CAPÍTULO II


Um novo dia começara em Kyoto. O sol já emergia, ao amanhecer. O céu estava novamente límpido. As flores de cerejeiras continuavam a bailar pelos ares, numa dança graciosa, pousando suavemente contra a janela do quarto de Chiyo; que acordara devido á luz intensa que lhe invadira o quarto e se focava nos seus olhos, deixando-os azuis muito pálidos, quase brancos. Aqueles olhos. Que diziam que tinham muita água, devido ao azul pálido e às suas lágrimas frequentes desde o falecimento da sua mãe, Natsu.

Natsu era uma das princesas herdeiras do trono japonês. Era uma mulher extremamente bonita com uns olhos de um azul pálido da cor do céu (muito raros no Japão). Yoshida Toshimaro foi ordenado a ser guarda-costas da princesa, e os dois acabaram por se apaixonar. Não era permitido que uma princesa casa-se ou tivesse algum tipo de relação amorosa com um espadachim por isso fugiram. Meses depois nascera Chiyo, que herdara os olhos claros da mãe e os cabelos escuros do pai. Natsu morrera quando o seu pai descobriu o seu paradeiro e executou-a, daí nasceu o grande ódio de Yoshida pelo governo Shogunate.

Chiyo levantou-se do seu futon e escolheu um quimono no seu armário. Escolheu um de seda, azul-pálido com bordados de flores a fio prateado e fio azul-escuro; que contrastava com os seus belos olhos. Decidiu utilizar o cabelo caído hoje, sem ribbon.

Ao olhar-se ao espelho, lembrou-se do seu reflexo na água do rio, na tarde anterior que passara com Okita-san. Recordou-se do belo sorriso que ele sempre mostrara. Como ele conseguira-a fazer sentir-se calma e nervosa ao mesmo tempo. Sentimento estranho, pensava ela.

Dirigiu-se á porta, dando um último olhar á janela que mostrava o quanto belo era o dia no exterior. O longo corredor de chão em estacas de madeira e de shoji seguidas demorava 2 minutos a atravessar-se, descendo depois pelas escadas de madeira. Do salão de refeições ouvia-se ruído da voz de várias pessoas. Ao entrar no salão o barulho cessou e os homens pertencentes ao Chōshū automaticamente se atiraram ao chão e fizeram-lhe uma vénia. Esta reacção deixou Chiyo desconfortável e dirigiu-se ao lugar onde estava o pai. As pequenas mesas individuais, tradicionalmente japonesas, estavam dispostas num gigante rectângulo e os homens sentavam-se apoiados nos seus joelhos por cima de um pequeno futon.

- Bom dia, pai! – cumprimentou Chiyo, sentando-se ao lado esquerdo de Suzu, que se encontrava no lado esquerdo de Yoshida.

- Bom dia, querida!

Chiyo sorriu como cumprimento a Suzu, que lhe retribuiu o mesmo sorriso amigável. Uma das criadas estendeu-lhe uma taça com arroz, com um sorriso. Chiyo aceitou e sorriu em retorno. Era com certeza uma moça bastante querida entre todos. Pegando nos seus pauzinhos começou graciosamente a trincar os grãos de arroz, alternando com os pequenos pedaços de tofu e carne que estavam num pratinho distribuído no seu tabuleiro.

Sentiu-se observada e olhou em seu redor; percebendo então porque sentira isso: a recepcionista estava a falar com uma das empregadas do Inn, que se chamava Fey, e ambas olhavam para ela. Chiyo sentiu-se um tanto constrangida! Não gostava de se sentir observada e muito menos com duas pessoas a segredarem ao ouvido uma da outra enquanto olhavam para ela. Teria alguma coisa? Estaria com o quimono sujo ou com algum pedaço de comida entre os dentes?

Então, viu Fey aproximar-se de si. Fey era uma mulher de 25 anos e verdade seja dita, não era bonita! Tinha feições um pouco redondas e os olhos castanhos-escuros salientes. O seu nariz era demasiado grande para o típico japonês e o cabelo preto curto não a favorecia devido á sua cara ser demasiado redonda. Fey era o tipo de mulher que usava qualquer coisa, mesmo que não lhe ficasse bem. A empregada baixou-se e colocou-se de joelhos ao lado de Chiyo, que ficou nervosa porque sabia que o quer que elas as duas tivessem estado a falar iria ser-lhe dito agora.

- Chiyo-bochan! – sorriu Fey, sussurrando-lhe ao ouvido – Está ali um rapaz que pergunta por si.

- Um rapaz? – perguntou Chiyo, com ar de surpresa e sem ter uma ideia de quem poderia ser.

- Sim. – afirmou a empregada – Ele diz que quer falar consigo. Pediu se podia leva-lo ao seu quarto mas nós temos regras para não o fazer!

- Quem é esse rapaz? – perguntou a bela moça – Não deu nome?

- Sim, deu! – Fey acenou positivamente com a cabeça – Ele chama-se Okita Souji.

- Okita-san … - os olhos de Chiyo abriram-se mais e a sua face aqueceu, tornando a pele branca num rubor avermelhado.

- Quer que eu o mande embora? – perguntou Fey, vendo a reacção dela.

- Não, não … - Chiyo acenou negativamente – Eu irei ter com ele.

A empregada sorriu e abandonou o lugar ao lado dela, correndo com passinhos pequeninos em direcção á recepcionista, que a esperava com a resposta encostada á coluna de madeira que suportava a porta para a sala de refeições.

- Podes dizer ao rapaz que Chiyo-bochan irá ter com ele dentro de momentos. – informou Fey, sussurrando.

- O rapaz que quer falar com a filha do Yoshida … - começou a recepcionista, com um tom ainda mais baixo que o da amiga como se fosse proibido falar sobre aquele assunto, de facto era! – É dos Shinsengumi! É o famoso capitão do primeiro esquadrão.

- O quê?!

A recepcionista arrastou Fey para a cozinha, que se encontrava agora vazia. Fey parecia preocupada assim como a recepcionista, que se chamava Nakiwazi. Era a esposa do senhor que era dono da peixaria em frente ao Inn, tinha 40 anos. Era uma mulher baixa e robusta, de feições angulosas, olhos pequeninos e cabelo preto atado no cimo da cabeça.

- O que um Shinsengumi quererá da filha do inimigo?! – exclamou Fey, mantendo sempre o tom de voz baixo.

- Não sei … - começou Nakiwazi – Mas não tenho um bom pressentimento em relação a isto!

- Podíamos … ir espreitar a conversa deles!

- Nem pensar! – renunciou imediatamente a recepcionista – Onde está a tua educação?

- Não existe tempo para a educação agora! E se ele tenta fazer mal a Chiyo-dono? Pode-lhe ter sido ordenado que a assassinasse!

- E iriam mandar o melhor espadachim só para matar uma miúda inocente e inofensiva?

- Sabes como os Shinsengumi são! – argumentou Fey – Uns sedentos por sangue!


O coração de Chiyo palpitava fortemente no seu peito á medida que se aproximava da recepção onde Okita Souji estaria á sua espera. Em passos decididos mas um pouco hesitantes caminhou em direcção a um vulto masculino de costas que tapava uma parte do sol ofuscante que vinha do exterior.

- Espero não o ter feito esperar!

Foram as únicas palavras que conseguiram-se libertar da sua garganta. O rapaz virou-se para ela, com um enorme sorriso na bela face. Não parecia chateado pelo facto de ter esperado mais de um quarto de hora. Os seus longos cabelos pretos estavam atados quase na ponta por um cordel, trajava uma yukata branca e umas getas calçadas.

- Não houve qualquer problema!

As cabeças de Fey e Nakiwazi apareceram atrás de uma coluna de madeira, para escutar a conversa do jovem casal.

- Err … hum … bem … veio aqui para … falar comigo? – gaguejou Chiyo, tentando formar uma frase suficientemente clara e não embaraçosa.

Okita sorriu nervosamente, nem ele sabia porque fora ao Inn para "falar" com a bela moça. E os interrogativos olhos azuis dela estava agora fixados nele, o que estava a deixa-lo nervoso.

- Na verdade, não! – negou o rapaz corando ainda mais, o que a deixou ainda mais surpresa.

Ao ver o estampado de surpresa no rosto de Chiyo, Okita riu-se nervosamente e após olhou para ela, fazendo um rubor aparecer na face dela.

- Sendo honesto... eu vim aqui para vê-la!

- Mas isso já eu percebi, mas porquê? – riu-se Chiyo, olhando-o.

- Eu … err … bem …! – corou Okita, desviando o olhar. – A verdade é que … - os olhos de Okita cruzaram-se com os dela – Não consegui aguentar … sem ver o seu belo rosto! Deve estar a achar-me um demente mas … é essa a verdade!

Os dois estavam igualmente corados e cabisbaixos, tentando não olhar nos olhos um do outro. Chiyo corou quase tanto como o vermelho do seu batom.

- Não acho … - confessou Chiyo, com um nervoso sorriso. – Não acho que … seja demente!

Chiyo engoliu um seco, nervosa com o olhar surpreso do rapaz.

- Não acha … que …! – surpreendeu-se Okita, dando um passo em frente.

Os pés de Okita moveram-se em direcção a ela e os de Chiyo ficaram como pregados ao chão de madeira do Inn. Os seus músculos pararam. Como se tudo no mundo tivesse acabado e a única coisa que se mantinha viva era aquele momento. Os olhos azul-pálido de Chiyo chocaram-se com os violeta de Okita, deixando-os sem respiração.

- Eu …! – corou Chiyo.

Os rostos do jovem casal nunca haviam estado tão próximos, e os olhos de Okita estavam baços com desejo, assim como os de Chiyo. Ambos tinham a face ruborizada. O nariz de Okita ruçou no de Chiyo, fazendo a jovem corar ainda mais.

Quando se aperceberam o que iria acontecer a seguir, Nakiwazi e Fey atiraram um pote que enfeitava as escadas de madeira, fazendo os jovens afastarem-se com o susto. Ficaram a olhar em retorno e viram a bela jarra, bastante cara e antiga desfeita em cacos a seus pés. Ouviram-se vozes a interrogarem-se que barulho havia sido aquele e passos em direcção ao hall.

- Venha comigo! – ordenou Okita, pegando na mão de Chiyo, que se manteve imóvel. - Se nos vêm aqui, irão pensar que a culpa da jarra se ter partido!

Chiyo deixou-se arrastar por Okita para o exterior do Inn. O rapaz corria mesmo com getas corria demasiado rápido para ela o acompanhar, foi então que Okita parou e sorriu para ela, que estava com a respiração acelerada.

- Cansada, Chiyo-san?

- Desculpe … - arfou Chiyo, com a mão no peito – Mas não estou habituada a correr!

A jovem olhou para Okita e riu-se, como se a sua frase anterior tivesse sido extremamente ridícula!

- Não se preocupe com isso! – sorriu Okita – Venha, vou leva-la a conhecer o meu Dojo!

- Okay!

Chiyo sorriu abertamente e deixou-se ser puxada pela mão de Okita.


Okita empurrou o portão de madeira que dava entrada para a Vila de Mibu. Chiyo olhou em volta, pois tudo aquilo lhe era estranho. A o entrarem deslumbrou-se a visão do Dojo e dos aposentos, vários soldados de uniforme igual ao de Okita estavam no pátio e olharam para a moça com interrogação.

- Bom dia! – acenou Okita aos soldados, com o seu habitual sorriso e de mão dada com Chiyo, que corou ao se aperceber que todos os homens a olhavam com dúvida.

- Bom dia, capitão! – acenaram eles.

- Esta é Chiyo-san! – apresentou Okita e os soldados acenaram a rapariga.

Continuaram a visita pela Vila; Okita mostrou-lhe os aposentos, o Dojo onde estavam vários soldados a treinar e a caminho da porta, encontraram Toshizo Hijikata.

- Souji …?

- Bom dia, Hijikata-san! – sorriu o belo capitão.

Hijikata olhou para Chiyo com interrogação e suspeita, era-lhe familiar mas nunca a tinha visto, pensa ele.

- Oh … que rude da minha parte! – riu-se Okita e puxou a mão mais para a frente, colocando Hijikata e Chiyo frente a frente. – Esta é Chiyo-san!

Chiyo sorriu e fez uma pequena vénia, mas não recebeu nenhum cumprimento agradável por parte de Hijikata, que apenas a ficou a fintar.

- Tu és-me familiar! – disse, por fim, o vice-comandante.

- Deve ser impressão sua, Hijikata-san. – sorriu Chiyo – Eu cheguei a Kyoto a uma semana e entretanto nunca havia saído do Inn onde estou hospedada.

- É…! – pronunciou Hijikata, com um tom pensativo mas nada convencido – No entanto, essas feições … quem são os teus pais?

- Hijikata-san! – interrompeu Okita – Não seja rude!

- Não estou a ser rude!

- É melhor eu ir … - interrompeu, timidamente, Chiyo.

- Mas … Chiyo-san! – exclamou Okita, um tanto triste.

- Não fique triste, Okita-san! – sorriu Chiyo – Voltaremos a encontrarmo-nos.

Dando um pequeno beijo de despedida na bochecha de Okita, a bela moça corou e dirigiu-se graciosamente para a saída da Vila de Mibu. A observa-la ficou Okita com ar sonhador e Hijikata com ar desconfiado, estranhando a retirada de emergência de Chiyo.


CONTINUA ....