Personagens de Stephanie Meyer. História de Tessa Dare (Spindle Cove, vol. I).
PRÓLOGO
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"É um fenômeno atmosférico causado por rajadas intermitentes de... Ovelhas."
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.:Sussex, Inglaterra - 1813:.
Edward encarou um par de olhos escuros e arregalados. Olhos que refletiam uma surpreendente centelha de inteligência. Aquela poderia ser a fêmea rara com quem um homem conseguia argumentar.
- Agora, atenção! - disse ele. - Nós podemos fazer isto da forma mais fácil ou podemos dificultar tudo.
Bufando suavemente, ela virou a cabeça. Era como se ele tivesse deixado de existir.
Edward apoiou seu peso na perna boa, sentindo o golpe em seu orgulho. Ele era um tenente-coronel do Exército Britânico e, com mais de um metro e oitenta de altura, diziam que compunha uma figura impressionante. Normalmente, bastava um olhar enviesado de sua parte, para suprimir qualquer tentativa de desobediência. Não estava acostumado a ser ignorado.
- Escute bem o que vou dizer. - Ele deu um puxão forte na orelha dela e engrossou a voz para que ficasse ainda mais ameaçador. - Se sabe o que é melhor para você, vai fazer o que estou dizendo.
Embora ela não pronunciasse nenhuma palavra, sua resposta era clara: que tal você admirar meu grande traseiro lanoso?
Maldita ovelha.
- Ah, o interior da Inglaterra. Tão encantador. Tão... perfumado. - Jasper aproximou-se, despido de seu refinado casaco londrino, afundado até a cintura em um rio de lã. Enxugando com um lenço o brilho da transpiração de sua têmpora, perguntou: - Imagino que isso signifique que não possamos simplesmente voltar?
À frente deles, um garoto que empurrava um carrinho derrubou sua carga, espalhando milho por toda a estrada. Era um almoço grátis em que todos os carneiros e ovelhas de Sussex estavam presentes. Um tropel imenso de ovelhas agitava-se e balia ao redor do infeliz garoto, deliciando-se com os grãos derramados e obstruindo completamente o caminho das carroças de Edward.
- Será que conseguimos fazer os animais recuarem? - perguntou Jasper. - Talvez possamos dar a volta, encontrar outro caminho.
Edward gesticulou, mostrando o cenário à volta deles.
- Não existe outro caminho.
Estavam parados no meio da estradinha de terra que passava por um tipo de vale estreito e tortuoso. De um lado, elevava-se um barranco repleto de arbustos e, do outro, dezenas de metros de brejo separavam a estrada de imensas falésias. Abaixo delas – bem abaixo – estava o brilhante mar turquesa. Se o ar estivesse razoavelmente seco e claro, e se Edward apertasse os olhos na direção da fina linha azul no horizonte, poderia ver a costa norte da França.
Tão perto. Ele chegaria lá. Não naquele dia, mas em breve. Tinha uma tarefa a cumprir naquela região e, quanto antes a concluísse, tanto antes poderia voltar ao seu regimento. Nada poderia detê-lo.
A não ser ovelhas. Maldição. Parecia que as ovelhas eram capazes de detê-lo.
- Eu cuido delas. - disse uma voz grossa.
O cabo McCarty juntou-se a eles. Edward olhou para o lado e viu o gigantesco suboficial levantando o rifle.
- Não podemos simplesmente atirar nelas, Emmett.
Obediente como sempre, McCarty baixou a arma.
- Eu tenho meu sabre. Afiei a lâmina ontem à noite...
- Também não podemos fatiá-las.
Emmett deu de ombros.
- Estou com fome.
Sim, esse era Emmett: direto, prático e impiedoso.
- Estamos todos com fome. - O estômago de Edward roncou em apoio àquela declaração. - Mas abrir caminho é nosso objetivo no momento, e é mais difícil mover ovelhas mortas que vivas. Temos que empurrá-las para o lado.
Emmett baixou o cão de seu rifle, desarmando-o, e então, com um movimento ágil, virou a arma e bateu a coronha contra um flanco lanoso.
- Mexa-se, ovelha maldita!
O animal arrastou-se alguns passos barranco acima, empurrando seus companheiros na mesma direção. Mais atrás, os condutores das carroças fizeram seus animais avançarem e logo acionaram novamente os freios, para aproveitar aqueles poucos centímetros que haviam conquistado.
As duas carroças transportavam suprimentos para reequipar o regimento de Edward: mosquetes, balas, granadas, lã e branqueador para os uniformes. Ele não poupava despesas e faria com que subissem aquela colina. Mesmo que levasse o dia todo e que cada passo provocasse dores excruciantes da coxa à canela. Seus superiores achavam que ele não estava recuperado o bastante para reassumir o comando de campo. Edward provaria que estavam errados. Um passo de cada vez.
- Isto é absurdo. - resmungou Jasper. - Neste ritmo vamos chegar na próxima terça-feira.
- Pare de falar e comece a agir. - Edward empurrou uma ovelha com o pé, franzindo o rosto ao fazê-lo. Com a perna já acabando com ele, a última coisa de que necessitava era um incômodo, mas era exatamente isso que havia herdado, junto com as contas e posses de seu pai: a responsabilidade pelo primo vagabundo, Jasper Hale, Lorde Payne.
Bateu no flanco de outra ovelha, o que lhe valeu um balido indignado e mais alguns centímetros.
- Tive uma ideia. - disse Jasper.
Edward grunhiu; aquilo não era uma surpresa. Adultos, ele e Jasper eram pouco mais que estranhos; mas, durante os poucos anos em que conviveram em Eton, seu primo mais novo sempre estava cheio de ideias. Ideias que o deixaram afundado até as canelas em excremento. Literalmente, em pelo menos uma ocasião.
Jasper olhou de Edward para Emmett e de novo para o primo, com os olhos aguçados.
- Eu lhes pergunto, cavalheiros, nós temos ou não uma grande quantidade de pólvora preta?
- Tranquilidade é a alma da nossa comunidade!
A menos de quinhentos metros de distância, Isabella Swan estava sentada na sala decorada com cortinas de renda da Queen's Ruby, uma pensão para moças de fino trato. Com ela, conversavam as possíveis novas moradoras do local, a Sra. Brandon e suas três filhas solteiras.
- Aqui em Spindle Cove as moças desfrutam de uma atmosfera salutar, de aperfeiçoamento. - Isabella apontou para um grupo de jovens que, reunidas junto à lareira, bordavam empenhadas. - Está vendo? O retrato da boa saúde e do refinamento.
Em sincronia, as moças ergueram os olhos do trabalho e sorriram contida e placidamente.
Excelente. Ela fez um meneio aprovando com a cabeça.
Normalmente, as moças de Spindle Cove nunca desperdiçariam uma tarde tão linda bordando dentro de casa. Estariam passeando pelo campo, tomando banho de mar na enseada ou escalando as falésias. Mas em dias como aquele, quando novas visitantes chegavam à vila, todas compreendiam que certo nível de decoro era necessário. Isabella se permitia uma mentirinha inocente quando se tratava de salvar a vida de uma jovem.
- A senhora aceita mais chá? - perguntou ela, ao receber um bule cheio da Sra. Nichols, a idosa proprietária da pensão. Se a Sra. Brandon observasse as moças atentamente, talvez reparasse nas moderadas obscenidades gaélicas que Rosalie Taylor bordava ou que na agulha de Violet Winterbottom nem mesmo tinha linha. A Sra. Brandon fungou. Embora o dia estivesse agradável, ela se abanava com vigor.
- Bem, Srta. Swan, talvez este lugar possa fazer bem à minha Tanya. - Ela olhou para a filha mais velha. - Já consultei os melhores médicos, tentei muitos tratamentos. Até a levei para Bath, em busca de cura.
Isabella aquiesceu, compreensiva. Pelo que havia entendido, Tanya Brandon sofria de ataques de asma desde pequena. Com cabelo louro e um sorriso que formava uma linha rosada, a mais velha das irmãs era belíssima. Sua saúde frágil havia atrasado o que teria sido um debute deslumbrante. Contudo, Isabella suspeitava fortemente de que eram todos aqueles médicos e tratamentos que mantinham a jovem doente.
Ela abriu um sorriso acolhedor para Tanya.
- Estou certa de que uma temporada em Spindle Cove será muito benéfica para a saúde da Srta. Brandon. Aliás, muito benéfica para todas vocês.
Nos últimos anos, Spindle Cove tonou-se o destino preferido de certo tipo de moça bem-nascida: o tipo com que ninguém sabia como lidar, que incluía as doentes, as escandalosas e as terrivelmente tímidas; esposas jovens desencantadas com o matrimônio e garotas encantadas demais pelo homem errado... Todas elas eram levadas até ali por seus guardiães, para quem representavam um problema, na esperança de que o ar marítimo pudesse curá-las de suas aflições.
Única filha do único cavalheiro do local, Isabella era, por definição, a anfitriã da vila. Isabella sabia o que fazer com aquelas jovens inconvenientes com quem ninguém sabia como lidar. Ou melhor, sabia o que não fazer. Nenhuma "cura" era necessária. Não precisavam de médicos enfiando agulhas em suas veias, nem de professoras velhas criticando sua dicção. Precisavam apenas de um lugar para si mesmas.
Spindle Cove era esse lugar.
A Sra. Brandon agitou seu leque.
- Sou uma viúva sem filhos homens, Srta. Swan. Uma das minhas filhas precisa de um bom casamento, e logo. Eu tinha muita esperança na Tanya, linda como ela é, mas se não ficar mais forte até a próxima temporada... - Ela acenou desdenhosamente na direção de sua filha do meio, um contraste moreno, de óculos, em meio às irmãs louras. - Não vou ter escolha senão tentar com Alice.
- Mas Kate não liga para os homens. - disse a jovem Kate. - Ela prefere terra e rochas.
- Isso é chamado de Geologia. - disse Alice Brandon. - É uma ciência.
- E a garantia de ficar solteirona, isso sim! Garota anormal. Sente-se ereta na cadeira, ao menos. - A Sra. Brandon suspirou e se abanou com mais força. Olhou para Isabella, e disse: - Não tenho esperança nela, na verdade. É por isso que Tanya precisa ficar boa, a senhorita compreende. Consegue imaginar Alice na sociedade?
Isabella apertou o lábio para segurar o riso ao imaginar, com facilidade, a cena. Provavelmente seria semelhante ao seu próprio debute. Assim como Alice, ela esteve absorvida em atividades não adequadas a uma dama, e naquilo que dizia respeito ao universo feminino ela era um desastre. Nos bailes, era ela a amazona sardenta no canto, que ficaria satisfeita em permanecer invisível, caso a cor de seu cabelo permitisse.
Quanto aos cavalheiros que tinha conhecido... nenhum deles conseguiu arrebatá-la. Para dizer a verdade, nenhum deles havia se esforçado muito para tanto. Ela afastou do pensamento aquelas lembranças incômodas. Aquela época havia ficado para trás.
O olhar da Sra. Brandon recaiu sobre um livro no canto da mesa.
- Fico satisfeita por perceber que a senhorita mantém o livro da Sra. Worthington à mão.
- Ah, sim. - respondeu Isabella, alcançando o volume azul encadernado em couro. - A senhora vai encontrar cópias de A Sabedoria da Sra. Worthington espalhadas por toda a vila. Nós o consideramos um livro muito útil.
- Ouviu isso, Alice? Seria muito bom que você o decorasse. - Quando Alice revirou os olhos, a Sra. Brandon disse: - Kate, abra-o agora. Leia o início do Capítulo Doze.
Kate pegou o livro e o abriu, então limpou a garganta e leu em voz alta e dramática:
- 'Capítulo Doze. Os perigos do excesso de estudo. O intelecto de uma moça deve ser, em todos os aspectos, igual a sua roupa de baixo: atual, imaculada e imperceptível para o observador.'
A Sra. Brandon pigarreou.
- Sim. Isso mesmo. Ouça e acredite, Allie. Ouça e acredite em cada palavra. Como a Srta. Swan disse, você vai ver que esse livro é muito útil.
Isabella bebericou seu chá, engolindo um bolo amargo de indignação. Ela não era uma pessoa colérica ou ressentida normalmente, mas quando provocada, suas paixões exigiam um esforço admirável para serem contidas. Aquele livro a provocava enormemente.
A Sabedoria da Sra. Worthington para Moças era a perdição das garota sensatas em todo o mundo, abarrotado de conselhos insípidos e danosos em todas as páginas. Isabella se deliciaria em esmagar suas folhas com almofariz e pilão, e colocar o pó resultante em um frasco com rótulo de caveira, que guardaria na prateleira mais alta de seu armário de ervas, ao lado de folhas secas venenosas e tóxicas.
Em vez disso, assumiu a missão de retirar de circulação o maior número possível de cópias. Um tipo de quarentena. Antigas residentes da Queen's Ruby enviavam exemplares daquela obra a partir de todos os cantos da Inglaterra. Não se podia entrar em um aposento de Spindle Cove sem encontrar uma cópia, ou três, de A Sabedoria da Sra. Worthington. E exatamente como Isabella disse à Sra. Brandon, elas achavam mesmo o livro muito útil. Seu tamanho era perfeito para manter uma janela aberta. Também era um excelente peso de porta ou de papel. Isabella usava as cópias que tinha para amassar ervas ou, às vezes, para tiro ao alvo.
Ela esticou o braço para Kate, a irmã mais nova.
- Posso? - pegando o livro da mão da garota, ela o ergueu bem alto. Então, com um movimento rápido, usou-o para esmagar um mosquito incômodo. Com um sorriso calmo, colocou o livro sobre a mesa de canto. - Realmente, é muito útil.
- Srta. Swan, que vila encantadora! - Tanya juntou as mãos.
- É o que achamos. - Sorrindo com modéstia, Isabella conduziu as visitantes até a praça da vila. - Aqui nós temos a igreja de Santa Úrsula, um valioso exemplo de arquitetura medieval. É claro que a praça em si é linda. - Ela evitou mostrar o campo gramado que usavam para jogar críquete e boliche de grama, e rapidamente afastou a Sra. Brandon, para que ela não visse o par de pernas com meias pendurado em uma das árvores. - Veja aquilo. - Ela apontou um amontoado de torres e arcos de pedra sobre a falésia rochosa. - São as ruínas do Castelo Rycliff. É uma paisagem excelente para desenhar e pintar.
- Oh, como é romântico. - suspirou Kate.
- Parece decadente. - disse a Sra. Brandon.
- Mas não é. Dentro de um mês, o castelo abrigará nosso Festival de Verão. Famílias de dez paróquias virão, algumas muito distantes, como Eastbourne. Nós, mulheres, vestimos roupas medievais, e meu pai fará uma exibição para as crianças da região. Ele coleciona armaduras antigas, sabe. Entre outras coisas.
- Que ideia maravilhosa. - disse Tanya.
- É o ponto alto do nosso verão.
Alice olhava fixamente para as falésias.
- Qual a composição dessas rochas, arenito ou calcário?
- Hum... arenito, eu acho. - Isabella desviou a atenção delas para uma fachada com venezianas vermelhas do outro lado da rua. Floreiras de janela transbordavam flores, enquanto um cartaz com letras douradas balançava silenciosamente ao vento. - E essa é a Casa de Chá. O Sr. Faust, o proprietário, faz bolos e doces que fariam bonito em qualquer doceria de Londres.
- Bolos? - A Sra. Brandon apertou a boca de modo desagradável. - Espero que vocês não se permitam um excesso de doces.
- Oh, não. - mentiu Isabella. - Raramente.
- Tanya foi rigorosamente proibida de cometer exageros. E receio que aquela ali tenha propensão à corpulência. - e apontou para Alice, que apesar de todas as chances, era tão fina quanto um graveto.
Com a afronta da mãe, Alice baixou os olhos, como se estivesse estudando atentamente as pedras debaixo de seus pés. Ou como se implorasse ao chão que a engolisse por inteiro.
- Alice! - ralhou a mãe. - Postura!
Isabella passou o braço pela cintura da moça, mostrando seu apoio.
- Nós temos o clima mais ensolarado de toda a Inglaterra, será que eu mencionei isso? O correio passa por aqui duas vezes por semana. Vocês estariam interessadas em conhecer as lojas?
- Lojas? Só vejo uma.
- Bem, é verdade. Só temos uma, mas ela é o suficiente, como a senhora verá. A loja Tem de Tudo da Sra. Newton realmente tem tudo que uma jovem pode querer comprar.
A Sra. Brandon passou os olhos pela rua.
- Onde fica o médico? Tanya precisa de um médico por perto o tempo todo, para fazer sangria quando ela tem seus ataques.
Isabella franziu o rosto. Não era de admirar que Tanya nunca conseguisse recuperar integralmente sua saúde. Que prática inútil, horrível, a sangria. Um "tratamento" com maior possibilidade de tirar a vida do que preservá-la. Tratamento que a própria Isabella mal sobreviveu. Por força de hábito, ela passou as mãos por suas luvas compridas, que iam até os cotovelos. As costuras irritavam as feridas cicatrizadas que as luvas escondiam.
- Temos um cirurgião na cidade ao lado. - disse ela. Um cirurgião que ela não deixaria se aproximar do gado, muito menos de uma moça. - E, em nossa vila, temos uma farmacêutica muito competente. - Desejou que a mulher não fizesse perguntas muito detalhadas a respeito.
- E quanto aos homens? - perguntou a Sra. Brandon.
- Homens? - ecoou Isabella. - O que há com eles?
- Com tantas jovens de berço e solteiras residindo aqui, vocês não são atacadas por caçadores de fortuna? Eles eram numerosos em Bath, todos atrás do dote da minha Tanya. Como se ela fosse se casar com algum terceiro filho de fala melosa.
- Definitivamente não, Sra. Brandon. - Desta vez, Isabella não precisava inventar. - Não existem devassos endividados nem oficiais ambiciosos por aqui. De fato, há poucos homens em Spindle Cove. Além do meu pai, apenas comerciantes e criados.
- Eu não sei... - suspirou a Sra. Brandon, ao observar a vila mais uma vez. - É tudo tão comum... não é mesmo? Minha prima, Lady Agatha, falou-me de um novo balneário em Kent. Banhos minerais, tratamentos purgativos. Ela acredita muito na cura pelo mercúrio*.
*Naquela época, o mercúrio era largamente usado para composição de tintas e até mesmo maquiagem. Altamente tóxico, o mercúrio pode causar todo tipo de mal estar e inclusive morte rápida - de 01 a 02 dias.
Isabella sentiu o estômago apertar. Se Tanya fosse para um lugar como aquele, poderia ser realmente seu fim.
- Por favor, Sra. Brandon. Não podemos subestimar os benefícios para saúde do ar marítimo e do sol.
Kate desviou seu olhar do castelo em ruínas rapidamente e pediu:
- Vamos ficar, mamãe. Eu quero participar do Festival de Verão.
- Eu acredito que já estou me sentindo melhor. - disse Tanya, inspirando profundamente.
Isabella saiu de perto de Alice e se aproximou da matriarca ansiosa. A Sra. Brandon podia ser aquele tipo de mãe desorientada, exagerada, mas obviamente amava suas filhas e queria, de coração, fazer o que fosse melhor para elas.
Bem, Isabella poderia confortá-la com sinceridade. As três irmãs Brandon precisavam daquele lugar. Tanya necessitava de uma folga dos tratamentos de médicos charlatães, Alice precisava de uma chance de ir atrás de seus interesses sem ser repreendida, e a jovem Kate precisava, apenas, de um lugar para ser uma garota, para esticar suas pernas e soltar sua imaginação.
E Isabella precisava das Brandon, por razões que não conseguia explicar. Ela não tinha como voltar no tempo e desfazer as desgraças de sua própria juventude, mas podia ajudar a poupar outras jovens do mesmo tormento, e isso era o melhor a fazer por si mesma.
- Confie em mim, Sra. Brandon. - disse ela, pegando a mão da mulher. - Spindle Cove é o lugar perfeito para as férias de verão das suas filhas. Prometo-lhe que aqui elas ficarão saudáveis, felizes e perfeitamente seguras.
BUM!
Uma explosão distante trovejou no ar. As costelas de Isabella tremeram com a força do baque. A Sra. Brandon segurou o chapéu com a mão enluvada.
- Minha nossa. Isso foi uma explosão!?
Raios, raios, raios! Tudo estava indo tão bem.
- Srta. Swan, a senhorita acabou de dizer que este lugar é seguro!
- Ah, mas é... - Isabella exibiu-lhes seu sorriso mais reconfortante. - É sim. Sem dúvida trata-se apenas de um navio no Canal, soando seu canhão sinalizador.
Ela sabia muito bem que não havia nenhum navio. Aquela explosão só podia ser coisa do seu pai. Quando jovem, Sir Charlie Swan havia sido um celebrado inventor de armas de fogo e artilharia. Suas contribuições ao exército britânico conquistaram-lhe admiração, influência e uma fortuna considerável. Mas após os incidentes com o canhão experimental, ele havia prometido a Isabella que desistiria de conduzir testes de campo. Ele prometeu!
Conforme elas avançavam pela rua, um estrondo baixo, sinistro, enchia o ar.
- O que é esse barulho? - perguntou Tanya.
Bella fingiu inocência.
- Que barulho?
- Esse barulho. - disse a Sra. Brandon.
O estrondo ganhava força a cada segundo. As pedras do pavimento vibravam sob suas sandálias de salto. A Sra. Brandon fechou os olhos com força e soltou um gemido lamurioso.
- Ah, esse barulho... - disse Isabella despreocupadamente, conduzindo as Brandon pela rua. Se conseguisse levá-las para dentro de casa... - Esse barulho não é nada com que devamos nos preocupar. Ouvimos isso por aqui o tempo todo. Acasos do clima.
- Isso não pode ser um trovão. - disse Alice.
- Não. Não, não se trata de trovão. É um... fenômeno atmosférico causado por rajadas intermitentes de...
- Ovelhas! - exclamou Kate, apontando para o outro lado da rua.
Um rebanho de animais lanosos enlouquecidos irrompia pelo antigo arco de pedra e entrava na vila, afunilando-se pela rua estreita e aproximando-se delas.
- Ah, sim. - murmurou Bella. - Precisamente isso. Rajadas intermitentes de ovelhas.
Ela fez suas hóspedes atravessarem a rua e todas se abrigaram no pórtico da loja Tem de Tudo, enquanto as ovelhas em pânico passavam. O coro de balidos agitados castigava seus tímpanos. Caso seu pai tivesse só se machucado, ela iria matá-lo.
- Não há motivo para alarme. - disse Isabella por cima do barulho. - A vida no campo tem seus encantos peculiares. Srta. Tanya, sua respiração está bem?
- Estou ótima, obrigada. - respondeu a moça.
Sem esperar por uma resposta, Isabella ergueu a barra da saia e atravessou intrepidamente a rua, ziguezagueando em meio às últimas ovelhas, enquanto saía da vila. Não demorou mais do que alguns segundos. Afinal, aquela era uma vila muito pequena. Em vez de pegar a estradinha mais longa, que rodeava a colina, ela a escalou.
Ao se aproximar do topo, a brisa lhe trouxe nuvens de fumaça e tufos de lã. Apesar dos sinais ameaçadores, ela encontrou no alto da colina uma cena que não lembrava um dos testes de artilharia do pai. Lá embaixo, na outra ponta da rua, duas carroças estavam paradas. Quando aguçou o olhar, conseguiu distinguir pessoas em volta dos transportes parados. Figuras masculinas altas, mas nenhum cavalheiro corpulento e careca entre eles. Nenhum deles podia ser seu pai.
Aliviada, ela inspirou profundamente o ar acre, impregnado de pólvora. Com o fardo do receio removido, sua curiosidade veio à tona. Intrigada, ela desceu o barranco florido até chegar ao caminho estreito e esburacado. À distância, os homens pararam de se mover. Eles a haviam notado.
Protegendo os olhos com a mão, ela olhou fixamente para os homens, tentando identificá-los. Um deles vestia um casaco de oficial, outro não usava casaco algum. Quando ela se aproximou, o homem sem casaco começou a acenar com vigor. Gritos foram conduzidos pela brisa até ela. Franzindo o cenho, Isabella se aproximou, na esperança de ouvir melhor as palavras.
- Espere! Senhorita, não...!
BLAM!
Uma força invisível arrancou-a do chão e a jogou de lado, arremessando-a completamente para fora da estrada. Ela enfiou o ombro na grama alta, derrubada por algum tipo de animal descontrolado. Um animal vestindo casaco vermelho. Juntos, eles rolaram para longe da estrada, joelhos e cotovelos absorvendo os golpes. Os dentes de Bella rangeram em seu crânio, e ela mordeu a língua com força. A saia rasgou e ar frio subiu mais alto por sua coxa do que uma brisa bem-comportada se atreveria.
Quando pararam de rolar, ela se viu imobilizada por um peso tremendo, que arfava. E um penetrante olhar verde a fitava.
- O que...? - Ela não teve fôlego para terminar a pergunta.
BUM, respondeu o mundo.
Isabella baixou a cabeça, abrigando-a sob a proteção do que ela reconheceu ser um casaco de oficial. Um botão de metal apertou sua face. A figura do homem formava um escudo protetor, enquanto uma chuva de torrões caía sobre os dois. Ele cheirava a uísque e pólvora. Depois que a poeira baixou, ela afastou o cabelo da testa dele, buscando em seu olhar sinais de desorientação ou dor. Contudo, seus olhos estavam alertas e vivos, mas aquele assustador tom de verde... forte e ricamente matizado como jade.
- Você está bem?. - perguntou ela.
- Estou. - A voz dele era rouca e grave. - E você?
Ela concordou, esperando que ele a liberasse após sua confirmação. Quando ele não mostrou intenção de se mover, ela ficou intrigada. Ou ele estava gravemente ferido, ou era muito impertinente.
- Senhor, ahn, o senhor é muito pesado. - Com certeza ele entenderia aquela sugestão.
- E você é macia. - respondeu ele.
Bom Deus. Quem era aquele homem? De onde vinha? E por que continuava em cima dela?
- Você está com um pequeno ferimento. - Com dedos trêmulos, ela tocou um ponto vermelho na têmpora dele, perto do cabelo. - Aqui. - Apertou a mão contra a garganta dele, para sentir seu pulso. Ela logo o encontrou, batendo forte e regularmente contra as pontas enluvadas de seus dedos.
- Ah... Isso é gostoso.
O rosto dela ficou quente.
- Você está com visão dupla?
- Talvez... Vejo dois lábios, dois olhos, duas bochechas coradas... milhares de pequenas sardas.
Ela o encarou.
- Não se preocupe, senhorita. Não é nada. - O olhar dele ficou sombrio devido a alguma intenção misteriosa. - Nada que um beijinho não cure.
E antes mesmo que ela pudesse recuperar o fôlego, ele pressionou seus lábios contra os dela. Um beijo. Sua boca tocando a dela... Era quente e firme, e então... acabou.
Seu primeiro beijo de verdade em todos os seus 25 anos, e terminou num piscar de olhos. Apenas uma lembrança, agora, a não ser pela leve sugestão de uísque em seus lábios. E pelo calor. Ela ainda sentia o calor dele, masculino e intenso. Atrasada, ela fechou os olhos.
- Agora sim. - murmurou ele. - Estou melhor.
Melhor? Pior? A escuridão por trás de suas pálpebras não tinha respostas, então ela as abriu novamente. Diferente. Aquele homem forte e estranho, a tinha em seu abraço protetor, e ela se perdia em seu intrigante olhar verde, e seu beijo reverberava nos ossos dela com mais força do que uma explosão de pólvora. E agora ela se sentia diferente...
O calor e o peso dele... eram como uma resposta. A resposta a uma pergunta que Isabella nem mesmo percebeu que seu corpo vinha fazendo. Então era assim, ficar deitada debaixo de um homem. Sentir-se moldada por ele, sua carne cedendo em alguns lugares e resistindo em outros. O calor crescendo entre dois corpos; batidas de coração duelando dos dois lados do mesmo tambor. Talvez... apenas talvez... aquilo fosse o que ela estava esperando sentir por toda sua vida. Não erguida do chão, mas jogada do outro lado da estrada, rolando de cabeça para baixo, enquanto o mundo explodia a sua volta.
Ele rolou para o lado, dando-lhe espaço para respirar.
- De onde você surgiu?
- Acho que eu é que deveria lhe perguntar isso. - Ele se ergueu com o cotovelo.
- Quem é você? O que está fazendo aqui?
- Isso não é óbvio? - O tom dele era grave. - Estamos bombardeando as ovelhas.
- Ah. Ah, Deus. É claro que sim. - Dentro dela, a compaixão se misturou ao desespero. Claro que ele não batia bem da cabeça. Um daqueles pobres soldados arruinados pela guerra. Ela deveria ter adivinhado. Nenhum homem são jamais havia olhado para ela daquela forma.
Isabella pôs de lado a decepção. Pelo menos ele tinha vindo ao lugar certo. E pousado sobre a mulher certa. Ela tinha muito mais experiência em tratar ferimentos na cabeça do que investidas de cavalheiros. O segredo estava em parar de pensar nele como um homem grande e viril, e simplesmente encará-lo como uma pessoa que precisava de sua ajuda. Uma espécie de eunuco pouco atraente e enfermo.
Esticando o braço em sua direção, ela passou um dedo por sua sobrancelha.
- Não fique assustado. - disse ela, em tom calmo e equilibrado. - Está tudo bem. Você vai ficar ótimo. - Ela pôs a mão no rosto dele e o encarou diretamente nos olhos. - As ovelhas não podem fazer mal a você aqui.
HAHAHA
Então, o que acharam desse comecinho louco?
Quero aproveitar esse espacinho para agradecer as pessoas que comentaram em "Uma Semana Para Se Entregar" (foi tão corrido o dia que postei o último capítulo, que deixei a desejar e fiquei parecendo meio ingrata, rsrs), especialmente também no Epílogo. Agradeço à: All Sweet, Ana Krol, Ann, Barbara Gouveia, BbCullen, Beckyye, Cris Redfield s2, Dariane Cristina, DINDA CULLEN, Guest (não identificada), Guest Giulia, Jakeline Neres, Jhessye, kitkat delicious, kjessica, Kris Stew-Patzz, Ktia S, LariOliveira, Lucarelli, mari A, Mila, MM's, Nanny, Patylayne, Paula, PennySLove, PrizACCullen, sahfernandes, Sophie Cullen, TP-Link 95, Twilight 4ever, Vanity nightwish, VioletSMC, V. Kifuri.
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Deixem suas reviews para essa nova história que eu irei agradecer muito, beijos!
