2. O Primeiro Encontro
Estávamos todos prontos, esperando o Sirius. Ele estava atrasado, como sempre. Quando ele surgiu nas chamas de nossa lareira, mamãe nem deu tempo para que ele parasse de girar e já o mandou ao Beco Diagonal.
Todos o seguimos e saímos na lareira da Floreios & Borrões. Blargh! Aquele lugar fedia a livros. Olhei par Sirius e ele estava simulando um vômito. Enquanto papai e mamãe se ocupavam com nossas listas, ficamos perambulando pela livraria.
- Tiago, dá uma olhada nisso!
Sirius segurava um livro grosso e preto, intitulado "Desvendando os Mistérios da Transfiguração Humana". Taí um livro que eu leria sem problemas. Nós éramos absolutamente maníacos por Transfiguração.
- Mocinho! Esse livro é proibido! Só pode ser vendido com autorização do Ministério! – uma velhinha corcunda veio implicar com a gente.
- Por quê? – perguntei, sem me conter.
A velha me olho como a maluca da mãe do Sirius quando eu fui à casa dele.
- Não lê o título, moleque? Esse livro contém iniciação à Animagia. Não pode ser praticado sem o Ministério saber! – ela disse em voz baixa.
- Quanto custa? – Sirius perguntou, desafiador, encarando a velha.
- Nenhum lugar decente vai vender isso a vocês, seus pestinhas! – ela tomou o livro de Sirius com violência.
- E um lugar indecente? – ele insistiu, me fazendo rir.
A velha virou as costas e foi atender outra pessoa.
- Lugar indecente? No que estão pensando, garotos?
Meu pai aparecera atrás de nós. Parecia atento.
Sirius olhou para mim, preocupado, mas eu pisquei para ele e apontei a mim mesmo, querendo dizer "Deixa Comigo".
- Pai, o que é um lugar indecente para comprar... livros, por exemplo? – perguntei, com cara de inocente.
- Quem foi que te disse isso, rapaz?
- Ouvimos uma bruxa dizendo que não tinha o que ela queria aqui, em um lugar decente. E ela disse que ia procurar em outro, que eu suponho que seja um lugar indecente...
Papai pareceu irritado. Será que eu não tinha sido convincente? Ele se agachou para falar comigo.
- Tiago, essa é uma boa loja. Mas parece que a clientela já foi melhor. Deixa eu te dizer uma coisa, filho. Há alguns lugares que vendem coisas ruins, coisas más, para pessoas más. Fique longe de lugares assim, certo?
- Certo, pai. Mas, que lugar, por exemplo?
- A Travessa do Tranco, por exemplo. – ele disse em voz mais baixa. – Prometa que nunca vai comprar nada lá, filho.
- Prometo, pai.
Felizmente, Sirius não tinha prometido nada. Aliás, onde estava Sirius? Avistei-o do outro lado da livraria, sendo atendido por uma moça bonita de cabelos compridos e vestido rodado.
- Está mais para cima, é o de capa marrom.
Sirius era incrível. Ele estava fazendo a moça subir em um banco para pegar um livro para ele, enquanto ficava tentando espiar por baixo do vestido dela. Ele fez sinal para que eu desse uma olhada.
Eu queria não usar óculos nessas horas. Eu via camadas e camadas de pano azul, mas só um pedacinho ou outro da perna dela. Mesmo assim, valeu a pena.
- Como conseguiu que ela não levitasse os livros? – sussurrei para ele.
- Ela não pode. É um aborto.
- Esse aqui, né? – ela disse, descendo do banco.
Era sacanagem, mas não era só sacanagem do Sirius. O livro era sobre Artefatos Mágicos, coisa pela qual ele se interessava mais do que olhar as calcinhas das meninas. Bem, talvez não.
Meus pais já haviam pegado os nossos livros do primeiro ano, um mais chato do que o outro. Na saída da livraria, Sirius me apontou, vitorioso, o livro de Artefatos Mágicos na sacola dele.
- Puxa, achei que nem iam deixar você comprar...
- Há-há. Até consegui um desconto! E o endereço da Carol para mandar uma coruja, é claro!
Esse era o Sirius. Bagunceiro, desinibido, malandro, conquistador, meu ídolo.
Ao lado da Floreios & Borrões, havia uma loja de Quadribol. Sirius e eu entramos, hipnotizados. Eu queria comprar tudo! Estava igualzinho a minha mãe em qualquer loja em liquidação.
- Meninos, só o ano que vem! – falando nela, minha mãe chegou, acabando com a nossa festa.
Sob muitos protestos, ela nos levou à loja de vestes da Madame Mikky, enquanto meu pai foi comprar o resto do material. As vestes ficaram, é claro, curtas demais, mas a Madame Mikky deu um jeito em tudo bem rápido.
Era, então, chegada a hora de comprarmos nossas varinhas. O dono da loja, Sr. Olivaras, veio com umas conversas filosóficas sobre bruxos e varinhas. Deixei-o conversando com Sirius e experimentei uma varinha que estava numa caixa em cima do balcão.
Duas prateleiras voaram. Vendo a confusão, Sirius veio correndo e pegou uma varinha caída no chão. O lugar se encheu de fumaça preta.
- Garotos, calma!
Eu não pensei que escolher uma varinha fosse tão divertido. Havia montes delas para provar. Experimentei uma outra e uma caixa grande, em cima de uma estante, explodiu. Sirius pegou outra que se voltou contra o Sr. Olivaras, fazendo um penteado radical no cabelo dele!
Eu subi em cima de uma cadeira para tentar ver o que tinha resultado da explosão. Afinal, minha varinha podia estar em qualquer lugar.
De repente, ouvi minha mãe dizendo meu nome. Já ia enviar para o Sirius um sinal de "Sujou geral!", mas vi que ela só estava conversando com outras pessoas.
Um cara enorme e barbudo, de sorriso bonachão, que mamãe parecia conhecer, e uma menininha ruiva, que estava quietinha atrás dele.
Ela era baixinha, estava de vestido e tinha olhos lindos. Eu queria vê-la melhor e me inclinei para frente. Mais para frente. Ops, para frente demais! Ooô! Aii! Puff!
Ah, não! Eu caí da cadeira! Tomei o maior tombo na frente da garota. E cadê os meus óculos? Agora, para piorar, não posso nem confirmar se ela é mesmo bonita.
- Sirius Black. Muito prazer!
Como sempre, o Sirius estava lá, fazendo o social. Já ganhou o grandão.
- Ah, perdão, me esqueci completamente! Essa é a Lilian, pessoal. Ela também está entrando em Hogwarts esse ano. – disse o grandão.
Eu levantei e cheguei mais perto para vê-la melhor. E, mesmo estando sem óculos, posso afirmar que ela era linda. Não podia distinguir bem as feições dela, mas os olhos eram grandes e verdes. Olhos que eu nunca esqueceria.
- Oi, Lily, prazer, eu sou o Sirius! Em que Casa quer ficar?
Lily? O Sirius não perdia uma mesmo. Mais uma que eu perderia para ele sem dar tempo nem de eu falar que estava na jogada. Aposto que a menina deve ter ficado toda derretida com aquele "Lily". Quem sabe na escola, eu consiga aprender um pouco com ele.
- Na Grifinória! – ela respondeu, ganhando um tapinha nas costas de Sirius.
- Garota esperta!
Mas, como conheço bem meu amigo, posso dizer, com certeza, que ele pensou: "Está no papo!". E, a essa hora, a coitada da menina deve estar fantasiando que eles vão ficar na mesma Casa e imaginando como Sirius é gentil, alto, forte e bonitão. Blargh!
De repente, a menina veio na minha direção. Vai ver ela ficou um pouco desapontada porque o Sirius preferiu conversar com o grandão. Então, eu tinha uma chance. Eu ainda estava na jogada.
Ela estava olhando para mim, me analisando. Perdi as reações. Que fazer numa hora dessas? Quando dei por mim, vi que ela estava trazendo meus óculos.
- Ah, sim, meus óculos! Muito obrigado!
- Lilian Evans. – ela estendeu a mão.
- Tiago Potter. – eu apertei com força.
Apertei a mão dela? Puxa, será que eu deveria ter beijado? Ai, que coisa mais complicada!
Agora, com os óculos, eu podia vê-la nitidamente. E não me enganara. Os cabelos cor de fogo envolviam um rosto angelical. Sim, era isso. Ela era um anjo. Um anjo ruivo de olhos verdes. Só podia ser. Era pequenininha, delicada, de pele bem branquinha. Uma bonequinha de porcelana, como mamãe diria.
- Acho que finalmente a encontrei, Sr. Potter!
Eu também tinha finalmente encontrado. Tinha encontrado a garota dos meus sonhos. Mas, aquela voz... Espere! Era o Sr. Olivaras, me oferecendo outra varinha para provar.
Eu ergui a varinha com cuidado, com medo de acertar alguma coisa na Lilian. Mas não. Eu me senti forte, poderoso, iluminado, cheio de mim. Como se, de repente, eu fosse capaz de tudo e soubesse disso. Resumindo, adorei a mim varinha. Sim, ela era minha, eu tinha escolhido aquela. O Sr. Olivaras tinha aquele blá-blá-blá dele, mas aquela varinha seria minha se ela me escolhesse ou não.
- É essa!
- Muito bem, Sr. Potter! Pena de fênix, Azevinho, 25 centímetros. Excelente para Transfiguração. Parabéns!
Só podia ser. Transfiguração seria, de longe, o mais interessante que eu aprenderia na escola. Em matéria de estudo, é claro. Será que a varinha tinha mesmo me escolhido, afinal?
Eu abracei minha mãe, satisfeito. Sabia que ela também estava feliz por mim.
Senti uma brisa fria. Era o Sirius com sua varinha. Ela soltava fagulhas brilhantes. Aposto como eles iriam se escolher, quero dizer, Sirius e a varinha.
- "timo, Sr. Black! Pêlo de Unicórnio, Salgueiro, 25 centímetros. Também ideal para Transfiguração.
Dei um abraço no Sirius. Nós íamos para Hogwarts! Era bem mais real, agora que tínhamos nossas varinhas.
O Sr. Olivaras contou a mesma lengalenga das varinhas para a Lilian que, diferente da gente, ouviu com atenção.
A primeira varinha que ela experimentou foi um fracasso, explodiu a caixinha que a guardava.
Mas, logo na segunda, a garota já acertou. Ela foi envolvida em uma luz avermelhada, num efeito fantástico com o cabelo dela. Era como uma rainha, tanto que eu quase me ajoelhei sem querer. Sem dúvida, era a varinha dela.
Minha mãe foi falar com ela. Acho que elas vão se dar bem. Eu adoro a minha mãe, ela é a melhor do mundo. Ela recebe o meu amigo Sirius em casa como um filho e já gostou de cara da Lilian, como eu. Ela só podia ser menos brava, me colocar menos de castigo, deixar eu fazer mais bagunça...
- E então, garotos, como estamos? Podemos ir? Já comprei tudo. – meu pai chegou.
- Pai!
- Tio! – Sirius abraçou meu pai.
- Hagrid, como vai? – meu pai perguntou. Acho que também conhecia o grandão.
- Bem, John. Linda família.
- Muito obrigado, Hagrid. Então, querida, vamos?
- Vamos, Johnny. Tchau, Lílian. Foi um prazer conhecê-la. Até logo, Hagrid. – minha mãe em seu social. - Tiago, Sirius, não vão dizer "tchau" à nova amiguinha?
- Até mais, Lily! A gente se vê em Hogwarts!
Sirius chegou perto e... não acredito! Cachorro! Deu um beijo na bochecha dela! Ela ficou até corada! Agora, ele abriu a maior vantagem no placar! Que que eu ia fazer?
Tinha que beijá-la também. Fui até ela.
- Tchau, Lilian. Até Hogwarts.
Eu a encarei, encarei. E não beijei. Não consegui. Fui um desastre. Não sei ser como o Sirius. Ainda não.
- Até Hogwarts, Tiago!
Ela me deu o sorriso mais lindo do mundo e eu retribui com, provavelmente, o sorriso mais idiota do mundo.
Nós saímos da loja nos dirigimos, apressados, até o Caldeirão Furado. Papai tinha umas coisas para resolver na cidade. No caminho, duas meninas pararam o Sirius. Duas meninas que eu conhecia. As primas dele.
- Si, se eu fosse você, voava para casa. Sua mãe ta furiosíssima porque você saiu sem avisar. E não melhorou nada quando ela descobriu que você tinha vindo no Beco comprar seu material sem ela...
- Tô ferrado! – ele disse e saiu correndo para dentro da Floreios & Borrões, procurando a lareira.
Mas quer apostar que, mesmo atrasado, ele vai falar com a garota do vestido?
