"Mestres do Segredo"
ou
"A chave certa"
Parte 2
Naquela manhã, a pequena despertou e a primeira coisa que lhe ocorreu foi que estava sozinha. Isso não era novidade e depois condenou a si mesma por esperar que aquele dia fosse diferente. Desejava tanto a companhia e amor daquele rapaz que já não evitava mais nenhum pensamento de ligá-la a ele. Precisava tê-lo consigo o dia todo, para sempre, até o final.
Recolheu as pedras das lágrimas da noite anterior e as reservou em uma bandeja. Fazia tanto tempo que não chorava… será que seu amo se aborrecia com isso? De qualquer modo, não dava importância.
Arrumou seu quarto, distraiu-se com seus livros. Irremediavelmente, estava pensando em Heero. Perguntava-se se, em seu retorno, ele a permitiria enlaçar seu pescoço e beijá-lo outra vez nos lábios. Seria perfeito se ele deixasse. Sorriu. A claridade diminuía, o ocaso tinha principiado fora dos muros do castelo, e enquanto ela acendia as velas, insistia mais intensamente na ideia de beijá-lo e abraçá-lo e ouvi-lo falar com ela e ler para ela aquelas histórias de seus antepassados.
Assim que a noite pendeu inteira, sentou-se na cama e começou a trançar os cabelos. Como será que se parecia? Esperava ser bonita, esperava ser do agrado dele. Uma vez, tentara se ver na superfície de uma das bandejas, mas estava amassada e suja demais para que refletisse.
Suspirou e esperou.
Aguardou a madrugada toda e ele não apareceu.
O que tinha acontecido?
Ela o teria insultado de algum modo?
Ele não podia ter se esquecido de sua promessa…
A mente dela, afobada, trabalhava rápido. Dentro de seu íntimo, algo se contorceu, sentiu uma leve dificuldade em respirar. Abraçou a si mesma e não dormiu, não desistindo de esperá-lo.
Do outro lado dos muros, a claridade começou a crescer. Escutou os passarinhos, todos os dias eles cantavam, alçando voo.
Jogou-se na cama. Onde estaria Heero? O que fora feito dele e o que seria dela?
Ele sempre avisava quando fosse demorar.
Despercebidamente, começou a cochilar, embora sonhos atribulados se passassem em sua mente. A preocupação não podia ser separada dela. Driblava mesmo o cansaço da noite insone.
Toc, toc, toc.
Três batidas a tiraram de sua letargia subitamente e ela colocou-se de pé sem pensar. Tirou os cabelos do rosto e caminhou até a entrada, aguardando.
A escuridão tomara conta do ambiente, não podia ter noção de que horas seriam. A ausência de luz a abraçara de tal modo que até sentiu seus movimentos restringidos.
_Sou eu. Não te esqueci.
E soltou a respiração quando escutou a frase secreta.
Virou a chave três vezes no trinco e conforme a placa se movia, a moça se afastou, dando passagem para a pessoa encapuzada que adentrava munida de uma lamparina.
Contudo, a silhueta revelava que aquela não era como das outras vezes e quando o capuz cedeu, ela viu a face do barão exatamente como se recordava.
Gritou, mas som nenhum escapava de sua garganta.
_Não, não, pare, não há por que. –a voz possante, refinada e confiante dele ecoou entre as paredes. –Sem pânico, criança. Vim buscar-te. Pelo que tenho observado, tu perdeste teus motivos para pranto, não é?
Ela se encolhia na parede, ofegante. A última coisa que teria como bom sinal seria a aparição do barão. Começou a pedir em pensamentos que Heero estivesse bem.
_Espero que não tenha se deixado levar pelas palavras vazias daquele homem… só eu sei como cuidar de ti. Alguma vez mostrei o contrário? Sempre tiveste tudo o que precisou, meu bem, tudo… e o que eu pedia em troca? Uma bobagem qualquer… O teu dom é o que me mantém vivo. Não se sente honrada por isso? –aproximou-se dela e apanhou seu queixo. Estudou a linda face esplendorosa. Viu escapar uma ou outra lágrima dos olhos cristalinos dela, escutou-as no chão junto do barulho da corrente que a prendia.
Arisca, ela o fitava, sem saber o que fazer. Atada a corrente, não adiantava tentar escapar. Era completamente vulnerável à vontade daquele homem.
O barão tinha uma imagem incrivelmente distinta e falava sempre tão cortês que era impossível duvidar dele bem como esperar alguma maldade vir de sua parte. Os olhos azuis glaciais de Treize estavam repletos de um viço vítreo que refletia o semblante assombrado da moça. Eles eram tão diferentes dos olhos de Heero, que apesar de azuis, eram mais densos e interessantes.
_Criança. –ele falou, sua voz limpa dominava o ambiente. Chamou a atenção dela porque sentiu que ela se distraíra com os próprios pensamentos. –Tu não queres sair daqui? Pois irei tirar-te.
Ela ficou perplexa com a notícia. Entretanto, qualquer alegria que pudesse nascer do anúncio do barão foi suprimida ao perceber que ele usava de magia e que ao tocar a base da corrente, falou palavras em um idioma estrangeiro, de modo que a lajota do piso ficou toda iluminada, muito mais que a lamparina.
Depois, o barão procurou a chave da porta e a guardou em um de seus bolsos.
_Venha para fora. –exortou, saindo também do cômodo, mas ela estava impressionada demais com o brilho do piso e com a possibilidade de deixar aquele local que sempre fora todo o seu universo.
Caminhou timidamente até o umbral e enfim o cruzou, como há anos tivera sonhado em fazer. A corrente seguia em seu tornozelo, contudo, a lajota ia mudando de lugar, sem nunca se soltar do chão, conforme ela ia se afastando da cela.
Treize demonstrou isso por puxar a corrente até que a lajota deixasse a sala ao passo que a menina aguardava a próxima ordem ao lado dele, de modo que no momento em que a lajota apareceu no chão do corredor, o barão cerrou a porta e, tocando a fechadura, encantou-a com palavras que a garota estranhava e em nada apreciava. Sabia que ele fabricava ali alguma armadilha.
Tomando-a no colo, Treize levou-a consigo para outra ala e outro andar. O barulho da corrente e a lajota os seguiam onde quer que fossem e ela estudava a figura do amo, e por mais que tentasse, ficava sem conseguir encontrar reação. Toda a aparência era nova para ela, e a beleza dele a impressionava. De repente conseguia se recordar da primeira vez que o vira, há tanto tempo atrás ou há tão pouco, não conseguiria definir, porque tudo que se referia ao passado era confuso em sua mente e a imagem dele se erguia idêntica a que ela contemplava ali.
Estar junto ao peito dele não era em nada delicioso como quando estava com Heero. Ouvir-lhe a voz marcial e nobre não a punha segura e contente. Cada característica do barão era esteticamente aprovada e admirável, o sorriso arrojado, os dentes perfeitos, os cabelos dourados bem penteados e o fito inteligente e airoso, contudo, para ela, era somente uma espécie de fachada para esconder a capacidade que ele possuía de mantê-la presa todos os anos, privando-a de sua parentela e da liberdade que qualquer ser vivo recebe ao nascer.
Treize só a colocou no chão quando chegaram a um belo quarto completamente decorado em cor-de-rosa pálido. Cada peça, cortina e revestimento eram de grande e inimaginável requinte e valor. O ambiente estava completamente iluminado por castiçais esculpidos em ouro e as janelas se abriam para a noite negra e soberba, que naquele momento usava seu adorno máximo, a grande pérola que era a Lua cheia.
A primeira ação da moça ao sentir os pés tocarem o carpete foi correr para encostar-se ao vidro. Esqueceu qualquer medo e preocupação. Sonhara tanto em ver aquilo, em conhecer a natureza verdadeira daquela claridade branca que às vezes a visitara! Deslumbre era pouco para descrever o que sentia ao contemplar o satélite selênico e sua inspiradora luminosidade melancólica que combinava com a que a própria garota emitia. Ela suspirou, o coração até se aquietou.
O barão selou a lajota no meio do aposento durante a distração infantil de sua bela cativa.
_Criança… –e depois de assisti-la colada a janela por alguns minutos, agradado da pureza dela, disse para que ela se lembrasse da presença dele. Ao ser banhado pelo olhar comprido e intrigado dela, passou a discorrer calmamente, demorando-se com prazer em cada vocábulo. –Por muitos anos, corri o mundo em busca de teu povo, trazendo-os até mim sempre que necessário e cômodo, até que minha procura tornou-se uma investigação árdua e as últimas décadas foram gastas na caça de alguém que conheça tua gente ou que saiba onde se escondem agora. Todavia, vim a crer que o último espécime está neste instante diante de mim, estudando-me em silêncio. Meu bem, se tu soubesses quão especial é o dom que possuis! Mais maravilhosa do que a riqueza que produz é a propriedade encantada que oferece. Por todos esses anos tenho pesquisado a magia de todos os povos e nenhuma contém o que se equipare com os poderes de tuas lágrimas.
Sem se deixar espantar, ela o ouvia discursar. Sentara-se na namoradeira junto à vidraça, desejando seguir aproveitando da companhia da Lua.
_Quando tu partires, o que acontecerá inevitavelmente, já que não usufrui do efeito de teu próprio pranto, partirei eu também e tua raça será extinta. Não é isso que desejo de modo que te proponho que seja minha esposa.
As sobrancelhas douradas dela se ergueram. Um movimento apenas, entretanto, como tinha somente gestos e expressões para comunicar-se, tal demonstração foi bastante marcante.
_Seja minha esposa e continuemos a viver eternamente: tu, através de tua prole e eu, através da poção que só posso preparar com base em tuas lágrimas.
E meu nome?, ela perguntou-se. E minha liberdade?
Levou as mãos aos olhos para se afastar.
Será que o barão desejava uma esposa acorrentada? Prestaria atenção nela depois que conseguisse seu filho e a garantia que precisava sobre continuar a viver? Cuidaria dela, a amaria? Que vantagem ela possuía em aderir àquele plano? O barão só podia estar tomando-a por tola. Ela talvez não tivesse viajado por cidades e conhecido pessoas e vivido aventuras, mas percebia logo uma troca desvantajosa.
_Dorme agora e, com a alvorada, meus criados a visitarão. Eles irão embelezá-la e prepará-la na sua gala de noiva. –ouvindo-o, mostrou a face outra vez. Ele não se incomodou por ler tão fácil o desânimo nas feições dela.
Um homem encapuzado num manto azul-jacinto surgiu das sombras na entrada do aposento.
_Mestre, o senhor é aguardado. –e só disse isso antes de desaparecer.
Treize mesurou para ela e cerrou a porta.
A garota prestou atenção e notou que a passagem não fora trancada.
Saiu da namoradeira e percorreu o quarto. Sua sina não havia melhorado. E o que lhe restava era muito pouco – começou a chorar. Passou todo o resto da antemanhã aos prantos e lamúrias completamente mudas.
Heero havia batido na porta três vezes, havia recitado a senha e aguardado, entretanto, a demora da resposta o levou a crer que ela dormia. Quando bateu uma quarta vez, sentiu a porta escorregar para dentro.
Empurrou-a e então ela se escancarou.
Não enxergava nada, contudo já sabia que a moça não estava lá dentro.
Eles haviam sido descobertos, ela havia sido levada, mudada de cela… e, quanto a ele, qual seria sua sorte?
Mal tocara nesta questão em pensamento, ouviu a porta se fechar, feito a passagem de uma ratoeira, e ser trancada com três voltas. Agora seria ele quem habitaria o esquecimento.
Usando sua imagem mental de referência, caminhou até a cama e lá se sentou. Nenhuma vela havia restado acesa e por isso, estava escuro demais para que tentasse qualquer coisa. Era mais sábio esperar o Sol nascer para decidir seu próximo passo.
Já devia ter passado uma hora ali quando ouviu a tábua móvel da porta começar a abrir. Uma vela pequena e acesa foi atravessada pela passagem e pousada no chão.
_Quem está aí? –destemido, quis saber.
_Sou eu. –e não era preciso mais nada para reconhecer o barão do que sua resposta briosa na voz modulada por astúcia e soberba.
Heero buscou a velinha e a usou para acender todas as outras velas da cela.
_Me tire daqui! –exigiu em seguida, como se de fato corresse risco de ser obedecido.
_Não posso. Tu entraste em contato com o proibido e em consequência não deverás mais sair daí. Por pouco, muito pouco, não arruinaste toda a minha expectativa de vida.
_Não me interessa. –ele replicou, ríspido. –Qual é o nome dela? Por que arrancou a página?
_Tu sabes bastante! –divertido, comentou. –Todavia, não sabes tudo… Eu guardo o nome da criança sempre comigo, jamais iria encontrar a resposta que procurava no caderno.
_Não pode continuar prendendo-a! Não vê o quanto isso é errado? Só faz destruir a vida dela!
_Tolice. Ela é minha como foram todos seus parentes… ela é minha por direito, pois assim foi firmado um contrato com aquele que um dia foi rei dessa raça. Entretanto, eles morrem, mas eu, não, e segui usufruindo o tratado, não importa se eles se opõem.
Heero não compreendia sobre o que o barão falava com sua voz possante e de pronto ignorava aquelas palavras vazias.
_Eu não vou permitir que isso continue.
_E como farás? –Treize alegrava-se com a determinação do jovem. Apreciava sinceramente a flama inocente da juventude que se crê capaz de tudo e não vê quando desistir. Era-lhe agridoce ocupar a posição de destruidor de sonhos e amores… Contudo, tinha vivido tanto e visto tantas ilusões se estilhaçarem… suas próprias, as das pessoas próximas… não se condoía mais e só contemplava o espetáculo.
_Vou sair dessa prisão, pode ter certeza.
_Gostaria de ver isso. Admiro tua coragem, teu zelo e, sobretudo, teu amor por ela. E pode ser até um bocadinho triste assistir tanta energia tornar-se inutilizada. Tu és um bom chaveiro, uma boa pessoa de certo. Contudo, decidiste esconder teu talento do mundo ao envolver-se com meu segredo. Sinto muito, mas terás de ficar ai. Foi tua escolha.
E a tábua foi deslizada para seu lugar.
O barão não fora rude ou escarninho. Não tratava a situação com importância excessiva ou desequilíbrio. Somente agia como cego ao mal que causava. Apoiava-se neste tal contrato que mencionara… que bobagem! Heero não lera nada sobre isso nos registros. Todos os seres foram capturados ou comprados em mercados de escravos de terras distantes. Muitos foram assassinados ao tentarem fugir ou rebelar-se. Sempre foram tratados com superficialidade.
Se tal revelação fora trazida a ele, considerou que o destino lhe concedera tomar uma decisão sobre a realidade. O tinha incumbido de quebrar a corrente. E não seria uma porta que o deteria. Fora encarcerado atrás de sua própria fechadura e Heero encontraria uma forma de arrombá-la.
A moça não se deu tempo para dormir, mesmo depois de bastar-se de chorar e cobrir o lençol de pedrinhas lindas e multicoloridas em diversos formatos e lapidações. Os primeiros raios de Sol a encontraram de bruços na cama, os olhos entrefechados, buscando aproveitar-se e quem sabe alimentar-se do vigor que aquela luz parecia oferecer em consolo.
A cozinheira e sua filha adentraram o quarto uma ou duas horas depois encontrando a menina mexendo com os diamantes, entediada e apaticamente. Aquela atitude estranhamente a embelezava, envolvendo-a em um afastamento maior da realidade, tornando-a mais mítica, mais rara, mais fantástica.
_Bom dia, senhorita que há de ser baronesa! Seu desjejum. –Wenda indicou a bandeja nas mãos de sua filha, uma espécie de reprodução perfeita da mulher, porém jovem e morena. –Glenda, coloque ali na mesa, vamos. –efusiva, deu ordens. –Que beleza! –e exclamou ao voltar a vista para a moça que se erguia languidamente da cama. –A senhorita é linda! Não imagina a surpresa que causou! Nunca esperei que o mestre fosse trazer uma noiva forasteira de sua viagem. Que beleza, a baronesa!
A menina deu de ombros e foi sentar-se para comer, sem apetite. Não era de comer muito por natureza e naquele humor achava difícil derivar prazer em qualquer coisa. Enquanto alimentava-se, Wenda e Glenda arrumavam o quarto, cantarolando. Elas ajuntaram todas as pedras em uma bandejinha de ouro e nada observaram sobre a corrente prateada atada à noiva ou seus olhos e nariz inchados do pranto. Não havia nada de inusitado naquele quarto para elas.
Glenda preparou o banho mais perfumoso que aquela casa já oferecera, recorrendo as especiarias orientais do tesouro, e Wenda ajudou a menina a se lavar. Depois, tiraram medidas e trouxeram os rolos de suntuosas fazendas, começando imediatamente a cortar e coser o vestido de noiva.
_Temos pressa! A cerimônia está marcada para a hora do jantar! Que ocasião feliz! –Wenda nunca se aquietava. Exclamava e passava a cantarolar.
A moça ouvia sem interesse e foi para a janela apreciar a paisagem verde e azul que todos aqueles anos lhe fora usurpada. E desejava ardentemente saber de Heero, indagando-se se o destino dele fora pior que o dela.
Ia casar-se! Se a intensidade de seu não querer pudesse ser canalizada, bem poderia mover aquele castelo inteiro de lugar. Chorava discretamente, as costas dadas as costureiras álacres.
O traje ficou pronto uma hora antes da cerimônia.
Era completamente branco, branco-neve, contudo a luz do Sol poente vazando pela vidraça tingia de sépia a veste que consistia em um corpete estampado com lírios, mangas compridas, transparentes, salpicadas de perolinhas de água doce e uma saia ampla e cheia, de duas camadas, vaporosa como a própria bruma do oceano.
Pentearam o maravilhoso cabelo louro-escuro, fizeram no ganhar o lustro do metal precioso e trançaram-no e enfeitaram-no de lírios e de um longo fio de pérolas.
Envolveram seu pescoço em um colar de diamantes.
Deram-lhe tamancos de pelica azul para calçar.
Jogaram nela o véu delicado, tão fino e tão leve, tão belamente projetado, que se diria feito de teias de aranha.
Sua pele nacarina emanava o débil brilho que a distinguia dos humanos.
A moça jantou um prato de sopa e tomou um cálice de vinho.
Wenda e Glenda deixaram sua jovem futura senhora extremamente satisfeitas com seu trabalho, feito tivessem brincando com uma boneca todo aquele dia.
Abandonada, a noiva voltou a suas lágrimas. Chorar por debaixo do véu era romântico, dava ares angélicos a seu suplício. Agora possuía um grande espelho e encontrar sua belíssima e aguardada figura não lhe agradava em nada. Pela placa de vidro e aço percebeu a porta abrir-se.
Treize a contemplou completamente, detendo-se em cada detalhe ao passo que ela virava-se e ele sorria o mais galante e deliciado dos sorrisos. Era o noivo exemplar em sua farda azul marinho e em outros tempos a menina o julgaria um herói, um príncipe salvador. Ele a viera buscar e conduzir a capela. Repetiu suas palavras estrangeiras de modo a mover a lajota que sustentava a corrente.
Indiferente, ela passou por ele e deixou o quarto. Não mostrava resignação, por outro lado, não exibia nenhuma reação – tinha aprendido o caminho da impassibilidade.
Heero circulou pela cela depois que o barão partiu permanentemente. Sua mente trabalhava tão rápido que nem se dava conta do que os pés caminhantes faziam ou das mãos que bagunçavam a franja. Precisava sair dali e não podia demorar. Não queria visto que não tivera acesso à condição presente em que a garota estava e havia ainda de descobrir para voltar a pensar em si e as investigações.
É provável que andou meia hora e alcançando a exaustão, nervoso demais para notar qualquer pequena brecha de ideia entre as nuvens carregadas da tempestade frenética que acontecia no seu cérebro, jogou-se de costas na cama, de qualquer jeito, bem pesadamente. Voltado para o teto do dossel como fizera tantas madrugadas passadas, ao lado dela, notou as estrelas pintadas de tinta dourada que desbotava, como tudo naquele lugar. Quanto tempo mais para ele também desvanecer, perder a fibra e ver o fio da meada do tempo escapar de seus dedos?
Então sentiu algo cutucar sua perna de leve. Virou-se de lado e a dor ficou mais pronunciada. Em ágil pulo, saiu da cama e enfiou as mãos no único bolso de trás das calças e encontrou uma talhadeira pequena que reservava para esculpir detalhes nas faces das fechaduras e cuja ponta afiada o furara de leve.
Os motivos de espera terminaram.
Avançou a porta e levou a talhadeira ao orifício da fechadura, contudo, mal percebeu a ponta encontrar parte do mecanismo, uma corrente elétrica percorreu seu braço, arrancando um gemido de dor dele e obrigando-o a largar a ferramenta que, com a queda, retiniu no chão de pedra.
Xingou por impulso e rangeu os dentes.
Era por isso que Treize estava tão confiante de tê-lo encarcerado para sempre.
Retornou a sua eterna perambulação pela sala, então brincando com a talhadeira em suas mãos.
Era somente a perspectiva e necessidade de sair dali que o mantinha alerta, porque, vendo-se então no lugar da menina, intrigava-se sobre como manter a chama do desejo de viver sabendo-se eternamente encarcerado naquela cela de pedra, esquecido e largado ao ócio. Impressionou-se com a garota por ela ter suportado e sobrevivido os incontáveis anos ali ao mesmo tempo em que entendia porque ela tanto devia ter chorado, sem ninguém para consolá-la.
Ele sempre gostara de ficar só, contudo imaginou quão torturante e enlouquecedor deveria ser conviver somente com ele mesmo forçosamente, totalmente afastado de outros e privado da luz do dia. Por saber como era o exterior daquele castelo e o quanto perdia ao ser mantido ali, certamente enlouqueceria em poucos dias. Já a pobre, sem nenhuma lembrança, só sabia o que havia lá dentro e usufruía de uma espécie de paz, resultante também da falta da noção do tempo, e, se ansiava liberdade, só o fazia porque esse é o inato desejo de tudo que vive.
Voltando a atenção a porta, lembrou-se das dobradiças.
Estavam muito velhas e sustentar aquela porta lhes custava muito.
Começou a cavoucar a madeira em torno para enfraquecê-las mais. Os pinos que as prendiam começaram a vacilar minimante. Sentiu que o dia clareava aos poucos lá fora, escutou de longe algumas aves anunciando a chegada do governador do céu. Suas mãos tremiam e sangravam nos pequenos cortes que as lascas de madeira e a talhadeira fizeram por engano em sua pele. Contudo, aquilo não era nada em comparação com o quanto ainda precisaria suar e sangrar e ferir-se para sair dali. Continuou o trabalho. Cavoucou a porta o máximo que pôde próximo das duas dobradiças que alcançava, até que a talhadeira ficou completamente embotada e seus dedos quase ficaram sem pele.
Passou a forçar a porta, jogou-se contra ela estrondosamente repetidas vezes. Seu corpo doía cada vez que acertava a placa de madeira, mas senti-la sacudir o encorajava. Sua mente queria descanso depois da noite intensa de atividade e já começava a perder o controle das sensações, dos espaços e dos movimentos, contudo, a força motriz seguia vindo de seu coração, focado em sua tarefa e obrigando todo o resto do organismo, por mais relutante que se comportasse, a acompanhá-lo.
Depois de incidir na porta inúmeras vezes percebeu que ela vacilava e uma frestinha surgiu entre a placa e a parede.
Parar ali seria desperdício total de seu louco esforço.
Golpeou a porta mais vezes e a ouviu estalar, embora não soubesse quanto tempo levou para isso.
Encarou-a, ofegante, os braços pendiam e as pernas vacilavam, em contagem regressiva para desmontarem. O desejo de seguir deixou de prevalecer, o corpo ensurdecido aos comandos do coração. Caiu no chão.
Fechou os olhos enquanto seu peito subia e descia, tentava absorver ar e não se satisfazia, como se ele escapasse mais rápido do que era aspirado. Suor descia por seu rosto assim como o orvalho molhava as folhagens no jardim escondido nos fundos do castelo. Os ombros latejavam certamente cobertos de hematomas.
Ao descerrar as pálpebras, encontrou a estante na parede oposta a cama. Lerdamente, seu cérebro prático calculou a altura dela.
Um movimento por vez – primeiro, arqueou os joelhos insensíveis, depois, devagar, ergueu o tronco e com cuidado apoiou as mãos no chão para deixá-lo – e colocou-se ereto. Estudou o móvel novamente e passou a esvaziá-lo. Experimentou arrastá-lo. A madeira era sim maciça, entretanto, não tão pesada quanto aparentava. Moveu-a desencostando-a e com um impulso só a lançou ao chão.
Preparou-se, protegendo as orelhas com as mãos, porque esperava por um barulho ensurdecedor. O eco da estante acertando impiedosamente o chão continuou por alguns segundos.
Heero encostou-se a parede e descansou um pouco, tentando recarregar a quantia necessária de energia para dar seu próximo passo.
Hora de levantar o móvel em sua lateral. Ele pensava quão interessante deveria ser assisti-lo empenhar-se em tantas tarefas impossíveis. Com certeza, pareceria um tolo, alguém patético, teimoso demais para poupar-se, insistente demais para aceitar a derrota certa. E nada disso o impedia.
Colocando a estante em sua nova posição, arrumou-a voltada para a porta, de comprido, e levou-a até a folha de madeira que obstruía a entrada, acertando-a com o que conservava ainda de vigor. Contava com a pressão do móvel para forçar a passagem. Sentou-se no chão com as costas junto à madeira e empurrou, empurrou, empurrou e empurrou. Pedia que um milagre acontecesse se preciso, rogava que não fosse abandonado ali após sacrificar sua energia vital. Porém, preferia morrer tentando e falhar a desistir. Repousou por um minuto e seguiu empurrando. Sentiu que estava se movendo, a porta envergaria, cedo ou tarde.
Que fosse cedo, ele rezava, porque seu tempo não era longo.
Nunca antes curtira sensação semelhante a que lhe subiu por captar o derradeiro estalido da madeira ao soltar-se da parede. Poderia ter chorado ali, seus olhos de fato umedeceram, mas bem podia ser cansaço.
A porta pendeu, despedaçada, em cima da estante.
Suspirando fundo, vindo à tona de sua luta e dor, apressou-se em saltar os obstáculos e deixar sua prisão. Estranhamente, não temia ter sido percebido, mesmo depois de tantos ruídos.
E nem precisava, visto que somente a fechadura estava encantada e somente ela poderia avisar o barão do que havia na cela, caso ele insistisse em mexer nela.
Agora que era capaz de agir, viu-se incerto sobre o que fazer. Escondeu-se em uma sala qualquer bem longe da cela e encolheu-se em um canto, jogando-se no chão. Sentia-se tão cansado… ao mesmo tempo nunca sentira tanto orgulho de si próprio.
Tentado a relaxar um pouco, começou a prestar atenção ao que havia no cômodo. Viu retratos, alguns pendurados, outros pelo chão, somente encostados nas paredes, alguns pareciam de parentes do barão. De qualquer modo, tinham uma aparência nobre e distinta e olhavam para fora de suas molduras vigilantemente, criando a ilusão de que logo sairiam andando para fora da tela.
Precisou menear a cabeça para desfazer aquela impressão.
Como descobriria agora o nome da garota de modo que pudessem fugir dali? Bufou e levou as mãos às têmporas.
O que o barão havia dito sobre onde guardava o segredo?
Sim, mencionara que estava sempre com ele.
Assim, seria impossível.
Teria de matá-lo para obter a verdade.
Heero ergueu os olhos para uma pintura que por algum motivo destacava-se entre as demais. O quadro exibia uma jovem de olhos felinos, acetinados e especialmente inquisidores. A atenção que ela rendia a seu observador solitário era sugestiva. Como ela o chamava, ele quis saber quem era ela. Saiu de seu lugar para ler a plaquinha na borda decorada da imagem.
_Lady Dorothy Catalonia. –falou alto e pensativo.
O retrato era uma das poucas coisas que provavam a existência, presente ou passada, daquela moça, a Lady Dorothy, e a representação perfeita dela. O quadro, então, era ela.
E desse modo Heero descobriu onde estava a página perdida que precisava.
Só precisava chegar ao gabinete em segurança.
Mansamente, abriu a porta e esgueirou-se pelos corredores.
Porém, ninguém o vigiava. O barão não era um bruxo poderoso e nem conhecedor de tantas magias a ponto de saber tudo o que acontecia em seu castelo. Tudo o que deveras aprendera a fazer se relacionava ao confinamento da garota.
_Rapaz, onde andou? Está com uma cara horrível… –Wenda o encontrou na passagem principal, vinda da cozinha, com uma bandeja nas mãos.
Ele meneou a cabeça como sua única reação.
_Melhor ir se lavar para que vá ao casamento do mestre esta noite, na hora do jantar. O barão trouxe uma linda noiva forasteira da sua última viagem!
_Como ela é?
_Loura, uma visão do paraíso! Pena que não fala, pobrezinha, como deveria ser doce a sua vozinha!
_Eu vou para meu quarto então. –saiu, abalado, no mesmo momento, sem se importar em deixar Wenda para trás.
Lançou seu fito através da primeira janela que encontrou. O Sol preparava-se para esconder-se, Heero sentia como se ele tivesse acabado de nascer, entretanto, lá estava o astro lançando braços laranja pelo espaço, espreguiçando, chamando a noite.
O barão devia estar vestindo-se.
Apressando-se ao gabinete, Heero adentrou e fechou a porta silenciosamente.
Adiantou-se até o retrato. Lá estava o barão, guardando sua sala, um meio sorriso nos lábios, os olhos pequenos cintilando, mesmo vivos, a perfeição da reprodução acertava seu observador cada vez, não importava quantas vezes já analisara a pintura.
Heero subiu em uma cadeira para arrancar o quadro da parede e suavemente revelar o cofre que jazia ali. Aquele era trabalho do Mestre J, Heero reconheceu logo, o que lhe conferiu imenso alívio e foi logo colar o ouvido a portinhola e começar a brincar com as rodas, pacientemente rolando os números. Cada ruído ecoava dentro de seu peito, sendo digerido e testado. Baixava as pálpebras e visualizava os mecanismos se posicionando delicadamente e as travas se movendo ao passo que lentamente a combinação da senha era alinhada.
A portinhola soltou-se depois de algum tempo, saltando da parede, folgazã.
Contagiado daquela alegria, sorriu. Estava tão cansado, mas tão contente…
Ali estava a tão desejada folha. Sua missão começava a se completar.
_Relena. –aquele era o nome.
Amarrotou o papel e enfiou-o no bolso.
_Relena. –repetiu, mais alto, comemorando.
_O que faz aí? –e uma nova voz cortou o espaço, rasgando a satisfação de Heero, transformando-a toda em tensão.
O homem da capa azul-jacinto surgiu estacado no meio da passagem.
Heero manteve-se imóvel no alto da cadeira, mas estreitou os olhos, em parte porque as sobrancelhas espessas pesaram sobre eles.
_Vou salvar a moça daquele casamento e você não vai me impedir.
O homem fabricou uma longa espada prateada e reluzente de dentro do manto.
_Me mostre isso.
Heero olhou o entorno e localizou uma espada dourada decorando a parede à sua esquerda.
Deixando a cadeira, correu até ela e a empunhou. Nunca tinha lutado com uma espada e esperava pelo menos poder defender-se.
_Maldito chaveiro! Como foi escapar? A fechadura me avisou tarde demais que você a havia tentado arrombar!
_Não sou manso como a pobre que era cativada egoisticamente lá!
Heero aparava os golpes da espada seguindo seus impulsos. Era o zelo de cumprir sua missão e o orgulho de ter chegado até ali que lhe concediam forças sobre-humanas para duelar.
_A pobre! Sabe o nome dela?
_Agora descobri e com isso irei livrá-la. Quero tirá-la daqui para que conheça o mundo e finalmente seja feliz.
_Mentira! Você a está roubando para que a possa usar também!
_Não sou como vocês! –Heero ficou tão furioso por ver-se vítima de tão mau julgamento que atacou intensamente, descontrolado, surpreendendo seu oponente e tirando dele a espada. O cavaleiro caiu no chão sobre os quadris e seu capuz cedeu, revelando o rosto e a expressão de dubiedade que o compunha.
A face dele trouxe instantaneamente à lembrança de Heero o afresco do arcanjo Miguel no teto da igreja da aldeia. O homem possuía um cabelo liso e longo feito numa trança de raiz, tão platinado, ofuscante e fluído quanto sua espada. E, nos olhos, usava da mesma franqueza que Relena, o que intrigou Heero.
_Jure que vai me deixar ir. –Heero ameaçou o inimigo tocando o pescoço dele com a ponta da espada.
_É por amor que realiza toda esta grande façanha? –o atacou com uma pergunta e o acertou melhor do que com a lâmina de sua espada.
Assentiu. Seus olhos perderam o foco por um segundo, abrandando-se talvez, afastando-se.
_Mas é ela quem deve escolher como levará a vida a partir de hoje. –e Heero terminou por adicionar, resignado.
_Então se apresse! O barão dará a ela um novo nome. Se isso acontecer, jamais a poderá ter. Ela nem sequer se lembrará de você.
Tal alerta acionou o rapaz, avigorando-o, de modo que passou pelo cavaleiro, frenético, dotado das asas que sempre guarnecem os bravos e amantes, rumando para a pequena capela construída no jardim. Havia lamparinas queimando ao longo do trajeto ao ar livre, criando uma atmosfera romântica que para Heero era detestável por sua falsidade.
Olhando baixo, através do véu, Relena enxergava suas mãos no poder das mãos do barão. Haviam acabado de alcançar o altar. Os empregados da casa eram os convidados e testemunhas do incomum enlace.
_Antes de ser realizado este casamento, padre, tenho para mim que é necessário que apresente solenemente o nome de minha querida noiva. –Treize anunciou assim, impedindo as primeiras palavras que dariam a cerimônia por iniciada.
Sem evitar, a menina ergueu a face e exibiu seus olhos arregalados, mais brilhantes que as joias em seu pescoço, revestidos de um interesse sedento e dolorido.
Por mais que desejasse saber seu nome e ser livre, no profundo de seu coração compreendia que algo de estranho e enganoso se entremeava às palavras do barão.
_Minha jovem e bela noiva é de origem estrangeira e seu nome, tão doce e musical, se prova inviável de ser pronunciado por nossas línguas ásperas e rijas. Sim, de fato, seria inapropriado que o falássemos. Apenas por isso darei a ela um novo nome, um que somos capazes de usar.
Ela meneou a cabeça violentamente, opondo-se, arrancando as mãos das dele, sem levar em conta a impressão que iria causar.
_Ouça bem, criança, é preciso que assim seja. Tu careces de olvidar o passado, todo ele… tu precisas somente do presente… e do futuro. –e sorriu feito lince ao encerrar sua sentença.
Ela negou outra vez, veemente, tapando assim os ouvidos usando suas pequenas mãos brancas, pressionando os lados de sua cabeça sobre o véu com muita força.
_Opor-se não é de valia alguma, meu bem. Pois anuncio agora teu nome. Tu te chamas…
_Relena!
A noiva descobriu os ouvidos. A fala do barão havia sido cortada por uma voz que trouxe ânimo instantâneo a seu espírito. Virou o rosto para a entrada com pressa e contemplou Heero caminhando pelo corredor entre os blocos de assentos. Ele dava ares de estar imerso em grande abatimento físico.
_O quê? Não é possível! –e o barão só pôde pronunciar estas como suas palavras finais. Nada impactantes. Nada originais. Simplesmente espontâneas.
O homem admirável que prolongou sua vida, alimentou sua eternidade e perdeu o senso do real e do moral desapareceu mostrando que ainda conservava as fraquezas de ser humano.
A única pessoa capaz de relatar o que se deu a seguir era a própria Relena, visto que uma enorme luz completou o ambiente feito o Sol tivesse decidido visitar a cena, tornando intolerável aos presentes manterem seus olhos abertos enquanto ela mesma não se sentia em nada ferida pela claridade.
Ouvindo as sílabas do nome propagarem-se no ar por meio daquela voz rouca e quente, por um instante creu que desmaiaria. Em seu redor, as atividades começaram a retardarem-se de modo que viu Heero mover-se muito lentamente e o protesto do barão levou muito tempo para ser pronunciado por completo. Mesmo o movimento dele era quadro a quadro. Dentro da claridade ofuscante que transformou o crepúsculo em aurora, ela viu as pessoas se encolherem e notou-as gritar perante o absorvente brilho, tudo acontecendo suavemente como em uma lembrança.
Episódios, faces e sons espocavam, estelares, na nuvem de sua mente, revelando passagens secretas, descobrindo imagens e juntando peças. E quando voltou sua atenção ao barão, as cenas da tragédia a arrebatou, ao passo que se recordou do modo impiedoso com que fora traficada e terminara na posse e cela daquele homem vil e excêntrico. Pela primeira vez, sentiu ódio embora não houvesse necessidade de ceder ao desejo de vingança, visto que o barão se desfazia. Subitamente, Treize foi despido de seu viço e de seu brio e encurvava-se cada vez mais como um velho, tornando-se decrépito em um mero bater de asas de pardal e desaparecendo por fim numa nuvem leve de pó.
E assim como raiou aquele fulgor na capela, feito um relâmpago, assim ele esvaeceu, sendo sugado para dentro de uma brecha entre as eras.
Para Relena, o comprimento daquele momento poderia ser mensurado em horas, contudo, para os demais, não passou de um minuto.
O gêiser de informações que ressuscitou em sua mente tirou-lhe um pouco da estabilidade e, findada a luz, ela caiu sobre os joelhos, suavemente, o véu enchendo-se de ar. Passeavam perante ela muitas figuras, as recordações pareciam estar sendo misturadas calmamente por um torvelinho brincalhão, distraindo-a e tomando-lhe um pouco do controle. Ela levou a mão à testa, desejando fazer tudo se aquietar e se ordenar, respirou fundo, cerrando os olhos.
_O que está acontecendo?
_Que tremor foi este?
_Tremor? Mas eu ouvi um barulho horrendo!
_Nem barulho, nem tremor. Uma grande luz invadiu todo o lugar! Admira-me não termos sido cegados!
Os convidados competiam e discutiam uma explicação para a estranha ocorrência.
O padre, perplexo com a balbúrdia, orou por um segundo e vendo a noiva no chão, acudiu-a.
Ninguém se lembrava do rapaz que adentrara a capela inesperadamente ou viu quão pesadamente ele desfalecera no meio do corredor. Ele seguia imóvel e sem saber que sua missão fora cumprida.
_Minha filha, tu estás bem? –o pároco pediu, tocando-a nos ombros.
Ela colocou as lindas mãozinhas no peito. Uma ou outra lágrima escapou de seus olhos, morrendo no chão em forma de diamante losangular.
_Estou bem, obrigada. –e o som de sua voz a aturdiu. Sorriu, se o padre pudesse lembrar, talvez ousasse apurar que a glória da luminosidade que os tomou era inferior a da expressão de deleite da moça. –Heero? – lembrou-se. –Heero! –alçou a voz, ganhando a atenção das pessoas consigo.
_Quem é ela?
_O que estamos fazendo aqui mesmo? E o padre?
_Com quem esta moça vai casar?
Os presentes estavam confusos e não podiam dar ouvidos a preocupação sentida que carregava a voz vibrante de Relena a seus ouvidos.
O padre, apesar de sua idade avançada, a ajudou a colocar-se de pé e acompanhou-a apressar-se ao corredor e achegar-se do rapaz caído. Não havia mais corrente alguma em seu tornozelo.
_Por favor… –ela soluçou, sentando-se ao lado dele, puxando-lhe a cabeça para seu colo e debruçando cheia de afeto para cobri-lo e protegê-lo com seu corpo e pranto.
_Não tenha medo, pois ele não morreu.
O timbre claro e cordial da voz que surgiu roubou Relena de sua angústia e a fez olhar para cima e deparar-se com um cavaleiro alto em uma capa azul-jacinto. Os cabelos platinados, escorrendo para frente de seu corpo em uma longa e esguia trança, o sorriso bondoso e viril e os olhos azuis joviais e espertos, mas cândidos, estimularam ainda mais as memória dela.
_Quem é você? –murmurou, titubeante entre confusa e desconfiada, encolhendo-se mais em torno de Heero.
O cavaleiro sorriu mais amplamente, realizando o impossível de adoçar ainda mais sua expressão:
_Faz anos demais para que você se lembre de seu irmão… está perdoada. –e quase terminou sua sentença rindo.
_Zechs? –e estreitou os olhos, forçando-se em puxar aquela informação, corando um pouco de contentamento.
Ele assentiu e, colocando um joelho no chão, abaixou-se junto dela:
_Por noventa anos esperei por alguém que a encontrasse e fosse capaz de desvendar todo o segredo! A minha alegria é maior do que a sua!
Ela sorriu imediatamente ao passo que seu irmão acariciou seu rosto.
_Você se tornou uma mulher tão bonita, Relena! Como me dói não tê-la visto crescer… –elogiou, melancólico como aprendera a ser, pensando em seus pais e quão contentes eles se sentiriam ao vê-la, se pudessem.
_Foram anos muito difíceis para você, meu irmão. –e raciocinando na dura busca conduzida e no cruel dia a dia que seu irmão levara, aprisionado também, mas no desespero da espera, no suspense pela revelação, percebeu que ele sofrera mais do que merecia. Ambos tinham muito que agradecer a Heero. –Me ajude a levar Heero para um quarto. –e depois de fitar a face querida, murmurou, olhando o irmão.
_Sim, ele precisa descansar depois de tudo o que fez. –prontamente, ele aceitou o sábio pedido da moça.
Relena não conseguia definir o que sentia ao saber de todo o sacrifício que Heero empenhou somente por ela. Ele poderia facilmente ter morrido, mesmo falhado, e ela nem saberia disso e jamais reconheceria seu irmão e seguiria absolutamente alheia a toda maldade que fora feita a ela e sua espécie.
Agora, sentia-se inteira. Não somente amava e era amada, mas recuperara sua voz e suas lembranças e podia enfim considerar-se real e feliz.
Zechs ergueu Heero do colo da irmã. O cocheiro veio auxiliá-lo, por mais estupefato que estivesse.
_Alguém vai explicar o que está havendo aqui? –Wenda adiantou o passo e acompanhou os dois homens que carregavam o rapaz.
Relena a fitou em branco.
_Mais tarde. –Zechs alegou, sucinto. Precisava ainda criar a história que contaria.
_E quem é este rapaz? –o cocheiro não resistiu e mesmo assim indagou. –Não sei por que, Zechs, mas acho que o conheço…
_É claro que o conhece, só está confuso porque ele acabou de voltar para casa depois de uma guerra muito longa: ele é o barão, nosso mestre. –Zechs prosseguiu, maroto, escondendo o sorriso.
Relena não esperava a atitude do irmão, porém, apesar de suas expressões ainda fossem bastante marcadas, ninguém a estivera olhando e ela manteve seus lábios cerrados.
_E ele venceu? –Wenda demandou.
_É claro. –Zechs sem esforço nenhum informou. –Vocês estavam todos na capela, rezando pelo retorno seguro dele no momento em que o mestre chegou. –e disse mais, mascarando o segredo que fazia nascer. Relena sorriu pequenino por isso.
Levaram Heero para o aposento do barão e o colocaram na cama. Ele vivia, de fato, pois respirava, contudo, estava tão absorvido pelo sono que se comportava feito um morto. Relena sentou-se no colchão e segurou a mão dele, morna e pesada, ansiosa em revê-lo. Como queria falar com ele! Sabia o quanto ele se agradaria de escutá-la! Como queria beijá-lo… deitar em seu peito e senti-lo correr os dedos pelos seus cabelos. Sorriu, era uma expressão um tanto deslocada para o momento.
Zechs a acompanhava e para ele estava claro o que sua irmã nutria por seu salvador. Era mais que deslumbre, gratidão ou admiração… não se desagradava disso já que Heero havia provado o próprio valor e o dedicado irmão então finalmente poderia ter a certeza de que sua querida irmãzinha estaria segura. Se fosse para dá-la a alguém, que fosse àquele que ela desejasse e por quem era desejada.
_Eu estou tão feliz… –ela sussurrou, não afastava os olhos do rosto de Heero. Dormindo ali, ele parecia tão sereno e brando. Os músculos de sua face perderam a severidade usual e seu cenho estava livre de tensão, feito o de um garotinho. Relena só conseguia sorrir o tempo todo, e por mais que falasse que estava feliz aquela palavra jamais transmitiria a natureza exata de suas emoções. Procurou o irmão no cômodo e também riu para ele.
_E quem é você? –Wenda, ainda ali, olhou bem para a face da menina e inquiriu, encafifada.
_Sou a noiva do barão. Eu o estive esperando aqui por tanto tempo… –e Relena se perdia em suas palavras, sendo arrastada como que por ondas para longe, acertada pelos fatos que só ela conhecia.
Wenda assentiu, meditativa. Não sabia onde foram parar todos aqueles detalhes em sua cabeça.
A noite terminou com o cocheiro indo buscar o médico na aldeia vizinha e com Wenda levando Relena para seu quarto cor-de-rosa. Zechs gerenciava tudo na ausência de seu patrão.
Heero abriu seus olhos dois dias depois e ergueu-se da cama de pronto, procurando pelo barão e por Relena, chamando-a.
_Estou aqui… –a resposta que obteve foi um sopro de brisa que veio brincar em seus ouvidos. –Está tudo bem.
Atordoado, por mais que tenha olhado os lados, não tinha se dado conta de onde estava. Sua mente acelerada seguiu exatamente da onde havia parado e não se permitiu cuidadosamente considerar a situação real, inadvertida e inconsequente, tamanho era o zelo que o rapaz pusera em completar sua tarefa. Tanto que encarou com estranheza o vulto brilhante que devagar deixou o livrinho de lado para achegar-se e sentar-se com ele.
_Heero… –Relena não cansava-se de dizer o nome dele. Sorriu com os olhos cintilantes e mordeu o lábio inferior.
Colocando-se em uma posição mais confortável, Heero respirou fundo. Enviou para ela seu olhar mais perscrutador e absorvente. E embora jamais desejasse deixar de olhá-la, estudou seu arredor uma segunda e mais cuidadosa vez, reconhecendo o quarto do barão. Estivera trabalhando ali, meses antes. E ainda não queria saber o que houvera em sua ausência. Só precisava desfrutar daquele grande alívio de que tudo terminara do jeito que devia.
Relena tomou a mão dele e levou à própria face, amorosa.
_Senti sua falta… –confessou, marota, seu riso permanentemente bordado em sua face. –Não acha que dormiu demais?
Ele esboçou um sorriso e meneou a cabeça. Era maravilhoso enfim poder ter as palavras dela.
_Você está bem?
_Melhor agora. –e soltou a mão dele que agora acariciava seu rosto por vontade própria. –Muito obrigada.
Ele rejeitou o agradecimento meneando a cabeça gravemente, os olhos de novo daquela firmeza e dureza as quais Relena se afeiçoara.
Ele somente fizera seu dever. O que Relena precisava feito por ela não podia ser encarado como um favor, como algo descomprometido e voluntário, cujo risco de falha ou abandono fosse considerado. A partir do momento em que Heero escolheu fazer contato com ela, assumiu a liberdade dela como uma obrigação que não admitia desistência. Não considerava custo. De que modo poderia colocar um valor na alforria dela ainda mais quando aprendera a amá-la tanto?
A gratidão dela era linda, laurel desejável para sua cabeça, mas ele recusava. Preferia muito mais o galardão de tê-la junto de si e o prêmio de vê-la fora daquela masmorra. A possibilidade de ela mostrar sua personalidade integralmente justificava toda a luta que ele travou. Levar alguém a plena liberdade também era libertador. Punha-se tão satisfeito, tão orgulhoso de si!
Trazendo a face para perto da dela, Heero tomou os lábios dela com os dele movido por um sentimento puro tanto em seu ardor quanto em sua existência, tão nobre, tão bom e tão precioso que se equiparia ao melhor dos ouros. Exultando, ela retribuiu sem reserva alguma, pressurosa, mais que pronta.
A partir daquele segundo, apenas queriam ser felizes. Apenas realizariam sonhos e desejos bons. Compensariam toda a perversidade que construíra aquela fortuna por serem generosos, justos e sábios, aprendendo com os erros do passado. Nada naquele castelo os mistificava. Os dois se tornaram os conhecedores de todos os segredos daquele lugar e, por sua vez, também seus guardadores fiéis. Continham-nos para si, escolhiam os que mereciam ser lembrados e descartavam facilmente os que só sugeriam tristeza, largando-os fundo no baú do olvido.
As lendas dos mistérios vivos naquele castelo seguiram sustentadas pelos aldeões que, depois de assistirem o mais formidável casamento que já se deu naquele país, adicionaram novas fábulas para o repertório do folclore local de modo a celebrar e aumentar desavergonhadamente a beleza, o amor, a juventude e a bondade do barão e sua baronesa e de quão longos e prósperos foram seus anos.
E jamais seriam capazes de imaginar que assombrosos contos o solitário castelo sentinela ofereceria se também pudesse falar. Contudo, suas paredes seriam sempre sólidas cúmplices de seus ilustres e queridos habitantes.
O primeiro conto dessa série chegou ao seu esperado final!
Espero que gostem dele da mesma maneira que eu gosto!
O próximo conto é estrelado por Duo e Akane, minha personagem original.
Por enquanto, estou no aguardo de seus comentários. :D
Muito obrigada por sua atenção!
Até semana que vem,
XOXO
04.12.2012
