Sob as cerejeiras
O caminho até a escola de Mitakihara era repleto de cerejeiras e era um espaço muito visado pelos alunos durante o intervalo para o almoço. Já se havia passado a época do florescimento e as árvores não estavam tão exuberantes.
Era o que Nagisa podia constatar enquanto caminhava por ali, enquanto procurava um lugar para sentar e comer. Ela bem que gostaria de fazer isso com Madoka e Homura, mas como Madoka explicou, aquele mundo era diferente. Mami nunca foi uma amiga próxima das duas na escola, nem teve tempo para isso.
Seria no mínimo estranho que Nagisa, que acabara de se matricular, de repente tivesse uma intimidade com elas, pelo menos por hora.
O próprio fato de precisar se matricular já era uma grande diferença e trazia consigo uma série de complicações. Ela se lembrava muito bem daquele dia...
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O homem no balcão da secretaria examinava minuciosamente o papel em branco. "Uhum... Akio Momoe..."
No outro lado do balcão, uma garota de longos cabelos ruivos e vestindo terno e gravata estava impaciente. "É, esse é o meu nome. Tem algo errado, hein?"
"Não. Desculpe senhor, apenas prezando para que nenhum dado esteja incorreto."
A garota sorriu. "Heh. Claro que sim..."
O homem continuou a ler o documento com nada escrito. "E você é Sanae Momoe, a mãe dela."
Ao lado da garota com terno havia outra, de braço entrelaçado. Ela tinha longos cabelos brancos e olhos amarelos. "Oh sim. Espero que esteja tudo certo para que eu possa matricular a minha Nagisa." Ela acariciou a menina de cabelo similar, que olhava com ansiedade para o atendente.
"Eu também, estamos feliz em recebê-la aqui," disse o homem, enquanto olhava em outros pedaços de papel em branco. "Certidão de nascimento, comprovante de residência, contrato... Está tudo em ordem." Ele se levantou com a pilha de papéis e os levou até o armário de arquivos.
"Podemos ir, né?" perguntou a ruiva, "eu estou suando aq- AU!" Mas seu braço foi puxado pela outra.
O homem voltou. "Aqui estão as cópias do contrato. Estamos gratos por terem escolhido nossa instituição para a educação da sua filha."
"Eu sei que cuidarão bem dela," disse a mãe enquanto colocava os documentos na sua bolsa, "eu recebi a indicação de alguém que estuda há muito tempo aqui."
A garota puxava seu grande rabo de cavalo vermelho para deixar entrar um pouco de ar fresco. "Ok, dá pra ir embora?"
"Sim." O homem ficou mais apreensivo. "Eu peço desculpas se fui rude e tomei o seu tempo."
"É, seja mais educado dá próxima vez," disse ela, já de saída, "falou."
Após deixarem a escola, as três garotas caminhavam pelas ruas de Mitakihara.
A ruiva olhava para os outros pedestres com certa preocupação. De repente ela sentiu sua 'esposa' recostar a cabeça em seu ombro.
"Kyouko, se você ficar olhando para as outras garotas, eu ficarei com ciúmes."
A garota de terno ergueu uma de suas sobrancelhas. "Você não tá levando esse disfarce muito a sério não?"
Elas entraram em um beco. Nagisa avistou a garota que as aguardava. Ela estava usando uma jaqueta grossa e boné, além de um grande par de óculos escuros. Ainda que aquilo ajudasse Sayaka Miki a esconder a sua identidade, para Nagisa aquilo estava longe de ser discreto.
"E então Mami-san? Deu certo?" disse a garota de cabelos azuis.
"Sim, nós conseguimos." A garota puxou uma mecha de seus cabelos brancos. "Ninguém me reconheceu e fui fiel em meu papel como mãe de Nagisa."
"Fiel..." Nagisa segurou um riso.
Deixando as outras curiosas, especialmente Mami. "O que foi?"
"Na verdade o cabelo eu puxei do meu pai."
"Ué?" Kyouko ficou confusa. "Minha ilusão podia ter mostrado isso. Por que não nos contou?"
Ainda sorrindo de leve, Nagisa balançou a cabeça. "Eu não queria que vocês ficassem parecidos com eles..."
"Você tem razão." Mami jogou seu cabelo para trás e suas mechas se transformaram em laços brancos. Logo depois, os laços mudaram para a cor amarela e se reorganizaram para formar cabelo original da loira.
"Belo truque," falou Kyouko enquanto puxava a sua gola, "agora dá pra me livrar dessa roupa?"
Mami fez um gesto.
As roupas formais dela se desfizeram em laços que se transformaram de volta nas roupas que ela estava usando, que eram bem mais folgadas. "Ah... que alívio. Eu nem sei por que eu precisava vestir isso, eu podia ter usado uma ilusão."
As outras garotas estavam com sorrisos maliciosos estampados em suas faces.
Kyouko havia entendido. "Tch... Vocês me pegaram dessa vez..."
Sayaka tirou os seus óculos. "Eu não podia perder a oportunidade de ver você vestida de forma descente."
"Veja isso como uma forma de pagar pelos os meus empréstimos," Mami complementou.
"Jura?" Kyouko fechou os olhos e colocou as mãos atrás da cabeça. "Eu pensei que eram doações..."
"Não acredite nela," avisou Sayaka.
"Sim, eu a conheço bem..." Mami cruzou os braços com um olhar de suspeita para a ruiva. "O dinheiro tem sido o suficiente?"
"Procuramos ficar em abrigos e estadias baratas," respondeu Sayaka, "seria mais fácil se eu não tivesse que cobrir o apetite dessa daí."
"Como se comida não fosse importante," retorquiu Kyouko, "e você que andou comprando um smartphone."
Sayaka pegou o dispositivo do bolso da sua jaqueta. "Isso aqui é para eu me comunicar com a Madoka!" Então sua face se iluminou. "Ah! Eu tirei umas fotos das nossas viagens, querem ver?"
Nagisa ficou excitada. "Eu quero!"
Enquanto Kyouko ficava mexendo em seu rabo de cavalo para passar o tempo, Sayaka mostrava as imagens para as outras duas. "E essa aqui é nós na frente do castelo Kumamoto."
"O lugar é enorme!" falou Nagisa.
Mami também estava impressionada. "Então vocês passaram o resto do inverno em Kyushu?"
"Sim." Sayaka continuou a mostrar mais fotos. "Nós queríamos ir a mais lugares, mas o clima não estava bom."
Kyouko assentiu, comentando, "É... a gente pegou uma tempestade braba..."
Uma das fotos chamou a atenção de Nagisa. "Vocês tiraram fotos do cavalo também."
"Sim!" Sayaka sorriu, mostrando mais imagens do animal. "Eu fiz um álbum só com imagens dela."
"Dela?" Mami franziu a testa. "Ah sim, é uma égua."
"Isso!" disse Sayaka, "com a magia da Kyouko, nós escondemos ela para não termos problemas, principalmente com a polícia. Por isso que as fotos dela são todas na beira da estrada ou no mato."
"Então vocês a esconderam antes de entrar na cidade?" perguntou Mami.
Foi Kyouko que respondeu, "Uhum. Deixamos a Homura perto de um posto de combustível na rodovia. É o que normalmente fazemos."
Mami piscou o olho. "Ho... mura?"
Nagisa também estranhou.
"CAVALO!"
As garotas voltaram sua atenção para Sayaka.
"Ela quis dizer cavalo! Hahahaha!" A garota colocou as mãos na cintura e consultou Kyouko. "Não é?"
"Claro." Kyouko deu de ombros, um tanto confusa. "Nós não estamos conversando sobre o cavalo, hein?"
Observando as duas se entreolhando por um bom tempo, Mami não tinha plena certeza, mas deu como entendido. "Ah... sim... certo..."
Sayaka voltou a falar, ainda nervosa, "Agora que teremos dias mais quentes pela frente, vamos para o norte. Quem sabe até Hokkaido, haha..."
"Vocês vão precisar de mais dinheiro para isso," afirmou Mami.
"É..." Sayaka fez uma careta desviando o olhar, mas então ela sorriu. "Contudo, acho que só vamos precisar mais um ano para visitar as principais cidades do país. Depois disso nós podemos ir embora."
"Embora?" Nagisa ficou confusa.
"Sim, voltar para a Lei dos Ciclos. Esqueceu que estamos aqui em missão?"
Mami ponderou, "Eu... nem parei para pensar nisso, mas é óbvio..."
"Tudo bem, Mami-san, ainda vai levar um tempo." Sayaka apontou para a ruiva. "O problema é convencer essa esfomeada a voltar."
Kyouko ficou emburrada, virando a cara. "Eu não vou pra lugar algum que não tenha comida de verdade."
Sayaka suspirou. "Mas já te falei que você nem precisa comer."
"Pior ainda!" Kyouko exasperou. "Não ter fome pra satisfazer, isso é... surreal."
Nagisa comentou, "Quando eu estava vivendo na minha barreira, tinha um monte de doce para comer, ao ponto de ficar enjoada."
"Literalmente comer magia. Sem chance!" Kyouko consultou a loira. "Né, Mami?"
Ela respondeu, acanhada, "Bem... Eu já preparei alguns chás usando magia, então..."
"Tá falando sério?" Kyouko arregalou os olhos. "E eu bebi?"
"Hahaha!" Sayaka deu um tapinha nas costas dela. "Viu? Só você está reclamando."
Kyouko abaixou a cabeça. "Droga..."
A expressão de Sayaka ficou mais séria, enquanto mudava o assunto. "Ei Mami-san, como está a nossa estudante transferida?"
"Akemi-san? Você ainda a chama assim?"
"Eu não sei. Eu podia chamar ela de diabo ou algo similar..." Sayaka abaixou levemente a ponta de seu boné. "Mas ela deve estar diferente agora, mais sorridente... ou não?"
Mami hesitou em falar, "Na verdade..."
"Eu sabia!" Sayaka rangeu os dentes e socou sua própria coxa. "O que essa garota quer? Ela está vivendo com a Madoka, com a família dela, na mesma casa, no mesmo quarto."
Kyouko complementou, "Na mesma cama..."
"Nem brinque com isso," disse Sayaka em tom ameaçador.
Mas isso não intimidou a outra. "Mas falando sério, eu não tô surpresa."
"Como é?!"
Com Sayaka ainda mais nervosa, Nagisa interveio. "O que Kyouko-chan diz é verdade. E-Eu convivi com Homura-chan por um tempo. Ela é uma pessoa que esconde seus sentimentos, mas ela deve estar feliz agora, mais do que antes."
Com o clima mais calmo, Kyouko perguntou para Mami. "Fala aí, você tem alguma lembrança de como Homura era antes?"
"Antes?"
"Você deve ter lembranças disso, Kyouko," afirmou Sayaka, "além do mais, você viu como ela era quando estávamos na falsa Mitakihara."
"Não é isso!" Kyouko mostrou a sua mão com o anel. "Eu tô falando antes dela se tornar garota mágica."
"Mas ela sempre foi uma garota mágica," Sayaka respondeu sem pestanejar, "eu sempre me lembro do anel quando ela se apresentou para a sala de aula."
Kyouko deu um peteleco na testa da Sayaka.
"AIE! Por que fez isso?"
"Para você parar de ser tansa." Kyouko cutucou sua própria testa. "Pensa! O contrato que Homura fez foi pela Madoka e as duas se encontraram pela primeira vez na escola, na sua sala de aula. É claro que você viu ela antes de ser garota mágica!"
"Mas é isso que estou querendo dizer," Sayaka insistiu, "eu nunca vi ela sem o anel."
Deixando Kyouko confusa. "Isso é estranho..."
"Eu acho que me lembro."
Elas olharam para Mami.
Ela continuou, "Era eu e Madoka-san protegendo a cidade. No caso, Madoka-san tinha acabado de se tornar garota mágica e eu a estava ensinando. Em uma de nossas patrulhas, nós salvamos Akemi-san de uma bruxa."
Kyouko sorriu. "Heh. Essa é uma porta de entrada comum para se tornar uma garota mágica."
"Ela podia conversar com Kyuubey e nos acompanhou em algumas patrulhas, mas eu não me lembro de ela ter feito um contrato," disse Mami.
"Eu não estava com vocês?" Sayaka perguntou.
Mami pensou um pouco e então balançou a cabeça. "Não."
"Bwahaha! Parece que a rosinha trocou você pela Mami," comentou Kyouko.
Sayaka ameaçou de novo, "Mais uma dessas e você leva um murro na cara."
A loira gesticulou para pedir calma. "Eu acredito que ela não queria misturar vida normal dela com a de garota mágica."
Kyouko ficou mais séria. "E se lembra do comportamento da Homura?"
"Ela era bem quieta e reservada, hesitava em sorrir..." Mami colocou a mão na cabeça e fechou os olhos. "Mas ela sorria quando Madoka-san estava por perto. Essa garota irradiava uma aura de alegria, mas ela não se comportava assim comigo, provavelmente por respeito."
"Homura não falava contigo?" Kyouko franziu a testa.
"Sim, ela conversava comigo. Eu me lembro de uma vez que ela estava curiosa sobre como eu tornava meus laços em armas de fogo." Mami abriu os olhos, quebrando sua expressão serena. "Não, espere, ela já estava com o anel dela. Essas lembranças são tão caóticas... e eu não gosto de explorá-las."
"E nem precisa," disse Sayaka, "eu não sei aonde Kyouko quer chegar com isso."
"Tch... A gente acredita que Homura se tornou assim por causa da vida de merda que ela teve como garota mágica, com todas essas viagens do tempo e pá..." Kyouko socou sua outra mão, com olhar se perdendo. "Mas pode ser que ela tivesse problemas antes de ser uma, meio como eu."
"Eu sei que ela precisou fazer uma cirurgia no coração e ficou internada por um bom tempo," afirmou Mami.
Trazendo a atenção de Kyouko de volta. "Isso não é caro? Quem pagou?"
"Eu não sei."
A ruiva ponderou, "Hmmm... Deve ter alguma coisa..."
"Se há, acho que a melhor pessoa que pode descobrir e lidar com isso é Madoka-san," declarou Mami, "creio eu que ela seja a única pessoa que Akemi-san daria ouvidos."
"Eu tenho lá as minhas dúvidas." Sayaka colocou seus óculos escuros de volta. "Acho que já passamos tempo demais nesse beco, é melhor irmos."
"Peraí." Kyouko então perguntou para Mami, "Yuma, tem notícias dela?"
Tanto ela quanto Nagisa ficaram paralisadas naquele instante.
"Mami?"
A loira então balbuciou, "Eu... sei que Madoka-san fez algumas visitas e Mikuni-san estaria cuidando bem dela."
Kyouko semicerrou o olhar. "Hmmm... Acho que vou fazer uma visita."
"Ahahaha! Mas você não vai mesmo!" Sayaka exclamou, "você só vai arranjar briga lá."
"A gente pode aparecer por lá e dar uma espiada sem que ninguém saiba," a ruiva propôs.
"Pode esquecer!"
Enquanto as duas discutiam, Mami e Nagisa se entreolhavam.
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Nagisa se lembrava muito bem que naquele dia Mami convidou Sayaka e Kyouko para um chá. Foi a única forma de garantir que Kyouko não fosse ver Yuma e os eventos terríveis que se sucederiam.
Enquanto pensava se havia uma forma de revelar para Kyouko sobre o que havia acontecido, um casal sob os pés de cerejeira chamou a sua atenção.
Ayako e Sanjuro estavam de mãos dadas e pelas expressões que faziam, deviam estar trocando palavras de afeto. Ayako e Sanjuro! Desde o primeiro dia, os dois já estavam namorando.
Nagisa parou de olhar para eles e seguiu caminho. Os rostos eram conhecidos, mas ela estava ciente que teria que começar tudo do zero. Tanta coisa havia mudado, não somente por ser um mundo diferente, mas pela própria passagem do tempo.
Se afastando mais da escola, ela encontrou outro rosto conhecido.
Aki estava sentado na raiz de uma árvore e estava distraído, escrevendo algo em seu caderno.
Nagisa contemplou ele e depois olhou para a sua própria mala.
Tudo do zero.
Ela se aproximou de Aki, sem que ele notasse, e cumprimentou. "Olá."
Em movimentos súbitos, o garoto olhou tanto para ela quanto fechou o seu caderno.
A reação intimidou Nagisa. "P-Posso... sentar aí..."
Ele colocou o caderno dentro de sua mala lentamente, respondendo somente depois, "Você pode."
Mais aliviada, ela sentou em uma raiz que estava disponível. Não era muito confortável.
Aki viu ela tentando uma posição melhor. Além dos olhos, o que mais chamava atenção naquela garota era meia a calça, marrom com bolinhas de tons mais claros. O padrão delas era mesmerizante.
"O que está achando do uniforme da escola?"
A pergunta dela trouxe ele de volta do transe. "Hã? Ah... Normal, eu acho... um pouco sem graça também, comparado com os das garotas. Você deve sentir muito calor com essa roupa."
Aquele comentário fez Nagisa se lembrar de seu sutiã. "Quente? Nem tanto, ainda estamos longe do verão."
"Mas como você sabe que nós começamos a usar uniformes a partir dessa série?" ele perguntou, "já estudou aqui antes?"
Nagisa ergueu as sobrancelhas e sorriu. "Eu soube porque alguém me disse... hehe."
Aki ficou em silêncio, sem olhar para ela.
Nagisa sentiu a necessidade de falar, "você sabe quem eu sou? Eu estou estudando na sua sala."
"Sim, Nagisa Mo... moe, a nova estudante." Aki virou a cara. "Você não precisa fingir."
"Fingir?"
"Fingir que tem interesse em mim. Takuma gosta de enviar garotas para falar comigo. Ele diz que é treino, mas eu não gosto de ser iludido."
Treino? Nagisa fez uma careta. "Kuroki-kun não me enviou. Na verdade, eu vim falar contigo porque eu vi justamente ele chutando a sua mala."
Aki continuava de cara virada.
Nagisa pressionou, "Hidaka-kun, por que você estava carregando todas aquelas malas?"
Aki olhou para ela de relance e respondeu, de forma ríspida até, "Você é nova, por isso que não sabe, mas as pessoas daqui me acham eu fraco."
"E acha que fazendo isso vai mudar opinião delas sobre ti?"
Ele puxou uma folha da grama até que ela se arrebentasse. "Se eu fizer nada, terei certeza disso."
Nagisa pensava na próxima coisa que iria falar quando sentiu sua barriga mexer. A fome estava falando mais alto. Ela abriu sua mala e tirou um pote. "Você já comeu?"
"Já." Aki continuava brincar com folha entre os seus dedos.
A conversa estava indo pior que o esperado para Nagisa. Ele estava diferente, mais... amargo. Talvez ele sempre fora assim, a diferença é que naquele mundo ele tinha nutrido um interesse por ela ao longo de um tempo antes de se falarem pela primeira vez. Talvez tivesse sido um erro ter se aproximado dele agora.
Aki olhou para o pote que se abria. O conteúdo era o esperado: arroz, legumes, frango grelhado... exceto por alguns bolinhos secos e amarelados.
Percebendo que aquilo poderia ter chamado a atenção dele, Nagisa ofereceu um dos bolinhos. "Já comeu um desses?"
Ele apenas balançou a cabeça, negando.
"Quer um?"
"Eu já disse que comi, não estou com fome..." Apesar da resposta, Aki logo viu um daqueles bolinhos na sua frente sendo segurado por palitos de madeira.
"Mas quem disse que se come isso por causa da fome." Nagisa deu um sorriso de orelha a orelha.
O garoto pegou o bolinho e ficou examinando. A casca era seca e dura, mas ele podia sentir ao pressionar que era macio por dentro. O cheiro era forte e lembrava algo que ele já conhecia. "Qual o nome disso?"
"Pão de queijo," respondeu Nagisa, "é uma comida brasileira, mas é incrível que você não conheça, pois existem padarias que vendem isso por aqui."
"Então isso é um pão..." Sem mais delongas, Aki mordeu. Como ele havia notado, a casca se quebrava, cedendo espaço para a massa macia. O cheiro e o gosto que lembrava queijo dominavam os seus sentidos enquanto o pedaço derretia em sua boca. "É... gostoso." Ele deu outra mordida. "Hmmm... tem um gosto forte." E outra. "E enche." Até que não sobrasse nada.
Nagisa ficou impressionada com a voracidade. "Parece que você ainda tinha fome." Ela ergueu a cabeça e deixou que o pão de queijo caísse por inteiro dentro de sua boca. Enquanto mastigava, ela suspirou e seus olhos reviraram.
Vendo isso, Aki arregalou os olhos e conteve o riso. "Pfstch! O que é isso?!"
"Hã?"
"Você fez uma cara engraçada agora," disse ele, mas logo parou de sorrir. "Ah... Desculpe."
"Não precisa! Não tenho como evitar..." Nagisa, com os seus olhos cheios de desejo, pegou outro pão. "Imagina se eles estivessem bem quentinhos."
Aki estava um tanto surpreso com a atitude dela, mas então sua visão captou algo.
Distraída com o pão, Nagisa só notou que Aki havia se aproximado quando ele cutucou o seu longo cabelo. "Hidaka-kun?"
"Não se mova." Ele se afastou lentamente e em seu dedo havia um grande besouro verde.
"Ah! Isso estava no meu cabelo?"
"Esses soltam um fedor terrível se forem incomodados," disse Aki enquanto cuidadosamente deixava o seu dedo perto do tronco da árvore, por onde o besouro passou a escalar.
Nagisa cheirou uma de suas mechas, se assegurando de que não havia acontecido o pior. "Obrigada."
Aki olhou para ela, mas logo evitou o contato. "É... e obrigado também."
"Pelo o quê?"
"Por ter colocado de volta as minhas coisas na mala," disse ele.
Nagisa sorriu, a pessoa que ela conheceu tão brevemente ainda estava ali.
"EI! AKI!"
"É o Takuma." Aki se levantou de súbito ao reconhecer a voz, então ele se virou para a garota. "Preciso ir, meu amigo está me chamando. Tome cuidado com o besouro."
Nagisa olhou para o tronco da árvore. "Vou tomar, heheee..."
Ele pegou a mala. "Hmmm... tchau..." E saiu correndo.
"Tchau." Nagisa acenou para ele mesmo que ele não pudesse ver. Agora ela estava sozinha com o seu almoço e os pães de queijo, mas certa de que a conversa não tinha sido um desastre.
No entanto, sua satisfação foi interrompida por uma palavra que ela mal havia processado com tudo acontecendo tão rápido.
Amigo?
Próximo capítulo: Um novo portão
