Capítulo dois
Totomaru não sabia o que fazer. Realmente estava feliz por ver os companheiros, mas ao mesmo tempo, não sabia como reagir a presença deles, porque apesar de serem Gajeel e Juvia, estes não eram os mesmos magos aos quais estava familiarizado. Não digo fisicamente, eles não poderiam estar mais iguais a sempre, mas suas personalidades haviam mudado drasticamente. A Juvia que ele conhecera era fria, fechada, monótona. Forte, ela sempre fora. Não era pouco, ser capaz de produzir chuva, se o mago não tivesse considerável poder, isso seria impossível. Apesar dela crer que isso era uma maldição, no fundo, Totomaru sempre acreditou que isso era admirável nela. A capacidade de alterar o clima de toda uma cidade somente por sua presença. Vendo agora o sol iluminando a maga, o deixou ainda mais espantado. Será que ela adquiriu o controle total sobre sua magia? Sim, ele soube da teoria de que outro mago havia retirado a maldição sobre ela e mostrado a ela o céu azul, mas no íntimo, ele sabia que essa capacidade estava nela.
-Totomaru-kun... você está bem? Juvia pensa que Totomaru está muito calado…
-Juvia... está tudo bem. Só estou um pouco abalado por ver vocês novamente… Ah, chegamos, por favor, entrem!
A casa era modesta, porém bastante aconchegante, de tijolos vermelhos, portas e janelas brancas, até mesmo um jardim bem cuidado em frente. Entrando, os magos encontraram-se num ambiente acolhedor, paredes em tons terrosos, haviam muitas fotos, desenhos e lembranças espalhados em prateleiras e molduras, uma pequena mesa estava ocupada por livros e cadernos e dois sofás pequenos convidativos compunham a sala.
Totomaru apressou-se em dizer a eles que ficassem à vontade, enquanto fazia um chá para Juvia e alcançava uma cerveja a Gajeel.
Da pequena cozinha, Totomaru pôde ver os amigos examinando as fotos, rindo e conversando amigavelmente. Gajeel e Juvia faziam muitas missões juntos em seu tempo de Phantom, ele foi a pessoa que mais aproximou-se da maga da água, mas mesmo assim, não havia aquele clima de irmandade entre eles naquele então, por ela aparentar tanta frieza e ele uma rudeza e grosseria que lhe era tão típica. Entretanto, a frieza da moça transformou-se em doçura e amabilidade, antes seu rosto era uma folha em branco e agora ostentava tanta expressividade, sorrisos tão ternos, ela estava mais linda que nunca. E o que dizer do abrutalhado moreno de longos cabelos? Seu rosto ainda aparentava ferocidade devido a seus piercings, seus caninos proeminentes e aqueles olhos vermelhos abrasadores, mas hoje você pode notar uma certa gentileza neles, principalmente quando voltados para a azulada e em seus gestos, de um modo geral.
-Aqui está seu chá, Juvia. Ei, Gajeel, largue isso aí, foi presente de um de meus alunos! - o mais velho arrepiou-se ao ver o Dragon Slayer brincando com algumas esferas de cristal, dentro delas brilhavam pequenas chamas multicolores.
Gajeel, a título de aborrecer o outro, fingiu ter derrubado as esferas, somente para recolhe-las no ar, com seus rápidos reflexos, enquanto ria da face extremamente pálida de Totomaru, que prontamente correu para tirar os objetos do alcance das mãos do brutamonte.
- Pegue sua cerveja e sente-se, antes que você destrua minha casa!
- Cê nem aguenta uma brincadeirinha cara! Cê virou um velho resmungão mesmo! Só falta o cachimbo e os chinelos velhos de pano…
- Pare de me chamar de velho e me expliquem, por que vocês não envelheceram?
Nesse ponto, Juvia apoia sua xícara na mesinha e começa a contar a Totomaru o incidente completo ocorrido na Ilha Tenrou, tendo a ajuda de Gajeel em certos momentos, porque a moça perdia o fio da história algumas vezes, quando começava a exaltar a participação de Gray no episódio. O mago de fogo ouviu todo o relato atentamente, incentivando-os a falarem com interjeições de interesse, logo que terminaram de contar a história, há um momento de silêncio. Foram sete anos. Sete anos presos numa bolha de tempo, enquanto que para o resto do mundo, o tempo passou sem trégua.
-Toto-kun… Juvia gostaria de saber o que tem feito desde o desmembramento de Phantom Lord. Como acabou tornando-se professor? E… se tem alguém… Ah...se tem notícias dos outros Element 4 - Juvia tem um adorável tom corado nas faces, ela na verdade estava questionando-se se havia alguma mulher na vida de Totomaru, porque ela lembrava-se que este era muito desorganizado e vendo sua casa tão bem cuidada, perguntava-se se não havia um toque feminino por trás disso, mas por alguma razão, sentiu-se incapaz de questionar abruptamente ao rapaz, sobre o objeto de sua curiosidade.
-Bem... A última vez que nos vimos foi durante o inquérito do Conselho Mágico sobre a guerra entre nós e as fadas. Logo após disso, decidi afastar-me daqui, deixar a poeira baixar, Phantom Lord e seus membros ficaram "queimados" na região, então achei que seria uma boa ideia ir para o norte e foi o que fiz. Vou te dizer que a vida de um mago independente é muito difícil, ainda mais sendo um desconhecido na área. Passei por dois anos complicados e não consegui adaptar-me ao frio, assim que fazia trabalhos menores por pagamentos ridículos, mas era isso ou morrer de fome e frio, isso acabou por me ensinar a ser mais humilde... eu não tinha referencias e nem o respaldo de uma guilda, não era conhecido por ninguém... não tinha base nenhuma e por muitas vezes pensei em desistir de tudo...
Gajeel ouvia tudo calado. Aquilo quase havia acontecido com ele, por muita sorte, ele tinha Juvia que intercedera por ele e Makarov fora procura-lo.
Juvia por sua vez, tinha os olhos marejados de lágrimas, ela também havia falado por Totomaru, mas Makarov perdeu a pista do mago de fogo e este acabou perdido no norte.
-Toto-kun... Juvia tentou acha-lo, mas não conseguiu, se ela tivesse...
-Juvia – cortou Totomaru- não se sinta culpada, eu fugi rapidamente da região, sem dizer nada a ninguém. Por mais que a culpa daquela confusão toda tenha recaído em Porla, eu ainda assim sentia vergonha. Vergonha por haver sido derrotado tão facilmente e, posteriormente, por ter obedecido e participado de toda aquela loucura.
A moça engoliu seco e não pensou duas vezes em abraçar o mago do fogo sentado a seu lado, surpreendendo-o inicialmente, mas que logo sentiu como relaxava em seus braços.
Totomaru deixou-se levar pela sensação daqueles braços delicados ao seu redor. Quantas vezes não havia sonhado com isso, nos anos em que passaram juntos na guilda. Ele a viu crescer, de uma menina chorona a uma moça fria, mas assustadoramente forte. E inalcançável. Ela nunca se abrira para ele. Cresceram juntos, mas não foram exatamente amigos, colegas talvez e ele acabou intimidado pela distância dela. Somente em seus sonhos ela parecera amorosa e dócil, ele teve um vislumbre do quão doce ela poderia ser, quando Bora, o idiota, apareceu na vida dela e a destruiu. Totomaru chegou a dar uma lição naquele imbecil, antes mesmo de Gajeel tê-lo expulsado da cidade por ter magoado a maga da água. E agora... Ele tinha perto de si a Juvia que ele havia sonhado tantas vezes, entretanto, ela era tão inacessível quanto no passado, porque ela estava apaixonada por outro. Perdidamente enamorada por outro perfeito idiota.
