Maçã do Amor
Capítulo segundo
Em seu quarto, Hyoga começou a se preparar para seu jantar de aniversário. Pouco depois de entrar em seus aposentos, dois criados apareceram para auxiliá-lo nessa tarefa. Os criados traziam jarros com água para encher a banheira de marfim em que o loiro tomaria seu banho. Uma vez imerso na água quente, sentiu o corpo relaxar, mas sua mente voltava-se sempre para a mesma questão. Queria saber mais sobre o que tinha acabado de se passar. Era tão raro viver emoções como aquela que não desejava deixar esse acontecimento de lado. Terminado o banho, envolveu-se em um roupão felpudo enquanto os criados traziam suas roupas para a festa. Como sempre, os criados deveriam apenas ajudá-lo a se vestir, sem dizer palavra, para depois se retirarem do quarto da mesma forma que entraram: em silêncio. Entretanto, dessa vez, Hyoga fez algo que sabia ser expressamente proibido naquela casa:
- Então... aquele homem que veio aqui atrás do irmão... – começou a puxar assunto com a voz em um tom neutro, enquanto os criados faziam alguns ajustes finais nas mangas de sua camisa de seda branca – Quantos homens ele teve de enfrentar até que conseguisse falar com Milo? – perguntou enquanto seus belíssimos olhos azuis miravam seu reflexo em um grande espelho.
Os dois criados se entreolharam, sem saber ao certo o que dizer. Não deviam falar com o rapaz, mas ao mesmo tempo, não podiam simplesmente ignorá-lo. O criado que agora ajustava a barra da calça negra, começou então a falar:
- O intruso derrubou doze homens antes de invadir a sala em que estavam os meus senhores. – respondeu demonstrando claramente não simpatizar com o mais novo empregado dessa casa – Aquele homem pouco se importava se machucava seriamente a algum de nós; estava cego de ódio. Apenas perguntava pelo Andrômeda e, se tentássemos dialogar, ele simplesmente nos tirava de seu caminho à força. Definitivamente, ele foi uma péssima aquisição para essa casa; aquele homem é muito rude e não deve saber respeitar a qualquer ordem. O senhor Milo não deveria tê-lo convidado a ficar. Foi um erro e...
Nesse instante, o outro criado, que terminava de ajeitar o colete que o loiro vestia, lançou um olhar mais sério para o que estava falando demais. O homem entendeu o recado e calou-se. Hyoga, percebendo que eles paravam de falar, mas ainda desejoso de saber mais sobre esse homem que despertava sua curiosidade, insistiu no assunto:
- Vocês conhecem o tal Andrômeda? Alguma vez ele mencionou a existência desse irmão?
Os dois criados novamente se olharam preocupados. Não deviam prolongar aquela conversa, tanto pelas ordens de Camus quanto por conta de o assunto ser delicado. Pensavam em como finalizar de vez tal assunto, sem serem rudes com seu jovem senhor, mas não foi necessário que fizessem qualquer coisa. Nesse exato momento, Camus aparecia no quarto de seu filho:
- Hyoga! Ainda não está pronto? – perguntou o homem de dura fisionomia, já vestido para o jantar e deixando transparecer levemente em seu tom de voz algum desagrado por ver que o filho ainda terminava de se arrumar. Essa leve mudança em seu habitual tom de voz era significativa para quem conhecia o frio Camus de Verseau, pois esse homem dificilmente manifestava qualquer tipo de emoção. Quando alguma variação podia ser percebida em seu humor, isso jamais passava despercebido a quem convivia com ele – Seus convidados devem começar a chegar a qualquer momento e é dever do anfitrião estar pronto para recebê-los.
- Eu sei, papai. – respondeu Hyoga – Já estou quase pronto.
O pai do rapaz movimentou a cabeça em um gesto rápido e negativo, enquanto se aproximava de onde estava o filho. – Saiam. – disse com seu tom de voz mais frio que o normal.
Os dois criados abriram um pouco mais os olhos, porque não entenderam bem o pedido de Camus. O dono da casa falava como se tivessem feito algo errado:
- Não me ouviram? Mandei saírem. – repetiu o homem, ainda mais sério e direcionando um olhar imperativo aos criados que, sem dizerem qualquer coisa, responderam com um gesto de respeito e retiraram-se logo do quarto.
Hyoga apenas observou a aquilo calado. Camus não era muito dado a atitudes desse tipo. Dificilmente dava alguma ordem direta a algum criado, ainda mais de forma tão incisiva. Viu então como seu pai se aproximava e ele mesmo o ajudava a terminar de se vestir. Pegou o casaco azul-marinho e vestiu-o no filho, por cima do colete bordado a fios de ouro.
- Papai, por que mandou que saíssem? Eles fizeram algo de errado? – perguntou enquanto Camus ajeitava a veste em seu corpo.
- Sim. – respondeu sério, sem se preocupar em prolongar aquela resposta. Enquanto Hyoga começava ele mesmo a abotoar seu casaco, viu o pai pegar a escova sobre a luxuosa penteadeira.
- Papai, eu já escovei os meus cabelos... – disse o loiro, terminando de fechar uma abotoadura e vendo sua imagem no espelho que refletia seu corpo inteiro, de modo que se podia ver toda a elegância do jovem Verseau naquela imagem.
- No entanto, eles continuam desalinhados. – falou com a voz mais terna e fez um gesto para que o filho se sentasse no banco, sobre a almofada de veludo vermelho.
Hyoga suspirou, mas acabou dando um leve sorriso. Seu pai tinha esse jeito frio de ser e, desde que era criança, havia uma única forma em que ele se aproximava de um modo que poderia ser considerado carinhoso: era quando penteava seus cabelos.
O rapaz loiro se recordava bem. Pouco depois de sua mãe falecer, quando ainda tinha apenas seis anos, fizera Camus passar por maus bocados. Apesar de ter sido sempre uma criança cordial e bem educada, e apesar de ter, desde tão tenra idade, aprendido que precisaria amadurecer mais rápido para poder se aproximar de seu pai, Hyoga agira em um ponto como a criança que era. Não permitira, desde que a mãe adoecera, que qualquer pessoa tocasse seus cabelos. Fora sempre Natássia quem penteara os sedosos cabelos dourados do menino e aquele gesto, muito mais que parte de sua arrumação habitual e diária, era uma demonstração de amor e carinho por parte de sua mãe. Ficavam sempre mais tempo que o necessário nessa atividade, porque era algo que causava muito prazer a ambos. Camus, que era muito rigoroso com os horários a serem seguidos naquela casa, abria essa exceção e nunca exigira da esposa que se apressasse nessa tarefa. Do seu modo, compreendia a importância daquilo para a mulher e o filho. Às vezes, observava de longe Natássia pentear carinhosamente os cabelos do garoto, tão dourados e bonitos quanto os dela. O rosto do menino iluminava-se com isso, como se podia ver pelo reflexo no espelho. Ele balançava as perninhas contente, recebendo por vezes algum beijo afetuoso de Natássia no topo de sua cabecinha loira e Camus, diante de uma cena tão amorosa, acabava sorrindo.
Por isso, quando a esposa adoeceu e Hyoga se rebelou, não deixando que o penteassem, Camus não interveio. Compreendia o que aquilo significava para o filho. Hyoga dizia que sua mãe voltaria a escovar seus cabelos quando melhorasse e, até lá, o próprio menino penteava-se como podia. O resultado, como se pode imaginar, não era dos melhores, mas Camus não dizia nada a respeito. Permitiu que o filho agisse assim porque, em seu íntimo, ele mesmo desejava que a esposa melhorasse; ele mesmo gostaria que o que Hyoga dizia de fato ocorresse, ou seja... que Natássia se recuperasse e pudesse voltar a pentear os cabelos da criança.
Entretanto, não foi o que aconteceu. Natássia não resistiu e Hyoga portou-se, para a surpresa de muitos, como uma criança mais velha do que realmente era, sem chorar durante o velório da mãe e agindo de forma bastante resignada nos dias que se seguiram. Contudo, continuava não deixando que qualquer criado se aproximasse para pentear seus cabelos e, por não ter o que argumentar, apenas repetia para que não o fizessem e tomava a escova para ele mesmo executar a tarefa como vinha fazendo nos últimos tempos.
Nos primeiros dias de luto, Camus estava tão deprimido que não deu grande importância a esse fato. Mas com o tempo, a sociedade começava a comentar sobre o estado em que se encontrava o menino, agora órfão de mãe. Hyoga era visto por essas pessoas quando algum criado o levava para a casa de Dohko, onde recebia suas lições desde criança e o assunto, na corte, não era outro senão o desmazelo em que se via o menino. Interessante é notar que o menino continuava se vestindo impecavelmente como sempre, mas a atenção de todos, pelo visto, recaía tão somente sobre os cabelos dourados do garoto que, sabe-se, sempre despertaram grande inveja em muitos, e isso quando ele era ainda apenas uma criança.
Por conta disso é que Camus começou a prestar mais atenção ao que se passava. E, não gostando de ouvir os comentários sobre seu filho, mandou que os criados começassem a pentear os cabelos de Hyoga, mesmo que fossem contra a vontade dele. A primeira vez em que uma criada tentou fazer isso foi um verdadeiro escândalo. Agindo finalmente como um menino de sua idade, Hyoga chorou, gritou, esperneou e de tudo fez para impedir que a senhora pudesse colocar as mãos em seus cabelos. Acabou conseguindo afastá-la de si ao morder com toda a sua força a mão da criada. Devido a isso, a mulher recusou-se a se aproximar de novo do menino e os demais criados, apreensivos, resolveram tentar terminar o que aquela senhora mal havia começado. Afinal, não poderiam dizer ao seu senhor que não conseguiram fazer o que lhes tinha sido pedido. Até porque, Hyoga era apenas um menino de seis anos. Que dificuldade poderia existir em se pentear os cabelos de uma criança?
Um dos criados se dispôs a executar a tarefa. Também fora incapaz de realizá-la e saiu com a mão também mordida, fora alguns socos e pontapés que levara de brinde. O mesmo ocorreu com outros dois criados, até que eles decidiram ir os três resolver o problema. Dois poderiam segurar o menino enquanto o terceiro encarregava-se de, por fim, escovar os cabelos do garoto rebelde.
Foram ao quarto onde o menino se havia refugiado e, juntos, conseguiram, não sem esforço, segurar o garoto. Hyoga, vendo-se preso daquela forma, chorou como nunca antes. Um criado segurara o menino pelos pés, o outro aprisionara-lhe os braços e o terceiro, com o menino imobilizado enfim, começara a pentear aqueles cabelos loiros.
Camus, nesse dia, regressara mais cedo à sua casa e, tão logo adentrou seu lar, ouviu o choro desesperado de seu filho. Correu apressado para o local de onde acreditava vir esse choro e o que viu deixou-o completamente transtornado. Poucas vezes, foi possível ver o homem de feições sempre tão frias alterado daquela forma. Enfurecido, partiu para cima dos criados, de um modo irracional, como se aqueles homens quisessem fazer mal a seu filho. Empurrou um, esmurrou outro, acabou nocauteando o terceiro. Hyoga, assim que se viu livre, correu assustado e se escondeu atrás de uma poltrona que havia no quarto. Ficou olhando como seu pai agia de um modo como nunca tinha visto e sentiu medo daquele homem que se via incapaz de reconhecer. Foi quando Milo apareceu. O braço direito de Camus havia acabado de chegar e, assim que entrou na casa, ouviu barulho proveniente de um dos quartos e, ao se deparar com aquela cena, arregalou os olhos e correu até Camus, abraçando-o por trás, de forma a segurá-lo e imobilizar seus braços. O pai de Hyoga continuou forcejando para se livrar daquele agarre, os olhos ainda ardendo de fúria, gritando que Milo o largasse.
- Não, Camus! Acalme-se! O que pensa que está fazendo? – gritou também Milo, tentando se fazer ouvir.
- Eles estavam machucando o meu filho! Solte-me, Milo! – continuava bradando o homem que agora via, extremamente nervoso, como os criados finalmente conseguiam erguer-se do chão, bastante feridos.
- Saiam daqui! Rápido! – falou Milo, apontando a porta com a cabeça, enquanto segurava Camus o mais firme que podia – Deixem que eu cuido dele; agora vão!
Os três homens não esperaram que ele repetisse; o mais rápido que conseguiram, terminaram de se levantar e saíram dali, fechando a porta após se retirarem. Milo ainda continuou agarrado a Camus, determinado a não soltá-lo até que o percebesse mais calmo.
Quando isso finalmente pareceu acontecer, o representante pessoal de Camus foi afrouxando o agarre, até soltá-lo de vez. Camus respirava de forma mais compassada agora. Milo deu dois passos para trás, dando mais espaço a ele. Observava-o cauteloso; a única vez em que vira Camus assim havia sido na noite em que Natássia falecera.
O pai de Hyoga, por sua vez, quando se viu solto, baixou o rosto, de modo que era impossível perceber sua expressão, já que os cabelos compridos e lisos encobriam sua face.
- Camus... o que aconteceu? – a voz de Milo era preocupada, mas vinha em um tom baixo, que ainda visava a tranquilizar o outro.
- Eu... – esvaziou os pulmões em um pesado suspiro - ... cheguei e ouvi Hyoga chorando... – mantinha a cabeça baixa.
- O Hyoga? – Milo olhou ao redor – Ele está aqui?
Finalmente, Camus levantou o rosto, ainda um pouco rubro por toda aquela comoção. Percebia-se que ele já começava a voltar a ser quem era e possivelmente arrependia-se um pouco da atitude tão passional que tivera, do tipo que sempre evitava e criticava nos outros. Sendo típico aquariano, capaz de mudar de postura muito rápido, logo regressou ao controle de sua pessoa. Dessa forma, já completamente controlado, olhou também para os lados:
- Ele estava aqui, mas... não vi se ele saiu quando os criados o soltaram.
- Por todos os deuses, Camus... onde é que você estava com a cabeça para agir assim? – repreendeu Milo, passando a mão pelos seus cabelos ondulados, demonstrando enfim o quanto aquela cena o deixara estupefato.
- Eu não sei, eu... – um barulho chamou a atenção dos dois homens que conversavam. Instantaneamente, ambos voltaram seus olhares para perto da lareira e viram que Hyoga engatinhava para sair dali, parecendo muito amedrontado.
- Hyoga! Você está bem, meu filho? – perguntou Camus, com a voz preocupada e aproximando-se rápido dele.
Não obteve resposta. O menino, com os olhos arregalados e apavorados, encostou-se contra a parede e ficou ali, imóvel e encolhido, mostrando nessa posição o quanto temia o pai naquele momento.
- Camus. – Milo foi ao encalço do outro e segurou-o pelo braço – Devagar. Você assustou o garoto. – disse enquanto via o quanto Hyoga parecia apavorado.
- Mas... eu só estava tentando protegê-lo. – Camus olhou confuso para o homem que o segurava. Encontrou então os olhos firmes daquele que era o seu braço direito e deixou escapar um suspiro. Compreendeu o que Milo queria dizer. Havia exagerado e Hyoga nunca o vira assim antes. O filho devia estar mesmo com medo de si agora:
- Hyoga... – começou a se aproximar vagarosamente, e usava um tom de voz bastante suave e terno – Filho... não precisa ficar com medo. É o papai.
Hyoga ficou olhando para o pai, sentindo todo seu pequeno corpo tremer sem que pudesse se controlar. O menino via o pai se aproximar, mas não saía do lugar. Então dirigiu um olhar para Milo, como se buscasse algum apoio nele. Viu como ele lhe sorria e, com esse sorriso, parecia dizer que estava tudo bem. Aquilo ajudou o menino a acalmar-se um pouco. Mas então Hyoga sentiu a mão forte de Camus em seu bracinho e sobressaltou-se; nem tinha se dado conta de que o pai já estava tão perto, ajoelhado à sua frente. Camus percebeu como o filho tremia ainda mais diante daquele contato e, naquele momento, agiu de modo que definitivamente não era de seu feitio, mas algo dentro dele apertava seu peito dolorosamente e parecia que apenas isso poderia fazer com que aquela dor parasse de oprimir seu coração. Em um gesto brusco, tomou o filho nos braços e o abraçou; um abraço de urso, forte, protetor, caloroso:
- Desculpe, meu filho... desculpe o seu pai. – falou com a voz branda, envolvendo Hyoga por inteiro nos braços – Prometo que nunca mais você vai me ver agindo assim. – beijou a cabecinha loira enquanto acarinhava as costas trêmulas do filho, que aos poucos, ia parecendo relaxar – Mas agora está tudo bem. Não precisa ficar com medo.
Hyoga finalmente pareceu reconhecer seu pai no homem que o abraçava, apesar de não ser do costume dele abraçá-lo dessa maneira. Timidamente, recostou a cabecinha no ombro de Camus e com a pequena mão segurou uma mecha dos longos cabelos do pai, e ficou ali, brincando de deslizar os dedos por ela, parecendo mais tranquilo a cada instante que passava.
Camus então pegou o menino nos braços e levantou-se para poder se sentar em uma poltrona, com Hyoga em seu colo. O menino, que ainda estava calado, continuava com a cabeça repousada no ombro do pai e mantinha os dedinhos brincando com os cabelos dele.
Milo observava a tudo sem dizer nada, mas sorria amplamente. Era tão raro ver Camus agindo dessa forma, que sabia ser preciso apreciar devidamente quando algo do tipo acontecia.
Camus apenas deixou-se estar com o filho daquele jeito, por um tempo. Então, depois de uns minutos assim, recomeçou a falar:
- Hyoga... por que estava chorando daquele jeito? Aqueles homens estavam machucando você? – perguntou com a voz suave, fazendo um carinho nos cabelos dourados. Desde que Natássia ficara impossibilitada de pentear os cabelos do filho, era a primeira vez que Hyoga permitia que alguém os tocasse.
Milo olhou apreensivo para o garoto, esperando por uma resposta. Mas, em vez disso, viu apenas como o menino deixava o conforto do ombro do pai para esconder o rostinho no peito forte de Camus:
- Filho... o que foi? Você pode me contar. – Camus olhou para Milo, sem saber mais o que fazer. O outro apenas acenou com a cabeça, como se dissesse que ele estava no caminho certo e que continuasse o que já estava fazendo.
- Hyoga, não confia em mim? – perguntou o pai, com a voz triste.
O loirinho enfim abandonou seu esconderijo e deixou que Camus visse seu rostinho marcado por tantas lágrimas.
- Eu confio, papai. – falou com a vozinha baixa.
- Então por que não me conta o que aconteceu?
- Porque o papai vai ficar bravo. – abaixou os olhinhos azuis.
- Não vou, não. Eu prometo.
O menino pareceu ficar indeciso. Acabou levando os olhos azuis como o céu para a figura de Milo, que permanecia em pé a pouca distância deles. O homem ofereceu ao garoto um sorriso que transmitia segurança. Assim, juntando a coragem que possuía, Hyoga voltou os olhinhos ainda úmidos para Camus e começou a dizer:
- Eu não queria que penteassem meu cabelo, papai.
- Era isso que eles estavam tentando fazer? Pentear os seus cabelos? – franziu a testa.
- Sim. – respondeu baixinho.
- Mas... por que havia três homens tentando fazer isso?
- Porque eu dei trabalho... – a voz ia ficando ainda mais baixa – Eu mordi a mão deles, papai. – abaixou a cabecinha loira.
- Você mordeu a mão deles? – Camus indagou, com os olhos arregalados e incrédulos. Milo, que até então, apenas acompanhava a conversa em silêncio, não se segurou e começou a rir com esse último comentário.
- Milo, por favor. – Camus dirigiu um olhar sério para o outro e voltou a encarar o filho – Hyoga, por que fez isso? Fui eu quem pediu para eles pentearem os seus cabelos.
- Mas eu não queria que eles fizessem isso. – continuava com a cabecinha baixa.
- Por que não? Você não pode ficar andando com o cabelo despenteado, filho. As pessoas comentam sobre isso, sabia?
- Eu não me importo. – respondeu o menino, com a voz emburrada e a cabeça ainda baixa.
- Hyoga... – suspirou – Acha que a sua mãe ia gostar dessa sua atitude?
O garoto calou-se, mas o seu corpo ficou tenso nesse momento.
- Não acha que ela ia querer que você ficasse bonito, com os cabelos bem penteados, como ela sempre fez?
- Mas eu acho que ela não ia querer que eu me esquecesse dela, papai... – soltou o menino, em um fio de voz.
Milo franziu a testa, sem entender. Mas, ao olhar para Camus, notou que o homem pareceu compreender bem o que o filho acabava de dizer.
De fato, agora as coisas ficaram claras para Camus. Ele havia compreendido que o ato de escovar os cabelos era para Hyoga uma das mais importantes recordações que ele guardava de sua mãe. Se o menino permitisse que outra pessoa fizesse isso, era como se estivesse abrindo mão dessa lembrança; era como se tal atitude significasse que estava se esquecendo de sua própria mãe.
- Filho... deixar que outra pessoa escove os seus cabelos não significa que você vá esquecer a sua mãe. – fez um carinho no rosto do menino, que permanecia com a cabeça baixa, e percebeu que a face dele estava banhada de lágrimas. Com delicadeza, fez com que o filho voltasse a erguer o rostinho e constatou quão marejados estavam aqueles olhos azuis.
- Mas... Ela vai achar que eu não gosto mais dela se deixar outra pessoa me pentear...
- Claro que não, Hyoga... – sorriu Camus, de forma paternal – Sua mãe jamais pensaria isso; ela sempre soube que você a ama muito. E que nunca vai esquecê-la. Aliás, nós nunca vamos esquecê-la.
Nesse momento, Milo baixou um pouco o rosto. Discretamente.
- E ela também ama você demais. Por isso, ela deve estar triste de ver você assim. Sua mãe sempre gostou de deixá-lo bem bonito e agora você não deixa ninguém penteá-lo. Não acha que isso está errado, filho?
Hyoga ficou calado alguns instantes, pensativo. Por fim, falou:
- Mas ninguém vai saber fazer como a mamãe fazia, papai. – os olhinhos azuis fitavam o pai com seriedade, como se falassem de algo realmente muito sério.
Agora foi a vez de Camus ficar um pouco pensativo. Ao cabo de alguns segundos, retomou:
- Se você me ensinar, eu posso tentar. – levou a mão a uma penteadeira que estava ali perto e pegou uma escova de cabelos.
O menino olhou para o pai com o rosto iluminado. Os olhos brilhavam muito e o sorriso que se desenhou naquele rostinho deu a Camus a resposta que ele buscava.
Milo, entendendo que aquele deveria ser um momento de pai e filho, acreditou que seria melhor dar alguma privacidade aos dois. Silenciosamente, deixou o quarto, sorrindo com a cena que vira antes de fechar a porta do aposento: Camus penteando, carinhosamente, os cabelos dourados de Hyoga.
Aquilo tornara-se uma rotina. Camus era a única pessoa que podia pentear os cabelos de Hyoga, assim como antes somente Natássia possuíra esse direito. Com o tempo, Hyoga cresceu e tornou-se capaz de escovar os próprios cabelos, de forma apropriada. Mas, sempre que possível, Camus ainda executava essa tarefa. Era algo que sempre os aproximava. Por isso, muitas vezes, alegando que o filho não penteara os sedosos fios dourados corretamente, Camus buscava uma escova e o rapaz, por sua vez, nunca reclamava. Gostava de ter esse contato mais próximo com o pai, o que nem sempre podia acontecer.
Por isso, agora, sentou-se em frente à penteadeira e, apesar de a sua imagem refletida no espelho demonstrar que seus cabelos tinham sido escovados de forma impecável, permitiu que o pai os penteasse mais um pouco. As duras feições de Camus foram abrandando e Hyoga sentiu-se um pouco encorajado para perguntar:
- Papai, o Milo conversou com você?
- Conversou. – Camus respondeu, voltando a endurecer a face, mas sem parar de escovar os cabelos loiros.
- E... está tudo bem? – Hyoga olhou interrogativamente para o pai por meio do reflexo no espelho.
- Não. Mas agora não é o momento de discutir esses assuntos. – finalizou o que fazia, voltando a colocar a escova sobre a penteadeira – Vamos. Agora você está pronto e seus convidados já devem ter começado a chegar.
- Mas... papai... – Hyoga sabia bem que quando Camus dava por fim algum assunto, era sempre péssima ideia querer prolongar a conversa. Mas estava curioso; queria entender melhor tudo que havia acontecido e, principalmente, conhecer o que ocorreria no desenrolar dessa história – O forasteiro que agora vai trabalhar aqui... que veio atrás do irmão... Você sabe algo sobre ele?
- Quem disse que ele vai trabalhar aqui? – indagou Camus, estancando o passo já perto da porta e voltando um olhar para Hyoga que demonstrava que ele não sabia disso.
- Eu... – não podia nem queria complicar a situação de Milo – Eu deduzi...
- Um homem que chega à minha casa destruindo tudo que encontra no caminho não é alguém que eu vá convidar para trabalhar aqui, Hyoga. – falou em seu tom frio, abrindo a porta e saindo do quarto junto ao filho – E eu realmente não queria que você tivesse presenciado nada daquilo. Já falei com Milo que, depois do seu jantar, vamos resolver algumas questões pendentes com a criadagem. Cansei de dizer que não quero os criados trazendo problemas a Milo na sua frente. Ainda mais quando isso envolve a sua segurança.
- Papai, eu já tenho 18 anos. Não preciso que continue me tratando como se eu fosse uma criança. – respondeu o rapaz loiro, que andava ao lado do pai.
- Eu sei disso. Hoje você se torna um homem, inclusive aos olhos da sociedade. Mas, para mim... você continua sendo a minha criança, aquele que sempre vai precisar da minha proteção. – sorriu de leve para o jovem.
- Não precisa punir nenhum dos criados, papai. Eles não fizeram nada de errado. Falaram com Milo na minha frente porque era uma emergência. – normalmente, quando recebia um sorriso do pai, o jovem alegrava-se e dispunha-se a não dizer nada que pudesse estragar aquele momento, mas agora sentia que precisava impedir uma injustiça e por isso fez o comentário que, certamente, não agradaria a Camus. Mas fazia o que julgava certo.
- Sim, sei que o forasteiro assustou a todos. Ainda bem que ele já foi expulso dessas terras, apesar de que eu preferia que Milo o tivesse prendido para que pudéssemos encaminhá-lo à prisão. Mas que seja; agora temos que nos preocupar com seus convidados.
- Papai, na verdade, o forasteiro não era tão perigoso. Ele só estava preocupado com o irmão dele. – apressou-se em dizer, porque compreendeu que Milo optara por contar apenas parte da história, para não estragar o aniversário de Hyoga. Provavelmente, ele contaria o resto no dia seguinte e, ouvindo as duras palavras de seu pai, percebeu que era preciso amaciar o coração de gelo de Camus, para que o intruso não fosse castigado.
- Hyoga, eu não quero mais falar sobre isso. E agora chega; eu não quero mais você se envolvendo com esses assuntos, estamos entendidos? – virou-se para encarar o filho, que baixou os olhos, chateado. Então, Camus abriu a porta que dava para o salão principal da casa e onde já se podiam ver alguns convidados. Assim que adentraram o local, que estava ricamente decorado, Camus caminhava junto de Hyoga para que pudessem cumprimentar os convidados. Entretanto, antes que pudesse falar com qualquer um, Milo apareceu em frente a Camus, visivelmente nervoso:
- Camus, eu preciso conversar com você. – falou o escorpiano, muito sério.
- Milo, agora não é um bom momento. – replicou em voz baixa, tentando manter as aparências.
- Eu não quero saber. Você vai falar comigo agora, Camus. – os olhos azuis de Milo eram firmes e diziam claramente que ele não aceitaria um não como resposta.
O aquariano suspirou. Olhou então para Hyoga, que os observava sem entender:
- Filho, vá cumprimentar seus convidados. Daqui a pouco eu vou. – não esperou resposta do rapaz e deixou o salão para uma grande varanda que havia ali perto, junto de Milo.
- Muito bem. O que tem de tão importante para falar que não pode esperar? – questionou cruzando os braços sobre o peito, mostrando não ter gostado nada daquilo.
- Você viu quem está aqui? – falou Milo, mostrando-se agitado.
- Não tive essa oportunidade ainda. Você me impediu de cumprimentar os convidados, lembra? – ironizou.
Milo sacudiu a cabeça, ainda nervoso. Puxou Camus pela mão e o posicionou perto da porta, de forma que pudesse ver sem ser visto:
- Ali. – apontou – Está vendo agora?
Camus engoliu em seco. O que aquele homem estava fazendo aqui?
- E então? O que ele está fazendo aqui, Camus?
- Eu não sei, Milo. Não o convidei. – o rosto do pai de Hyoga estava lívido.
- Ótimo. Significa que podemos expulsá-lo daqui.
- É claro que não, Milo. Não quero qualquer escândalo no jantar do Hyoga.
Milo estreitou os olhos na direção do outro:
- Não quer um escândalo ou não quer expulsá-lo? – perguntou com um tom que deixava claro o quanto estava zangado.
- Milo, por favor... agora não é hora de discutirmos isso, está bem? – levou a mão e fez uma carícia de leve no rosto do seu homem de confiança – Agora eu preciso voltar para o salão. Hyoga precisa de mim. Hoje é uma noite importante para ele. – dito isso, direcionou um olhar carinhoso para o escorpiano e voltou para onde se encontravam os convidados. Milo, vendo-o se afastar, deixou escapar um suspiro:
- Ah, Camus... Tudo isso é mais importante para você que para ele. E só você parece não perceber isso. – balançou a cabeça e seguiu para o salão. Já que aquele homem estava lá, mesmo sem ser convidado, e Camus não queria expulsá-lo dali... Tinha de marcar sua presença e não deixar o outro confortável demais. Não podia expulsá-lo, mas faria questão de mostrar a ele que não era bem-vindo.
Camus procurava Hyoga em meio aos convidados que já haviam chegado, até que enfim avistou os cabelos loiros, que reconheceria em qualquer lugar. Contudo, ao perceber com quem seu filho conversava, voltou a empalidecer. Apressou o passo até chegar onde estava o rapaz.
- Papai. – Hyoga voltou-se na direção do pai assim que ele se aproximou – Estava conversando com esse cavalheiro, que não conhecia, e ele me disse que vocês são velhos conhecidos. – sorriu o jovem Verseau.
- Sim. Somos. – respondeu Camus, olhando muito sério para o homem que exibia um sorriso radiante – Não sabia que havia voltado para esse reino. Aliás, imaginei que nunca mais fosse voltar. – falou de forma um tanto ríspida.
- É, de fato... Eu também não imaginava regressar depois de tudo que me ocorreu aqui no passado. – falava com calma, encarando os olhos frios de Camus sem se deixar abater – Mas acho que consegui deixar o passado para trás... E estou disposto a começar de novo. – respondeu o homem, sorrindo de forma enigmática.
- Espero que sim. – disse Milo, que acabava de chegar aonde estavam e já se intrometendo na conversa – Certas coisas devem permanecer apenas no passado. – desferiu um olhar ameaçador para o homem.
Hyoga olhou para os três homens que trocavam olhares extremamente significativos entre si e entendeu que havia algo muito sério acontecendo. Não sabia de que poderia se tratar, mas a julgar pela elegância das roupas e dos modos do homem com quem estivera conversando, imaginava que se tratava de negócios. Aquele homem tinha o tipo dos ricos negociantes que, de vez em quando, apareciam por lá, para fazer negócios com seu pai.
Achou que eles não estavam falando abertamente devido à sua presença e achou que poderia dar esse espaço a seu pai. Fez um aceno educado com a cabeça e pediu licença, alegando que precisava cumprimentar o restante de seus convidados. Os outros três mal responderam, parecendo muito presos à tensão que os envolvia naquele momento. Hyoga então afastou-se e continuou na sua entediante tarefa de cumprimentar aqueles convidados que não lhe interessavam nem um pouco.
- E o Shiryu que não chega... – bufou, ansioso para que o amigo chegasse logo.
Dirigiu os olhos para uma ampla janela, a fim de ver lá fora, esperando enxergar o amigo se aproximando com seu mestre Dohko. Contudo, apesar de não encontrar Shiryu lá fora, viu algo que chamou ainda mais sua atenção. Lá, ao lado de uma carroça, estava o forasteiro, arrumando as rédeas do cavalo. Parecia esperar algo ou alguém. O rapaz loiro olhou para os lados e, disfarçadamente, começou a caminhar na direção da porta, cumprimentando com um belo e falso sorriso a todos que se colocavam em seu caminho, para não levantar suspeitas.
- Então, seu filho está completando 18 anos, Camus?
- Sim.
- Já é um homem feito. – olhou para o rapaz que caminhava, cumprimentando as pessoas que encontrava em seu caminho com um sorriso – É muito bonito... tem um sorriso encantador. – Voltou a olhar a Camus – Pelo visto, puxou ao pai.
- Afinal, o que veio fazer aqui? – cortou Milo, que estava cansado daqueles rodeios.
- Eu já disse. Vim começar de novo.
- E por que veio aqui? Para essa casa? – insistiu Milo – Pensei ter deixado claro, da última vez, que...
- Você deixou claro, Milo. Não se preocupe. Não vim atrás do que sei que não pode ser meu. Como falei... vou começar de novo. – olhou para Camus, que nada dizia, e sorriu – Sempre pensei que seria quase impossível, porque não sou o tipo de pessoa que se encanta tão fácil por qualquer um... Não vou mentir; cheguei a pensar que nunca mais conseguiria sentir algo assim. Mas com o tempo, fui me convencendo de que estava exagerando. E agora, vejo que estava certo. – voltou a olhar para Hyoga, que agora via-se próximo da porta – Seu filho é realmente encantador, Camus. Exatamente como você...
- Saga... – Camus falou por entre os dentes, com a voz muito fria – Tire os olhos de cima dele.
- Está com ciúmes? – riu o homem e, entornando sua taça, terminou sua bebida – Não se preocupe. Você sempre terá um lugar especial no meu coração. – sorriu provocativo e se afastou.
Milo quis ir atrás dele, mas Camus o segurou pelo braço:
- Milo, eu já disse que não quero estragar o jantar de aniversário do Hyoga.
- Mas... Camus! Você não ouviu o que ele disse?
- Ele só está provocando. Não está falando sério.
- Foi o que você disse da outra vez, Camus. E você se enganou. Não se lembra mais? – desvencilhou-se com violência e saiu na direção oposta que Saga tinha seguido. Camus respirou fundo. Precisava aquietar uma série de comoções que o aparecimento daquele homem lhe trouxera. E, sentindo que estava novamente no controle de seus sentidos, foi atrás de Milo.
Por sair tão preocupado em manter as aparências e controlar seus sentimentos, Camus sequer percebeu que, naquele momento, Hyoga conseguia enfim deixar o salão, saindo da grande casa para ir ao encontro do forasteiro que tão forte impressão tinha lhe causado, a ponto de atraí-lo daquela forma até ele...
Continua...
