O que tinha se tornado? Certamente já não era a mesma sombra que costumava ser. Não. Seria necessário ignorar uma infinidade de erros se quisesse voltar a possuir aquele título.

A cabeça baixa lhe possibilitava ver os vultos luminosos lá embaixo. Tinha, mais uma vez, se escondido naquele lugar, preso em sua atmosfera reconfortante os lugares mais altos podiam oferecer. Fechou os olhos, por um momento as memórias se tornaram muito intensas.

Não queria se lembrar. Fora atormentado por todos os dias desde que abandonara sua missão.

_ Você tem uma escolha.

_ Não.

Ninguém soube dizer se Maglor estava afirmando uma escolha ou respondendo á fala de Eonwë. Era sempre difícil compreender suas palavras, por isso não foi com grande surpresa que constataram sua partida do acampamento valinoriano.

Maglor tinha simplesmente sumido.

Não, não gostava de se lembrar e não podia impedir a angústia que o afligia. Não queria. Seus tormentos eram o que ligava sua vida antiga á sua nova realidade.

Com um suspiro, Maglor se afastou das bordas do prédio. O lugar era céu e inferno. Encontrara-o por acaso, em uma de suas andanças noturnas, a cabeça cheia demais para dormir. Andara sem rumo por um tempo até que se viu em frente á grande porta de madeira escura. O Salão de Mandos. Não parecia apropriado para o lugar, rodeado por estabelecimentos duvidosos freqüentados por gente mais do que duvidosa.

Porém, nunca conseguiu entrar e seu conhecimento se limitava a área externa. Quando era acometido pela necessidade de lembrar, subia os frágeis andaimes da lateral e fazia do telhado seu porto de escape. Ficava lá em cima até o ponto em que suas lembranças lhe eram demais, atingindo o limite que sua alma lhe impusera.

Já era o bastante.

Estava lá a horas e se sentia cada vez mais esgotado. Foi em direção aos andaimes e fez a descida vagarosamente. Ao chegar ao solo ia continuar sua caminhada, mas algo lhe chamou a atenção. A porta do hotel se abriu pela primeira vez. Viu primeiro o papel de parede ricamente desenhado em dourado em um fundo preto e o carpete de um vermelho rico não lhe surpreenderam. O interior se mostrou digno da fachada do hotel e, definitivamente, elegante demais para a vizinhança.

No entanto, o que mais o intrigou foi a figura que abrira a porta. Era moreno, alto e pálido, usava dreads muitos longos que chegavam a sua cintura. Usava roupas que definitivamente não lhe pertenciam pois a camisa lhe chegava quase aos joelhos e a barra da calça fora enrolada várias vezes para que lhe permitisse andar sem o risco de pisar nela.

O homem se abaixou ignorante da presença de Maglor, pegando o jornal que fora deixado aquela manhã á porta do hotel. Olhou para a página principal e um suspiro cansado escapou seus lábios. Já ia fechando a grande porta de madeira quando ouviu a voz de seu observador.

- Findekáno?