Capítulo Um.
Quatro anos depois.
Nova Iorque.
- Por aqui, Srta. Swan. – disse Amun Kaber, meu corretor e basicamente o único homem que tenho visto nas últimas duas semanas. – Acho que esse é o último. – ele sorriu e não resisti, sorri também. É impossível não corresponder seus sorrisos. No começo foi meio irritante, depois aprendi e entendi que ele é alegre sempre.
- Está acabando suas opções? – perguntei seguindo-o para dentro do elevador antigo, cheio de grades e cheiro de graxa. – Eu lhe avisei que sou uma mulher exigente.
- Se eu consegui convencer a minha esposa a se casar comigo, consigo te convencer por esse apartamento. – piscou e saímos no segundo andar.
- Uma cobertura?
- Totalmente solitária. Só há um apartamento neste lugar.
- Considerando que não parece um prédio residencial. – murmurei e paramos na porta, ele abriu e entrei, olhando ao redor. – Imenso e sem vizinhos. – completei gostando do ambiente.
- Eu sei que é só para você, mas, pense bem. A sala é composta de três ambientes ideais. Televisão, sofá, mesinha de centro, mesinha do lado...
- Não sabia que era decorador também. – murmurei interrompendo seu discurso e fui até a janela. – É uma linda visão aqui de cima. – observei a pracinha, telhado dos vizinhos. – O que há com esse lugar?
- Aqui é uma antiga estação de cartas. – respondeu e olhei para baixo. Gostei do piso.
- O espaço debaixo também é meu? – perguntei curiosamente. Amun assentiu. – Dentro do meu orçamento? – perguntei olhando-o e ele assentiu novamente. – Vou ficar.
- E você nem viu o segundo andar. – piscou e passamos pela cozinha bem espaçosa, um banheiro com uma banheira antiga, subimos uma escadinha e havia um quartinho que imaginei como closet, outra sala que poderia ser meu escritório e um quarto amplo com banheiro e grandes janelas de vidro. – Foi reformado para parecer um apartamento, esse banheiro é uma adição nova e toda encanação, aquecedor e ar condicionado são novos. E ah, as tomadas também.
- Tudo bem. Gostei. – sorri e virei para ele. – Quando podemos fechar negócio para que eu possa receber as chaves? – perguntei e ele sorriu.
Descemos e assinei o contrato no balcão da minha nova cozinha, liguei o computador e fiz a transferência do dinheiro, executando a compra conforme o combinado. Recebi as muitas papeladas, li com calma, Amun tirou minhas dúvidas, separou o que era meu e o que era da imobiliária.
- Bem vinda a Nova Iorque, Bella. – Amun sorriu e revirei os olhos, sorrindo de volta. – Sei que ainda está sozinha aqui, esse é meu número particular. Kebi e eu insistimos que nos procure se precisar de qualquer coisa. – disse e peguei, sentindo uma pontada no meu coração que esse casal que pouco conheço, receberam-me de braços abertos quando entrei em sua simples imobiliária duas semanas atrás e mergulharam na missão de me ajudar com um novo lar.
- Obrigada, de coração. – sussurrei realmente feliz. Ele piscou e estendeu a mão com a chave.
Assim que ele me entregou as chaves e me deixou sozinha na minha nova casa, fiquei parada com as mãos enfiadas no bolso do meu casaco. Olhei ao redor e me convenci de que ali era o meu mais novo lar. Andei até a janela e tirei meu celular do bolso, discando para Charlie.
- Comprei um novo lugar. – anunciei e ele suspirou aliviado. – Nada mais de hotéis e agora vou sair para comprar móveis, televisão, geladeira e comida. Vou tentar fazer tudo ainda hoje, tenho mais quatro dias antes de me apresentar no hospital para o meu primeiro dia.
- Estou feliz e menos preocupado agora. – respondeu e o ouvi contando para Sue, minha madrasta. – Leah desejou boa mudança. - revirei os olhos. Não sou muito próxima à enteada do meu pai e sinto um pouco de receio pelo jeito afetuoso que ela trata a todos. Ela não é minha irmã, por mais que Charlie seja casado com Sue por mais de cinco anos, eu já era uma mulher adulta quando isso aconteceu e não vejo como posso aumentar a minha família. Eu não preciso de irmãos.
Victória já estragou tudo pelo restante.
- Ainda tem o contato daquele seu amigo que tem a empresa de segurança? Quero a instalação dos alarmes o quanto antes. – respondi mudando de assunto. – Me envie por mensagem, tenho que correr se quiser ter móveis agora.
- Tudo bem, me dê notícias, ok?
- Fique tranquilo, pai. Amo você.
- Também te amo. – suspirei com saudades.
Olhei-me no reflexo da grande janela da sala e me analisei. Sou uma mulher bonita, saudável e me visto bem. Com botas de cano médio, jeans justo, uma blusa branca escondida por baixo do meu grande sobretudo. Meus cabelos estavam presos no alto em um coque bagunçado e alguns fios soltos. Eu posso fazer isso. Sou uma médica bem conceituada, com um excelente currículo, baixa taxa de mortalidade, pesquisas publicadas, artigos científicos reconhecidos e alguns prêmios na estante. Sou o pequeno prodígio da minha cidade e posso enfrentar um hospital-escola em Nova Iorque. Eu posso.
Eu estava em pânico. Mesmo sabendo que tenho muito que ensinar para jovens mentes como eu anos atrás, me sinto a beira do desespero e é sempre assim quando enfrento um mundo desconhecido. O hospital aqui é muito maior que de um dia trabalhei e tem o melhor programa de estudo, inclusive um dos quais meu pai ofereceu pagar durante meus estudos, mas não me dispus a deixar James e Seattle. Sou grata pelo suporte financeiro que meu pai me deu, livrando-me dos empréstimos estudantis. Vou dar o meu melhor por Charlie, que nunca me deixou sozinha na vida.
Eu posso fazer isso e vou conseguir.
Peguei a minha bolsa e desci, trancando o grande portão para rua, seguindo pela calçada com minhas mãos escondidas no bolso, olhando para frente e pronta para deixar aquele apartamento perfeito para moradia. Passei por uma empresa de limpeza e contratei o pacote de limpeza porque definitivamente não sou boa com serviços domésticos. Entreguei a chave sem medo, porque ainda não havia nada lá que pudessem roubar e peguei meu comprovante, perguntando a direção para uma loja de móveis ou shopping. Com as coordenadas, atravessei algumas ruas e entrei no grande Shopping Center.
Evito fazer compras. É quase um trauma da minha infância e adolescência. Minha mãe nunca foi uma mulher fácil de lidar porque sempre a achei fútil demais. Seu marido, Phil, é um ex-jogador de beisebol falido e atualmente vendedor de carros. Eles vivem em Jacksonville e não sei detalhes, há alguns anos que evito ter longas conversas com Renée. Ela é uma completa estranha para mim agora. Nunca fui o seu tipo de filha perfeita e Victória é tudo que pediu a Deus. Estou bem hoje em dia, isso já me doeu muito, mas aprendi que tenho Charlie e ele é tudo que preciso, mesmo com as adições da família da sua esposa.
- Posso ajudá-la? – uma jovem senhora com o uniforme da loja me abordou quando finalmente escolhi o tipo de sofá que eu queria. Sentei nele e sorri para ela. – É o mais confortável que temos e ele vira cama puxando o assento para frente. Tem a opção de puxar os três ou um só. O encosto reclina um pouco. – completou e fez em um lado. Experimentei e gostei. Raramente estou em casa e, muitas vezes, chego cansada demais para chegar até o quarto. É bom que meu sofá seja extremamente confortável.
- Vou levar o conjunto. – disse e ela sorriu. – Quero ver suas opções de móveis brancos para sala, cozinha, banheiro, escritório e quarto. – sorri de volta, ganhando um aceno.
Consegui encontrar todas as coisas do meu gosto e como era cedo, eles podiam entregar no final da tarde. Paguei minha compra e entreguei meu cartão para que pudessem me ligar se tivessem algum problema.
- Foi um prazer, Dra. Isabella. – a vendedora, Lila, sorriu e me entregou os contratos e recibos.
Saí da loja entrando em uma de utensílios do lar. Pedi a vendedora uma lista básica de tudo que é preciso ter dentro de uma cozinha e ela me seguiu enquanto escolhia tudo em tons bambu, preto e vermelho. Comprei talheres, pratos, toalhas, roupas de cama, toalhas de mesa, porta copos, luvas e aventais. Segui a lista por completo e pedi que entregassem também. Encontrei uma loja que vendia cabides e araras e depois que eu tinha mais coisas para entregar do que o previsto, entrei na loja de eletrodomésticos e finalizei minhas compras básicas com geladeira, fogão, forno, micro-ondas, maquina de waffles, sanduicheira e a melhor cafeteira que foi indicada. Até provei um pouco do expresso que ela é capaz de preparar.
Meu banco enviou uma mensagem informando o saldo disponível do dia e sorri, porque logo eles iriam me bloquear. Antes de fazer todas essas compras bem caras, solicitei um saldo alto para fazer no dia, porque eu estava disposta a fechar contrato com o apartamento que me fosse oferecido por não aguentar mais ficar no hotel. Passei por uma loja de decoração, inspirada, comprei vários itens legais, fofos e outros que poderia espalhar pela casa. Saí da loja cheia de sacolas e entrei no meu hotel, informando que iria encerrar minha conta e paguei, subindo rapidamente para colocar o que faltava dentro das minhas muitas malas.
Não olhei para trás quando fechei a porta com minhas cinco malas de roupa e o rapaz empurrando o carrinho para mim. O táxi parou na empresa de limpeza, peguei a chave e devolvi o recibo, seguindo para minha nova casa com um caminhão de entrega já me esperando. Foi uma confusão no começo, mas todo mundo conseguiu um consenso na hora de carregar e a parte boa de morar em um antigo correio é que tinha escada e elevador.
- Vocês são os últimos? – perguntei ao observar os rapazes instalarem os móveis na parede, por insistência minha em um serviço extra. Já que a minha entrega era a última, ofereci uma boa quantia para montarem tudo pra mim. Havia dois na cozinha instalando na parede e olhando a planta hidráulica que recebi hoje cedo junto com o contrato.
- Móveis de cima montados. – desceu um rapaz e eu sorri agradecendo que ele tivesse começado os da sala para montar. Empurrei o sofá para o lugar que eu queria e fui organizando conforme eles terminavam.
Quando todos os móveis foram montados, tirei a quantia combinada da minha bolsa e me despedi deles, pedindo desculpas por não ter nem água para oferecer. Terminei de colocar os moveis no lugar e percebi que ainda tinha forças para enfrentar o mercado. Peguei minha bolsa e saí rapidamente, baixando da internet uma lista de coisas. Acabei enchendo dois carrinhos, comprando de vassoura e rodo a saladas e várias comidinhas integrais congeladas. Fechei o portão debaixo quando terminei de subir com as compras e meio apavorada de estar sozinha em uma cidade imensa, sem vizinhos e sem ninguém para me ouvir caso gritasse, atravessei uma madeira nas fechaduras e empurrei um carrinho enferrujado que estava na parte debaixo até o portão para bloquear a abertura.
- Ok. Agora é só colocar tudo no lugar.
Tirei meu casaco, a bota e comecei pela cozinha, limpando o que foi sujo durante a colocação dos móveis, guardando as compras no armário, limpei o balcão e espalhei tudo que era de geladeira enquanto a limpava por dentro, organizando tudo certinho para nada ficar caído em cima das coisas. Depois que encerrei com a cozinha, coloquei água para esquentar na minha nova panela, joguei legumes na redinha e deixei ali para cozinhar a vapor. Temperei um bife de frango e segui para sala, arrumando a disposição da sala conforme a televisão que foi colocada na parede ao lado da porta.
Quase quebrei o vidro da mesa colocando no apoio e suspirei aliviada que ele era mais resistente do que pensei. Tirei os plásticos das cadeiras e arrumei. Corri para uma das sacolas e peguei o vaso de flor, colocando no centro. Um canto ficou bem vazio, então, empurrei uma das poltronas, coloquei a mesinha de lado do sofá ali. Botei o aparador de velas, com as velas de baunilha, era próxima a janela, eu poderia tomar chá e olhar a movimentação da rua. Reparei que me esqueci de comprar cortinas. Tirei meu celular e enquanto comia, observei a sala e fiz uma lista de coisas que ainda faltava comprar. As paredes estavam bem vazias. Lavei a louça, deixei secando e soltei os tapetes, limpando a bagunça de caixas e isopor, jogando tudo pela escada que dava para o andar debaixo.
Subi com as malas para o quarto que seria meu closet, deixei todas ali dentro, empurrei as araras e fiquei admirada com o trabalho bem feito dos gaveteiros colocados no canto. Imaginei uma série de nichos na parede e acrescentei na lista. Os móveis do escritório estavam montados e vazios, fiz a anotação mental de buscar minhas caixas no depósito no dia seguinte e entrei no meu quarto. A cama estava montada e havia dois criados mudos com gavetas nos cantos, no mais, achei bem nu. Cansada demais para continuar, abri a mala com toalha limpa e roupas de dormir, meus produtos íntimos e roupas íntimas. Tomei banho, coloquei um pijama confortável e forrei a cama, tirando os travesseiros dos plásticos. Coloquei meu telefone para carregar e já eram três horas da manhã. Fechei os olhos e apaguei.
Acordei cedo, porque o sol estava por todo lado. Até estava suada. Eu realmente precisava resolver a questão das cortinas antes de anoitecer. Levantei ainda cansada, mas disposta a deixar a casa em perfeito estado porque depois que começasse a trabalhar, não teria mais tempo e ela nunca ficaria pronta, tomei banho, desci e comi algumas frutas, torradas e café. Escolhi jeans, tênis e camiseta. O dia parecia quente. Ontem estava nublado e chuvoso. Escovei meu cabelo e passei uma maquiagem para não assustar as pessoas que encontraria no caminho. Fui a pé para o mesmo shopping do dia anterior e comprei todos os itens da lista que reparei que ainda estavam faltando. Marquei o horário do fim da tarde para os móveis, carreguei as muitas sacolas com quadros, cortinas e blackout. Deixei as sacolas em casa e fui até o depósito, pedindo ajuda ao rapaz da recepção para carregar as caixas até um táxi.
Meu telefone vibrou logo que entrei em casa depois da última caixa carregada com muito esforço. Era minha mãe. Rejeitei a chamada. Subi a escada com meus livros e passei a arrumar meu escritório, colocando meus diplomas na parede, arrumei os livros nas estantes, meus documentos na gaveta da escrivaninha e parei quando meu pai me ligou.
- Oi filha. Não recebi notícias suas hoje.
- Estou na correria para deixar a casa apresentável. – respondi e sentei na minha nova cadeira confortável. – Está quase tudo pronto, assim que pendurar as cortinas, quadros, fotos e os móveis que ainda faltam, te envio as fotos ou podemos fazer um tour no facetime.
- Prefiro um tour quando souber que tem um sistema de alarme eficiente. – retrucou e me contive em revirar os olhos.
- Vou ligar para Aro agora mesmo e marcar uma visita.
- Ok, então eu vou desligar para que possa ligar para ele agora mesmo.
Charlie riu e eu bufei. Liguei para Aro, um amigo do meu pai e ele trabalhava bem perto, o que não era uma surpresa. Levantei da cadeira e olhei pela janela do escritório, observando o hospital que irei trabalhar, do outro lado, na rua dos fundos do meu prédio. Não sei o que tem depois do meu prédio, mas é possível ver o telhado e darei a volta mais tarde para descobrir. Morar tão perto do trabalho nunca é uma boa ideia, porque eu sempre serei a primeira a ser chamada em emergências, mas fiquei com medo de morar tão longe e não me habituar com o trânsito, metrô ou coisa do tipo.
Aro ligou informando que estava no meu portão. Desci e dei um tour com ele pelo andar debaixo, completamente vazio e com um banheiro limpo. Subimos e mostrei o apartamento. Ele estava acompanhado de dois rapazes e ambos me mostraram o melhor sistema de alarme, códigos e interfone, deixando meu portão elétrico se eu quisesse e concordei, fechamos um pacote de preços e eles ficaram de voltar para instalar tudo no dia seguinte bem cedinho. Acompanhei-os até a porta bastante satisfeita e sorri pra mim mesma. Meu pai e seus amigos.
Ninguém além dos mais próximos sabe quem meu pai é. Ele é dono de uma das maiores empresas de segurança particular do país, General do Exército aposentado e meu pai muito protetor. Sou filha única por parte dele e sei que ele não tem idade e nem intenção de ter mais filhos. Já a minha mãe, separou-se do meu pai quando eu tinha três anos de idade e foi viver com Phil, tendo Victória alguns anos mais tarde. Morei com minha mãe até os doze anos de idade e depois pedi para viver com meu pai, sendo uma criança mais feliz. Minha infância com a minha mãe não foi fácil e nosso relacionamento ficou tolerável quando eu só tinha que passar os verões com ela.
Meu relacionamento com Victória era bom. E ela... Gosto de fingir que Victória não existe. Não mais.
Resolvi terminar de limpar o escritório, ajeitei-o completamente e saí para comprar uma furadeira, ferramentas que toda mulher deve ter em casa. Instalei a máquina de lavar no andar debaixo, perto de uma pia que não era bem um tanque, mas o suficiente para lavar roupas pequenas. Instalei a secadora, arrastei uma tábua para passar ali no canto e deixei o ferro. Seria uma espécie de garagem e lavanderia também. Subi novamente e furei os buracos da cortina, pendurando-a as imensas cortinas brancas na sala, limpei e repeti o mesmo processo onde tinha janela. Pendurei quadros e as minhas fotos criança com meu pai, algumas depois de adulta e uma que estamos dançando em seu casamento com Sue.
Olhei ao redor completamente satisfeita. Recebi os últimos móveis, pendurei sozinha mesmo e arrumei meu armário com minhas roupas. Passei meus jalecos limpos e deixei pendurado no armário, sempre deixo três limpos e quando assinei meu contrato, recebi os jalecos com meu nome e o símbolo do hospital. Com tudo pronto, fui para meu quarto terminar de colar os quadros na parede, espalhei algumas coisas que comprei, como miniaturas dos pontos turísticos mais famosos do mundo, guardei minhas maquiagens e pendurei o espelho na parede, prendendo a luz e limpei o que ficou sujo.
Tomei banho e me joguei na cama, enrolada no roupão. Meus músculos estavam cansados e eu não queria fazer mais nada. Gosto de deixar todas as coisas prontas. Odeio deixar pontas soltas. Peguei meu celular e liguei para Jacob, meu amigo de infância e que infelizmente está namorando Leah, a enteada do meu pai. Conversamos um pouco e fiz um tour pelo apartamento, mostrando tudo, ele reclamou que não parecia seguro morar sozinha assim, sem vizinhos, no meio de um centro comercial e lembrei a ele que morava no coração de Manhattan, era muito movimentado. Depois de conversarmos, abri uma garrafa de vinho e fiquei jogada no sofá, olhando para a tevê, sem prestar atenção, até estar bêbada o suficiente para dormir.
De manhã cedo a empresa de segurança chegou e eles ficaram o dia inteiro instalando o sistema de alarme, fazendo vários testes e me ensinando uma série de coisas.
Quando anoiteceu, desci para colocar o lixo. Eu precisava dormir o máximo que pudesse.
- Olá? – uma voz masculina me chamou e virei, confusa. Nos fundos do beco onde eu colocava o lixo. – Amun me contou que se mudou essa semana. – apareceu um homem alto e musculoso. – Sou seu inquilino.
- Oi? – retruquei confusa. Amun realmente deixou passar esse detalhe. Ele se aproximou mais e pude ver seu rosto melhor, ele era bem bonito, com um corte baixo e um sorriso de covinhas.
- Eu alugo o bar, quer dizer, a parte da outra ru meu bar. – disse e estendeu a mão. – Sou Félix.
- Isabella. – retruquei ainda meio receosa. – Esse beco dá na outra rua? – perguntei ciente que seria excelente cortar caminho, mas ele parecia bem escuro. – Tem como iluminar mais aqui?
- Acho que sim. – deu os ombros e olhou para os postes de luz sem lâmpadas.
- Desculpe, Amun não me falou nada sobre inquilinos e acho que vou arrancar o pescoço dele por isso. – disse e ele riu. – Um bar? Caramba.
- É um ambiente bem agradável e frequentado pelas melhores pessoas da região. E não se preocupe, não atraio bêbados idiotas. Temos seguranças também, então, não se preocupe.
- É bom saber, Félix.
- Por que não vem conhecer hoje? – ofereceu e achei uma boa ideia.
- Tudo bem, eu vou trocar de roupa.
- Amor? – uma voz feminina apareceu atrás de nós e ela parecia meio desconfiada quando me viu. – Olá. Sou Jane.
- Isabella.
- Minha esposa. – Félix acrescentou com um sorriso. – Ela está me ajudando essa semana. Querida, ela é a nossa nova locatária. – disse e ela sorriu mais relaxada.
- Kebi falou que você é nova aqui e eu vim aqui ontem, mas não soube como te chamar. Não encontrei campainha. – Jane disse e eu ri.
- Hoje eu tenho interfone! Em todo caso, vou trocar de roupa e encontro vocês lá. – sorri e eles acenaram, animados.
Eu vou matar Amun.
Liguei e ele não atendeu, enviei uma série de carinhas furiosas por mensagem. Inquilinos? Eu não tenho tempo para lidar com inquilinos. Troquei de roupa, soltei meu cabelo e passei uma maquiagem um pouco mais elaborada. Apesar de não ser fã de frequentar bares, gosto de beber e achei uma boa oportunidade fazer amizade com meus inquilinos e que são meus vizinhos mais próximos. Blusa preta justa, que deixava meus seios bem atraentes, jeans e meu Oxford caramelo. Coloquei meus cartões e dinheiro no bolso, com meu celular.
Fiquei apreensiva de passar pelo beco e segui pela rua, dando a volta na próxima esquina. Olhei para o hospital antes de entrar. Jane sorriu pra mim atrás do balcão, tirei meu casaco e pendurei no encosto da cadeira alta e sentei, olhando ao redor. Era um ambiente a meia luz, bem decorado e não estava lotado, mas era preciso procurar alguma mesa vazia. Tinha um grupo ruidoso de homens no fundo, jogando dardos e outros ao redor de uma mesa de sinuca. Jane colocou um copo na minha frente e atendeu outro cliente no fundo do balcão.
Provei e gostei. Uma mistura de soda, limão e vodka com alguma coisa colorida mais doce para quebrar o azedinho. Sempre que era possível, tanto ela quanto Félix vinham conversar comigo. O bar funcionava há quase quatro anos, quase o mesmo tempo que o casamento deles, que namoram desde o colégio. Jane é enfermeira e nos tempos livres ajuda o marido servindo as mesas. Eles eram um casal simpático e quando deu nove da noite, o bar ficou bem cheio. A cadeira ao meu lado foi ocupada e não me preocupei de olhar, distraída com meu celular.
- O que vai querer hoje? – Jane perguntou.
- Uísque. Puro. Duas doses logo. – o homem respondeu e me surpreendi o quanto a sua voz era agradável.
- Dia longo? – ela perguntou com uma risada e serviu duas doses, empurrando o copo em sua direção.
- Não via a hora de acabar. – retrucou e percebi que ele virou na minha direção. Seu rosto era bonito, olhos verdes, mesmo com uma expressão cansada, seus cabelos era uma mistura de castanho com loiro, meio bagunçado. Todo conjunto de nariz, boca, testa e barba para fazer lhe dava o ar de modelo fotográfico meio desleixado. – Olá. É um rosto novo aqui. – disse pra mim e dei um meio sorriso.
- Olá.
Não ofereci nenhuma informação e pedi para Jane me dar mais uma bebida. Ela me deu outro copo e colocou uma cestinha de amendoins japoneses entre nós dois. Peguei alguns e quebrei a casca, comendo apenas a parte de dentro.
- Não quero parecer insistente ou clichê, mas, vem sempre aqui? – perguntou e sorri, porque ele estava pensando em um jeito de chegar em mim. Homens.
- Não. Realmente sou um rosto novo. É a minha primeira vez. – respondi honestamente e comi um pouco mais.
- Edward Masen. E você? – apresentou-se e sorri, apertando sua mão. Não comentei que achava seu nome vagamente familiar. – Sem nome em troca? Vou te chamar de A Garota do Bar?
- Não, obrigado. Sou Isabella.
- Edward, é melhor que você deixe uma boa impressão da cidade para ela. É nova aqui. – Félix deixou outro copo para Edward e eu sorri, sabendo que corei profundamente.
- Nova na cidade? – retrucou e me deu uma olhada que me deixou bem sem graça. – Isso é ótimo. Nasci e fui criado em Nova Iorque. – sorriu e ergui minha sobrancelha. Ele tinha um sotaque nada nova-iorquino. – Tudo bem, talvez seja exagero dizer que morei aqui a minha vida inteira, passei um tempo fora do país, mas ainda sou a melhor pessoa para te indicar lugares que você deve ir e os que deve evitar.
- É mesmo?
- Estou falando sério. Nova Iorque é uma cidade imensa e tem muito que fazer por aqui e tenho certeza que não quer carregar o arrependimento de não ter conhecido a cidade como ela merece. – disse e eu ri, sentindo-me relaxada com a bebida. Não sou de conversar com estranhos, mas ele estava bem inofensivo até o momento, mesmo que parte de mim quisesse que ele não ficasse somente na conversinha fiada. Faz muito tempo que não tenho um contato íntimo com o sexo masculino. Meu último caso foi um amigo colorido, médico e companheiro no meu antigo trabalho. Ele foi chamado novamente para a nova guerra na Síria e não o vejo há meses. Não tive tempo para flertar com ninguém para ter um sexo satisfatório.
Também não costumo transar com caras que conheço em um bar. Nunca fiz isso e não vai ser agora que vou mudar. Como médica, sei dos riscos que uma noite irresponsável pode trazer e não me coloco nessa linha. Mas... Não custa nada dar uma chance hoje.
Edward conseguiu me atrair para uma conversa sobre a cidade, deixando-me completamente hipnotizada pela sua fala mansa. Viramos de frente ao outro e em dado momento me vi com o cabelo todo enrolado, gargalhando com suas piadas prontas. Ele fez um mapa da região, desenhando os melhores restaurantes em um guardanapo e não passou despercebido que anotou seu numero no canto inferior. Não sei mais quantas bebidas tomei. Conversar com ele mudou toda a minha noite. Quando o flerte começou a ficar mais intenso, percebi que o bar estava ainda mais cheio e tinha gente para todo lado. Como Félix e Jane estavam dando conta, não faço ideia, mas isso deu motivo para Edward puxar a minha cadeira mais para frente e nossas pernas estavam se tocando.
Nós não falamos sobre trabalho, nossas vidas particulares, apenas sabia seu nome e os lugares que mais gosta da cidade. Ele não perguntou de onde eu vim, também não ofereci nenhuma informação. Ele era apenas um cara bonito, divertido, que eu podia dar uns beijos antes de ir embora, mas não me senti a vontade em fazer tal coisa em um bar tão cheio e com muita gente que provavelmente frequenta o lugar há muito tempo. Edward já havia parado de beber há muito tempo, parecia sóbrio novamente e quando vi que estava tarde demais, pedi a conta a Jane, que disse que hoje seria por conta da casa já que era a minha primeira vez. Insisti em pagar e ela não deixou. Peguei meu casaco e aproveitei que Edward foi ao banheiro para sair. Eu não queria ser aquela a me despedir. O que iria dizer "Tchau, Edward! Você foi um parceiro de balcão bem legal".
A verdade é que faz muito tempo e me sinto velha para certos tipos de aventuras. Passei o meu primeiro ano de solteira novamente conhecendo todo tipo de cara e todo tipo de babaca, fazendo sexo com todos os namoradinhos que encontrei, mas eu era uma garota recém-divorciada, com o coração partido, com vinte e seis anos e terminando a minha residência enquanto a maioria dos meus colegas eram mais velhos. O fato de ter pulado o ensino médio, me fez ser a jovem cérebro da turma, quando passei a me relacionar com alguns colegas, eles ficaram surpresos ao perceber que não era apenas uma garota pequena e sim uma mulher que também faz sexo.
A madrugada estava fria e senti a parede de gelo conforme saí do bar abafado. Coloquei meu casaco e considerei seriamente cortar caminho pelo beco, porque a rua estava bem deserta, mas não havia como enxergar um palmo a frente do meu nariz e achei que não valia a pena o risco. Enfiei as mãos no meu bolso e andei olhando ao redor, preparada por qualquer movimento estranho, percebendo que meu pai me deixa completamente paranoica.
- Isabella! Ei! – Edward me gritou e virei, ele veio correndo até mim. – Como pode ter ido embora sem se despedir?
- Sinto muito, não sou muito boa com isso. – sorri muito sem graça.
- Não tem problema. – disse e chegou mais perto. – Só não queria que fosse embora sem ter um bom motivo para me ligar.
- O quê? – soltei uma risada.
Segurando meu rosto, ele me beijou e não me senti surpresa, porque eu queria seu beijo desde que passei a maior parte da noite hipnotizada pelos seus lábios. Fazia muito tempo que eu não era beijada com tanto desejo e quando nos separamos, apenas sorrimos e nos beijamos ainda mais.
- Acho que agora tenho um motivo para te ligar. – sussurrei contra seus lábios e ele beijou meu pescoço. – Mas eu tenho que ir. Não quero ficar aqui na esquina e estou congelando.
- Você está esperando algum táxi? – perguntou olhando para rua vazia.
- Não. Moro bem pertinho.
- Ok. Eu vou com você. – disse e fiquei parada. – Vamos?
Era melhor uma companhia que ir sozinha, em compensação, se ele fosse um lunático, saberia meu endereço. Mas eu não posso ter medo, coloquei alarmes por toda casa por causa disso. Virei e segui a rua com ele ao meu lado, mostrando a cafeteria que ele disse que era maravilhosa e o melhor restaurante da cidade na outra esquina. Virei novamente a rua e andamos um pouco. Ele franziu o cenho quando parei e tirei a chave do bolso.
- Você mora aqui? – balancei a cabeça e mordi meu lábio. – Nós poderíamos ter passado pelo beco. – balancei a cabeça de novo e encolhi os ombros.
- Ele é muito escuro. – retruquei e ele chegou bem mais perto. Encostei-me em meu portão, sentindo seu corpo bem próximo ao meu.
- Eu te protegeria. – sussurrou e beijou minha bochecha, descendo para o meu pescoço.
Suas mãos saíram da base comportada da minha cintura para o meu quadril, indo diretamente para minha bunda, me erguendo no seu colo, começando um amasso que eu adoraria ter tido quando adolescente. Esfreguei-me na protuberância do seu jeans, debatendo-me internamente se eu deveria convidá-lo para entrar, afinal de contas, não havia mal nenhum em ter uma noite de sexo quente antes de começar a trabalhar. Não era certo ficar no portão, tarde da noite, como dois adolescentes. Balancei a chave na frente do seu rosto e ele me colocou no chão, virei e ri, sentindo-o completamente colado. Abri e passei minha digital no alarme, subindo a escada aos beijos.
Abri a porta de cima, tirando meu casaco, a blusa, o sutiã e ele foi arrancando suas roupas.
- Vamos subir. Meu quarto é lá em cima. – murmurei contra seus lábios.
- Camisinha. – retrucou e procurou na sua calça, sua carteira e tirou duas camisinhas.
Subimos aos tropeços e beijos, começando uma noite que se eu deixasse passar, iria ficar muito arrependida. Edward me fez tremer e gozar como nunca. Eu me senti tão conectada que com toda certeza não seria apenas uma noite. Eu buscaria por mais.
