A primeira parte termina aqui.
Ainda fiquei pensando se não era melhor eu ter juntado tudo, mas agora que já está postado, vou deixar assim mesmo.
Boa leitura a todos.
Milo saiu do carro enquanto este ainda estava em movimento, dando um susto no outro loiro. Saiu correndo olhando para o relógio. Quase meio-dia, precisava correr. A reunião estava começando nesse exato momento.
.3.
Acho que eu nunca corri tanto em minha vida.
Abandonar o veículo em movimento, deixar Dite preocupado só para entregar uma pasta para Kamus. Ainda não estou acreditando que fiz isso, mas ele precisa tanto dessa pasta.
Subi as escadas correndo. O elevador estava demorando demais. Não estava mais aguentando correr, mas eu precisava correr...
Cheguei à antessala e olhei para a porta de vidro. Kamus estava lá, de costas para mim, tão perfeito. Mas eu não estava vendo a pasta da qual ele tanto precisava.
Eu tinha que entrar, mas não queria estragar a reunião. O que eu iria fazer?
Olhei mais uma vez para o meu ruivo e ele estava andando até bolsa dele, indo pegar a pasta. Eu precisava entrar!
Suspirei e me tomei de coragem. Abri a porta e chamei-o educadamente pelo nome.
"Sr. Lefèvre..." Kamus se virou para mim um pouco atônito demais, um pouco bravo demais e um pouco pálido também. Não saberia definir a exata expressão de Kamus naquela hora. Só sabia que ele estava me fuzilando com aqueles olhos verdes que me diziam para sair daquela sala o mais depressa possível. Engoli em seco. "Achei que fosse precisar dessa pasta que..." E o filho da puta me levanta uma pasta igual a que eu estava segurando. "... que você já tem!" Fiquei sem palavras. As pessoas da sala de reunião estavam me encarando e eu me sentia preso contra o muro.
Suspirei e sorri sem graça encarando aquelas pessoas e olhei novamente para Kamus.
"Bem, queria ter certeza de que tem tudo o que precisa!" E o olhar de Kamus me mandava ficar calado, mas eu precisava fazer alguma coisa, precisava concertar o que eu tinha estragado. Porque eu sei que eu estraguei tudo. Suspirei de novo e olhei para os outros integrantes da reunião. "Porque ele trabalhou muito nesse projeto. Muito mesmo e ele merece que tudo saia perfeito..." Olhei para Kamus para me dar alguma segurança e só pelo olhar dele eu senti medo. Ignorei mais um pouco o olhar dele e me virei de novo para os presentes. "Enfim... É um prazer conhece-los e bem... Kamus... O Sr. Lefèvre, ele é muito bom e o projeto melhor ainda, porque eu fiquei ouvindo horas e horas o discurso e então acho que merece ser aprovado! Bom... Até mais!" Dei meia volta e sai da sala. Meu coração batendo forte contra o peito.
Aquilo era apavorante. Como Kamus consegue trabalhar com pessoas tão sérias?
Não, não e não. Eu não acredito que o Milo fez isso!
Como ele pôde fazer isso comigo? Ouvi-lo entrar intempestivamente e me chamar pelo meu primeiro nome na frente de um grupo que aprovaria ou não o meu projeto apenas para entregar uma pasta, era inaceitável, incrível... Inacreditável. Eu estava sem palavras.
Mas eu tentei mandá-lo embora, por que então ele não foi? Sentia vontade de mata-lo das mais diversas maneiras e à medida que ele foi falando eu imaginava diversas formas de matar bem devagar.
Seria possível que Milo não estivesse vendo que eu o mandava embora, que ele estava estragando tudo? Será que Milo é tão inconsequente assim?
O meu sangue foi subindo e quando eu ia manda-lo embora, ele se virou e fechou a porta. Olhei para as pessoas e não tinha mais nada que falar. Eu já sabia a resposta. Queria apenas ir embora e me trancar em casa com uma garrafa de bebida na mão.
Suspirei e tentei salvar a batalha já perdida.
Cheguei ao carro que estava estacionado na rua. Dite estava me esperando preocupado.
Suspirei e abri a porta do carro. Ele me olhou curioso.
"Ele já tinha uma pasta. Uma pasta igualzinha a esta! Dite, eu nunca mais na vida quero ver essa pasta! Nunca mais. Jogue ela fora, por favor!" Disse entregando a pasta para ele e me afundando no banco do carro.
Dite não falou nada, apenas pegou a pasta deixando no banco de trás do carro e me levou para a escola.
"Mi, quando terminar o seu treino passe no meu ateliê. Terei uma exposição e preciso de você para me ajudar a empacotar os quadros. Depois eu te levo à escola para a apresentação!" Ele parou na porta da escola. Agradeci e fiz que sim com a cabeça.
Eu entrei na sala onde para aqueles alunos seria o último dia de aula, o último dia da relação professor e aluno. Eu precisava me mostrar forte e então eu suspirei. Abri a porta e encontrei-os bagunçando na sala e conversando sobre as sinfonias que tinham escutado e aprendido. A tensão e excitação no ar.
Aquela não era a primeira turma que se formava comigo, mas era a primeira turma que eu peguei desde o comecinho. Fui professor deles desde quando eram iniciantes e agora estavam se formando com louvor. Eram jovens e tinham muitos sonhos pela frente.
"Bom dia!" Sentei-me na mesa do professor e tive a atenção total dos meus alunos. "Agora não temos mais muito que aprendermos, não é mesmo? Afinal vocês já são formandos! Pelo cronograma da escola, vocês ainda teriam mais uma aula comigo, mas o problema é que eu não tenho nada mais a ensinar para vocês, porque tudo o que eu já sabia, eu ensinei. Então eu pensei que não faria mal nós fazermos um pequeno treino antes do grand finale. Que tal?"
A ideia foi muito bem aceita pelos meus alunos e eu não pude deixar de sorrir.
.3.
A reunião estava acabada.
O resultado poderia ter sido pior, pensou. Eles poderiam ter acabado a reunião logo depois que Milo saiu, mas esperaram Kamus apresentar o projeto e educadamente recusaram.
Agora, ao invés de estar comemorando o ganho de mais um projeto, estava num pub com os amigos, comemorando a sua derrota. Fora demitido. Mas ainda havia pequenas empresas em ascensão e seu nome ainda não estava totalmente no lixo.
"Ainda não acredito no que o Milo fez! Vai ver que isso foi alguma vingança particular." Disse Kamus para os amigos que estavam jogando sinuca e bebendo.
"Isso é natural do ser humano. Vingança!" Falou Kanon naturalmente enquanto mirava a bola branca na bola de maior valor. "Merda. Errei!" Gritou bravo.
"Não creio que seja vingança. Apenas acho que ele tentou te ajudar de maneira errada!" Respondeu Aiolia indo atrás da garçonete que os atendeu. "Com licença."
A garçonete o olhou de modo tedioso.
"Notei que trabalha aqui e... Que horas você sai do trabalho?"
"Cai fora!" E saiu pisando duro.
A turma que estava atrás de Aiolia gargalhou.
"Como que você me fala uma coisa dessas? Não Aiolia, assim você envergonha os amigos." Shura disse pegando o taco de sinuca e mirou na bola que Kanon não conseguiu encaçapar. A bola branca voou pelo mau jeito do moreno, bateu no copo de cerveja perto de Kamus e quebrou. "Oh merda, desculpe-me Kamus!"
O ruivo se desviou e sorriu "Sem problemas Shura." Pegou o celular que estava vibrando no bolso de sua calça e viu, pelo visor, que era Milo. Desligou o celular. Precisava ir embora. "Acho que já está na hora de ir. Até mais rapazes!"
"Tchau Kamus!" Respondeu Shura.
Sai do pub um pouco mais feliz, mas ainda estava bravo com Milo. Não queria falar com ele, então andei pelas ruas de Paris como se Paris fosse um lugar a ser visitado e não como um lugar onde eu cresci e moro. Passeei pelas ruas parisienses como um turista e não como um nativo por assim dizer.
Tive tempo de refletir sobre a vida, sobre o meu relacionamento com Milo, sobre a proposta de um novo trabalho. Um novo trabalho é nisso que eu tenho que me concentrar, mas antes eu precisava averiguar algumas coisas antes de me engajar num novo trabalho, com novas perspectivas.
A escolha teria que ser a certa.
Minhas pernas estavam me guiando para uma agência de viagens.
.3.
Passei no ateliê do Dite depois que meus alunos ensaiaram e um pouco mais calmos eles foram voltando para casa para poderem se arrumar para a formatura. Ajudei aquele loiro a escolher os quadros que iriam ser expostos e ele só estava me levando para casa depois de ter implorado muito alegando que eu realmente precisava ir para casa tomar um banho, porque com toda aquela correria de manhã não tinha conseguido tomar uma ducha e precisava estar muito elegante para os formandos.
Ele estava conversando sobre ter conhecido um jovem italiano que posava nu para ganhar a vida em Paris e o quanto ele era bonito e tinha um ar rebelde.
Eu estava olhando pela janela a paisagem quando vi Kamus andando pelas ruas de Paris a esmo. Acho que gritei, não tenho certeza porque de repente Dite me olhou assustado e começou a diminuir a velocidade do carro, acompanhando-o.
Vi-o entrar numa agência de viagens e fiquei feliz. A surpresa. Ele iria para a Grécia!
Fiquei um pouco mais feliz e sorri, e depois que ele entrou na agência Dite acelerou um pouco para poder me levar de volta para casa antes que ficasse tarde e eu não conseguisse tomar o meu tão desejado banho.
Acho que perdi a noção de tempo porque quando sai da agência já era tarde. Não iria conseguir voltar para casa para tomar outro banho. O jeito era ir direto e chegar um pouco mais cedo.
Acenei para um táxi e quando ele parou falei o lugar para qual ele deveria se dirigir.
"Uma escola de música. Sua namorada é musicista?" Perguntou o velho motorista, olhando-me pelo espelho retrovisor e eu apenas acenei com a cabeça.
"Você está com problemas na vida amorosa, não é mesmo?" De novo outra pergunta. Eu o olhei pensando em como responder àquele velho e várias respostas vieram a minha cabeça e eu resolvi ficar com a mais simples.
"Como você sabe?"
"Os taxistas sabem dos problemas como os 'barmen'." Fiquei sem palavras e um pouco incomodado. Ele me olhou novamente pelo espelho retrovisor, só que dessa vez tinha um brilho diferente nos olhos e eu não sabia distinguir o que era. "Então, qual é o seu problema?" Outra pergunta e eu não sabia o porquê de estar respondendo-as. Apenas eu sentia que tinha que responder porque ele daria a resposta para as minhas indagações.
Fui mais para frente e suspirei. 'Qual é o problema?' eu repeti mentalmente a pergunta do velho motorista. Qual era realmente o problema? Eram tantos que eu não conseguia falar e então eu resumi tudo numa única frase. "Eu não consigo fazê-lo feliz"
E então ele me olhou novamente pelo espelho e me deu força de continuar.
"Como... Como posso amá-lo tanto se... Se eu não faço ideia de como amá-lo? Como é possível amar alguém sem saber... Como amar?"
"Bem, então você a ama?"
"Sim. Eu o amo muito. Ele viajará amanhã por duas semanas e quer me levar..."
"E se ele não voltar mais?"
"O que? Como assim?" Essa pergunta me deixou confuso.
"Imagine o seguinte: Amanhã vocês se despedem e ele entra no avião e depois disso você nunca mais o vê. Você poderia viver assim, sem ele?"
Imaginar isso é doloroso. Como posso ficar sem ver o sorriso de Milo toda manhã e fazendo manha de que não quer acordar e que odeia o trabalho dele por fazê-lo acordar cedo? Como irão ficar as noites sem ele me perguntando como foi o meu dia e brincando com meu dedão do pé enquanto faço palavras cruzadas? E quem vai cantar todas as manhãs canções infantis como se tivesse criança em casa? E planejar nosso futuro para daqui a 50 anos, quando estivermos velhinhos. Como vou acalmá-lo quando ele sentir medo vendo filmes de terror igual a uma criança e secar suas lágrimas quando ele estiver se derretendo no sofá vendo filmes de desenho ou romances? Não poderia viver sem aquele loiro.
"Não, lógico que não." Respondi com dor no peito só de imaginar isso.
Ele parou o carro e olhou para mim e só então eu pude vê-lo que ele não era tão velho assim e o olhar dele não era a de um cara que queria ajudar. Era intimidador. "Então aprecie o que tem. Ame-o!"
Me remexi no banco. O olhar dele estava me incomodando. "Faltam mais duas quadras para chegarmos." Falei tentando quebrar a sensação incomoda.
"Você não pode ir de mão vazias!" E com a cabeça ele me apontou a floricultura.
.3.
A noite estava fria e ameaçava chover de novo, tão diferente do céu da manhã.
Estava olhando pela janela o lado de fora da escola, embaçando periodicamente o vidro com a respiração mais forte.
A movimentação dentro da escola era grande. Atores e atrizes indo de um lado para o outro se maquiando e tentando decorar a falas, os musicistas treinando uma última vez num tempo acelerado, os dançarinos ensaiando a dança.
Tudo aconteceria em perfeita harmonia como sempre aconteceu nas formaturas daquela escola. Musicistas, atores e atrizes e dançarinos fariam uma peça juntos e depois cada um com sua peça, seu ato.
Todos os que estavam nos bastidores eram formandos.
Milo suspirou e embaçou o vidro uma última vez. Estava cansado de esperar Kamus atravessar os portões da escola. Resolveu ater sua atenção nos alunos. Precisaria organizá-los e com toda essa tensão seria difícil. Todo mundo queria que esse dia fosse o mais perfeito, não só porque era a formatura deles como teriam olheiros das mais diversas áreas.
Encontrou Afrodite vindo ao seu encontro.
'O que esse maluco faz aqui?' Pensou, sorrindo e foi ao encontro do amigo.
"Mi. Milo!" Dite estava acenando igual um doido, chamando a atenção de todo mundo.
"Diga Dite! O que faz aqui, no meio dessa bagunça?"
"Vim te desejar boa sorte Milo!"
"Não é a mim que você deve desejar isso, mas a todos os formandos." Disse apontando para os grupos de pessoas que conversavam tentando arrumar uma coisa ou outra.
"A você também. Está formando uma turma que é só sua. Então se eles arrasarem isso significa que você, também, arrasou como professor! E pare de ficar preocupado com Kamus, ele virá!"
"Estou ansioso! Ele comprou a passagem para irmos à Grécia juntos. Essa é a surpresa que ele era me fazer!"
"Mi, quero apenas que não sofra com uma decepção! Não fique querendo muito dele, quando você sabe que pode sentir uma dor muito grande. Lembre-se quanto maior a altura, maior o tombo e mais dolorido também!" Aquelas palavras me marcaram e o olhar dele era sério. Mas eu precisava acreditar nisso, eu precisava acreditar que Kamus tinha feito isso por mim, que Kamus estava realmente mudando.
"Acredite em mim, Dite! É isso. Kamus está mudando!" Disse com uma firmeza que não sentia. Disse mais para mim mesmo do que para o Dite.
"Espero meu pequeno anjo! Espero de coração porque você merece!" Ele disse passando a mão carinhosamente pelo meu rosto e depois afastou a franja que cobria os meus olhos e depositou um beijo. "Mi, boa sorte na apresentação. Que seus alunos arrasem, porque você é um ótimo professor, além de ser delicioso. Vou sentar no lugar reservado para mim e estarei te esperando lá fora!"
"Tchau Di. Obrigado por tudo!" Gritei para aquele louco que corria para fora da coxia, indo para o lugar reservado a ele.
A cerimônia de abertura começara.
Os diretores e professores estavam falando ao microfone e depois disso haveria a apresentação dos formandos.
Milo estava em cima do palco quando Kamus chegou ao teatro principal da escola onde lecionava. O loiro soltou o ar preso aos pulmões devagar e sorriu aliviado.
'Ele veio!' pensou feliz enquanto dava o microfone para um outro professor que faria o discurso.
Era um pouco tarde quando a apresentação se findou. Os pais de alunos e familiares estavam saindo pela porta principal, parando para cumprimentar um ou outro professor.
Milo estava conversando com um pai de aluno formando e quando o filho apareceu ele o abraçou e parabenizou o jovem.
"Muito bem Thomas. Você arrasou!"
O rapaz de cabelos castanhos ficou sem graça e sorriu timidamente.
"Foi graças ao senhor, professor." Disse um pouco envergonhado.
"Eu sei. Sou um ótimo professor!" Milo sorriu e acariciou a cabeça de Thomas, bagunçando levemente os cabelos dele.
Kamus, que estava às costas de Milo, andava de um lado para o outro olhando as horas pelo celular. Estava impaciente. Chegou perto do namorado e cochichou que precisavam ir. Um cochicho discreto, mas que não passou despercebido pelos pais do menino e nem pelo próprio Thomas.
Milo olhou seriamente para Kamus e depois olhou para os pais do menino como se pedisse desculpas pela grosseria do mais velho.
"Tudo bem, nós já vamos, né Thomas?" O pai olhou para o filho que acenou positivamente com a cabeça.
.3.
Já estava chovendo quando eles finalmente saíram do teatro. O vento estava mais forte. Ameaçava uma tempestade. E então depois de pedirem um táxi eles chegaram ao restaurante e foram rapidamente conduzidos à mesa reservada.
O garçom trouxe o aperitivo e o cardápio, só se retirando depois da comida pedida.
"Como foi..." O loiro respirou fundo e tomou coragem. "Como foi a reunião?"
"Foi um desastre. Angus e Breno recusaram educadamente o projeto e Dohko me demitiu."
Milo sentiu uma dor no peito. Não queria ter causado tanto estrago na vida profissional do namorado.
"Desculpe-me!" Foi a única coisa que conseguiu dizer.
"Esqueça, já está feito." Disse apertando as têmporas. Previa uma dor de cabeça. Respirou fundo e soltou o ar devagar. "E você? Como passou o dia?"
"Passei um pouco na escola treinando uma última vez com os formandos e depois passei na galeria do Dite. Ele terá uma exposição amanhã." Disse um pouco mais alegre.
"Deve ter sido divertido!" Falei tentando esconder a ironia na minha voz, mas pela cara de Milo devo ter fracassado.
Estava chateado com Kamus. E eu sei que ele estava chateado comigo, mas ele não tem o direito de estar falando desse jeito comigo. Não sei quantas vezes eu suspirei por esse desgraçado hoje, eu apenas sei que suspirei mais uma vez para me acalmar. Eu já não estou mais suportando isso e não quero brigar com ele em público.
Olhei ao redor e vi que as pessoas estavam se dirigindo ao centro do restaurante enquanto um som de blues preenchia o ar.
"Quer dançar Kâ?" Ainda tentei salvar a noite, eu precisava salvar essa noite.
Ouvir o convite me Milo me chamando para dançar me deixou um pouco incrédulo. Eu não dançava e ele devia saber disso. Eu não gosto de dançar, eu não sei dançar.
"Milo, você sabe que eu não danço. O que te passou pela cabeça quando me fez esse convite?" Soou mais grosseiro do que gostaria, mas eu estava no meu limite.
Olhei para baixo. O que estava acontecendo com o Kamus?
O que será que eu fiz de tão errado para ele estar desse jeito? Respirei fundo tentando realmente me acalmar. 'Vamos mudar de assunto' pensei.
"Onde você foi depois da reunião. Te liguei várias vezes e você não atendia!"
Cobrança.
Eu realmente não queria ter essa conversa, então respondi de maneira fria.
"Eu desliguei o celular. Depois do fracasso da reunião eu não queria falar com ninguém. Precisava pensar um pouco."
"Sobre o que?" Perguntou ele, com uma curiosidade no olhar.
"Sobre nós." E vi seus olhos brilhando intensamente. Sabia que ele estava curioso. "Se estamos nos dando bem." E então ele olhou para baixo, mostrando-se decepcionado.
"Milo... Não é isso. Você não entendeu!" Respondi logo.
Como assim? Eu não entendi? Lógico que entendi, entendi perfeitamente. Ele segurou a minha mão e eu o olhei interrogativamente.
"Milo admita que você não teve uma boa manhã e que a reunião foi um fracasso. Pensei no que fazer e conversei com um taxista sobre isso..."
"Um taxista?" Eu perguntei surpreso, incrédulo. Eu não sei. "Conversou sobre a..."
"Eu sei, entendo a sua surpresa. Mas, não sei, foi uma sensação boa. Ele me fez ver que mesmo com esses desentendimentos que nós tivemos hoje de manhã, ainda compartilhamos muitas coisas boas e que apesar de tudo eu adoro você!"
Eu entendia a surpresa de Milo. Não conversava com ninguém sobre os meus problemas pessoais e vem um taxista e me abro, por assim dizer. Até eu estou um pouco confuso com a minha decisão.
Adoro? Como assim 'adoro'?
Dessa vez uma batida do meu coração falhou e faltou chão naquela hora. Se eu não tivesse sentado, teria desabado com aquela declaração.
Como assim ele me adora? Lágrimas vieram ao meu olho, mas eu não iria chorar na frente dele. Eu não podia chorar na frente dele.
Milo estava um pouco estranho.
Ele estava olhando para cima e quando limpei a garganta ele voltou a atenção para minha pessoa.
"Sabe Milo, o que eu quero dizer é que eu quero continuar... Eu realmente quero continuar!"
Eu estava perdido. Olhava para cima e para baixo, para os lados e a cada palavra que Kamus falava cortava mais o meu coração. Minha respiração não estava mais calma e eu já nem mais suspirei tentando controla-la, apenas queria ir embora dali. Respirei fundo uma última vez. Eu tinha que falar as coisas que estavam entaladas dentro de mim, precisava fazer com que aquele ruivo desgraçado soubesse.
"Não, Kamus..." E suspirei profundamente antes de continuar com a frase. Eu precisava de coragem. 'Zeus me dê coragem' eu suplicava mentalmente.
"Não o quê, Milo?" Ele perguntou um pouco confuso.
Porra, será que não estava claro o suficiente para ele. E mais uma vez eu precisei de forças e acalmar a minha respiração.
"Eu não quero continuar! Sabe Kamus, se fosse para ficar aqui, seria por você! Por nós, sem pensar duas vezes. Se pensasse que somos especiais..."
"Mas nós somos!" E naquele momento Kamus pareceu um pouco impaciente, eu não sei. Talvez quisesse que a conversa terminasse logo.
Só precisava um pouco mais de força, só mais um pouco meu Zeus.
"Mesmo Kâ? Porque não parece. Nunca me diz o que pensa ou sente. Nunca me diz nada sobre você. Não quer ver a minha família e se esqueceu da formatura dos meus alunos. Até o Dite lembrava..." Ele ia dizer uma coisa, mas eu o interrompi porque senão eu não conseguiria terminar de falar "... Ele que não tinha nenhuma obrigação Kamus. E não é só hoje, eu sempre tenho que lembrar você das MINHAS coisas importantes, porque senão você se esquece." Parei um pouco para tomar um pouco de ar e limpar a garganta.
'Mais um pouco Zeus, só mais um pouco.' Suplicava mentalmente.
"E você fugiu de um dos meus alunos como se tivesse algo contagioso. Sei que não foi sua intenção, mas Kamus, eu sinto que estou sempre em segundo plano. E isso machuca..." Eu não aguentei mais e as lágrimas começaram a cair. Limpei-as com as costas da mão o mais rápido possível. "... E sabe qual é o pior, Kamus? É que eu estou ficando acostumado com isso."
Eu estava confuso. O que Milo estava querendo dizer com isso?
"Não estou entendendo Milo." E ele me olhou um pouco mais magoado, como se isso fosse possível.
Ele não estava entendendo, e eu sabia disso e ter consciência disso me machucava, me matava.
"Eu sei. E isso me mata!" Minha voz saiu num sussurro inaudível, minha voz estava embargada pelo choro. Respirei fundo. Precisava acabar logo com isso e ir embora. "Sabe Kâ... Se tivesse havido um dia, só um dia, em que nada mais importasse além de nós..."
"Eu adoro você!" Disse ele, como se não estivesse entendendo nada e eu duvidava muito que ele realmente estivesse entendendo. E de novo esse negócio de adorar. Será que ele não entende que eu o amo.
As lágrimas já escapavam da minha face.
"Eu não quero ser adorado Kamus, eu quero ser amado." Já chega, o meu emocional já estava esgotado. Levantei da cadeira e peguei as minhas coisas.
"Onde você vai?" Perguntei assim que ele se levantou da cadeira.
Como assim, para onde eu vou? Kamus é mesmo tão lerdo assim? Será que ele não entendia que acabou tudo entre nós?
"Vou passar a noite na casa do Dite e pela manhã vou ao aeroporto." Mas eu precisava saber e essa era a última vez em que eu o olhava. "Eu vi você numa agência de viagem. Para onde vai?"
"Canadá. Tem um tempo que uma agência me chamou..." Apenas virei as costas para ele e sai enxugando as minhas lágrimas, negando levemente com a minha cabeça, e sai do restaurante. Não queria mais ouvir nada de Kamus e aquilo foi o ponto final. Foi a última punhalada no meu coração.
O que deu em Milo?
Sair sem dizer mais nada. Segui-o para fora do restaurante chamando-o de um modo que chamasse menos atenção.
"Milo... Milo, espere!" Mas ele não me escutava.
Agora a chuva estava mais fina, mas o ar estava mais gelado cortando os pulmões de Milo, o que o fez colocar a mão no peito. Doía muito aquele ar gelado, quase congelado entrando nos seus pulmões, mas doía mais o coração, que estava partido.
Ouvi-lo chamar atrás de si apenas fez com que andasse mais rápido. Uma parte de si queria ouvir o que Kamus tinha a dizer e a outra dizia que se o ouvisse sairia mais machucado ainda.
O táxi estava parado em frente ao restaurante, como se estivesse esperando por ele. Kamus ainda tentou agarrar Milo, mas foi em vão, então impediu que a porta do táxi de fechasse.
"Você não pode fazer isso comigo. Você não pode me deixar, Milo!" O loiro o olhava na direção contrária. Kamus suspirou. "Isso quer dizer que nunca mais. Que nunca mais o verei?"
Milo escutou aquilo e o olhou com os olhos molhados, o soluço tentando escapar pela boca.
"Você vai entrar ou não?" Perguntou o motorista cansado de esperar e Kamus reconheceu a voz. A mesma voz daquele taxista que o conduzira até a escola. Ele precisava olhar naqueles olhos para ter certeza.
Abaixou-se e olhou pelo espelho retrovisor aqueles olhos intimidadores. Eram os mesmo.
Olhar para aqueles olhos me deixou assustado. Como era possível?
"Entrar ou não entrar meu amigo. É só escolher!" Ele disse suavemente.
O relógio do táxi bipou... Era meia noite. Doze horas.
Milo estava cansado de esperar e estava decepcionado. Apenas fechou a porta, que Kamus segurava, violentamente e mandou o táxi seguir.
Os próximos acontecimentos seguiram de modo lento e gradual, na minha visão, mas que eu não podia fazer nada para impedir.
O táxi acelerou e começou a fazer o caminho da casa de Dite.
Eu não podia viver sem o Milo, não podia deixa-lo fora da minha vida.
Corri, chamando-o pela rua, sem a vergonha do que as pessoas podiam ou não pensar. Era a minha felicidade que estava em jogo e eu não estava muito afim de deixa-la ir embora dessa maneira.
O táxi parou no sinal vermelho e eu via a chance de ser feliz novamente. Corri feito um louco. Nessa hora a minha felicidade dependia desse farol vermelho e quando estava chegando, o farol abre e o táxi acelera.
Ele estava atravessando o cruzamento quando um carro desgovernado bate no táxi onde Milo estava.
"NÃÃÃÃO!" Gritei desesperado e fui até o táxi o mais rápido que minhas pernas podiam e tentava ligar para a ambulância. Precisava resgatar Milo, as minhas mãos tremiam e eu não podia fazer nada porque a lataria estava emperrada.
It ain't no fun down to sleep
Não é engraçado deitar para dormir
And there ain't secrets left for me to keep
E não há mais segredos para eu manter
I wish the stars up in the sky would all just call in sick
Gostaria que as estrelas no céu pudessem, todas, alegar doença
And the clouds take the moon out on some one-way trip
E as nuvens pudessem levar a lua para uma viagem sem voltas
Não vi a hora em que a ambulância chegou. Apenas vi quando os paramédicos estavam abrindo a lataria e ver o peito de Milo subindo e descendo devagar me deu um grande alívio.
Ele ainda estava vivo. Ainda existia esperança para nós. E eu precisava me agarrar nessa esperança.
Não sei como fui parar tão longe de Milo, eu estava bem pertinho dele pronto para tocá-lo e quando dei por mim estava longe dele e brigando com um médico que pedia para afastar-me.
Colocaram o colar cervical nele e o imobilizaram. Estavam colocando-o na ambulância e eu precisava ir com Milo, eu não podia abandoná-lo naquele momento.
"Eu vou... Vou... Eu vou junto. Eu vou com ele!" Disse para o médico que estava me segurando e ele concordou com a cabeça, deixando eu ir apenas se eu não atrapalhasse.
"Tá... Tá... Eu não vou atrapalhar!" Disse entre lágrimas, desesperado, impaciente. Queria logo ver Milo.
Tinha que ligar para o Dite para avisá-lo do acontecimento, mas eu sabia que tinha o dever, se eu o fiz ou não eu não me recordo. Ou melhor, não me recordo de quando o fiz.
I drove all night down streets that wouldn't bend
Eu dirigi a noite toda por ruas que não curvariam
But somehow they drove me back here once again
Mas de algum jeito elas me trouxeram para cá mais uma vez
To the place I lost at love, and the place I lost my soul
Para o lugar onde perdi o amor e o lugar que perdi minha alma
I wish I'd just burn down this place that we called home
Eu queria apenas queimar esse lugar que nós chamamos de lar
It would all have been so easy
Tudo teria sido mais fácil
If you'd only made me cry
Se você me fizesse chorar
And told me how you're leaving me
E você me disse como estava me deixando
To some grinder's lullaby
Para algum órgão de canção de ninar
It's hard, so hard – It's tearing out my heart
É tão duro, tão duro – está rasgando o meu coração
It's hard letting you go
É duro deixar você ir
Chegar no hospital foi difícil. Ver Milo cheio de fios e de tantos cuidados médicos me deixou sem chão.
Milo nunca precisou dessas coisas e ele tem tanta sede pela vida... Eu o segui pelo corredor que o levaria pela sala de cirurgia.
Os olhos dele se abriram só um pouco e eu pude ver aqueles olhos verdes brilhando e um pequeno sorriso se delineando em seus lábios.
"Eu te amo!" Foi o que aqueles olhos disseram e se fecharam mais uma vez e eu sabia que dessa vez era para sempre. Eu sabia que ele tinha acordado apenas para dizer isso e nada mais. Apenas para se despedir. E naquele momento eu desabei. Cai de joelhos no chão e chorei, chorei como nunca na minha vida.
Dane-se o que as pessoas estavam pensando de mim naquele momento. Era o meu momento de tristeza e eu queria tê-lo só pra mim. Porque só eu entendia que nunca mais iria encontrar a felicidade.
Não sei como fui parar na poltrona do hospital, apenas eu chorava com a minha dor solitária e infeliz...
Eu perdi o amor da minha vida e isso foi confirmado pelos médicos que vieram não sei quanto tempo depois dar uma notícia que eu já sabia. Que Milo me contou nos últimos instantes de vida dele.
Afrodite veio logo depois dos médicos e não disse nada. Apenas pela minha expressão ele entendera o que tinha acontecido. E ele me abraçou tentando me consolar, mas já não podia mais ser consolado. A única pessoa que poderia me consolar morreu e eu morri junto com ela.
Now the sky, it shines a different kind of blue
Agora o céu está brilhando num diferente de azul
And the neighbor's dog don't bark like he used to
E o cachorro do vizinho não late mais como costumava
Well, me, these days
Bem, eu, esse dias
I just miss you - It's the nights that I go insane
Apenas senti sua falta – É de noite que eu fico insano
Unless you're coming back
Ao menos se você voltar
For me, that's one thing I know that won't change
Para mim, essa é uma coisa que eu sei que não vai mudar
It's hard, so hard - It's tearing out my heart
É duro, tão duro – está rasgando o meu coração
It's hard letting you go (...)
É duro deixar você ir (...)
Já não chovia mais quando eles deixaram o hospital. Afrodite guiou o ruivo até o carro e estava levando ele para a casa. Kamus fitava o horizonte, agora mais calmo e com algumas poucas estrelas no céu. E ficou durante todo percurso ficou olhando para o céu e só percebeu quando chegou em casa quando o loiro tocou-lhe o ombro.
"Quer que eu entre com você?" Afrodite perguntou preocupado.
"Não. Não é necessário Afrodite. Eu vou ficar bem!" Disse aéreo e saiu do automóvel, abrindo a porta de casa.
O loiro seguiu Kamus com o olhar e quando o outro fechou a porta de casa deu partida no carro e foi embora.
Eu não estava acreditando que Milo tinha ido embora da minha vida. Que ele tinha ido embora desse mundo. Tudo aquilo que aconteceu depois do restaurante não podia estar acontecendo, não podia.
Fechar a porta de casa e encontra-la às escuras foi um pequeno choque de realidade. E eu pensei comigo mesmo que Milo podia estar fazendo uma surpresa para mim. Fui até o interruptor e acendi a luz. Estava tudo igual ao que estava de manhã. A bandeja de café da manhã estava largada em cima da mesa, junto com as louças sujas do próprio café. Não tinha panela no fogão, o que significa que Milo não estava fazendo a janta.
Olhei para o outro lado e vi a sala. A mesa de centro estava toda bagunçada com papéis e partituras. Tinha um descanso de copo e um copo com suco que estava pela metade. Pelo chão tinha roupas espalhadas do Milo.
Fui até o quarto e vi em cima da cama o case dele ao lado de um caderno que ele carregava para cima e para baixo. A casa toda estava silenciosa. O rádio estava desligado, o que tinha se tornado comum em casa quando comecei o meu projeto e o chuveiro estava desligado.
Eu estava desesperado. Onde Milo estava?
Comecei a revirar a casa por um bilhete que ele tinha escrito, mas não havia nada. E então eu percebi que ele nunca mais voltaria. Que ele me deixou. Me abandonou aqui.
Ter ciência daquilo me deixou desnorteado. Milo era o meu norte, o meu anjo, o meu amigo, meu irmão... Meu amor e ele me deixou!
Deitei na cama ao lado do case dele e o abri devagar, como se eu estivesse abrindo um objeto mágico e queria apreciar cada segundo disso. Ver o violino dele envernizado e bem cuidado, junto com as fotos espalhadas na tampa interna do case.
Peguei uma por uma e comecei a olhar. A primeira foto que tiramos juntos, a foto da família dele... Era uma bela família. A foto que tirou com Afrodite num parque de diversões, a foto da minha festa de aniversário surpresa... As boas lembranças capturadas por um flash estavam sempre com ele onde quer que ele ia. E eu, o que eu tinha?
Nada, apenas um número de celular anotado no próprio celular, a chave da casa que tínhamos juntos e as poucas, mas boas memórias.
Peguei o caderno dele com todas as memórias que estavam anotados ali.
Abri em páginas aleatória e comecei a ler as palavras escritas. Memórias, medos, aflições, alegrias... Tudo estava registrado naquele caderno.
Fui na última página escrita. Tinha algumas folhas de partituras soltas que deixei em cima da cama e li o que estava escrito.
"Eu compus essa canção sobre eu e Kamus... Queria entregar a ele antes de partir, mas eu tenho medo de assustá-lo. Então eu comprei aquela jaqueta que ele tanto queria.
Dizem que um dos dois sempre ama mais. Meu Deus...
Quem dera que não fosse eu"
As lágrimas já não saiam mais dos meus olhos. Não tinha mais o que chorar.
Abri a partitura e li a canção que ele tinha escrito para mim.
Não sei quantas vezes eu li essa partitura e nem sei quando dormi. A única coisa que eu sei foi que eu acordei de manhã com o sol batendo no meu rosto. Olhei para a mesa de cabeceira e encontrei o caderno. Não me lembrava de ter posto o caderno lá, mas também eu não me lembrava de muita coisa desde o acidente mesmo.
Me remexi na cama. Eu não estava com vontade de trabalhar hoje... Eu não queria mais viver. Queria ter Milo de volta e então quando eu ia pegar o caderno dele parei no meio.
"Se você ler uma palavra eu mato você, Kamye." Era a voz dele. Era a voz do Milo.
A fanfic foi inspirada no filme: If Only (Antes que termine o dia) e terão sim partes que vocês falarão: Nossa, os acontecimentos estão igualzinho. Sim, ela foi completamente baseada nessa história de amor. Eu recomendo. A música aqui apresentada é: (Its hard) Letting you go - Bon Jovi Eu quero muito saber o que acharam desse capítulo. Por favor, não me deixem sem notícias. Muito obrigada a todos os que leram e o meu carinho especial a todos os que deixaram comentários. Vocês fizeram eu ganhar o dia. Bel.
