NUNCA ESQUEÇA VENEZA


Título: Nunca Esqueça Veneza
Autor:
Angela Miguel
Contato: angela(ponto)mig(arroba)uol(ponto)com(ponto)br e ametista(underline)lua(arroba)hotmail(ponto)com
Shipper: Harry e Hermione
Spoilers: Livros 1 a 5
Gênero: Drama/Romance
Status: Completa
Sinopse: Harry revela seu maior segredo para a mulher que ama após treze anos, e agora o que está em jogo não é apenas sua vida, mas a razão de seu viver. Será que Hermione poderá perdoá-lo? Será que esquecerá Veneza, o lugar em que foram felizes plenamente?
Nota da Autora (1): Agradecimentos às reviews até agora Dani Granger (Risos... Aqui está o segundo capítulo para você, minina! E espero que você continue amaaando! Beijos e valeu! XD); Nessa J. Potter (Oi Minina!! Mias um capítulo, o penúltimo... risos... E nunca foi um mar de rosas a vida mesmo... A PDNE vc já viu que foi atualizada, não é?! Gostou do beijo? Risos... Beijokas!); e Line (As fics H² são difíceis... principalmente brasileiras, encontramos poucas realmente boas, pelo meu ponto de vista... se você ta gostando da minha, fico mto feliz viuuu!!! Já conhece a minha outra?! Beijos! ).
Nota da Autora (2):Pessoal, espero que gostem, desse outrooo!! Estava lendo outro dia novamente.. e não é que ela ficou bonitinha mesmo?! Hihihihihi! 'Brigada pelo apoio! XD


Capítulo Dois ― Queria Que Você Estivesse Aqui

"How I wish, how I wish you were here
We're just two lost souls
Swimmingin a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground
What have you found?
The same old fear
Wish you were here"
Pink Floyd – Wish You Were Here

- Ele está sedado, Doutora Granger – disse o supervisor médico. – Ainda não temos conhecimento sob qual ataque o Capitão foi atingido. Mas, estamos com todos os medi-bruxos possíveis aqui. E todos estarão ao seu dispor.

Hermione agradeceu o esforço dos presentes e, exceto por um medi-bruxo que monitorava os sentidos e batimentos cardíacos de Harry, todos a deixaram sozinha com ele. A mulher fechou as cortinas que envolviam a cama dele e sentou-se numa cadeira ao lado. Pelos relatórios, Malfoy e Harry encontraram uma das locações do mutilador, em Roma, mas foram pegos de surpresa por um esquadrão dos Comensais da Morte.

Demorou-se no tórax dele, enfaixado, depois nas pernas, uma quebrada. O braço direito tinha partido em dois lugares. O ombro deslocado. Nunca Hermione lembrou-se de tal ataque feroz, para deixá-lo daquela maneira. Malfoy também estava bastante machucado, Gina em prantos assim que o viu naquela cama, sedado como Harry. O rosto estava levemente inchado, algumas saliências arroxeadas abaixo do queixo e no olho esquerdo, mas nada de muito sério. Só que o fato de Gina ter enfrentado toda a família para estar com Malfoy, e pior, estar grávida dele, deixava a situação do noivo bem pior do que de seu namorado – ou ex-namorado.

Passou os dedos da mão direita pela fronte de Harry, a têmpora, a testa na marca central, aquela cicatriz que o perseguiria pelo resto da vida. Como ele poderia ter se envolvido naquilo? Não pensou em mais nada? Simplesmente jogou seu corpo na frente de alguém, lidou e lutou com um esquadrão inteiro de Comensais? Não importava se eram ele e Malfoy. Aquilo já era demais.

Sem muito que fazer a não ser esperá-lo acordar, Hermione dirigiu-se a uma das salas do centro de recuperação de Veneza. Gina estava encolhida em um dos sofás, a cabeça para a janela, concentrada em observar as gôndolas navegando de um lado ao outro, calmas e apaixonadas. A morena aproximou-se da amiga e puxou um sofá, ao lado do de Gina. A brisa italiana era quente e amistosa, o pôr-do-sol magnífico.

- Como ele está? – perguntou Gina, a boca apoiada na perna junto à barriga. E Hermione sabia que, além daquela posição não ser a melhor para uma mulher grávida, ela estava perguntando de Draco.

- Não se preocupe Gina. Ele vai ficar bem. Foi somente um susto, você sabe como eles adoram se meter nessas lutas... – respondeu ela, olhando de esguelha para a ruiva, incerta de que ela tenha acreditado.

Os fios levemente ondulados de Gina dançaram contra o vento e ela sorriu, apoiando a cabeça de lado na perna, na tentativa de olhar para o rosto da amiga.

- Como você conseguiu Hermione?

- O quê? – questionou ela, confusa, o olhar voltando para o pôr-do-sol.

- Ficar dois anos longe dele, quase sem notícias nenhuma, sabendo que um dia qualquer, poderia acordar e ele não ter resistido ao treinamento, e você receber uma coruja dizendo que ele não havia resistido...?

A morena foi pega de surpresa pela pergunta de Gina, já que ninguém sabia que Hermione descobrira seu sentimento por Harry naqueles duros dois anos em que passaram afastados. Desviando o olhar do horizonte alaranjado e avermelhado, voltou-se para as gôndolas.

- Acho que, quando você ama, de alguma maneira incompreensível, você espera e espera. Espera até que seu amado a note, espera até que não existam mais empecilhos ou obstáculos no caminho, espera até que crie coragem bastante para revelar seu sentimento... – ela iniciou, a voz pesada. – Já encontrei o Harry desse jeito, sedado, em sono profundo, em diversas vezes durante nossa vida, Gina. Desde que ele estava no primeiro ano, eu tenho o encontrado assim. Ainda que fosse apenas uma grande amizade, mesmo quando tive de deixá-lo ir sozinho enfrentar Voldemort na busca da Pedra Filosofal, no nosso primeiro ano, eu confiei nele. E acho que essa confiança tem me dado forças para agüentar todas as barreiras que ele enfrentou e que me levou a enfrentar junto, com esse trabalho e por ele ser quem é.

- Mas... Quer dizer, você resistiu a tantas coisas, você o assistiu praticamente morrer nos teus braços no sétimo ano... Isso não é coisa que qualquer um esteja disposto a agüentar! – retrucou Gina, erguendo a cabeça das pernas.

Hermione escondeu um sorrisinho, olhando para Gina com a expressão divertida.

- Duvido que ainda não tenha entendido por si mesma, Gina – a testa da ruiva franziu confusa. – Você pode não estar disposto racionalmente para agüentar os percalços que o destino te coloca, mas certamente, quando você ama, e eu digo realmente amar, de corpo e alma e existência, acredite, você sempre estará disposto a agüentar. Você sempre estará ao lado de quem ama, esperando que ele se recupere, que possa te garantir não se meter em encrencas novamente, que esteja te olhando do jeito mais íntimo e carinhoso que alguém já foi capaz de te olhar, que consiga assegurar mais uma vez, sem palavras, que te ama para todo o sempre.

A medi-bruxa não pôde deixar de notar o olhar de admiração que Gina lançou, após aquela declaração. O pôr-do-sol ficava cada vez mais distante, a paisagem ficando mais escurecida e arroxeada, as sombras das duas jovens projetadas no piso daquela sala. O som das gôndolas contra a corrente da água, as velhas construções, os degraus descendo conforme a água toma-lhes de surpresa. Hermione sentiu uma paz repentina que há muito não sentia, mas ainda havia aquele vazio, o vazio que insistia em ficar com ela. Estava ficando de carregá-lo.

- Às vezes, eu me pergunto se realmente amo o Draco... – divagou Gina, a voz baixinha, como se não desejasse que Hermione a ouvisse.

Uma sobrancelha ergueu-se no rosto de Hermione, a boca contorcida no mesmo sorriso perspicaz, sabendo daquela dúvida, tenho conhecimento daquela dúvida de Gina.

- No início do meu relacionamento com o Harry, eu costumava questionar isso também. Quer dizer, será que o que eu sentia não poderia ser somente solidão acompanhada de um grande carinho? Será que poderia ser apenas a extensão da nossa amizade? Pensei em tantas hipóteses... – explicou Hermione, os olhos sérios. – Só que percebi uma série de coisas, Gina. Percebi que, como disse antes, nem mesmo uma amizade tão forte agüentaria, suportaria e apoiaria tantas das barreiras que enfrentei, de cabeça erguida e coração aberto, por ele e somente por ele. E eu sabia que era amor.

Gina limpou algumas lágrimas que caíram de seus olhos, as bochechas rosadas. Hermione sabia que Gina andava chorando muito, especialmente por razão da gravidez, mas muito mais pelas intensas brigas que ainda existiam com sua família. Ainda que estivesse declaradamente com Draco por quase um ano, os Weasley ainda possuíam tamanha desconfiança com o Tenente que conseguia deixar Gina maluca.

- Do tanto que você lutou por esse amor, Gina, eu sei que você o ama mais do que tudo – um sorriso tímido despertou nos lábios da ruiva. – E não somente isso, você tem uma vida dentro de você que simboliza esse amor. Nunca vi tanta emoção e carinho expresso no rosto do Malfoy, te juro – disse ela, fazendo com que Gina desse uma risadinha, soltando um soluço em seguida. – Vocês dois enfrentaram o mundo todo para viver esse amor, e continuam enfrentando! Quer maior prova do que essa? Ou então, esconder o namoro de vocês por dois anos, como fizeram? Gina... Não tenha dúvidas. Você transborda de amor por ele...

- E você pelo Harry... – interrompeu Gina, encostando as costas no sofá e acariciando a barriga.

- Mas ele me fez perder a confiança que tinha nele, Gina, já pensou nisso? – indagou, reparando no céu por aquela janela, as cores roxas e azuis mesclando-se no entardecer. – Não que eu desejasse uma relação sem segredos, até porque dizem que é sempre bom manter um pouquinho de segredos, mas não algo como o que ele me escondeu, não esse! É forte demais.

Um som ecoou na sala, alguém batendo na porta. Hermione tornou-se para trás e encontrou o mesmo supervisor que conversara com ela sobre Harry.

- Srta. Weasley, o Tenente acordou – Gina virou-se rapidamente para a porta, o sorriso estampado no rosto, dividindo espaço com as lágrimas que ainda molhavam suas bochechas. – Gostaria de vê-lo? Ele perguntou da senhorita...

A auror levantou-se do sofá, deu um beijinho no rosto de Hermione e saiu junto com o supervisor, desejando ver Draco. Hermione riu levemente, admirando a cena e a relação entre sua melhor amiga e seu antigo pior inimigo.

Gostaria que o supervisor igualmente entrasse naquela sala e dissesse que seu namorador havia despertado e perguntado por ela. Hermione apoiou a cabeça no encosto do sofá e encolheu-se, assistindo as nuvens trocarem passos delicados no céu escuro daquela quase noite. O sono estava perto de pegá-la. Era tão difícil amar assim?


- Você sabe que andar de um lado ao outro não vai adiantar coisa nenhuma, certo? – brincou Tonks, seu cabelo passando de roxo para rosa-choque.

Hermione não conseguia ficar parada, estava ficando irritada com a aparente calmaria de Tonks, largada sobre aquela cadeira, mexendo nas mechas de seu cabelo curto, sem parar. Fechou os olhos e soltou um grande suspiro, ao mesmo tempo em que um forte trovão caiu do lado de fora do QG.

Nunca gostara de tempestades, muito menos quando Harry não estava junto dela. A última tempestade que enfrentara sem ele foi terrível demais, numa noite em que seu sentimento de culpa pela morte de Ron latejava dentro de si. Ou então, na penúltima, em que o corpo de seu, até então, melhor amigo, no sétimo ano, jazia quase sem vida, após uma luta inesquecível e assustadora contra Voldemort e seus Comensais. E eles possuíam apenas dezessete anos.

- Vai acabar abrindo o chão dessa maneira, Hermione... – sussurrou divertida mais uma vez a auror, ainda achando graça naquele nervosismo da medi-bruxa.

Bufando, profundamente aborrecida, a morena tornou-se para Tonks, sem a mínima paciência, pronta para colocar todos os pingos nos "is", até que ela mesma ergueu-se da cadeira e levantou uma de suas mãos.

- Acredite, garanto que ele estará bem – assegurou com um sorriso. – Eu já estive lá, já passei por muitas dessas tarefas e muitas dessas missões. Aliás, graças a Merlin que Olho-Tonto me deixou fora dessa, odeio pegar chuva, acaba com meu penteado. – zombou, fazendo pose, enquanto ria.

Uma parte de alívio tomou Hermione, mas não permitiu que ela ficasse menos nervosa. Aquele era o último teste para que Harry pudesse ganhar mais um posto dentro do Esquadrão de Aurores. Em breve, ele seria o Primeiro-Tenente, e Hermione não poderia estar mais feliz por ele, afinal, seu amigo e namorado estava subindo rapidamente no escalão, e neste caso por duas razões: talento e baixas. Naquela guerra sem fim, muitos fortes representantes dos aurores e chefes foram sendo deixados para trás, acabaram desfalecendo no caminho, e cada vez mais era necessário sangue novo e gente disposta a acabar logo com tudo isso. E quem melhor do que Harry Potter, com toda a sua sede de dar um fim doloroso àquele que matou seus pais, seu padrinho e seu melhor amigo?

Não tinha muita certeza de qual era essa última missão, mas imaginava que era bastante difícil, já que Harry nunca demorara tanto. Já passara do horário da janta de todo o Esquadrão e nenhum deles ainda havia retornado. Olhando pela janela da sala de Tonks, Hermione rezou para que tudo estivesse correndo bem. Harry desejava tanto aquele cargo, seria uma maravilha.

- Eles chegaram! – anunciou Tonks, sem mesmo olhar pela janela.

Hermione procurou desesperadamente algum sinal do moreno, mas nada encontrou naquela escuridão e tempestade.

E então, a porta do escritório de Tonks abriu e Harry, Draco e Moody entraram, ensopados da cabeça aos pés, mas todos cheios de sorrisos. Hermione mordeu a língua levemente, enquanto sorria aliviada por vê-lo ali, inteiro, com alguns cortes aparentemente, mas nada de grave.

Sem incomodar-se com a presença de Malfoy, Moody e Tonks, saiu em disparada até a porta e chocou seu corpo contra o de Harry, enlaçando-o pelo pescoço e abraçando-o com toda a força possível. No mesmo segundo ouviu-o rir de maneira gostosa e sentiu-o passar os braços pelas suas costas, abraçando-a de volta com muita força.

Envolvida no abraço gelado do corpo de Harry, Hermione ouviu Malfoy soltar algo como um grunhido ou qualquer outra coisa, e ela preferiu ignorar. Sempre o parceiro de Harry soltava esses sons inconfundíveis ao menor sinal de carinho entre os dois. O quê, particularmente, Hermione achava ridículo, já que sabia do relacionamento secreto que tinha pouco mais de um mês entre Gina e ele.

- E como eles se saíram, Olho-Tonto? – questionou Tonks, a voz escoando nas costas de Hermione, ela ainda envolvida em Harry.

- Muito bem, uma vigilância e todo um cuidado perfeito – respondeu o chefe dos Aurores, a voz pesada e grave. – Enfrentaram seus medos com excelência, temos nossos Primeiro e Segundo-Tenente.

Tonks soltou um gritinho de felicidade e admiração tão característico dela, enquanto Hermione separava seu corpo do de Harry, o sorriso em seu rosto, contrastando com a palidez dele. Repentinamente, ela sabia que havia algo de errado. Um novo trovão caiu e a expressão de Harry não se moveu nem por um segundo, seu corpo não reagiu em uma célula, em um tecido de sua pele. Hermione não conseguia tirar os olhos deles.

Então, Harry largou seus braços e tornou-se para Moody e Tonks, assim como Malfoy, e agradeceram pela chance que ambos estavam dando a eles. Os oficiais do Esquadrão cumprimentaram os mais novos agentes, e depois deixaram a sala. Draco olhou de esguelha para Hermione, ainda muito chocada para fazer qualquer coisa, o olhar sob Harry, e perguntou:

- Sabe onde está a Weasley, Granger? – sua voz arrastada não enganava Hermione, mas ainda assim, ela estava presa demais no semblante de Harry para notar o sentido da questão de Draco.

- Acho que ela está na ala feminina, Malfoy... – respondeu, sem dar muita atenção para ele.

Draco saiu batendo a porta e resmungando qualquer coisa sobre ela. Hermione uma vez mais o ignorou.

Seu olhar continuou sobre Harry, sem entender aquela postura. A mulher aproximou-se dele e tocou seu braço esquerdo com suavidade, procurando puxá-lo para si, na tentativa de ver seu rosto. O semblante de Harry estava sério e concentrado, apesar de há poucos minutos ter abraçado-a com toda a emoção possível.

- O que houve? – perguntou ela, curiosa e aflita. – O que houve na última tarefa, Harry?

Os olhos verdes dele encontraram os castanhos dela e ele apertou sua mão esquerda contra a dela, com vigor. Hermione achou aquilo ainda mais estranho, no mesmo momento em que Harry dava as costas, ainda segurando em sua mão, e trancando a porta do escritório. Ela nada entendeu.

Harry a guiou até a beirada da mesa de Tonks e apoiou-a contra a mesa, segurando em sua mão, mas com o olhar repleto de confusão. A janela estava aberta, então a ventania da tempestade que ocorria do lado de fora entrou pela sala e viajou até encontrar os fios escuros do cabelo desgrenhado de Harry. Hermione engoliu em seco, esperando ainda que ele desse algum sinal de que estava bem.

Os dedos de sua mão direita foram até o rosto dela e passearam pela bochecha, com delicadeza, olhando-a nos olhos. Hermione tentou abrir a boca para falar algo para ele, para perguntar-lhe novamente o que aconteceu, mas então, seus dedos paralisaram em seus lábios e ela calou-se, esperando algo mais.

Harry abaixou o rosto e sua franja caiu sobre seus olhos.

- Eles me fizeram enfrentar o Ron...

- O quê? – questionou, achando não ter ouvido direito. – Enfrentar o Ron? Como assim?

Ele soltou um suspiro e Hermione encostou-se de maneira mais confortável na mesa, levando suas mãos ao quadril dele e acariciando sua cintura, como se quisesse dar-lhe forças para continuar.

- Acho que era um inominável, não sei – explicou Harry, a voz rouca. – Só sei que ele, o cara eu digo, estava como o Ron e eu tive de lutar contra ele... E ficava dizendo coisas... Coisas como se eu fosse o culpado pela morte dele...

Hermione notou que Harry engolira um soluço em sua garganta, mas preferiu nada dizer, apenas ouvi-lo. Um novo trovão caiu e o resto do que ele disse, ela não foi capaz de ouvir. Porém, nada era necessário. Imaginá-lo lutar contra alguém fisicamente igual ao melhor amigo morto, e dizer que sua morte fora culpa dele... Hermione não poderia imaginar última tarefa pior que essa.

A única coisa que ela foi capaz de fazer foi abraçá-lo forte, colando seu corpo no dele, tomado pela água da tempestade, na intenção de esquentá-lo e fazê-lo esquecer da frieza e crueldade da tarefa. Ela fechou os olhos, abraçada a ele, sentindo todo o corpo de Harry tremer debaixo de seus braços, não como num choro, e sim como um choque térmico, como se unindo sua pele quente à dele, tão gélida, provocasse uma alteração corporal. Hermione notou que ele estava murmurando algumas palavras, mas todas estavam sendo abafadas pelo seu rosto contra o ombro dela.

A medi-bruxa afastou-se levemente dele e observou seus olhos, intensamente vermelhos. Hermione nunca vira Harry empenhar-se tanto como naquelas últimas duas semanas. Tudo para tornar-se o Primeiro-Tenente, e isso ela sabia que era algo extremamente importante – até mesmo para agilizar o processo de captura de Voldemort e seus Comensais.

- Harry, você sabe que não teve culpa nenhuma – disse ela, seriamente, sabendo que ali vinha coisa. – Diga para mim que sabe!

Engolindo com calma, Hermione notando a tremedeira de suas mãos e de seu peito, o pomo de Adão se agitando em sua garganta.

Hermione não soube o que dizer, apenas ficou olhando para ele, esperando uma nova resposta, como anteriormente, e Harry nada fez. Seu olhar estava nela e somente isso. Na verdade, quanto tempo realmente se passou enquanto Harry olhava para ela Hermione nunca soube dizer. Só tinha conhecimento de a tempestade aumentar e aumentar. Vários trovões caíram, e lentamente, as velas que iluminavam o escritório de Tonks iam se apagando, tamanha a força do vento que entrava pela janela aberta. A mesa onde estavam encostados ficava perto da mesma janela e, assim, pingos começavam a cair sobre ela e nas costas de Hermione, que protegia o corpo, bem maior que o dela, de Harry.

E nada aconteceu.

Até que ele juntou seus lábios nos dela e a enlaçou em seus braços, consumindo-a em poucos segundos. Hermione foi pega tão de surpresa que tentou fugir do beijo dele, como se aquilo parecesse uma maneira de Harry não responder sua pergunta feita. Contudo, parecia impossível fugir daquela maneira tão entorpecente que ele possuía, do jeito que ela ficava tão pequena e tão frágil em seus braços, de como a chuva estava começando a realmente molhar sua roupa, mas então seus braços vieram para enlaçá-la e fazê-la afastar-se da chuva.

Ele tinha lábios tão macios e suaves, sabia como beijá-la, sabia que ela preferia um beijo que se inicia calmo e vai acelerando, até que nada exista além daquelas duas bocas e os sentidos. Senti-lo tão perto e tão ávido, sabendo que as gostas em sua face não eram apenas da tempestade, e sim de suor, de desejo por ela. Querer que ele arrancasse a roupa dela ali mesmo, que pudessem se amar da maneira mais primitiva e sensual já criada, ainda que fosse no escritório da chefe dele. Quem se importaria, certo?

Antes que ela pudesse notar, os braços dele estavam indo para seus ombros, suas grandes mãos passeando por seu pescoço e sua garganta, em seu início do colo, e retirando o jaleco da medi-bruxa. Hermione desgrudou os lábios dos dele e soltou um gemido, assim que os dedos entraram em contato com a pele de seus braços nus. Sentiu-se toda arrepiada imediatamente, com medo de até onde poderiam levar aquilo. Os dedos dele não pararam por ali, e seguiram, desta vez para sua blusa de botões e sem mangas. A necessidade de tê-lo mais perto foi tanta que ela subiu na mesa com rapidez e abriu suas pernas para acomodá-lo melhor, na tentativa de colocar mais partes de seu corpo em contato com o dela. Sua saia subiu e as mãos dele desviaram seu caminho anterior para suas pernas. O quadril dele se uniu com o dela e Hermione foi tomada por um novo arrepio, o suor nas testas de ambos fazendo com o que seus fios de cabelos se unissem, enquanto o beijo continuava sem parar, sem calma e sem paciência.

Sentiu o arfar do peito dele e sua respiração quente assim que separaram os lábios, os dele indo direto para seu pescoço, enquanto as mãos voltavam a trabalhar sem fim na blusa de botões. Hermione até achou graça como ele conseguiu retirar todos os botões com calma, já que geralmente costumava arrancar-lhes de uma vez só. O peso dele estava ficando cada vez maior sobre ela, enquanto a chuva aumentava lá fora e os pingos tornavam-se mais freqüentes e em maior quantidade sobre eles. Logo, Harry estava quase escalando a mesa junto com o corpo de Hermione, e a mulher não via a hora de acabar com tal tortura. Os dedos dele passeavam pela sua barriga e umbigo, brincando com a barra de sua saia, mandando arrepios mais e mais intensos para sua coluna.

Quase deitada sobre a mesa, Hermione tentou abrir a camisa dele, mas os botões pareciam escorregar de seus dedos, molhados do jeito que estavam. Assim, não pensou duas vezes e puxou com toda sua força a camisa, estourando os botões, exatamente como ele está acostumado a fazer com as suas blusas. Hermione sentiu Harry rir contra seus lábios, ao mesmo tempo em que soltava gemidos discretos, sentindo-a juntando seu quadril com o dele e arranhando de leve suas costas com as unhas. A mulher percebeu que aquilo estava indo longe demais, que o controle estava sendo perdido.

Ele tinha de responder. Hermione não poderia levar nada adiante, fosse um impulso sexual, fosse uma noite dormida ao lado dele. E então ela reuniu todas as suas forças e sua força de vontade, e o empurrou.

A face de Harry estava tão enlouquecida, e Hermione sabia que não era apenas por ela. Estava enlouquecido de culpa, de dor, porque se sentia sim culpado pela morte de Ron. Ela fechou de qualquer jeito a blusa de botões, cobrindo o sutiã, e observou a reação de Harry, a camisa rasgada.

- Sabe que não é culpado por ele ter ido, Harry... Você sabe disso!

Harry escondeu o rosto novamente e Hermione deu um passo à frente, descendo a saia, e então ouviu:

- Hermione!

A medi-bruxa olhou para os lados e para a porta, ainda trancada, mas sabia que conhecia aquela voz.

- Hermione!

Seus olhos paralisaram sobre Harry, de cabeça ainda abaixada, o cabelo caindo na frente, a camisa rasgada e a calça tão molhada que possuía outra coloração no momento. Ela deu outro passo na direção dele e tentou erguer seu rosto. Harry foi insistente e não quis olhar para ela, a cabeça ali, caída. Hermione chamou pelo seu nome e então ouviu mais uma vez:

- Hermione!

- Olhe para mim, Harry! – gritou até que ele olhasse para ela, com a boca fechada, ao mesmo tempo em que ouviu o clamor pelo seu nome uma última vez.

E ela despertou, suspirando fortemente, toda sua pele suando pelo sonho, uma lembrança muito antiga. Ela ainda estava na mesma sala do centro de recuperação, mas deitada. Notando a janela aberta à sua frente, uma forte chuva caía em Veneza. Os pingos da precipitação estavam invadindo a sala e Hermione ergueu-se do sofá, para fechar a janela. As cortinas brancas voavam com toda a vontade, o vento revoltando-as.

Recordava que naquela noite, Harry passou o tempo todo chorando. Foi uma das conversas mais sérias sobre Ron, Hogwarts e o sétimo ano que já tiveram. Algumas lembranças costumavam machucá-la severamente, mas aquela, em especial, era dura demais...

- Hermione!

A mulher paralisou e tornou-se para a porta. Então, não era do sonho. Os gritos por ela. Hermione acelerou o passo, sem qualquer noção do horário, e foi atrás.

- Hermione!

O corredor do centro estava escuro, já deveria ser quase madrugada, a tempestade obviamente abafando os gritos da pessoa que chamava por ela. Saindo à procura do dono daqueles gritos, Hermione passava por cada sala de leitos, olhando pela escuridão, sem ter muita noção quem eram os ocupantes. E em uma das últimas salas, ela ouviu uma vez novamente e soube. Os gritos eram de Harry.