Parte I
Observando os novos rumos que a alma de Maschera Mortuaria levava (que agora Shion preferia chamar de Chiara, por ter se afeiçoado a pessoa que a alma agora era) tinha certeza que os 500 anos no alvejante fizeram efeito.
Verdade seja dita, Chiara era portador de uma alma cardinal, o tipo de alma que mais facilmente evoluía. A alma do Objetivo de Vida de Chiara, Aiolia, por exemplo, era uma alma fixa, aquelas que dificilmente evoluem e costumam repetir os mesmos erros de novo e de novo, vida após vida.
(só a título de informação, também existiam as almas mutáveis, que eram inconstantes e sua vida e evolução variava de acordo com o ambiente. As mais adaptáveis, mas as que mais produzem problemas e dor de cabeça)
De qualquer forma, Shion estava feliz com os rumos daquela alma que chegou tão negra a ponto de precisar de trigo para fazer contraste. Chiara não era a melhor pessoa do mundo, mas nunca tinha matado ninguém e tendo em vista o seu histórico isso era um avanço sensacional.
Assim, quando recebeu o relatório de Milo e de Shura dizendo que, finalmente, depois de dois anos conversando pela internet, Aiolia e Chiara sabiam de onde cada um era e os nomes, Shion se felicitou pelo romance, que vinha a passos de tartaruga.
Parte II
Shura ergueu a sobrancelha quando viu Chiara teclando no celular e rindo no meio da pequena confraternização pré-trabalho. Sabia que ele estava conversando com Aiolia e, como anjo da guarda, estava a ponto de comprar uma passagem para Atenas com o pretexto de férias e ir ele mesmo armar uma situação para que Máscara conhecesse Aiolia ao vivo.
Milo, o anjo de Aiolia, também passava por maus bocados, ainda mais levando em consideração que Aiolia detestava suas fuças por ter, aparentemente, transado com Shaka enquanto Aiolia e Shaka ainda eram um casal.
Um absurdo, Milo diria. Shaka era safado, mas era fiel.
E Milo, se fosse para escolher um ex de Aiolia, escolheria Mu, com certeza.
Falando em Shaka, o mesmo estava com o semblante fechado, fruto de ver Aiolia teclando no celular e se perdendo nas nuvens, coisa que já estava ficando chata e repetitiva. Mu riu da cara de Shaka e mandou uma mensagem para Aiolia, provocando.
Você já é surdo, caralho, que tal dedicar sua visão a algo que não seja o celular?
Aiolia fechou a cara e fez um muxoxo incompreensível antes de dar um tchau rápido para Chiara barra Máscara da Morte e guardar o celular no bolso.
- Que tópico é tão importante que merece minha presença?
- Estávamos falando no preço absurdo do ouzo. Fomos afetados pela crise – riu Kanon, sorvendo mais do líquido em questão. Era obviamente uma piada e o preço do ouzo era a última coisa que preocupava Kanon, sendo ele a única alma que estava trabalhando dentro de casa. – Eu diria que eu não devia estar num bar bebendo ouro líquido.
Saga, gêmeo de Kanon, suspirou ao lado. Viver estava difícil. – Não é como se fosse ficar assim até o fim dos tempos. Uma hora melhora.
- Deixe os pensamentos otimistas para mim, Saga – Aiolos riu – Não combina muito com você.
Entre os sete amigos, três trabalhavam: Aiolos, Kanon e Mu. Saga procurava desesperadamente um emprego como advogado, fora demitido no último semestre, enquanto Shaka e Aiolia estavam na universidade e então não eram tecnicamente desempregados. Milo, por sua vez, apesar de ter reencarnado como um humano única e exclusivamente para ficar de olho em Aiolia, ainda era subalterno de Shion e recebia seu soldo mensal. Para todos os efeitos era um estudante que ganhava a vida com atividades não reconhecidas oficialmente.
Em Roma, Máscara da Morte guardou o celular, sob os olhares cortantes de Camus, Shura, Afrodite e do chefe. Não era muito educado ficar grudado no celular no meio de uma festa e Camus fez questão de exteriorizar o fato.
- Não é muito educado ficar ao celular em público, Chiara.
Camus costumava ser incisivo e dizer exatamente o que pensava, sem ressalvas, e volta e meia Máscara da Morte se irritava com isso. – E? – respondeu cínico.
Camus girou os olhos, levemente irritado e bufou. – Por que não chama esse tal Lion para se encontrar e resolve esse problema na cama de uma vez?
Para Camus, invariavelmente, os problemas poderiam ser solucionados na cama.
Afrodite concordava e costumava resolver seus problemas na cama de Camus.
- O nome dele é Aiolia.
- Descobriu o nome dele finalmente é? – disse Aldebaran, começando a juntar os copos da festinha surpresa – Achei que fossem ficar nessa lengalenga de nem saber o nome um do outro para sempre.
- Ele é de onde? Turquia?
- Grécia, Afrodite. – volveu Camus, ajudando o chefe na limpeza – Se algum grego te ouvir falando isso é motivo de morte.
Shura estava internamente dando pulos de alegria, mas a felicidade era só interna. Externamente permanecia sério e estóico como sempre e tentava não fangirlizar (ou, no caso, fanboyzar) em público sobre o avanço romântico de seu protegido. Quando chegasse em casa teria que atualizar a tabela de Chioria, como ele tinha carinhosamente apelidado o shipp.
A aproximadamente mil e trezentos quilômetros a sudeste, em Atenas, Milo se mordia de vontade de perguntar, mas sabendo que receberia uma má resposta atravessada ou talvez seria ignorado completamente e não gostava do que resultaria em nenhuma das duas hipóteses, não o fez. Decidido a fazer esse romance andar e ao menos fazer Aiolia contar que tinha um amigo virtual que estimava muito, Milo decidiu por usar meios indiretos e puxou Mu para uma esquina qualquer, dando a desculpa de perguntar sobre uma garota que inexistia.
- Que garota quer saber, Milo? Você sabe, ela pode ter saído da Grécia, mas bem capaz de vir aqui só pra te capar se descobrir que você arranjou outra – Mu começou a falar enquanto prendia os cabelos. A ex-namorada possessiva de Milo era um assunto que preocupava a todos exceto Milo, que respondeu a lembrança da ex com um dar de ombros – Mas se quiser tem uns caras que posso te apresentar.
- Não tem garota nenhuma, também não quero ninguém – começou Milo – Não acha estranho o Aiolia com o celular o tempo todo? Não acha que tem alguém?
Mu ergueu os pontinhos tatuados, incrédulo – Desconfiei, mas ele me contaria se tivesse um cara.
- Não se não tivesse algo, tipo... Se ainda estivessem começando ou sei lá.
- Ainda assim ele contaria.
Milo bufou nervoso. Mu era um tanto teimoso quando queria ser – Só pergunta pra ele, ta? Se eu perguntar ele vai me ignorar ou vir com patada e se isso acontecer eu não respondo por mim.
Milo queria evitar voar nas fuças de Aiolia.
Até por que, como anjo da guarda da pessoa em questão, poderia ser demitido se o fizesse.
Digo, que espécie de anjo da guarda saía aos tapas com seu protegido?
- Ah, você quer que eu pergunte?
- Isso.
- Ok.
Enquanto Milo tentava dar um passo adiante na vida romântica de Aiolia, Il Paradiso começava as atividades noturnas. Com Camus e Afrodite nos camarins se preparando para as apresentações da noite e Aldebaran andando por aí gerenciando os demais funcionários, Chiara se viu sozinho com Shura no bar, terminando de limpar o mesmo depois da festinha improvisada.
- E então, quando vai para a Grécia dar as caras para o tal aglio e olio? – Shura adorou o apelido – Ou vai demorar outros dois anos?
- Não vai acontecer – volveu Máscara, secando um dos copos de Martini com uma concentração exagerada – Ele é gay, acho.
- E você um homem, sabe?
Máscara suspirou antes de responder, guardando o copo – Ele é um gay que curte pênis, Shura.
- Você nem o conhece direito, não pode afirmar que ele vai te dar um pé na bunda ao descobrir que você é trans.
- Ah, claro. Por que isso nunca me aconteceu antes. – respondeu cínico. O que mais acontecia era homens rejeitarem Chiara (depois de rir do nome dele) quando descobriam que ele era transgênero. Invariavelmente situações assim paravam na cadeia, com Máscara da Morte passando a noite na ala feminina da delegacia e/ou respondendo um processo por agressão – Não sei como passou pela minha cabeça que um cara me rejeitaria por ter nascido com o sexo feminino.
- Mas esse é diferente.
- Como sabe, espanhol de merda? – respondeu rude, quase quebrando o copo que secava – É sempre a mesma coisa, por que com o Aiolia seria diferente?
Shura não podia dizer que Aiolia era o objetivo de vida de Máscara da Morte e muito menos que sabia que não ia dar certo com todos aqueles caras que Chiara tentou se relacionar. Confidencialidade trabalhista. Ou algo assim. Mesmo se pudesse dizer, duvidava muito que alguém fosse acreditar. – Por que não conta pra ele? Ou puxa o assunto?
Shura efetivamente não levou um soco nas fuças por que Aldebaran sentiu a aura negra que envolvia os dois e segurou o murro a meio caminho – Ei, ei. O que está acontecendo aqui?
- Nada, chefe – responderam em uníssono.
- Chiara, eu até entendo você bater nos clientes ofensivos, mas não quero você batendo em outros funcionários, entendido? – respondeu Aldebaran soltando o punho fechado de Máscara da Morte – O que aconteceu dessa vez? – perguntou sério.
- Só o cabrito se metendo onde não devia.
Sobre essa frase, há de se ressaltar duas coisas, para fins de contexto:
1- Shura adquirira o apelido de cabrito quando, aos 12, fora atacado por um na fazenda dos pais de Chiara.
2- Era de conhecimento geral nas araras do céu que caprinos odiavam anjos ou almas de classificação pura.
Shura odiava o apelido, que só era utilizado com esse objetivo mesmo. Sabia que estava entrando em um terreno delicado e que estava errado, mas como convencer o protegido sem contar o que sabia? – Desculpe, Chiara.
Máscara da Morte bufou antes de respondeu um "tudo bem" abafado.
Por sua vez, Aldebaran deixou o semblante cair, cansado das brigas constantes daqueles dois. No tópico de hoje ao menos dessa vez Máscara tinha razão. Shura sabia que a transexualidade era um tópico delicado e não devia ficar cutucando em algo que não lhe dizia respeito. – Vai esfriar a cabeça nos camarins, Chiara. Afrodite estava querendo falar com você.
Assim Shura levava um sabão do chefe por desrespeitar Chiara ao mesmo tempo em que Mu puxava um assunto um tanto parecido com Aiolia na mesa do bar.
- Aiolia, tá de namoro novo? – começou, comendo um pedaço de pão com tzatziki¹ - Não larga o celular.
Aiolia ergueu a sobrancelha em dúvida se tinha entendido certo – Como assim?
- Namoro. Sabe. Um cara.
- Não acho que ele teria um namorado novo e não contaria para mim, Mu – começou Shaka – Ele não ousaria.
- Mas ele não larga o computador, fica lá 24h – começou Aiolos, jogando a perna no colo de Saga, já meio bêbado – Fica falando com um tal de Máscara da Morte.
- Que espécie de pessoa se chama assim? – respondeu Saga, tirando a perna de Aiolos do colo e pondo as suas no colo do mesmo – É um tanto... Bizarramente Incomum.
- Anormal, eu diria. – volveu Kanon, também usando as pernas de Aiolos como apoio, entrelaçando as suas na de Saga – Mas já se conhecem ao vivo? Não dá pra ter namoro sem ter pegado, Aiolia, qual é.
- Não tem namoro nenhum, ele não me contou – disse Shaka incisivo – Ele não ousaria.
- Ele nem te deve satisfação, loiro.
Com essa fala, Kanon conseguiu uma discussão acalorada e meio bêbada com Shaka, que ainda acreditava que Aiolia devia lhe contar suas atualizações amorosas, mas não por algum sentimento possessivo, ele negava e afirmava ser por que Aiolia era um idiota e Shaka e Mu (e Milo) deviam aprovar ou não o pretendente.
Nenhum pretendente jamais fora aprovado.
Com isso Aiolia se sentia um adolescente infantilóide, mas ignorava o fato por que Shaka invariavelmente tinha razão sobre as pessoas. Mu, por outro lado, não aprovava ninguém por simples birra por motivos ainda desconhecidos.
Mu também não aprovava nenhum relacionamento de nenhum dos outros seis amigos que incluísse pessoas de fora, mas isso era um caso a parte.
- Não tem ninguém – Aiolia girou os olhos, cansado desse falatório todo – O tal Máscara da Morte é só um amigo, o nome dele é Chiara.
Então Aiolia se preparou para ver os amigos discutirem sobre o nome feminino do tal cara e se ele não era shemale ou hefemale ou que o valesse. Curiosamente, o falante Milo se mantinha calado e Aiolia sabia que era ele quem colocou caraminholas na cabeça de Mu para que jogasse a merda no ventilador. Milo pagaria com requintes de crueldade.
- Vocês falam de mim, mas o Milo se corresponde há anos com um espanhol chamado Shura. Tem até foto com ele.
Milo ficou boquiaberto. Evidentemente conhecia Shura, mas não era para ninguém saber disso – Shura é só um amigo.
Tendo mudado o foco do assunto com sucesso, Aiolia riu de lado, vingativo, recebendo uma olhada mortal por parte de Milo, que rapidamente abriu o semblante, tendo uma idéia.
- Na verdade eu e o Shura estamos namorando já tem seis meses. Ele vem com um amigo me visitar por esses dias.
Milo ainda teria que explicar Shura do plano e fazê-lo tirar Chiara da Itália, mas isso era o de menos.
Se Aiolia e Máscara da Morte não davam um passo adiante por bem, iria por mal.
¹ Molho feito com iogurte, alho e pepino, normalmente servido com carnes
