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SOBRE VILÕES E HERÓIS
Miss Bluebird

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II. Sobre Weasleys e ultimatos

"Ei.", ele disse, para quebrar o silêncio, que já começava a ficar desconfortável. Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, mas não disse nada. Harry teve que conter um sorriso irônico – Hermione Jane Granger Weasley, uma das maiores mentes do Ministério da Magia, idealizadora de diversos projetos políticos e econômicos, autora de três livros publicados (um deles premiado inclusive pelo próprio Ministro da Magia), esposa de seu melhor amigo, ali parada na soleira de sua porta, o encarando com aqueles dois olhos de chocolate e sem saber o que dizer. Harry quase riu da ironia. Quase. Ao invés disso, forçou um sorriso discreto, e se afastou para lhe conceder passagem. "Entre."

Ela passou por Harry em silêncio, e antes de fechar a porta ele notou seus olhos esquadrinhando o apartamento, tentando disfarçar a expressão de censura. Havia muitos cigarros apagados no cinzeiro, garrafas vazias, restos de comida e roupas sujas espalhadas pelo chão e pelo sofá. Esperava algum comentário sobre a total e completa bagunça do lugar, mas ela parecia estar se esforçando para não dizer nada. Seus cabelos cheiravam a shampoo, o que o deixou ligeiramente embaraçado, já que ele devia estar cheirando a cigarro, vodca barata sujeira de uns dois dias sem tomar banho. Sentiu as bochechas esquentarem.

"Você não apareceu ontem.", ela disse, se virando para ele novamente, após a sua cuidadosa inspeção. Seus olhos brilhavam e Harry conhecia muito bem aquele brilho – estava prestes a levar uma bronca. Seu tom de voz, no entanto, veio calmo e controlado, o que o deixou mais embaraçado ainda – e talvez com um pouco de raiva. Detestava toda aquela condescendência. Ele estava desempregado, bebia e fumava o dia inteiro, fazia sexo com qualquer mulher que encontrasse na rua, tratava todo mundo feito lixo e, ainda assim, todos ainda pareciam ter pena dele. "Todo mundo perguntou por você. Eu e Ron ficamos preocupados. Eu tive de convencê-lo a não vir até aqui arrastar você pra lá."

Ela pareceu atirar aquelas palavras em cima de Harry como se fossem tijolos. Ele engoliu em seco, tentando decifrar aquela expressão estranhamente impassível que ela mantinha no rosto. Alguns segundos se passaram antes que ele pigarreasse. "Acho que dias especiais deixam de ser especiais quando você percebe que não há nada de especial neles.", declarou, e sua voz saiu rouca. Perguntou a si mesmo há quanto tempo não a usava.

"É. Talvez.", ela murmurou, baixando os olhos, e depois se aproximou alguns passos, e lhe estendeu um pacote que trazia nas mãos. "Aqui. Comprei pra você."

"Obrigado. Não precisava."

Hermione soltou uma risadinha pelo nariz, e o encarou com os olhos tristes.

"É natal, Harry."

Ele não soube o que responder. Ficou encarando o pacote que tinha nas mãos, tentando não prestar atenção àquele silêncio cheio de dor. Desejou que Hermione fosse embora. Que o deixasse sozinho. Que parasse de encará-lo com aquela expressão que ele não sabia ler. Mas ela não se moveu. Nem disse nada. Continuou ali, olhando pra ele.

Harry pigarreou mais uma vez, finalmente erguendo os olhos para encará-la também.

"E Ron?"

Hermione se virou de costas, empertigando-se e enxugando discretamente os olhos, que haviam se enchido de lágrimas. Sua voz tremeu um pouco antes que pudesse se recompor. "Como sempre, ele está no Ministério. Recebemos uma coruja relatando um ataque a alguns trouxas perto do centro. Provavelmente obra de ex-Comensais. Ele ficou de ir lá preencher a papelada, e depois nós vamos almoçar n'A Toca. Eu prometi a ele que você estaria lá, Harry.", respondeu, antes de se virar novamente, e voltou a encará-lo com os olhos um pouco avermelhados, completamente recomposta. Harry suprimiu um sorriso diante de toda a argumentação dela – Hermione nunca deixava de surpreendê-lo – e depois baixou os olhos. "Todos nós sentimos sua falta, Harry. Eu sinto sua falta. Acredite, não estou desmerecendo ou minimizando sua dor, mas já se passaram mais de dois anos, e Ginn-"

"Pare.", cortou, num tom de voz mais alto e mais rude do que o pretendido. Não queria notícias. Não precisava de confirmação do quanto ela estava feliz e realizada, nos braços de outro homem. Hermione se calou, e ele se arrependeu imediatamente. "Sinto muito."

"Não importa.", ela disse, imediatamente, e Harry sentiu um pouco de frieza no seu tom de voz.

Ela passou por ele e abriu a porta da sala. Harry continuou encarando o chão. Não tentou impedi-la.

"Harry.", ela murmurou, e ele ergueu os olhos. "O mundo não acabou e você não está sozinho. Pare de agir como se estivesse. Nós todos estaremos esperando por você. E por Merlin, Harry, tome um banho e faça essa barba, você está fedendo e parece um mendigo."

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"Oh, Harry, querido!", exclamou a Sra. Weasley, envolvendo Harry num abraço muito apertado. Ele forçou um sorriso quando ela o soltou e agarrou seus ombros, para observá-lo com um adorável olhar de reprovação. "Querido, como você está magro! Qual a última vez que teve uma refeição decente?".

Ele encolheu os ombros, mas não respondeu. Molly Weasley era, de longe, a única figura materna que ele tinha em sua vida. Harry não pôde conter um estremecimento de emoção quando ela o puxou para dentro da sala, e o tão familiar ambiente d'A Toca o recebeu. Sentiu um arrepio e um leve formigamento no canto dos olhos – nada mudara. O piso de pedra, as paredes descascadas, a pequena mesa de madeira com as cadeiras tortas, os sofás com o estofado rasgado, o cheio das comidas deliciosas que a Sra. Weasley sempre cozinhava. Lembrou-se das palavras de Ron – Não é muito, mas é um lar – e sentiu o coração se encher de calor. Todo o abismo negro ao qual se entregara nos últimos três anos pareceu ligeiramente menor.

Mas muita coisa mudara. Três anos se passaram, e aquela não era mais sua família. Começou a pensar em alguma desculpa para ir embora quando Fleur apareceu com um sorriso. "Arry!", exclamou, alegre, e depositou um beijo em cada lado do seu rosto. William apareceu logo em seguida, segurando nos braços um bebê. "Oh, Arry, esta é Victoria. A prrimeira crriança da nova gerração da família!", acrescentou, dando pulinhos de excitação, enquanto William cumprimentava Harry com um aperto de mão e um leve rubor nas bochechas. "Já estão todos aqui, Harry!", ele comentou, efusivo. "Bem, com exceção de Percy e Audrey, que estão na Itália."

Ele forçou um sorriso e acenou com a cabeça, mas sentiu uma dor muito profunda ao constatar o quão deslocado se sentia ali dentro – muito embora tudo lhe fosse tão familiar. Forçou-se a manter o sorriso, enquanto William conversava alguma coisa com Fleur e Molly continuava ralhando com sua aparência raquítica. Harry correu os olhos pelo aposento, e deu uma olhada discreta no corredor. Gin não estava à vista. Perguntou-se se ela estaria ali. Perguntou-se se ele estaria ali. Pensar nos dois juntos lhe casou uma forte ânsia. Harry respirou fundo, tentando descobrir se queria ou não reencontrá-la.

"Harry, meu rapaz!", bravejou a voz do Sr. Weasley, que apareceu na sala e se aproximou empertigado para lhe apertar a mão. Harry sorriu, sem deixar de notar o quanto ele parecia ter envelhecido. "Seja bem-vindo de volta! Acredite, Harry", ele começou, puxando-o pela manga da camiseta e abaixando ligeiramente o tom de voz, "estou feliz por você estar aqui. Molly não parava de reclamar com Hermione, dizendo que ela não tinha tentado o suficiente. Aqui entre nós, meu rapaz, eu prefiro você."

"Obrigado, Sr. Weasley.", disse Harry, seco, sentindo o sangue correr mais rápido dentro das veias. Teve vontade de dizer mais alguma coisa, mas não o fez. Não sabia o que estava sentindo, no momento. Muito menos conseguia prever o que faria ou diria quando finalmente visse Gin novamente. Tentou não pensar muito no assunto.

O Sr. Weasley sorriu, batendo em suas costas, e lhe ofereceu um copo com cerveja amanteigada, o qual Harry aceitou, educadamente. Sentiu um aperto nas entranhas.

Mal chegara, e já queria ir embora.

"Harry!"

Hermione pulou em seus braços, trazendo consigo novamente aquele cheiro fresco de shampoo. Harry sorriu, segurando a amiga pela cintura, mentalmente se perguntando o que diabos ele estava fazendo ali. Aquela não era a sua família – não mais. Não depois de toda a dor que Gin o trouxera. "Achei que você não viria.", ela declarou, num murmúrio tímido, envolvendo seu rosto com ambas as mãos. Harry sentiu um profundo carinho pela amiga naquele momento. "Vejo que se barbeou."

Ela o largou, com um sorriso, quando Ron apareceu na sala. Harry quase não o reconheceu. Ele estava alguns (consideráveis) quilos mais gordo, e mantinha uma barba curta, porém espessa. Parecia muito mais velho e muito mais cansado do que a última vez que o vira, mais ainda conservava nos olhos um brilho de alegria, e abriu um sorriso imenso antes de puxá-lo para um abraço curto e apertado. Harry se sentiu em casa ao vê-lo. Passava grande parte dos seus dias tentando não pensar em Gin, nem em Malfoy, porque doía demais – e a visão de seus dois melhores amigos fazia o peso da dor ficar menor, bem menor.

Olhou em volta, apreensivo. Não tinha a mínima ideia de como seria sua reação quando encontrasse Malfoy.

"Não se preocupe, Harry.", sussurrou Hermione, lendo seus pensamentos. "Ele não está aqui. Está viajando."

Harry relaxou os músculos e soltou a respiração que não percebera estar prendendo. Sorriu para Hermione, surpreso com o fato de que ela ainda conseguia ler seus pensamentos, como se nada tivesse mudado. Depois que Harry cumprimentou Charlie, George e Angelina, sentaram-se todos no sofá, exatamente como nos velhos tempos, e Harry acabou se rendendo a uma conversa alegre. Bebiam cerveja amanteigada e se lembravam das aventuras da época de Hogwarts. Muitos minutos se passaram – e nem sinal de Gin. Harry não sabia se isso era bom ou ruim, e não se atreveu a perguntar a ninguém pelo seu paradeiro.

"... e quando o salgueiro tentou nos matar?", dizia Ron, com uma risada estrondosa. "Harry, meu amigo, naquele dia eu pensei comigo mesmo: é isso, daqui eu não passo."

"Merecidamente, Sr. Ronald Weasley. Que ideia é essa de roubar o carro do seu pai e voar até Hogwarts?", ralhou Hermione, com um sorriso leve no rosto.

"Oh, por favor. Eu aprendi minha lição.", ele respondeu, num tom divertido, e deu uns tapinhas na barriga. "Hoje eu prefiro um pouco mais de segurança. Nossos tempos de aventura já se foram, hein, Harry?"

"As aventuras de Ron agora são todas na cozinha.", provocou George, causando uma gargalhada geral. Ron lhe atirou uma almofada, muito embora também estivesse rindo.

Harry se calou com um sorriso, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, genuinamente feliz. Ron depositou um beijo rápido nos lábios de Hermione, e depois se levantou, com o propósito de pegar mais algumas cervejas. Harry observou Hermione, que observava o marido. Ela corou de leve ao perceber os olhos de Harry sobre si.

"Fico feliz que esteja aqui.", declarou, com um sorriso doce. "Essa família não é a mesma sem você."

Harry abriu a boca para responder, mas não o fez – seus olhos se voltaram para o topo da escada, onde Gin estava parada, imóvel, os cabelos molhados. Ela encarou Harry com uma expressão de assombro por alguns segundos, e logo em seguida abriu um sorriso e veio correndo em sua direção. Harry fez um esforço colossal para se levantar, ao invés de afundar na poltrona. Ela jogou os braços ao redor do seu pescoço, e o cheiro fresco de sabonete e shampoo invadiu suas narinas, embaralhando seu cérebro, e tudo voltou – a angústia, a mágoa, a saudade, o desejo. Ele demorou alguns momentos para retribuir o abraço. Sentia que seu coração estava prestes a sair pela boca. "Oh, Harry.", ela disse, soltando-se de seus braços com a mesma facilidade com que o abraçara. "Pensei que não viesse."

Sentiu o estômago se retorcendo dentro da barriga, lembrando-se de como havia ficado a situação dos dois, depois do seu último encontro, três anos atrás, na festa de noivado da ruiva com Malfoy. Ela parecia não se importar, porém, com as águas passadas, e mantinha um sorriso caloroso. Gin vestia um vestido todo branco, que contrastava com seus cabelos feitos de fogo, que ainda pingavam água. Harry sentiu-se desolado. Ela era perfeita. E ela não era sua.

Talvez eu não devesse ter vindo, pensou Harry, tentando encontrar palavras para dizer. Não conseguia pensar – muito menos entender como ela conseguia agir com tanta naturalidade. Mas não teve de se esforçar por muito tempo, pois a Sra. Weasley oportunamente chegou para anunciar o almoço. Os Weasley se encaminharam para os jardins, onde uma grande mesa havia sido montada. Harry não pôde deixar de reparar que a ausência de Malfoy não parecia incomodar ninguém. Não se atreveu a comentar nada, nem mesmo com Ron e Hermione, muito embora sua ausência fosse extremamente bem-vinda.

Após a refeição, Harry se pôs a observar os Weasley, sentindo despontar alguma raiva. Todos conversavam alegremente, riam e agiam como se nada tivesse acontecido. Como se ele não tivesse passado três anos enfurnado dentro de um apartamento, se enchendo de álcool e nicotina, para conseguir sobreviver sem ela. Sentiu a raiva aumentar – talvez ninguém se importasse realmente. Pensou em se levantar dali e ir embora, mas por algum motivo não encontrou coragem.

Seus olhos caíram em Gin. Ela não mudara muita coisa. Prendera os cabelos num coque frouxo, e os olhos brilhavam enquanto ela conversava. Ela se virou para olhá-lo, mas ele desviou o olhar, sentindo uma pontada de dor. Virou-se para Hermione.

"Algo simples, entende? Não prreciso de muita sofisticaçón.", declarava Fleur, com certa afetação, para uma Hermione com a testa franzida, como se quisesse deixar claro que estava prestando bastante atenção no que ela falava. Harry sufocou um sorrisinho. "Talvez algumas florres, uma decorraçón mais leve. Arry, o que acha?"

"O quê?", perguntou Harry, sobressaltado.

"Hermione vai me ajudar a fazer uma festa de aniversárrio parra Victoire.", explicou Fleur, com certa veemência, ao constatar que Harry não havia prestado atenção a uma palavra sequer da conversa.

"Acho uma ótima ideia.", respondeu, distraído. Sua atenção se voltou para Gin, que se levantara da mesa, e agora caminhava em direção à porta de entrada. "Com licença.", ele resmungou, antes de se levantar também e ir atrás dela, com a desculpa de ir fumar um cigarro.

Talvez ele ainda precisasse de alguma explicação. Alguma justificativa. Mesmo depois de três anos – a ferida ainda não cicatrizara. Sentia-se prestes a cair no abismo novamente, mas não recuou. Quando finalmente a alcançou, ela estava na cozinha, guardando algumas louças. "Gin.", ele disse, e ela deu um pulo para trás, sobressaltada.

"Harry...", sussurrou, esfregando o peito. "Não tinha visto você aí."

Ele não respondeu – não conseguia encontrar palavras. Sentiu-se um idiota. O que ele queria, afinal? Que ela fizesse algum discurso e pedisse perdão? Que ela largasse Malfoy e caísse novamente em seus braços? Ela ficou ali parada, olhando para ele, com a mão pousada na barriga, sem dizer nenhuma palavra. Harry não conseguia identificar o que ela poderia estar pensando.

"Onde está seu marido?", perguntou, num tom cuidadosamente educado. Ela apertou os lábios.

"Draco foi passar o natal com Narcissa.", respondeu, num tom um pouco seco demais. "Como tem andado, Harry?"

Ele arqueou as sobrancelhas. Pensou em responder que sua vida estava um lixo. E que a culpa era dela. Que sentia a ausência dela todos os dias. Que mal enxergava razões para continuar vivendo. "Estou bem.", disse. "E como você tem andado, Gin?"

"Bem,", ela começou, com a voz excitada. "tenho algo para anunciar hoje. Venha.", ela pediu, se encaminhando aos jardins. Harry a seguiu, confuso.

"Ei, todo mundo!", Gin gritou, batendo palmas. As conversas cessaram aos poucos, e logo todos estavam em silêncio, olhando para a ruiva, que agora sorria exultante. "Tenho uma notícia para vocês. Imagino que alguns vão gostar, outros nem tanto."

Algumas conversinhas surgiram na mesa. Harry se sentia tenso – o que era aquilo?

"Bom...", ela suspirou. "Não há motivos para fazer muito mistério."

As palavras que vieram a seguir fizeram o estômago de Harry se revirar com tanta força que ele teve que se segurar para não vomitar.

"Eu estou grávida."

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