Becky desceu do carro em frente à sua antiga casa mirando os pais e o irmão mais novo com um olhar desconfiado. Ainda não conseguia entender a urgência de voltarem para Rosewood, lugar que lutaram tanto para fugir há três anos atrás, após o desaparecimento de Alison DiLaurentis.
Estava bem dividida em relação a volta. Não era ao todo ruim; ela gostaria de rever a amiga Jenna Marshall, poderia finalmente terminar a faculdade e poderia rever Jason DiLaurentis. Não estava muito certa sobre a vantagem de rever o último, mas sabia que ainda sentia muita falta dele. E, por mais que custasse admitir, gostaria de rever as antigas amigas de Alison.
O que não conseguia entender era o porquê de tudo isso. Após a DiLaurentis mais nova desaparecer, seus pais proibiram que seu irmão mais novo, Scott, fosse amigo de Mike Montgomery – irmão mais novo de Aria Montgomery, amiga de Alison - e fizeram de tudo para ir embora da cidade. Moraram nesses três anos em Nova York.
Becky estava envolvida com a família DiLaurentis mais fundo do que desejava, do que deveria e do que era seguro. Seu passado vivia à espreita, em especial, a época em que foi amiga de Cece Drake. A própria amizade com Jenna Marshall ainda a dava arrepios de tempos em tempos. E ainda havia tudo aquilo que acontecera em Nova York. Só de pensar, Becky sentia vontade de vomitar.
Entrou em sua antiga casa, que já havia sido preparada para a chegada da família e subiu para seu antigo quarto, sendo seguida de perto por Scott. Desde que souberam que Alison havia sido morta, há dois anos atrás, Scott ficara muito assustado e com medo de perder a irmã mais velha. Em Nova York faziam tudo juntos – incluindo tudo aquilo que causou a ruína de Becky Hart. Sentia-se culpada pelo irmão ter visto tudo acontecer e ter sido a pessoa a ajuda-la, escondendo dos pais tudo que passaram juntos, porém, sentia-se grata em tê-lo por perto. Scott era a pessoa que ela mais amava no mundo e faria de tudo para vê-lo bem, mesmo que isso significasse magoá-lo. E era por isso que vinha tentando afastá-lo nos últimos tempos. Se estavam voltando para Rosewood, isso significava que todo o seu passado voltaria com força para arrastá-la cada vez mais para baixo e que levaria com ela todos ao seu redor. Ela não queria isso para o irmão. Por isso, parou de subir as escadas e reclamou:
- Scott, pode parar de me seguir? – ela viu a mágoa nos olhos do irmão, enquanto ele parava de subir as escadas também. – Obrigada – respondeu, revirando os olhos. Subiu o restante dos degraus se segurando para não voltar atrás e logo se fechou em seu quarto, desmoronando a seguir. Odiava o que estava fazendo com Scott, mas sabia que era para o bem dele.
Tendo passado o primeiro dia de sua volta a Rosewood trancada em seu quarto, tentando se convencer de o que fazia era o melhor para todos, Becky resolveu sair no dia seguinte. Daria uma volta pela cidade, tomaria um café no Brew e depois iria até Hollis, verificar a situação de sua matrícula. Não via a hora de voltar a estudar e, pela primeira vez em anos, sentia-se em condições físicas e emocionais de retomar pelo menos parte de sua vida. Porém, logo que desceu de seu carro preto, perto do Brew, arrependeu-se de ter colocado os pés para fora de casa e soube que esse seria um longo dia.
- Ora, mas quem está de volta a Rosewood! – exclamou uma voz horrivelmente familiar. Becky respirou fundo antes de virar para responder.
- Olá, Noel – disse, simplesmente. A garota caminhou a passos largos até estar bem perto dele, ainda baixa, apesar de seus saltos. – Espero que você saiba que eu voltei, mas que isso não significa que o que aconteceu em Nova York ficou por lá. Eu continuo de olho em você, Kahn – ameaçou.
- Uau – respondeu ele, em um tom sarcástico, levantando as mãos em sinal de rendição. – Mas o mesmo vale para você, Hart. Sabe quem também voltou a Rosewood? Seu DiLaurentis preferido. E eu aposto que ele não ficaria nada satisfeito em saber o que a namoradinha escondeu dele por todos esses anos.
- Jason é passado – sussurrou Becky, mas sem tanta certeza. Dando as costas para Noel, entrou no Brew, logo reconhecendo quem estava vindo atendê-la; Emily Fields, amiga de Alison e uma das últimas pessoas que ela gostaria de ver no momento. Aliás, Becky não tinha certeza se gostaria de ver qualquer uma das pessoas de sua antiga vida. Tinha sérias dúvidas sobre Jenna e no quanto poderia confiar nela, já que tudo havia mudado. Sabia que, no fundo, queria ver Jason. Só não sabia se ele queria vê-la. E se o visse, não saberia nem por onde começar.
- Becky? – perguntou Emily, sorrindo. É claro que ela conhecia cada uma das amigas de Alison, já que havia passado boa parte de sua adolescência na casa dos DiLaurentis. – Eu não sabia que você havia voltado. O que vai querer?
- Oi, Emily – respondeu, sorrindo levemente. – Um café para a viagem, por favor.
- Você voltou para ficar? – indagou a garota, entregando o café para Becky.
- É, acho que sim – disse, enquanto pagava.
- Olha, eu sei que muitas coisas aconteceram no passado e eu sou provavelmente a última pessoa que você gostaria de ver hoje – murmurou Emily, olhando para o chão, enquanto Becky pensava "na mosca!". – Mas... Eu gostaria de me desculpar, na verdade. Sobre o que aconteceu entre você e Jason e... Me desculpe. Eu acho que separei vocês né?
- A vida nos separou, Emily – respondeu Becky, desviando o olhar. Falar de Jason significava lembrar o porquê da separação. O como. E de todas as mentiras que Becky ainda escondia.
- Ah, desculpe... Eu só pensei que... Bom, ele está de volta à cidade e, talvez, se eu pudesse consertar o meu erro, talvez vocês pudessem... Bem, você sabe, voltar?
- É, obrigada, mas eu não acho que isso vá acontecer. Tchau, Emily, te vejo por aí – Becky saiu do Brew o mais rapidamente que pode, rezando para não encontrar mais ninguém. Entrou em seu carro e respirou fundo, pensando no que faria a seguir. Não queria ir a Hollis, ela sabia exatamente onde queria ir; à casa dos DiLaurentis. Mas não podia. Não ainda. Becky não tinha reunido toda a coragem necessária. Pegou o celular na bolsa ao seu lado e discou o número que não achava que iria discar: - Alô? Jenna?
