- Capítulo 1: Aproximação -
"Malfoy!"
'Merda!', pensou Draco, parando no corredor ao ouvir o chamado conhecido. Certamente, de todas as desvantagens de entrar na Ordem, aquela era a pior.
Potter.
"Fala logo, Potter. O que você quer?"
"Eu não, idiota.", Potter parecia surpreendentemente mal humorado. "McGonagall. Ela está te esperando na sala dela."
Menos mal. Ele não gostava da professora, mas ela pelo menos tinha uma autoridade merecida sobre ele. Já quando Potter era mandando para orientá-lo a fazer qualquer coisa ele queria morrer. Quem disse que Potter poderia lhe dizer o que fazer? E o diabo era que o desgraçado tinha um crédito imenso dentro da Ordem. Pelo que ele pôde entender, Dumbledore deixara, antes de morrer, um trabalho para Potter fazer, e a Ordem estava ajudando o idiota.
Draco chegou em frente a porta da sala da diretora e bateu devagar.
"Entre".
McGonagall estava sentada em sua mesa. Ela apontou a cadeira a sua frente e terminou de fechar um envelope de pergaminho, prendendo-o na pata de uma coruja que estava pousada sobre sua mesa.
Quando a coruja saiu pela janela, ela se dignou a encarar o menino.
"Malfoy, tenho um... Um trabalho para você."
O garoto levantou uma sobrancelha, desconfiado. McGonagall continuou.
"Potter precisará se ausentar do colégio em uma missão pela Ordem. Ele quer ir sozinho, mas todos achamos isso no mínimo imprudente. Porém...", os lábios da professora se crisparam "ele recusou a companhia de qualquer um que tenha o mínimo conhecimento do que ele vai fazer. Isso inclui até mesmo Weasley e Granger." McGonagall suspirou e sentenciou "Quero que você vá com ele."
Draco pensou um pouco e se endireitou na cadeira.
"Professora, eu nunca disse que aceitaria trabalhar para a Ordem..."
"Não encare dessa forma, Malfoy. Veja como um trabalho extra de Defesa Contra a Arte das Trevas. Você vai receber pontos extras nessa matéria, caso aceite o trabalho." McGonagall não sorria, mas havia algo de divertido em suas palavras.
Draco pensou um pouco. Não lhe agradava a idéia de se vincular à Ordem e muito menos de ir pra qualquer lugar como pajem de Potter, mas seria uma boa oportunidade de sair um pouco, afinal, ele já estava há mais de três meses mudando de prisões: primeiro a do Lord, depois a sede da Ordem, agora o colégio. Respirar novos ares não seria de todo ruim. E teria a oportunidade de se exercitar no seu esporte favorito: atazanar Potter sem nenhum professor por perto. Além de ganhar pontos, o que parecia uma proposta muito infantil, como dar doces a uma criança em troca de um beijo, mas que ele não recusaria. Sua média em DCAT não estava tão boa assim, e isso poderia lhe valer alguns créditos dentro da Sonserina.
"Tudo bem" ele confirmou, voltando a encarar a professora com um sorriso irônico no rosto. "Quando partimos e para onde vamos, fazendo o quê?"
Ela sorriu. "Malfoy, eu acho que não fui clara o suficiente. Você só foi convidado a ir justamente por não saber essas coisas."
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'Não tem lógica', pensou Draco mais tarde, descendo em direção à entrada do salão comunal da Sonserina. 'Não tem a mínima lógica'.
Seja onde for que estivesse indo por não saber para onde estava indo, logo ele saberia, não? Então, qual era a valia daquela não-informação? Potter era burro demais...
Eles não se encontraram novamente, mas agora parecia óbvio ao sonserino que o mal humor do outro estava diretamente relacionado ao convite que recebera. E Draco não pôde deixar de sorrir por isso.
Ele pegou sua capa e saiu das masmorras.
"Está atrasado". Potter falou sem olhar direito pra ele, lhe dando as costas e saindo do castelo. Draco saiu atrás.
Os dois caminharam em silêncio até os limites de Hogsmead sem cruzar com ninguém. Então Potter parou e o olhou pela primeira vez.
"Vamos aparatar. Me dá sua mão."
Draco sorriu debochado, mas obedeceu. O cheiro de mar o invadiu quase que imediatamente. Ele abriu os olhos e se viu sobre uma rocha a beira de um mar muito agitado.
"É bom saber nadar." Potter disse e se jogou na água.
Draco o olhou por um minuto enquanto ele se afastava nadando. Não, ele não estava nem um pouco disposto a se molhar. E começava a se arrepender daquilo tudo pensando em voltar quando percebeu que o fato de não saber onde estava e sua pouca experiência com aparatação tornavam isso muito mais complicado. De repente ele chegou à conclusão de que, por mais que estivesse propenso a manter-se seco, estava mais ainda a não ficar sozinho parado em cima daquela rocha no meio do nada.
Respirou fundo e mergulhou, tentando localizar Potter. Ele o vislumbrou sumindo em uma fissura na rocha e se apressou. À fissura seguia uma passagem estreita e limosa. Então ele bateu em degraus. Subiu lentamente até atingir o patamar de uma caverna. Potter já estava de pé e seco. Sua tendência natural falou que ele deveria xingar o outro e arremessar sua cabeça contra a parede o mais forte possível. Seu extinto de sobrevivência disse que era melhor não provocar enquanto não soubesse onde estava.
"Por Merlin, Potter, ONDE ESTAMOS?"
"Você realmente não deveria ter vindo, Malfoy", disse examinando uma parede. "Isso não é pra você!"
"E o que diabos VOCÊ está fazendo aqui?"
Potter sorriu de uma forma terrível. Draco deu um passo pra trás, assustado, quando Potter riu baixinho e puxou uma adaga das vestes.
"Potter... O que... Caralho!", ele não conseguiu evitar quando viu o outro cortando o braço e o esfregando na parede, que sumiu. "Potter!"
"Ora, Malfoy, você não pensou realmente que nós viéssemos fazer turismo, não é mesmo? E eu tenho certeza que você conhece o suficiente de magia para não se assustar com isso. Ainda mais você! Poupe-me dos seus chiliques!", Potter disse divertido, passando pela parede agora aberta.
"Cala a boca, Potter!"
Draco o seguiu, entrando em uma caverna com um lago e uma luz esverdeada. Ele quase se desequilibrou, distraído, observando o ambiente.
"Ei, toma cuidado. Não toque na água", o outro o segurou pela camisa.
"Depois de me fazer nadar você vem me dizer isso? Poupe-me, Potter."
"Não seja burro. Não toque nessa água."
Harry começou a andar pela caverna circundando o lago, examinando o chão e as paredes com atenção.
"Onde estamos, Potter?"
"Em uma caverna."
Draco rodou os olhos. "E o que você veio fazer nessa caverna?"
"Um amigo meu perdeu uma coisa aqui, precisava vir buscar."
"Você já esteve aqui?"
"Você por acaso acha que eu sei chegar aqui como?"
"Sei lá. O que você perdeu?"
Harry o olhou e sorriu antes de voltar à sua busca em silêncio.
"Por que esse mistério todo? Eu estou aqui, não estou? Mais cedo ou mais tarde eu vou saber..."
"Que seja mais tarde. Você é mais inútil aqui que essa parede. McGonagall deveria ter me deixado vir sozinho."
"E por que você não quis a companhia agradável de nenhum ruivo cretino? Você tem tantos na sua cola."
Harry o olhou novamente com uma cara estranha. "Não quis colocá-los em perigo por causa disso", deu de ombros.
Draco se retesou imediatamente.
"Quando você esteve aqui, Potter?"
"Não te interessa."
"Você veio sozinho?"
"O que você acha?"
"Eu acho que você não conseguiria chegar aqui sozinho. Acho que Dumbledore estava com você."
"Bravo", Harry disse, passando a mão no ar sobre a margem do lago.
"O que você está fazendo?"
Harry deu um pequeno pulo no ar, como se passasse por cima de algo, e continuou a caminhada em torno do lago. Draco se aproximou do ponto em que ele pulou e sentiu algo bater na sua canela. Ele tocou esse algo, que se parecia com grossas correntes, e olhou Potter examinando a margem a alguns passos. Ele tentou puxar a corrente.
"Não toque a água, já disse."
"Que merda, Potter! Não estou tocando em nada!"
"Então deixe isso quieto. Vamos, passe pra cá. E tome cuidado, eu não andei desse lado da outra vez que estive aqui, não sei o que pode acontecer."
Draco pulou a corrente com delicadeza e seguiu até perto de onde Potter estava, encostando-se na parede. Potter tinha razão, ele era mais do que inútil ali.
"Você está procurando algo que Dumbledore perdeu?"
"Por Merlin, Malfoy, você está pior que o Creveey!"
Draco fez uma careta e resolveu ficar quieto. Observou o outro trabalhar um pouco, então enjoou e começou a olhar a água. O lago estava parado, como um imenso espelho. A luz esverdeada, que parecia vir de algum ponto além, brilhava calma sobre sua superfície. Então o loiro se retesou quando pequenas ondas surgiram a uns três metros da margem e algo branco apareceu na superfície, para submergir em seguida.
"POTTER! TEM ALGUMA COISA NESSE LAGO!"
"Por Merlin, Malfoy! Vai assustar a mãe! É claro que tem alguma coisa no lago! São inferis! Agora, cala a boca!"
Draco se encolheu mais contra a parede.
"Posso te esperar lá fora?"
O outro o olhou divertido e balançou a cabeça em descrença. Draco olhou pra trás e percebeu que a parede estava fechada novamente.
'Ah, Merda!', pensou desesperado, se sentindo cada vez mais inseguro e mais dependente do outro.
"Vem. Não está aqui", Potter o chamou, voltando em direção à corrente.
Harry a segurou e deu um toque com a varinha em seu pulso. A corrente apareceu e começou a se mover. Então um barco emergiu da água.
"Eu não vou entrar aí!"
"Ta...", Potter concordou, subindo no barco.
Draco balançou a cabeça e o seguiu. O barco começou a se mover lentamente, rumando para o centro do lago. Draco olhava desconfiado para os inferis ao lado deles. Se assustou quando o barco encalhou numa pequena ilha. Potter desembarcou.
Draco o seguiu com cuidado. Havia uma bacia no meio da ilha, de onde a luz verde emanava. Draco se debruçou lentamente e olhou o seu conteúdo. Era uma poção, mas não havia mais nada além disso, e Potter não pareceu dar muita atenção para ela, estava mais preocupado examinando o chão.
"Não fique andando. Preciso ver as marcas no chão."
Draco se sentou em um ponto e ficou quieto, olhando preocupado para a água, a procura de movimento. Potter soltou uma exclamação e começou a cavar um ponto da ilha.
'Ótimo', pensou Draco, 'vamos embora, então?', sugeriu para sua própria consciência, agora mais do que arrependido por estar ali. Chutou uma pequena pedra, chateado. Ela quicou e caiu no lago com um pequeno barulho. Imediatamente Potter levantou a cabeça, assustado.
"MAS QUE MERDA, MALFOY!"
Draco se voltou para olhá-lo, sem entender o que tinha feito, mas não chegou a terminar o movimento quando sentiu mãos geladas em seu pescoço. Tentou se levantar, mas não conseguiu, algo segurava suas pernas.
Viu Potter levantar com algo escuro em uma das mãos e a varinha na outra, gritando "Incendium", conjurando línguas de fogo que mantinham os inferis que saiam da água longe dele. Draco tentou apanhar a própria varinha nas vestes, mas não conseguiu, alguém agarrou os seus braços e ele se sentiu ser erguido, puxado em direção à água.
"POTTER!", gritou antes que sentisse o impacto da água fria contra o seu corpo e se visse empurrado para o fundo por centenas de mãos.
Desmaiou.
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Draco abriu os olhos devagar, sentia-se mal, muito mal. Zonzo, o corpo dolorido, sua cabeça girando, e frio, muito, muito frio.
Abriu os olhos devagar, a luz avermelhada se espalhava pelo ambiente. Havia uma fogueira a alguns passos de onde estava deitado. Uma música leve chegava aos seus ouvidos.
Tentou se mexer, mas seus braços estavam pesados demais. Parecia que alguém colocara roupas sobre ele. Gemeu de dor ao tentar se virar. A música parou.
"Draco?", uma voz assustada, mas conhecida, estava ao seu lado. Draco virou o rosto para vê-lo, mas o movimento fez seu estômago girar e um gosto ruim veio à boca quando ele se engasgou.
"Droga!", ouviu Potter resmungar antes de sentir o outro levantar sua cabeça para poder vomitar. Draco tentava por tudo respirar, mas tudo o que conseguiu foi tremer que nem um condenado.
"Frio...", conseguiu resmungar entre sorvos de ar.
"Eu sei. Merlin, você está congelando! Calma... aqui..."
Harry se sentou atrás dele e o puxou contra seu corpo, o abraçando. Draco percebeu que Harry estava com o peito nu e resmungou alguma coisa.
"Eu juro que se você falar pra qualquer pessoa o que eu estou fazendo eu te mato a machadadas. Agora, eu já te cobri com todas as roupas que eu tinha, menos minhas próprias calças. Vou tentar te esquentar, o fogo não vai durar muito tempo... Por Merlin, tente não dormir... Eu pensei que você ia morrer de tão pálido e frio que você estava..."
Draco só conseguia tremer, seus dentes batendo descontrolados. O fogo foi diminuindo. Harry conjurou novas chamas, fogo mágico, mas não era tão potente, aquecia, mas seria mais eficiente se tivesse algo para queimar.
Conforme o tempo foi passando, Draco conseguiu controlar a tremedeira, se concentrando em outras coisas. Inicialmente, o perfume do outro que o incomodou, a forma como o tórax de Potter subia e descia compassado e como o corpo dele parecia incrivelmente quente se comparado com o seu próprio. Depois percebeu que a mão dele ia até sua testa a intervalos regulares, testando sua temperatura. Depois percebeu um leve calor subindo de suas pernas, o suficiente para conseguir sentir seus pés, mas nada muito acolhedor ainda. Estava vestido, mas suas roupas estavam frouxas e estava sem gravata. Realmente se encontrava coberto com a camisa de Potter, a capa deste e sua própria capa. Viu que conseguia se mover sozinho novamente.
Ele olhou em torno. Estavam de volta à caverna da parede que sumia. O mar subiu, a água agora havia coberto os degraus e invadia de leve o patamar aonde estavam. Supôs que esse era o motivo por não terem ido embora ainda.
"Você conseguiu o que veio buscar?", perguntou baixinho.
"Sim. Você está melhor?", o grifinório respondeu, levando novamente a mão a sua testa. "Você ainda está frio..."
"Já dá pra agüentar... Vamos embora?"
"O mar precisa baixar. Não dá pra aparatar daqui de dentro..."
Draco deixou a cabeça cair sobre o ombro do outro, respirando fundo, falar ainda era difícil.
"O que aconteceu?", perguntou para fazer o outro falar. O silêncio o estava incomodando.
"Um idiota mexeu na água. Os inferis te pegaram e você caiu no lago. Eu te puxei de volta com um laço de fogo."
"'Brigado.", suspirou, meio inconsciente, fechando os olhos.
"Ei, ei! Não durma! Não sei o que pode acontecer com você. Você estava bem estranho enquanto ficou inconsciente. Convulsionava a cada meia hora."
Draco abriu os olhos vagarosamente. Seu corpo estava pesado, ele estava afundando, cada vez mais, o frio crescendo novamente.
"Estou com frio.", comentou sonolento.
"Eu sei... Eu sei...", Potter passou os braços sobre seu peito, puxando-o para mais perto.
"O que era o que você estava procurando?"
Harry suspirou, cansado. Ele sentia que o sonserino estava no limite da consciência, pelo seu tom de voz, e sentia que queria falar com alguém sobre tudo aquilo. Com sorte, ele nem se lembraria depois.
"Um colar."
"Era do Dumbledore?"
"Não, mas ele também quase morreu tentando pegá-lo, assim como você..."
Draco o olhou. "Então era aqui que vocês estavam?", perguntou antes de se acomodar novamente.
"É... Não importa agora..."
"O que você vai fazer com esse colar?"
"A Ordem vai destruir o medalhão."
Harry esperava que o loiro perguntasse o por quê, e isso ele não iria responder, então se sentiu aliviado ao ouvir a lógica dormente do sonserino seguir outro caminho.
"E onde está o dono do medalhão? O seu amigo?"
"Morto."
"Como ele chama?"
"R.A.B."
"Que diabos é isso?"
"Eu não sei. Mas como eu supunha, ele não conseguiu sair daqui vivo."
"Se todo mundo sai daqui quase morto, por que você queria vir sozinho?"
"Pra não ter que ver ninguém morrer. Esse não é um lugar legal... Dumbledore não gostaria que eu trouxesse ninguém aqui."
"Concordo..."
O silêncio voltou a envolvê-los. Harry levantou o rosto do outro para confirmar se estava acordado.
"Potter, que música era aquela?", Draco perguntou, tentando manter uma conversa.
"Minha flauta. Eu tenho desde o primeiro ano, o Hagrid que me deu. Mas eu não sei tocar direito..."
"Toca um pouco... É melhor que todo esse silêncio..."
"Você não ouve todo esse barulho do mar?"
"Não faz diferença...", Draco comentou sem saber ao certo do que estava falando.
"Tudo bem, só não durma..."
Harry convocou a flauta e começou a tocar, ocasionalmente parando para chamar o outro que oscilava entre o sono e o frio. O som doce e leve foi envolvendo os dois pouco a pouco, em uma cadência mágica. Draco nunca saberia dizer quanto tempo eles ficaram ali, abraçados.
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Ele pouco se lembrou de como chegou ao Saint Mungus. Por semanas, a primeira lembrança que teve depois de cair no lago foi acordar e ver Potter sentado em uma poltrona ao lado de sua cama com uma terrível crise de espirros.
Potter ficou com ele enquanto se recuperava, até poder voltar ao colégio, mas não conversaram, ficava um olhando para um lado diferente do quarto e Draco tinha muita sonolência. O grifinório havia pegado pneumonia devido à umidade a qual se expôs e precisou se tratar por um tempo também. No dia em que receberam alta, Potter simplesmente se levantou e saiu. Só se encontraram novamente no colégio, e Harry não comentou nada sobre a viagem.
Draco fora deixado em paz, pela Ordem, por Potter, pelo resto do universo, e a consciência de estar sozinho voltou com força total. Cada vez mais seu cotidiano se resumia a assistir às aulas, isolado, comer cada vez menos, isolado, e dormir em seu quarto particular de monitor, isolado. Não freqüentava mais a sala comunal as Sonserina, não precisava suportar a hostilidade da sua casa por mais tempo além das aulas e refeições. Ah, também visitava muito a árvore à beira do precipício na floresta proibida, talvez por ela ser tão isolada quanto ele, talvez pelo vazio aparente do lugar lhe dar a segurança de que ainda havia um lugar seu. Seu e das estrelas.
Depois de duas semanas, Draco se lembrou do que aconteceu na caverna e da situação constrangedora que passaram: uma noite toda abraçados, falando sobre coisas aleatórias e ouvindo Potter tocando flauta. Parecia tão surreal, como se ainda estivesse delirando de frio.
E Potter ficou doente por causa disso. Ele nunca pensou que o grifinório se arriscaria para defendê-lo. Bem, mas ele era um grifinório, ninguém esperava que ele entendesse suas atitudes...
Mas de repente, Harry Potter passou a lhe chamar a atenção. Ta bem, não seria a primeira vez que o grifinório lhe chamaria a atenção, afinal, ele só sabe fazer isso mesmo: chamar a atenção. Mas certamente foi a primeira vez que Draco não se sentiu incomodado com isso. Primeira não, segunda. A primeira havia sido no Beco Diagonal, há tantos anos, quando o sonserino percebeu que aquele garoto era diferente e se dispôs a conversar com ele, mesmo sem saber quem ele era.
O fato é que Potter era um ser estranho.
Sim, ele tinha o Ministério aos seus pés, a Ordem aos seus pés, o mundo aos seus pés. Mas não se aproveitava disso. Se Draco não o conhecesse bem, diria que cada vez mais o grifinório parecia alheio ao que lhe cercava, ignorando toda essa atenção. Se isolando.
Sim, seus fiéis companheiros estavam lá: o cabelo de fogo e a fogo de palha. Weasley e Granger. E havia também a Weasley fêmea, que se juntara ao grupo de uma forma pegajosa. E Draco se divertia ao perceber que desta, principalmente, Potter parecia querer manter distância segura, apesar de Draco jurar que eles ainda davam uns pegas de vez em quando. Quando isso acontecia, a ruiva parecia a mais feliz das criaturas, e o moreno oscilava entre a culpa e o remorso o dia todo, para divertimento do loiro.
O fato era que Potter andava pelo colégio, falava, estudava, como se não estivesse lá. Estava mais ausente que o normal, pensativo, desatento, quase como a Luna Lunática. Ah, e ele voltou a se ausentar fisicamente do colégio diversas vezes. E Draco se sentiu extremamente agradecido que mais ninguém o sugeriu como companhia. Potter que se metesse em seus buracos sozinho.
Em uma noite particularmente agitada, Draco começou a pensar nisso.
No começo Draco se deixou cair sobre os travesseiros macios, se divertindo com esse comportamento do outro, sua insegurança, seus erros, as broncas que ele levava por toda essa ausência.
Depois começou a se revirar na cama insistentemente, como se estivesse quente demais, arrancando os lençóis do colchão e jogando os travesseiros para os seus pés, se irritando pela passividade do outro com tudo o que o rodeava, só parando quando ficou curioso sobre o que se passava naquela cabeça oca durante todo esse tempo de ausência.
Depois se assustou.
Se assustou sim, com dois fatos, e seus travesseiros se tornaram excessivamente incômodos, se colocando a socá-los para deformá-los segundo seu gosto e ver se era uma opção voltar a deitar e poder retomar seus pensamentos.
O primeiro, quando percebeu que começou a se preocupar muito com isso, com a vida de Potter, com as relações e reações de Potter, com os pensamentos e problemas de Potter. Seus travesseiros continuavam a ser esmurrados, pois não se adaptavam à sua cabeça, assim como seus pensamentos. Era uma forma de distração de sua própria existência sem graça, ele justificava. Mas nada justificava o fato de que chegava a ficar feliz quando tinham aulas conjuntas, para poder observá-lo melhor, ou que por vezes mudava o seu caminho quando sabia que poderia encontrá-lo ocasionalmente em algum corredor.
Agora, mais assustador que isso, foi perceber que os encontros deles começaram a parecer freqüentes demais, propositais demais. Quase como se os dois estivessem no mesmo lugar sem ter absolutamente nada para fazer ali a não ser o fato de observar um ao outro.
Sim, porque Draco percebeu que também era observado. Atentamente observado. Neuroticamente observado.
Não foram uma nem duas vezes que ele levantou a cabeça do seu prato durante as refeições com a intensão de ver o que Potter poderia estar fazendo e se deparou com aqueles dois pontos verdes fixos nele. Isso em geral tinha continuidade com longos momentos dos dois se encarando, um em desafio ao outro. Mas diferente do que costumava fazer no passado, Draco não se sentia tentado a levantar e ir atormentá-lo na outra mesa. Não tinha o que falar com Potter. Nem Potter com ele. E isso significava também nada de provocações, nada de encontrões, nada de rivalidade. Até o quadribol fora cancelado (por questões de segurança, segundo McGonagall. Draco até se sentiria triste, se não fosse a certeza de que seria deixado de fora da equipe por seus colegas de casa), ou seja, nada de brigas.
E Potter havia salvado a sua vida. Não que isso significasse alguma coisa. Ele só fez a sua obrigação, afinal, se ele quer salvar o mundo, poderia começar muito bem por ele. E Draco não tinha nada pra fazer naquela caverna, estava lá por causa da idiotice dele.
Mas ele também não queria que Draco estivesse lá. "Não ter que ver ninguém morrer", as palavras de Potter ecoaram em sua cabeça. Draco nunca tinha visto ninguém morrer, até ver Dumbledore. E demorou semanas para a imagem do bruxo caindo deixá-lo dormir, sair de sua cabeça. Ele não queria aquilo. Nunca mais.
Se sentiu grato pelo que Harry fez e voltou a socar os travesseiros. O pensamento de estar em dívida com o menino que sobreviveu era aterrador. Era melhor não se convencer disto, ou suas chances de sobreviver estariam drasticamente reduzidas.
Os travesseiros acabaram arremessados para fora da cama, e ele se virou de bruços, tentando dormir e esquecer toda aquela palhaçada.
Parecia que tudo estava muito estranho em Hogwarts naquele ano e Draco dormiu sem cogitar a hipótese de que tudo podia piorar.
