O paraíso no inferno
Quando recebeu permissão para sair da cama, ele finalmente teve a chance de ver com seus próprios olhos onde estava. O hospital era afastado do front, numa cidade relativamente grande ao sul da França, que havia sido pouco afetada pela guerra. Para lá mandavam aqueles que precisavam de cirurgias urgentes por causa de uma bala alojada, ou estilhaço de uma explosão.
Ele estava em melhores condições do que a maioria, logo seria mandado para algum centro de reabilitação na Inglaterra, e posteriormente seria enviado para casa, para recuperar seus movimentos plenamente e reencontrar os pais.
Não seria uma ocasião feliz, apesar de tudo. Não queria ter de encarar o pai e justificar seus atos, não queria o olhar de piedade da mãe quando ela visse suas cicatrizes, mas acima de tudo ele não queria ouvir a respeito de como Thor era sensato e responsável e de como ele devia se inspirar no exemplo do irmão mais velho.
Se juntar ao exército foi a pior e a melhor decisão de sua vida. Pela primeira vez havia feito algo que julgava certo, algo que queria e havia escolhido por conta própria e não porque seu pai achava a coisa certa a se fazer.
No que dependesse de Odin, seu filho mais novo se formaria em direito em Oxford, assumiria a administração de parte dos bens da família e quando chegasse a hora se casaria com uma herdeira qualquer. Se Sif estivesse viva, ela teria sido a candidata ideal.
Loki conduziu a cadeira de rodas até o gramado que ficava aos fundos do prédio que abrigava o hospital de campanha. Mataria por um cigarro, ou pela garrafa de uísque que a enfermeira Lewis carregava no bolso do avental. Daria qualquer coisa para poder fazer de conta que tudo aquilo que tinha visto nas trincheiras não fosse verdade, mas aquele era o mais real de todos os pesadelos.
Às vezes ele tinha sonhos. Bombardeios, sangue e sujeira, arames farpados, homens mortos amontoados uns sobre os outros. O cheiro dos cadáveres em decomposição, misturado a urina e fezes, pólvora e lama. E depois que tudo acabasse, se ele ainda estivesse vivo, seu relato seria igual a de outros milhares que ocuparam as trincheiras.
Ele se sentia um estranho no ninho. A maioria dos pacientes do hospital de campanha era composta por soldados franceses e alguns poucos americanos, sem mencionar que todos os médicos e enfermeiras. Ninguém para trocar algumas palavras sobre sua casa, sobre como Londres costumava ser bonita naquela época do ano, ou de como o inverno seria terrível. Sentia falta de chá fumegante, chuva, e lareiras estalando. Sentia falta de valetes, de conhaque depois do jantar e daquela densa cortina de fumaça que os charutos de Thor faziam.
O céu estava limpo e o ar era frio, anunciando que logo o inverno chegaria. Só Deus poderia dizer o quanto ele desejava não ter de enfrentar a neve nas trincheiras outra vez, se amontoando junto aos demais soldados por um pouco de calor, sem poder ascender o fogo para não denunciar o posicionamento da tropa.
Ele não estava muito atento ao que se passava ao seu redor, em parte porque era muito triste ter de ver tantos jovens privados de seus sentidos, seus membros, suas sanidades. Queria esquecer onde estava e as razões que o levaram para o front. Queria apenas se lembrar de quando sua mãe e Sif se juntavam ao piano e cantavam.
Por isso ele não notou a aproximação da enfermeira Lewis.
Ela não disse nada. Sentou-se ao lado dele, num banco improvisado, enquanto ascendia um cigarro e tragava languidamente a fumaça para dentro de seus pulmões, como se ele não estivesse ali. Aquilo o fascinou por uma fração de segundos. Não estava acostumado com mulheres que fumavam, ou usavam uniformes.
- De onde eu venho, é falta de educação ficar encarando. – ela disse finalmente encarando-o. Loki sentiu suas bochechas corarem.
- Me desculpe. – ele disse constrangido.
- Desculpas aceitas, Alteza. – ela disse enquanto entregava a ele uma pequena bolsa de couro – Encontraram isso junto com você quando foi trazido pra cá. A maioria dos pacientes pede por seus pertences logo que recuperam a consciência, mas como o senhor não pediu...
- Obrigado. – ele disse enquanto abria a bolsa e tirava de lá seu caderno de anotações, algumas cartas que recebeu do irmão e fotos antigas.
Ela deu uma espiada nas fotos, enquanto ele passava uma por uma entre seus dedos.
- Sua família? – ela finalmente perguntou, enquanto ele encarava a foto de um grupo. Uma senhora elegante, um senhor com uma respeitável barba e impecavelmente vestido, o casal estava ladeado por dois rapazes, um dos quais ela não teve problema algum em identificar. O capitão não havia mudado muito.
- Sim, meus pais e meu irmão no último natal antes da guerra. – ele disse.
- Sua mãe é linda. – ela disse simpática – Muito elegante. – e então apagou o cigarro no chão.
- Ela é sim. – ele concordou tocando a superfície da foto.
- Seu irmão também não é nada mal. Muito simpático. – ela disse jocosa.
- Ele sempre fez sucesso com as mulheres. – Loki concordou – Mas na última vez que me escreveu, disse que estava noivo de uma moça chamada Jane Foster.
- Um dia triste para as moças de Kent, eu imagino. – ele riu do comentário, enquanto passava para próxima foto. Uma moça bonita, de cabelos escuros e olhos determinados - E essa, quem é?
- Sif. – ele disse como se aquela informação fosse mais do que suficiente para satisfazer a curiosidade da jovem enfermeira.
- Parente? – ela insistiu.
- Amiga de infância. – ele respondeu por fim – Eu ia pedi-la em casamento quando voltasse pra casa, mas a gripe veio antes. – sentiu o nó se formar na garganta – Ela faleceu em maio, não cheguei a vê-la.
- Eu sinto muito. – ela disse por fim.
- Eu também, mas isso não vai trazê-la de volta. – ele disse enquanto guardava seus pertences mais uma vez – A maioria dos soldados que passa por aqui tem uma história para contar sobre uma garota que os espera em casa. Eu não tenho mais uma garota, mesmo se tivesse, duvido que ela estivesse me esperando. – ele disse amargo – Ela sempre gostou do meu irmão.
- Então por que pedi-la em casamento? – a enfermeira Lewis perguntou.
- Ela sempre foi a nora ideal, a mulher ideal pra minha família. – ele disse por fim – Tinha alguma coisa nela que me intrigava desde criança, mas era do meu irmão que ela gostava. Quando soube que Thor estava noivo, ela me escreveu. Meses depois recebi a notícia de que havia morrido de gripe espanhola.
- É uma história terrível. – ela disse – Mas talvez tenha sido melhor assim. Imagine como teria sido pior se já tivesse pedido a mão dela?
- É...Tem razão. Não é menos doloroso, apesar disso. – ele disse – E quanto a senhorita? Algum soldado tem a sua foto?
- Não uma foto, mas alguns me juraram casamento. – ela disse melancólica – A maioria em seus leitos de morte. A guerra é feita disso, não é? Mortes desnecessárias e amores perdidos.
- Eu achava que pelo menos o capitão Rogers teria tomado alguma iniciativa. – ele disse tentando aliviar a tensão do ambiente.
- Deus me livre! – ela disse numa risada súbita – Eu e o "Capitão America"! Granadas são mais interessantes que ele.
- Achei que as moças gostassem de homens atléticos. – ele disse rindo da reação dela – Loiro, olhos azuis, músculos e medalhas. Meu Deus, ele é quase uma cópia do meu irmão!
- Pelo menos seu irmão conta com o charme do sotaque britânico. O bom e velho Steve Rogers veio do Brookling, não é lá muito culto e seu sonho sempre foi envergar um uniforme. Não, não. Ele pode ser o sonho das americanas, mas não o meu.
- Ele também deve ser o sonho das inglesas. – Loki completou.
- Aposto que você conquistaria qualquer garota falando com esse seu sotaque e todo esse jeito de nobre. – ela disse rindo – Se eu fosse descrevê-lo em uma palavra, eu diria "shakespeariano".
- Fico lisonjeado. – ele disse sem graça – E eu a descreveria como "intrigante".
- Intrigante? Eu? – ela achou graça.
- Sem dúvida! – ele sorriu para ela – Em primeiro lugar porque até hoje nenhuma jovem havia ascendido um cigarro na minha frente e no meu mundo, todas usam chapéus e luvas, tomam chá e vestem belos vestidos de gala para jantar em família.
- Eu devo ser uma aberração. – ela disse rindo – Mas talvez eu deva dizer que nasci no Novo México e não num romance de Jane Austen.
- Se tivesse nascido seria Elizabeth Bennett, ou talvez Marianne Dashwood. – ele disse simpático.
- A revolucionária e a descontrolada. Meu Deus, sou mesmo uma aberração! – ela lutava contra a gargalhada – E eu vou fingir que não notei o trocadilho com meu nome. Já que me chamo Darcy, trocadilhos com Orgulho e Preconceito são meu fardo eterno.
- Eu havia me esquecido completamente deste detalhe, senhorita Darcy. – ele deu ênfase especial ao nome dela, fazendo questão de mostrar o quão britânico soava.
- Eu nunca pensei que meu nome pudesse ficar tão bonito, mas acho que esse seu maldito sotaque consegue deixar qualquer palavra sofisticada. – ela riu – Ops! Olhe só a hora! Eu tenho que ir, Alteza.
- Foi um prazer conversar com a senhorita. – ele fez uma pausa dramática – Senhorita Darcy, seu eu fosse defini-la em uma palavra, seria "austeniana".
Ela riu com vontade e naquele dia frio, que ela usava a capa azul marinho das enfermeiras americanas, seus olhos eram da cor do céu. Por um momento ele quis saber a cor do cabelo escondido de baixo da touca que ela usava, mas o mistério era mais interessante.
Darcy Lewis voltou para dentro do hospital improvisado, caminhando com convicção e confiança, desafiando uma guerra, desafiando o mundo. Ela era Darcy Lewis, mas naquele momento, Loki jurou ter visto Elizabeth Bennett caminhando no auge de toda sua audácia e falta de modos.
Era uma criaturinha peculiar e divertida, aquela jovem enfermeira. Loki tinha esta impressão dos americanos. Todos eles eram carregados de algo aventureiro, inconseqüente e audaz. No meio de tudo isso, também sobrava espaço para um toque de inocência, algo raríssimo de se encontrar em tempos de guerra.
Os dias passavam sem grandes mudanças. Mais e mais pacientes, mais mortos e notícias ruins. Mesmo assim, os ferimentos do capitão Loki Odinson estavam cicatrizando bem e logo ele teve de começar a fazer os primeiros exercícios para fortalecer as pernas.
Para sua surpresa, era a enfermeira Darcy quem sempre cuidava da tarefa de supervisioná-lo e ajudar em sua fisioterapia. As seções sempre aconteciam no período da tarde e só eram desmarcadas caso um novo grupo de feridos chegasse ao hospital, precisando desesperadamente de cuidados.
Ela nunca estava de mau humor e mesmo que ele fosse um paciente difícil às vezes, ela sempre conseguia dobrá-lo. Seu jeito persuasivo e divertido tornavam os exercícios mais fáceis e menos dolorosos. Quando ela queria provocá-lo, ou desafiá-lo a ir um pouco além de seus limites temerosos, ela o chamava de Vossa Alteza.
Cada vez que ela fazia isso, Loki se irritava e acabava se saindo ainda muito melhor nos exercícios. Quando ela estava satisfeita com o resultado, Darcy Lewis sorria, chamando-o de príncipe Hamlet. Quando não estava satisfeita, o título real era toda reprovação de que ele precisava.
Numa tarde qualquer, em meados de novembro, ele caminhava pelo gramado com a ajuda de uma bengala, enquanto ela o observava atentamente. O clima, mesmo frio, era revigorante, e por um momento Loki se esqueceu de que havia uma guerra.
- Logo chegará o natal. – ela comentou casualmente – Seria bom poder ter uma ceia só pra variar.
- Eu gostaria de passar o natal em casa. – ele disse por fim – Ouvir a risada espalhafatosa do meu irmão, o discurso duro do meu pai. Saborear uma boa ceia e depois dos licores, ouvir minha mãe tocando piano e cantando.
- Pensei que vocês ingleses sempre dançassem valsa em jantares. – ela brincou.
- Com certeza. Sempre que temos convidados e há damas e cavalheiros o bastante. – ele disse rindo – Eu achava fascinante observá-los do topo da escada, quando eu era criança. Depois que cresci, a idéia de dançar com uma das belas moças solteiras do campo me assusta.
- Mas por que? – ela perguntou interessada.
- Oh, é um mundo misterioso o delas. E indescritivelmente traiçoeiro. Uma palavra errada e eu estou noivo, ou partindo o coração de uma Mary, ou de uma Anne. – ele disse rindo – Rendas, leques, chapéus, casamento...Cada movimento tem mil significados.
- Sorte minha ser uma Darcy. – ela disse sorrindo – Darcys são mais fortes do que Marys e Annes. Você não pode partir meu coração com um gesto errado.
- Sendo assim... – ele parou e estendeu a mão para ela – Me concederia a honra desta dança, senhorita Lewis? – ela o encarou por um instante, sem saber o que fazer.
- Mas não tem música e você pode se machucar. – ela argumentou. Loki deixou um sorriso enviesado tomar conta dos seus lábios. Ele não aceitaria um não.
- Não parta meu coração. – ele respondeu em provocação e ela aceitou a mão dele.
Os dois se moviam de forma errática sobre o terreno irregular. A bengala que ele usava como apoio a muito fora esquecida sobre a grama. Ele murmurava uma melodia doce e aos poucos os sons se tornaram palavras.
Loki cantava baixo e ela se pegou acompanhando a música e sonhando com o fim da guerra e com valsas. Ele usando um smooking e ela um vestido de gala, enquanto a orquestra tomava o lugar da voz dele, e o cantor entoaria...
Sometimes when I feel bad
and things look blue
I wish a pal I had... say one like you.
Someone within my heart to build a throne
Someone who'd never part, to call my own
If you were the only girl in the world
and I were the only boy
Nothing else would matter in the world today
We could go on loving in the same old way
A garden of Eden just made for two
With nothing to mar our joy
I would say such wonderful things to you
There would be such wonderful things to do
If you were the only girl in the world
and I were the only boy.
- Sua voz é bonita. – ela sussurrou – Mas dança muito mal.
- Eu disse que tenho pavor do mundo das valsas. – ele respondeu sorrindo – Mas um dia, quando eu estiver completamente recuperado, posso tirá-la pra dançar outra vez e então poderá fazer um julgamento mais justos a respeito de minhas habilidades.
- Quem sabe onde eu estarei? – ela disse enquanto se afastava cuidadosamente e tomava a bengala em suas mãos para entregar a ele – Talvez eu já tenha voltado para a América e você para Oxford. Talvez um dia eu ouça a seu respeito, como primeiro ministro ou coisa assim, e você já terá se esquecido da enfermeira Lewis.
- Posso me esquecer de muitas coisas nessa vida, mas não acho que possa me esquecer de Elizabeth Bennett. – ele disse amistoso, enquanto se apoiava mais uma vez na bengala.
Eles voltaram para dentro do hospital mais uma vez, nenhum dos dois com coragem o bastante para dizer qualquer coisa. Na para ser dito entre o último garoto e a última garota do mundo.
O que eles não sabiam era que naquela mesma noite o mundo ia mudar mais uma vez. Os sinos de todas as igrejas tocariam pela primeira vez em quatro anos. Pessoas sairiam às ruas para comemorar. Haveria um pouco de riso e um pouco de lágrimas. Naquela noite a guerra acabou.
