Estava escuro, frio e molhado, com uma neblina que a impedia de identificar ao certo onde estava. Levantou-se do chão confusa, encarando seu reflexo em um espelho à sua frente, igual ao que tinha aparecido quando deixou-se levar pelo Lado Negro, não distinguindo a pessoa no reflexo. Não trajava as roupas usuais. Ao invés disso, usava um vestido branco longo, marcando a cintura fina e um pequeno decote no colo, folgado na parte de baixo.

Quem era aquela pessoa? Não podia ser ela.

Descrente, tocou os lábios rosados, as bochechas e o pescoço fino, impressionada com a maciez e o cheiro que emanava, lembrando-se da última vez que havia analisado o próprio reflexo. Os anos como catadora de lixo não permitiram que fosse muito vaidosa, embora tivesse tido algumas oportunidades de roubar ou trocar algumas sucatas por "coisas de mulher", aprendendo a usá-las ao espionar as mulheres de uma casa de banho se arrumando quando era adolescente. Com o passar dos anos, foi ficando cada vez mais difícil roubar ou comprar essas besteiras, limitando-se apenas a focar na higiene básica. Odiava pelos ou sentir-se suja. Ás vezes até deixava de comer para poder comprar sabonetes, sendo a melhor hora do dia a que se banhava, sentindo com deleite a água lavar a sujeira daquele planeta solitário.

De vez em quando, imaginava que a água lavava seu passado, fantasiando que quando saísse daquele pequeno banheiro, encontraria os pais esperando por ela na porta, com presentes e sorrisos no rosto, pedindo perdão pelo tempo perdido.

Lágrimas e perdão.

Sorrisos e explicações.

Abraços e carinhos...

Quando acabava o banho, fitava-se no espelho sujo e velho que guardava com tanto cuidado, encarando a realidade de sempre.

Solidão.

Através do reflexo examinava o corpo e o rosto, tentando distrair-se da dor contando as sardas que salpicavam as bochechas e o nariz fino. Em um planeta tão quente, era difícil ficar coberta o tempo todo para proteger-se e ela já tinha se acostumado. Até gostava. Era sinal de que não havia desistido, sinal de que não tinha ficado parada enquanto esperava. Reacendendo a pequena chama de esperança, sorria para o espelho, tentando espantar a tristeza e se admirava, sentindo-se bonita de cabelos soltos e, por alguns minutos, livre daquele planeta sujo e daquelas emoções conflitantes.

Contudo, aquela mulher no reflexo não era nem de longe parecida com a garota no espelho sujo em Jakku.

Nunca estivera tão bonita e com a pele tão macia. Riu incrédula para o reflexo, agora olhando o vestido com mais atenção. Passou os dedos pelo tronco, tão branco quanto o vestido. Havia tanto tempo desde a última vez que pôde admirar-se em um espelho que para ela era com se fosse a primeira vez de novo, a memória de Jakku muito distante do presente, aonde apenas preocupava-se em ajudar a Resistência.

"Você precisa de um tempo para si mesma. E eu não estou falando de treinamento querida."

A frase de Léia ressonando pelos pensamentos. Talvez ela devesse mesmo.

Estava tão esgotada...

Desceu os dedos pelo decote, parando entre o vale dos seios, enrubescendo ao notar que não usava nada por baixo, marcando o contorno dos seios e mamilos. Tocou-os por cima do tecido, sentindo o rosto corado e quente em um misto de curiosidade e vergonha. O coração bateu mais rápido, sentindo aquele mesmo torpor do dia anterior tomar conta do corpo... Dessa vez não demorou para abraçar aquela sensação, tão intoxicante que automaticamente fechou os olhos.

Sentiu uma pressão sob a mão que tocava o seio direito, como se alguém estivesse apertando suavemente aquele ponto. Suspirou baixinho, o aperto tão suave e devagar que chegava a ser tortura. Gemeu baixo quando o aperto tornou-se mais forte, cobrindo todo o seio, agora sensível.

Sem aviso, visões de diferentes momentos invadiram sua mente.

Ela nua, com os seios balançando, jogando a cabeça para trás em êxtase, gemendo alto e corada, enquanto o corpo subia e descia devagar ao passo que duas mãos seguravam possessivamente os quadris, marcando os dedos na carne macia.

Tão familiar.

Sentiu a pressão de algo quente entre as pernas, como se tivesse sido invadida.

Rebolava deliciosamente, agora a imagem explícita e nítida de um membro a invadindo.

Mortificada de vergonha, virou a cabeça para o lado, fugindo daquela visão, sem sucesso. As imagens continuavam passando e as sensações também. Colocou a mão na barriga e apertou a outra no rosto com força, respirando com dificuldade e odiando estar à mercê daquela visão tão obscena, as bochechas quentes e vermelhas pela vergonha. Tentou ver o rosto e o corpo do desconhecido, mas as imagens eram apenas borrões.

Conforme os flashes passavam, ela tornava-se muito consciente das sensações no próprio corpo e o torpor que a invadia. A imagem mudou e agora estava deitada em uma cama, arqueando as costas enquanto gemia baixo e agarrava os lençóis com força, os seios livres e rosados com pequenas marcas de mão e mordidas, junto com um borrão entre as pernas.

Arregalou os olhos enrubescida.

Poderia ficar pior?

Como se o destino tivesse escutado, sentiu uma língua quente e experiente na intimidade, revirando os olhos em êxtase, gemendo inconscientemente, o punho fechando e o outro agarrando o vestido para aplacar aquela sensação tão real. Forçou-se a abrir os olhos, recriminando-se e sentindo lágrimas no conto dos cílios, tamanha fora a intensidade daquela visão.

Jedis não podiam sentir prazer. Desde sempre foram ensinados a canalizar os desejos e vontades em prol do treinamento, de ser fiel à Força e nada mais. No entanto, aquela pessoa nas visões era ela, sentindo um prazer indescritível, totalmente despida de qualquer vergonha ou arrependimento.

O que aquilo significava?

Era uma visão de um possível futuro ou apenas resquícios do instinto do próprio corpo solitário querendo algo que não poderia ter?

Atordoada, começou a sentir raiva. Raiva de sempre ter perguntas e nenhuma resposta, cansada de correr atrás de uma explicação e encontrar nada além de mais dúvidas.

O ar no ambiente começou a mudar, ficando mais gélido, a sensação de magnetismo agora substituída por mágoa. A dor por ter sido abandonada pelos próprios pais emergindo de um lugar até então desconhecido por ela.

Vendida. Como um objeto qualquer.

Como o nada que ela era.

"Você veio do nada. Você é nada."

A voz grave dele ecoando no vazio daquele lugar, preenchendo o silêncio. A raiva só trazendo as lembranças dolorosas.

"Uma sucateira. Uma catadora de lixo."

- CALA A BOCA! - bradou para o nada, fechando os olhos. Lágrimas grossas escorrendo pelo rosto ao mesmo tempo que fechava os punhos com raiva, os nós dos dedos brancos pela força.

Silêncio.

Quando os abriu novamente, não pôde impedir o grito de horror que escapou da garganta.

Corpos.

Muitos corpos.

Sangue por toda a parte.

Pedaços de cabeças, órgãos e membros espalhados por todo o lugar. O cheiro era horrível. Cheirava a morte.

Aterrorizada, quase tropeçou na barra do vestido, pesado com o sangue grosso e escuro no chão. Levou as mãos à boca para conter outro grito, assustando-se mais ainda ao sentir algo quente e molhado aonde os dedos tocaram. Fitou as mãos, vendo o sangue grosso escorrer entre o pulso e os dedos.

Mais um grito.

Quando virou para o espelho era tudo vermelho. Estava coberta de sangue. Desesperada, tentou inutilmente limpar-se no vestido, gritando aterrorizada.

- SOCORRO!

As lágrimas misturando-se com o sangue à medida que chorava desesperada.

- SOCORRO! P-por... f-favor...

Não tinha mais voz, eram apenas sussurros. As pernas cederam e ela caiu no chão de joelhos, mergulhando as mãos no líquido escarlate, os olhos em choque, murmurando palavras desconexas.

- Minha culpa... É minha culpa...

O corpo tremia violentamente em estado de choque, as lágrimas rolando ao olhar pada o nada.

Kylo estava treinando, liberando a raiva por ainda não ter nenhum sinal da sucateira ou da Resistência. Batia sem piedade nos hologramas, até ouvir um grito horrorizado vindo do fundo de sua mente. Imediatamente, parou a simulação, procurando de onde tinha vindo, indagando-se mentalmente se eram apenas mais fantasmas de seu passado o atormentando novamente. Ouviu de novo, dessa vez mais desesperado que o primeiro. Virou de costas e de repente estava em um lugar esquisito, gelado e com uma leve neblina. De longe conseguiu ver uma silhueta branca no chão, fazendo barulhos inaudíveis no meio daquele lugar estranho. Piscou, acostumando-se a neblina daquele ambiente, reconhecendo. Já estivera lá em sonhos. Andou rápido até o corpo, abaixando-se e tocando o ombro da mulher que tremia. Sentiu a familiar presença que o vinha atormentando e tirando o sono há meses, agora muito mais real e tangível do que na última vez. Virou de frente para a garota, encontrando os olhos petrificados em horror e franziu o cenho.

Ele nunca a tinha visto assim.

- Rey? – chamou-a.

Ela sequer parecia notar a presença dele. Era como se fosse invisível.

- Mortos... estão todos mortos... – falava em um fio de voz, embargada entre soluços. Não olhava para ele, apenas repetia as palavras olhando para o vazio.

Mas que merda estava acontecendo?

Olhou ao redor e não viu nada.

De que diabos ela estava falando?

Colocou as mãos enluvadas nos ombros da garota, apertando suavemente para tirá-la do transe.

- Rey. – falava firme, olhando para o rosto dela.

- Sangue... muito sangue... – murmurava olhando para as mãos trêmulas, as lágrimas molhando as palmas.

Ele não via nada. Levando em consideração o lugar onde estavam, aquilo provavelmente era um sonho ou pesadelo do subconsciente dela, não sendo real. No entanto, o olhar da garota era tão perdido, tão diferente daquele cheio de esperança, que ele começou a sentir um aperto estranho no peito. Como se tivesse algo batendo.

Não.

Foco seu imbecil.

Sacudiu a cabeça, voltando ao semblante impassível de sempre. Tirou as luvas para tentar algo diferente. Entraria na realidade dela e arriscaria entender que merda estava acontecendo. Aquilo já estava passando dos limites, interrompendo seu treino e tirando o foco de seus planos. Ajudaria apenas porque estava querendo livrar-se dela. Sem as luvas, agarrou-a novamente pelos ombros, fechando os olhos, concentrado, procurando por aquela sensação de medo e terror. Quando sentiu a angústia profunda, abriu os olhos, sabendo que estava no pesadelo dela.

Estavam na mesma posição, agora com ele conseguindo ver o sangue no rosto da garota, pingando entre os dedos e sujando aquele vestido tão diferente do que estava acostumado a vê-la. Mirou o chão, sentindo o sangue quente através da calça negra que trajava. Pelo canto dos olhos, viu vários corpos desfigurados, pedaços de membros e orgãos cercarem os dois, com o líquido escarlate brilhando. O cheiro de podridão e putrefação embrulhando o estômago do cavalheiro.

Uma verdadeira carnificina.

Ele nunca tinha visto uma cena parecida, não com tanto sangue e tanta gente morta. Normalmente não precisava perder tempo com essas coisas, só dando as ordens e os Stormtroopers se encarregando de fazer o trabalho sujo, uma contradição para um cavalheiro tão temido como ele, com tantas estórias de morte e sangue nas costas.

Subitamente, uma batida descompassada ecoou pelo vazio daquele ambiente. Sons de um coração batendo pesadamente encheram o espaço. Presumiu que vinha dela, ainda tremendo violentamente. Olhava aquela cena atentamente, o rosto impossível de decifrar mas o peito ardendo com algo que vinha sufocando no fundo da alma corrompida desde que havia se transformado em Kylo Ren. Foi quando se deu conta que as batidas vinham do torso dele.

Culpa.

Desde a morte de Han Solo vinha tendo recaídas patéticas, aprisionando-as nas entranhas da consciência que ainda possuía. Forçava-se a sentir ódio, raiva, ao invés de remorso por um homem que nunca foi nada para ele, assim como Rey.

Nada. Repetia para si mesmo.

Estava interessado apenas no que o poder dela poderia beneficiá-lo e era por isso que estava ajudando-a naquele momento. Ele só queria que ela parasse de foder com a mente dele. Parasse de chamá-lo em sonhos. E claro, também estava irritado por ser interrompido o tempo todo. Concentrou-se no ódio, no vazio.

Não se importava. Continuava repetindo para si mesmo.

Apertou os ombros da garota mais forte dessa vez, chamando a atenção dela, o semblante impassível.

- Rey, eu preciso que você acorde. – a voz grave, como uma ordem.

Não tinha piedade dela. Não sentia nada. Continuava afirmando mentalmente.

Finalmente, ela olhou desnorteada para ele, os olhos suplicantes, o rosto sujo de sangue seco.

- É muito sangue... m-minha culpa... – o fitava petrificada, tocando o peito desnudo do cavalheiro e marcando com sangue, querendo alguma coisa para segurar-se. Ren retraiu o corpo ao sentir o toque gélido, diferente do calor que ela normalmente exalava. Estava perdendo a paciência.

- Eu os matei... – balançava a cabeça como se estivesse afirmando algo, um sorriso aflito e insano desenhado nos lábios dela, totalmente fora da realidade. Aquele olhar desarmando aos poucos os muros de ódio que tentava manter.

Ela definitivamente não estava bem.

Pegou a mão que tocava o peito de súbito, puxando- a para perto dele.

- Rey, me escute. Você não matou ninguém. Isso é um pesadelo, nada disso é real. Eu preciso que você acorde. – a fitava sério, atraindo enfim a atenção da garota.

- Ben... – por um momento perdeu-se naqueles olhos mel, notando pela primeira vez o verde na íris. Nunca havia estado tão próxima dela, a respiração gelada fazendo cócegas em seu rosto. Não era a primeira vez que o chamava assim, mas toda vez ele sentia-se afetado.

- Eu os matei Ben... – falava baixo e devagar. Ren franziu o cenho nervoso, impaciente.

- Rey porra! Isso é um pesadelo, eu preciso que você acorde agora! – sacudiu o corpo frágil da garota.

- E agora você me matou. – riu para ele, os dentes sujos de sangue.

O quê? Mas que merd...

Sem aviso, um sabre vermelho ultrapassou o estômago da garota, dois gritos ecoando no ambiente, um de dor e outro de surpresa.

- REY!

Desesperado, assistiu o sabre desaparecer, jorrando sangue pelo buraco no corpo mole da Jedi. Tentava tapar a fenda com as mãos, alucinado, sem sucesso.

Não.

NÃO...

NÃO!

Agora era ele que estava com semblante louco, os olhos injetados conforme sentia a energia vital dela se esvaindo.

Rey caiu nos braços dele, molhando o tronco e a cintura com o sangue escuro. Segurou-a pela nuca, assistindo o filete de sangue escorrer pelo canto dos lábios, ao passo que ela o olhava de olhos semi-cerrados, o rosto estampando dor.

- Rey, presta atenção! Olha para mim. Você vai ficar bem. Aguenta um pouco, eu não vou te deixar morrer. Você é forte... Só escuta a minha voz. – a voz rouca recheada de aflição.

Ela cuspia sangue.

- Vo-você... m-me ma-matou Ben... – tossiu sangue, salpicando o rosto dele. – Por quê? – a voz esganiçada, o sangue impedindo-a de respirar corretamente.

Segurou o rosto dela, o semblante desesperado e confuso conforme uma única lágrima rolava pela cicatriz no rosto.

- Do quê está falando? – era uma voz tão suplicante que ele mesmo não reconheceu.

Em um último movimento, a garota passou os dedos pelo rosto dele, fechando os olhos e deixando o braço cair, o corpo sem vida. Abraçou-a fortemente, enterrando o rosto no pescoço dela, memorizando o cheiro ao massagear os cabelos, balançando o corpo como se estivesse aninhando-a. Levantou a cabeça para olhar o rosto pálido e inerte, as lágrimas rolando agora sem controle daquele face antes tão cheia de ódio.

- Acorda. Vamos, acorda. Acorda! – gritava, os olhos consternados e vidrados ao sacudi-la, totalmente exaltado.

Ela não vai voltar mais...

Ouviu uma risada cruel ecoar pelo nada, sentindo a morte atrás de si. Aquela tão conhecida voz, aquela presença que alimentava a doença no espírito dele.

Esse é o seu destino, cavalheiro de Ren.

Depois disso não ouviu ou sentiu mais nada, além da lâmina vermelha cortando-lhe a garganta e por fim a cabeça, como em todos os pesadelos que tinha. A risada sórdida reverberando.

Morte.