CAPÍTULO 4

"A infância é medida pelos sons, aromas e cenas, antes de surgir a hora sombria da razão."

Escuridão.

Estava tudo escuro lá. Como um lugar pode ser escuro mesmo a noite? Chuck pensava com seus botões.

- Cuidado, Chuck!

BAM!

- Ai!

Nicolle ligou a luz, ele havia batido no balcão da cozinha.

- Eu avisei. – Nicolle fala distraidamente.

- O que você está fazendo aqui?

- O mesmo que você, presumo – ela mostra o copo d'água que tem na mão.

- Digo, no escuro.

- Eu conheço minha casa – ela revira os olhos – ao contrário de você - ela olha para a perna que Chuck bateu com hostilidade.

- Por que você se rebelou contra a CIA? – Chuck pergunta cuidadoso, depois de um tempo, com certo receio de que ela tire uma arma de dentro da geladeira aberta.

Ela o olha cuidadosamente sem expressar nada em seu rosto, por fim ela se senta e responde:

- Sei lá, acho que por muitos pequenos e grandes motivos, que juntos viraram uma enorme bola de neve... Ou talvez, simplesmente enjoei de ser a bonequinha de controle remoto deles, a que esconde uma arma por baixo das vestes. – ela olha para o copo d'água em cima da mesa, quando fala sua voz é debochada novamente – Nada tão glorioso como salvar a noiva.

- Mas sim para salvar a si mesma.

Nicolle desvia o olhar.

- Você não precisa ser assim, sabia? – Chuck cria coragem para dizer – A vida não é como a CIA lhe ensinou, nem todo mundo esta contra você, há pessoas que podem querer lhe ajudar.

- A CIA, do seu jeito é claro, achava que estava me ajudando – ela ainda olha para o outro lado – para ela tudo que possa ajudar o país é ajudar a si mesmo, não importa quantas pessoas machuque. – Nicolle se levanta – Vou dormir, há pessoas que não importa o quanto tenham de experiência, ainda precisam ir para a escola amanhã de manhã.

- Há um leilão na Rússia hoje à noite, - eles estão na base, Nicolle conta sobre o próximo trabalho deles – muito secreto e bem escondido, aliás. Será leiloada uma bomba atômica que pode destruir no mínimo 6000000m², ainda não se sabe exatamente o poder da bomba. – Nicolle da de ombros distraída – Adivinha quem estará la para participar do leilão? A SEDEM. – ela mesma responde a sua pergunta – Bom, mais precisamente agentes dela.

- E nós vamos tentar ganhar o leilão?

- Não. – ela responde impaciente, odiava aquele baixinho sem experiência que não fazia ideia de com quem estava lidando – Nós nunca ganharíamos dela. Não importa o valor de nosso lance, eles sempre aumentariam o próprio. Seus agentes estão instruídos para isso. Eles vão sair de lá com aquela bomba, e é aí, que nós entramos.

- Roubamos a bomba? Como?

Nicolle da de ombros novamente.

- Mas a CIA não estará lá?

- É aí que esta a beleza do golpe, quem organizou o leilão pensou em tudo, haverá outro golpe nos EUA, esse bem... "divulgado" e é nisso que a CIA está envolvida. O leilão é todo nosso.

- 8 milhões!

Chuck e Nicolle estavam na última fileira de cadeiras espalhadas pelo pavilhão onde estava ocorrendo o leilão.

- 9 milhões!

- O cara de azul também quer a bomba. – Era a primeira vez que ela falava desde de que chegaram.

- É parece que este leilão vai demorar mais do eu esperava.

- Estava planejando algo? – Nicolle pergunta maliciosamente para Chuck.

- Não, eu só achava que se eles querem tanto esta bomba por que não dão logo um lance maior?

- 9 milhões e meio!

-Eles querem parar exatamente onde o adversário não puder mais pagar.

- 10 milhões!

- Mas se eles aumentassem mais a cada lance o adversário se sentiria amedrontado.

- Uma hora ele desiste, porque a SEDEM não vai.

- Dez milhões e duzentos mil!

- Vê? Ele já está desistindo. Prepare-se.

- 12 milhões!

O homem de azul se levanta e sai.

- Ele está a serviço de alguém, 10 milhões foi o máximo que seu chefe lhe deu. Ele ainda tentou aumentar um pouco mais, mas a SEDEM ultrapassou demais o preço. Ele está ferrado. - Nicolle completa, observando enquanto o homem passa pela porta, abatido.

O homem que a muito já haviam reconhecido como o agente disfarçado da SEDEM, caminhou até a frente do pavilhão.

Eles sabiam que para não chamar muita atenção seguranças eram proibidos no leilão, e chamar atenção era algo que a SEDEM não queria. Então os seguranças estavam somente no carro, Sarah e Casey já haviam tomado conta deles e estavam se dirigindo para a ante-sala que se ligava aos banheiros.

Nicolle sabia que ia ser fácil, por isso estava entediada. Isso a incomodava, desde que saíra da CIA, nada era tão perigoso, tão excitante. Era a única coisa de que sentia falta. Depois de viver isso nada era igual, algo falta e ela "nascera" nisso. Por isso continuara do seu jeito, mas não era a mesma coisa. Talvez se encontrasse Mannu... Ela já pestanejara antes, já quis desistir de deixar a CIA, mas havia prometido que quando conseguisse sairia faria o que ela queria... era isso que ela queria, era isso que ela sabia, era assim que ela estava segura... mas ela não fez a parte dela... o que houve com ela?

Mas isso já fazia muito tempo, e era no agora que ela tinha de focar.

O agente estava saindo com a grande maleta na mão. Eles foram atrás. Quando chegaram na ante-sala Sarah e Casey não estavam para surpreender-lo. O agente percebeu Chuck o seguindo puxou uma arma e pegou facilmente a arma tranquilizante das mãos de Chuck e a jogou para trás a arma escorregou e entrou no banheiro. Nicolle não se abalou e empunhou sua própria arma, porém o agente ainda não havia a percebido ela saiu de seu esconderijo, colocou a arma em suas costas e lhe deu uma joelhada dando tempo a Chuck de roubar sua arma.

O agente correu para o banheiro porém em sua afobação escorregou em uma poça. Nicolle caminhou até ficar ao lado de Chuck, que apontava a arma para o agente sem nome, abaixou sua própria arma e disse pacientemente:

- Atire Chuck.

- Não! Eu não atiro em pessoas.

-Eu sei! E está na hora de começar. Atire Chuck!

O agente percebendo a distração tentou escapar, mas Nicolle foi mais rápida e levantou sua arma novamente.

- Nem pense! – ela grita pausadamente e atira no agente que cai com um baque surdo no chão a mão ainda segurando firmemente a maleta. Ela se volta novamente para Chuck irritada.

- Você não tem mais o Intersect, como pretende se defender? – ela pega a arma tranquilizante de Chuck no chão – Com isso? Nem sempre funciona. – Ele estende a arma para ele – Tente!

- Eu não...

- Tente! – ela abre os braços.

Ele atira. O dardo penetra no ombro de Nicolle, mas ela simplesmente o tira e segura entre os dedos.

- Existem fortes treinamentos contra isso. Fortes... e simples.

Neste momento Sarah e Casey entram no banheiro e olham o corpo no chão. Casey diz:

- Bem, parece que vocês já deram um jeito aqui. Os seguranças estavam em maior quantidade que esperávamos, é melhor irmos logo. – ele se abaixa, pega a mala das mãos do agente e a entrega para Sarah, depois verifica o pulso do agente.

- Ele está vivo!

- É claro que está. – Nicolle ainda olhava com raiva para Chuck. Sarah também olha para seu marido curiosa.

- Chuck, me ajude a carregar o agente até a van. – Casey continua aparentemente sem perceber a tensão no ar.

- OK – os quatro saem do pavilhão.

Chuck foi até a sala de estar, onde finalmente encontrou Nicolle, Sarah e Casey estavam interrogando o agente (que já no jatinho haviam descoberto se chamar Albert Knox), e ele havia procurado a garota por toda casa.

- Acho que temos uma conversa pendente.

Nicolle levantou as sobrancelhas:

- Qual? – ela pergunta despreocupada - A que fomos guiados pelo destino a ir buscar um copo de água ao mesmo tempo, ou a que você foi um completo idiota que não sabe apertar um gatilho?

- Eu acho que não considerei essa última como uma conversa. – Chuck responde franco.

Ela ofega sarcástica.

- Por que você não está no interrogatório? – ela pergunta de repente, obviamente mudando de assunto.

- Bom, eu não gosto muito de torturas. – ele pensa um pouco e completa – Com certeza essa não é a sua desculpa, qual é?

- Há algo errado. – ela fala pensativa, não respondendo exatamente a pergunta de Chuck.

- Como?

- Eles mandaram um agente muito fraco. Fraco demais. – ela responde baixo, mais para si mesma do que para Chuck. De repente ela balança a cabeça e fala num tom mais descontraído – O que você quer saber?

- O quê? – pergunta Chuck sem saber do que ela falava.

- Você disse que tínhamos uma conversa pendente. – de repente ela decidiu que queria falar sobre isso, era fácil falar com ele – Pergunte enquanto estou boazinha. – completa numa voz infantil.

- Como era? Na base, com a CIA, digo... – ele parecia estar tendo dificuldades para se expressar, talvez surpreso com a atitude voluntária de Nicolle – você era uma criança.

- Bem... acho que é um pouco difícil de descrever. – Nicolle suspirou e continuou devagar – Acho que de certo ângulo, ela, ou seus agentes, foram como pais. – ela olhou divertida a expressão de incompreensão no rosto do parceiro – É. Não posso dizer que não ficaram felizes quando aprendi a caminhar ou a falar. É claro. Como iria lutar sem saber andar? Ou chantagear e torturar sem falar? Foi a partir daí que os treinamentos começaram. Ou dizer que eles não me encorajaram a fazer o que eles queriam, apesar de que o que eles queriam ser muito diferente do que pais querem para filhos e seus modos de encorajamento também. – ela suspirou novamente e continuou – O poeta John Betjeman disse: "A infância é medida pelos sons, aromas e cenas, antes de surgir a hora sombria da razão." Usando esta frase eu acho que posso dizer que na minha infância os sons que ouvi foram de tiros, os meus e os que meu treinador dava me ensinando a desviar deles, você não sabe quantos tiros levei naquela sala de treino, eu não era muito boa nisso – ela deu uma risada fria – Os aromas com certeza não foram de bolos recém tirados do forno e as cenas... – Ela parou por um momento pensando e continuou – acho que foi da primeira infeliz pessoa que colocaram na minha frente para torturar e matar. Eu tinha acabado de completar quatro anos, era uma brincadeira para mim. – em nenhum momento de sua descrição Nicolle realmente olhou para Chuck – E a hora sombria da razão, – ela da um pequeno sorriso irônico – ela sempre caminhou ao meu lado. Você já imaginou um espião inocente? Um espião que visse o mundo como ele queria que fosse? Que não visse a maldade nas pessoas e simplesmente não acreditasse naquilo que não quer que seja verdade? Como fazem as crianças em sua inocência? – ela se cala por um pequeno instante e completa com um sorriso franco – Não ia dar muito certo.

- Foi por isso? – Chuck finalmente conseguiu dizer algo a voz baixa por causa da garganta seca – Bom, você mesma disse que estava cansada que eles mandassem em você.

- Não. Bem, hoje sim. Mas não naquela época. Eu fazia tudo o que me mandavam de bom grado, me esforçava o máximo para dar o meu melhor. Veja bem, eles eram o melhor de pais que eu tinha, crianças sempre querem orgulhar seus pais, eles são seus heróis.

- E adolescentes se rebelam contra os mesmos.

- É... – houve um silêncio onde nenhum dos dois sabia como continuar. Nicolle quebrou-o mudando de assunto. – Acho que vou participar da interrogação, assim é mais fácil de descobrir o que está errado do que ficando aqui sentada. Você deveria ir também, sabe? Aprender como se faz. Talvez um dia você precise.

- Ãh... Não, obrigado.

- Espiões de verdade não têm pena.

- Eu tenho piedade.

Nicolle levantou as sobrancelhas, mas não discutiu e foi embora.

Chuck continuou sentado lá, pensado por um longo tempo mesmo depois da interrogação terminada.