ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 2: Da Água Para o Vinho

PV: SHINOBU

Oito da manhã de um sábado ensolarado. Conforme o combinado com o kanrinrin, passo no quarto de todos os moradores do Hinata-sou para acordar um por um. O café-da-manhã já está prontinho, feito com todo o carinho que tenho por todos que ali habitam. Especialmente o Urashima-senpai. Como eu gostaria que... Não, é impossível, o senpai gosta de Naru-senpai, e devo ficar feliz por ele. Dizem que a maior prova de amor é abnegar-se da pessoa amada quando a mesma está unida a outrem. Bem, é melhor deixar isso para lá...

Acordo todos com muito cuidado, avisando-os que o café está preste a ser servido. Acordo um por um, deixando o Urashima-senpai por último. Após acordá-los, ponho a mesa e deixo tudo arrumado para o desjejum. Naquele momento, parece com o Hinata-sou cria vida. As meninas vão todas contentes para a sala de refeições, todas felizes e conversando muito, enquanto fico as esperando na porta da sala de refeições, sempre com um sorriso para recebê-las. Geralmente, o senpai é o último a descer para o café.

E hoje não foi muito diferente. Depois de acordar todas, fui acordar o senpai. Bati na porta, pedi licença e ia avisar sobre o café, quando reparei duas malas perto ao armário. Fiquei muito curiosa, estava imaginando se Keitaro iria viajar, nem nos avisou... Como não gosto de meter-me na vida dos outros, apenas o balancei e avisei-o sobre o café matinal. Ele se acordou lentamente e parecia estar com os olhos muito vermelhos. Será que ele andou chorando? Eu reparei que, ultimamente, ele anda meio isolado de nós, e eu não gosto de ver quem tanto me ajudou ficar triste. Ele geralmente me agradece com um sorriso, mas hoje nem isso fez. Apenas disse um "arigato" bem seco. Fiquei com uma certa mágoa, ele não costuma me tratar assim. Aliás, ele geralmente não trata ninguém assim.

Voltei para a sala de refeições, pensando o que poderia estar errado com o senpai, mas logo fui envolvida pelo ar da graça que a sala continha. As meninas decidiram fazer um joguinho de cartas no dia anterior, e hoje estavam cantando vantagem uma sobre a outra. E já estavam fazendo planos para sair à noite. Naru deu a idéia irem até a Toudai ficarem curtindo os barzinhos que existem na volta de universidade. Obviamente, Kitsune, Kanako e Kaolla adoraram a idéia, e ficaram provocando Motoko. Só que Motoko não se incomodou, e aceitou o convite, deixando as garotas mais alegres. A garota do kendo ficou mais aberta desde que Keitaro veio morar aqui. Aliás, parece que a presença de Keitaro mudou a vida de todas.

"E você, Shinobu? Está a fim?", perguntou-me Naru, muito sorridente.

"B-b-bem, nunca fui muito de sair, acho que variar vai ser legal...", respondi de uma forma bem confiante.

"Legal, Shinomu também vai! Agora só falta o Keitaro!", gritou Kaolla, de uma forma muito entusiasmada.

"Ah, deixa aquele molenga para lá... Ele só vai atrapalhar...", reclamou Naru, meio que dando de ombros. Achei aquilo de mau gosto, eu gosto quando o senpai está por perto. Claro, não demonstrei o que senti, pois não me intrometo entre o que acontece entre Naru e Keitaro.

"Hum... Desde quando o Keitaro é molenga, hein? Olha que você pode perder aquele corpinho, hein...", falou Kitsune com malícia, sempre mantendo o olhar de raposa.

"É verdade, olha que eu o levo para o meu país e fico com ele, he he he!", provocou Kaolla, dando um sorriso maroto. Percebi que Su-chan apenas queria provocar Naru, e a brincadeira preferida da menina eternamente bronzeada é levar os outros ao delírio...

"Pode ficar com aquele... traste. Não sabia que você gostava de perdedores...", falou Naru, dando um tom amargo à palavra 'traste'. Aquilo deixou Su-chan um pouco magoada.

"Ara, Ara, não vamos brigar no café... Senão a comida não desce bem...", comentou a sempre sorridente Mutsumi. Desde que ela foi ajudar na Casa de Chá, ela passou a usar as facilidades do Hinata-sou.

"Concordo plenamente. Não vejo sentido em começar um dia desse jeito", adicionou Motoko, de olhos fechados e sorvendo um bom gole de chá após dizer tão sábias palavras.

Logo me sentei à mesa e também fiz o meu desjejum, afinal também sou uma filha de Kami-sama. Quando estavam todas para sair da mesa, aparece Keitaro-senpai, com uma mala em cada mão. Todas ficaram olhando meio abobadas, sem entender o que estava acontecendo...


PV: KEITARO

É agora. Devo aproveitar o momento para informar a minha decisão. Encaro a todas de uma forma séria, aproximando-me da mesa de refeições. Larguei as malas e fiquei em uma das cabeceiras, olhando a todas. Parecia que eu já estava desistindo... Não, não posso. Já me decidi e não posso voltar atrás, estaria agindo com a mesma covardia que sempre tive se o fizesse.

"Urashima-senpai, qual é o negócio com as malas? Você pretende viajar, só por um acaso?", perguntou Motoko com uma expressão de descrédito.

"Ainda tens um monte de coisas para fazer hoje, Keitaro... Você não pode simplesmente dar o fora sem nos avisar com antecedência...", reclamou Kitsune, como se estivesse cheia de razão.

"Gostaria de não ser interrompido, por favor...", falei sem alterar o tom de voz. As garotas se entreolharam, como se não estivessem entendido o que havia de errado comigo.

"Qual é Keitaro, não se faça de...", falou Naru com ares de deboche. Tratei de dar o corte imediatamente.

"Isso vale para você também, Narusegawa-san...", falei em um tom bem desgostoso. O olhar que ela me deu foi o de confusão. Mantive-me com a expressão séria, não podia dar para trás. Nem me sentei, decidi ficar de pé. Achei que a discussão seria rápida.

"Estou aqui para anunciar...", conclui colocando um papel sobre a mesa, "... que estou pedindo demissão das minhas funções de gerente. Creio não ser possível continuar".

Aquele anúncio provocou diversas reações. Shinobu fez uma cara de choro; Motoko continuava a me encarar em descrédito; Kitsune era pura surpresa; Kaolla e Sarah mantiveram sorrisos estampados na cara – como se eu ainda estivesse brincando; Kanako era puro desespero no semblante. Mas o que mais me marcou foi o semblante de Naru e Mutsumi, ambas pareciam muito magoadas.

"Demissão é gostoso?", perguntou Kaolla, de forma bem sapeca.

"Ara, Kei-kun, por que esta decisão tão arbitrária? Fizemos algo errado?", perguntou-me Mutsumi, meio encabulada. Dei uma pausa para tomar fôlego antes de dar a resposta.

"Creio que sim... Ou melhor, eu é que deixei de fazer o que deveria ter feito... Não consegui administrar corretamente esta pensão, além de nunca ter me imposto perante todas vocês... Minha função exige liderança, e nunca consegui me fazer líder perante vocês. Eu sou uma ameaça à saúde financeira daqui, e preciso ir. Sinto muito...", confessei.

"Você não pode ir embora assim, sem mais nem menos!", gritou Naru, como se tivesse plena razão. No fundo, percebi um certo desespero. Senti que não gostava daquele clima, e precisava ir embora logo.

"Não sou um molenga, um perdedor?", devolvi para ela. Logo a mímica facial de Naru mudou, passando da raiva à surpresa. Então completei: "Posso ser tapado, mas não sou surdo".

"Keitaro, eu...", tentou consertar Naru.

"Naru, não se esforce. Sei o quanto sou um incômodo para todas vocês. Nada que faço parece agradar, além que sou um atrapalhado total e não vou ajudar a manter esta pensão desse jeito. Por isso, creio que não será problema arrumar outro gerente", disse tranqüilamente.

"Você está exagerando, Urashima...", falou Motoko, ainda com um olhar consternado, "Todas gostamos muito de você, apenas você deveria assumir melhor os próprios deveres. Não podes abandonar o encargo que tua avó te confiou. Sei que ainda estás relapso, mas sempre há..."

"Eu faço tudo o que vocês querem, e ainda acham que não faço o bastante? Aí está a prova de quanto valho para vocês. Não adianta, estou indo e ponto final. Não posso sacrificar a Toudai por um bando de meninas mimadas...", desabafei o que havia concluído na noite anterior.

Certas coisas que são ditas podem provocar uma revolução. E aquilo teve um efeito bombástico. Usualmente, elas já teriam me espancado só ter levantado a voz... Mas foi o contrário: todas olharam cabisbaixas para o chão.

Eu só não esperava a reação de Shinobu. Com os olhos marejados, ela se agarrou firmamente ao meu tronco e apertou-me contra ela. Era quase um... Desespero. Podia sentir as lágrimas quentes aderindo à minha camiseta.

"Aaauuuuhhhh! Não vá embora, senpai! Você é muito importante para nós... Pelo menos, és importante para mim!", choramingou Shinobu. Aquilo me bateu, mas não podia voltar atrás... Afinal, deveria ter orgulho uma vez na vida, pelo menos perante elas nunca bati firme o pé.

"Shinobu... Não há mais lugar para mim aqui, o estrago já está feito...", tentei consolá-la.

"Não quero que o Keitaro vá! Se fores, vai ficar menos divertido...", lamentou Kaolla, também me agarrando bem forte. Podia quase sentir minhas costelas se partirem.

"Não, mano! Não quero ficar longe de você de novo!", gritou Kanako, abrançando-se a mim bem forte. Senti que a situação estava fugindo do meu controle, e tentei me desvencilhar das três. Após conseguir, peguei minhas malas e tentei me despedir.

"Bem, este é um adeus... Por algum tempo, quero ficar sozinho... Talvez, algum dia...", despedi-me, já saindo após as palavras ficarem embargadas. Não consegui olhar para trás. No fundo, perdi a esperança de que irei me encontrar com elas de novo. Mas não posso recuar. Não desta vez.


PV: KITSUNE

Quem diria, o Keitaro criou coragem... No fundo, sempre torci para que ele tivesse uma posição forte algum dia... Não esperava que fosse assim. Ficamos todas chateadas. A única que não parecia afetada com o ocorrido era Sarah.

"Quem dá bola para aquele azarado? Que tal uma saída...", falou Sarah, sem conseguir terminar a frase. Não tinha se fragrado que o ambiente não estava confortável.

"Dá um tempo, menina... Aqui ninguém está muito disposto para se divertir.", ralhou Naru, muito aborrecida. De certa forma, todas estávamos meio confusas. Não é fácil ser pega assim de surpresa pela manhã. Então, Naru saiu da sala. Na seqüência, saíram Mutsumi, Shinobu, Motoko e a Kanako.

"Vamos Kaolla, deixa aquelas sem sal para lá...", tentou Sarah incentivar a garota de fisionomia indiana.

"Desculpa Sarah, agora não quero brincar não...", lamentou Kaolla, também saindo da sala.

Sarah ficou consternada. Detestava que ninguém desse bola para ela. Mas teve que cair na real e percebeu que o clima não estava legal. Não demorou a também ir para o quarto, claramente decepcionada. Levantei-me e encarei a sala praticamente vazia. Como pode um lugar passar de um ambiente alegre para um local fúnebre? Às vezes, a vida nos prega surpresas maiores do que podemos suportar de uma vez só.

"Então ele se foi...", falou Haruka pela porta de acesso à cozinha. Levei um susto, pois não percebi a presença dela ali.

"É... Ele tinha certeza que estava fazendo a coisa certa, mas...", falei.

"Ele vai deixar saudade, não é?", falou Haruka, com um leve sorriso.

"Logo agora que estava me acostumando a ter um gerente... e um ótimo amigo.", confessei. Sabia que, no fundo, a decisão de Keitaro iria marcar todas que viviam naquela pensão. Acho que, tanto tempo de convivência praticamente explorando e zoando com o pobre gerente acabou fazendo com que todas as meninas desenvolvessem uma quedinha pelo kanrinrin. Só que ninguém admitia isso... Se as garotas tivessem percebido a importância de Keitaro... Bom, não posso dizer nada, pois nada fiz quando me era possível.

"E vocês irão deixar ele ir embora desse jeito, sem resistir?", perguntou Haruka.

"Desta vez, creio que não há mais nada a fazer. Nunca o vi tão decidido", respondi. Pensei comigo, vou sentir saudades do ex-ronin. Mas... Não vou me entregar. Não posso deixar o Keitaro ir assim. Olhei para Haruka confiante. Ela me devolveu o sorriso.

"Atenção, reunião de emergência das moradoras! Agora, todas na entrada principal da pensão, vamos lá!", saí gritando aos quatro ventos. Nunca desisti das coisas que lutei, e percebi que caçar Keitaro de volta à pensão seria algo divertido...


PV: KEITARO

Dirigi-me à estação de metrô. Estava decidido a ir embora. Ainda tinha algum dinheiro, o suficiente para pagar uma pensãozinha barata. Mas creio que era melhor que continuar naquele inferno. Sabe, às vezes penso que exagerei, mas... E se não tivesse feito aquilo? Creio que tudo continuaria a mesma coisa. Precisava ser homem uma vez na vida, não é verdade?

Fico ali, na estação, esperando o próximo horário. Fico absorto, sem muito que pensar, nem saber o que fazer depois. A única coisa que está decidida é que preciso alugar algo quando chegar em Tóquio, e que não vou voltar para casa. Meus pais desistiram de mim há tanto tempo que creio nem se importarem mais comigo – preciso levar uma nova vida. Deixa-me ver, preciso arranjar um emprego de meio período, e...

Estranho, escuto um barulho de veículo, e é muito familiar. Engraçado, não vejo o trem chegando... Diabos, de onde vem... Daí é que percebo! Kami, o Seta-móvel! E percebo que está lotado! Por Kami, as garotas decidiram acabar comigo! Por que me ferro tanto com mulheres na vida?

Começo a correr feito um desesperado, sem saber para onde ir. Até chego a despistar minhas caçadoras em um beco, mas mal dou tempo para descansar, lá vem aquele carro do inferno... Malditas malas, nem sei ainda porque as carrego... Claro, meus cartão de crédito e documentos estão guardados nelas! Droga de vida... Quando percebo, vejo uma mulher de cigarro na boca dirigindo o carro e alguém gritar pela porta lateral.

"Keitaro seu desgraçado, você não vai fugir assim!", acho que o grito era da Naru. Não percebi mais nada, pois fui literalmente laçado e acabei batendo com a cabeça na lataria do furgão, o que me nocauteou...


Capítulo escrito em 18/10/2004. Espero reviews de todos, pois estes são muito importantes para saber se a história está agradando.