tremia e formigava. Serrou os punhos, o olhar verde tão obscurecido como quando lutara contra Voldemort e os Comensais da Morte.

- Não me acuse Finnigan... Se não for seu, a culpa é mais sua do que minha... – sibilou entre dentes, tão baixo que quase não foi ouvido.

Seamus o abraçou com força, apertando contra si o corpo torneado do moreno e pedindo desculpas. Estavam tão tensos, que chegavam a tremer em contato.

- Sinto muito, mas é difícil Harry... – sussurrou ao ouvido do outro. – eu olho pra ele e não consigo ver nada de mim, só vejo você com os traços de algum outro qualquer...

Harry ainda mantinha os punhos serrados com tanta força, que suas juntas estavam brancas. Mesmo Seamus insistindo no abraço, não o abraçou de volta.

- Já havia dito isso antes, e repito... Se está com dúvida, por que não faz um exame? Vamos comprovar se é seu ou não... – Harry dizia tudo friamente.

- Mas eu quero acreditar que é meu, droga! – voltou a apertá-lo contra seu corpo.

- Se você tivesse um filho, eu o aceitaria sem me importar de quem era... Mas você não consegue não é? Não tem certeza e assim mesmo o ignora... – empurrou bruscamente para se livrar do abraço, mas continuou o encarando nos olhos. – Você está distante por causa disso... Cansei Finnigan. Quero um tempo...

- Como? – ficou chocado, esperaria tudo, menos isso.

- Terminamos! – Harry virou as costas e subiu as escadas, ignorando o chamado de Finnigan.

Trancou a porta com raiva, já estava cansado disso, seu filho não merecia ser ignorado, não tinha culpa. Os únicos culpados eram eles.

Caminhou devagar até a cama e pousou os olhos no pequeno corpo que descansava na cama juvenil, feita rente ao chão, para evitar quedas. Sentou-se no carpete e passou a acariciar as mechas negras, tão lisas e finas que pareciam plumas, mas sempre arrepiadas e sem corte. Depositou alguns beijinhos naquela cabecinha enquanto liberava as lágrimas contidas fazia tempo. E deixou se levar na tristeza e culpa, confortado pelo perfume de seu bebê.


N/A: Aqui está mais um capítulo e espero que tenham gostado desse também. Deixem reviews, por favor! É bom saber o que estão achando.

Agradecimentos a: Sora Black, Gabi Potter-Malfoy e Ma-Chan2 – obrigada por lerem e espero que acompanhem sempre! Sofiah Black e Polarres – acho que nem o Harry está gostando muito do Finnigan neh? E no próximo capítulo tem Draco aparecendo. Bjos a todas! Suas palavras me incentivam muito! Obrigada!