- Gilbert! – chamava o Espanhol fazendo uma concha sonora com as mãos.
Um trovão ribombou. Iluminando o francês montado no cavalo poucos metros á sua frente.
- Gilbert! – chamava França. Antônio si quer sabia que ele conseguia gritar tão alto. – Gilbert! Gilbert!
- Não adianta. – disse aproximando-se do outro, aproveitando que o havia encontrado com o último flash do relâmpago. – Está muito escuro Francis. Não tem como nós o encontrarmos assim.
O loiro correu os olhos pelo cenário ao redor com o cenho franzido. A frustração o invadia a medida que se via obrigado á aceitar que Antônio estava certo. Ele mal conseguia enxergar as árvores á mais de cinco metros á sua frente.
França baixou a cabeça, por alguma razão estava arfando. Nem havia percebido que estava cansado. Ele tirou um lenço do bolso e enxugou seu rosto.
- Vamos continuar. – disse e girou o cavalo pra uma direção aleatória em meio as árvores.
O espanhol suspirou e o seguiu.
- Ouça Francis, eu sei como você está se sentindo, ma...
- Não, Antonio. – interrompeu o francês lançando-lhe um olhar ferino que assustou Espanha. – Você não sabe não.
França era conhecido por seu sorriso bobo e por suas atitudes irônicas e pervertidas. Lembrava-se dele como uma pessoa alegre e cômica. Aquela expressão séria de Francis não era típica dele. E chegava a ser intimidadora.
Antônio suspirou tomando coragem e lançou o cavalo na frente do amigo impedindo-o de continuar. Seu olhar verde contrastado com a pele morena também estava firme e determinado.
- Não estamos preparados pra isso Francis! Está escuro e não podemos ficar andando por aqui tão despreocupadamente. Se nos separarmos, e você ficar perdido sozinho nessa floresta... Entenda! Estamos perto das fronteiras de muitos países. Não viemos preparados pra batalha nenhuma, se você ou algum de nós for atacados nós...
- Entenda você Antônio! – disse o francês elevando a voz. – Eu e Gilbert não somos como você!
- Se isso tem a ver com a nossa aliança...
- É claro que tem a ver com a nossa aliança! Mais do que com a nossa aliança, tem a ver com a nossa amizade! E com o fato de você não se importar mais!
-Não se atreva a falar que eu não me importo Francis Bonnefoy! – disse Espanha exprimindo uma fúria atípica de seu comportamento coma voz elevada. Dessa vez, era o espanhol que assustou Francis com seus gritos. – Eu lutei ao lado de vocês! Bebi com vocês e nos divertimos muito juntos! Não pense que não valorizo o que se formou entre nós! Mesmo que nossa união tenha sido inesperada... Mesmo que eu nem quisesse me juntar a vocês dois no começo... – sua voz foi baixando aos poucos, e logo ao invés de fúria ele estava falando com afeição. Espanha baixou o olhar. – Eu não esperava que fosse ser tão legal. Pode ter começado só com uma aliança e... Pode ser que você e Gilbert tenham me forçado a fazer a maioria daquelas coisas. Mas, isso deixou de se tratar de lutas entre países e negociações há muito tempo!
As palavras e a expressão de Antônio foram capazes de amolecer o coração do francês mais rápido do que se esperava. Francis também baixou o olhar e relaxou os ombros.
- No entanto, Francis... – emendou o espanhol com certo pesar imprimido em seu rosto. – Eu tenho um garotinho agora me esperando em casa. – ele ergueu o olhar para encarar o loiro. – Eu não posso mais ser tão irresponsável quanto era antes Francis. Não posso correr o risco de deixar o Romano sozinho. Eu não posso correr o risco de perdê-lo.
França olhou pra Espanha e fitou sua expressão por alguns instantes. É verdade que ele não era um guerreiro tão bom quanto o espanhol ou o prussiano, mas de sentimentos ele entendia. E ele podia ver que Antônio estava sendo sincero. Por mais que ele não quisesse que o trio se desfizesse, ele sabia o que era ter alguém para proteger... Sim... Isso ele entendia...
- Vai pra casa Antônio. – disse o francês contornando-o com o cavalo.
- O quê?
- Você me ouviu. Vá pra casa. Eu continuo procurando o Gilbert e te aviso sobre qualquer coisa. – Então ele olhou para o amigo por cima do ombro com um sorriso meio constrangido. – Eu sempre gostei muito dos gêmeos Itália. Sempre os quis pra mim. Eles são fofinhos não são? Não o culpo por estar preocupado.
-França... – mesmo que pensasse em dizer alguma coisa, as palavras não saíram. Queria encontrar Prússia, mas estava mesmo preocupado com Lovino. Ainda mais depois do ataque que ele sofrera do Turquia.
- Está tudo bem. Mesmo que não sejamos mais o trio... Ainda continuamos amigos. – E dito isso ele voltou o rosto pra frente e partiu a galope batendo com as redás no pescoço do cavalo – Cuide bem do Romano!
Espanha viu o amigo partir e desaparecer nas sombras depois de um flash de trovão. Ele cerrou os punhos ao redor das redás do cavalo, fez a volta e começou a correr de volta na direção da casa do Áustria.
"A taberna estava animada naquela noite. Mais animada do que de costume principalmente porque Espanha estava sentado em um dos sofás tocando seu violão e cantando uma música que soava por todo o bar junto com os barulhos de talheres, copos e os murmurinhos dos clientes. Ao seu lado estava o jovem Romano, sentado com um dos pés em cima do sofá, o rosto emburrado, fingindo ignorar seu tutor, mesmo que ele ruborizasse sempre que desse uma espiada de canto do olho no espanhol.
A porta da taberna rangeu com a entrada de outro cliente. As botas robustas e escuras e escuras batiam no assoalho de madeira imponentemente enquanto ele atravessava pela multidão se encaminhando para onde havia avistado o amigo.
França estava, como de costume, encostado na bancada do bar. Em uma de suas mãos havia uma taça de vinho cuja garrafa estava sobre a bancada, sob um de seus braços havia uma bela jovem loira que ria enquanto estava abraçada ao seu tórax e os dois pareciam conversar alegremente com uma morena tão bonita quanto, que estava sentada em um banco partilhando o vinho com os dois.
- Ora, vamos! O que é isso chéri? – ele ria alegremente. Então, sem largar a taça ele tocou a bochecha da morena com as costas do dedo acariciando-a. – Não seja má! Estamos todos sozinhos esta noite. E é uma noite linda demais para não ser aproveitada! Não é mesmo Justine?
- Vamos Heloise! – disse a loira, saindo debaixo do braço do francês e abraçando da amiga carinhosamente. – Estou te dizendo que já o conheço! Ele é de confiança! Vai ser bom!
- Hum... Eu não sei. – falou a morena mordendo sensualmente a ponta do dedo indicador com uma expressão de dúvida. – Mas, nós três?
- Oui! Três é meu número da sorte! – riu França erguendo a taça de vinho. –E para mim, melhor do que a companhia de uma bela moça, só se for a companhia de duas belas moças. Vamos nos divertir muito juntos, chéri!
- Impulsivo demais, como sempre Francis! – disse a voz grossa e prepotente ás suas costas.
França voltou-se para trás com uma expressão debochada de alguém que já estava preparado para dar um fora em quem quer que fosse que estivesse tentando atrapalhar seu flerte. Mas, surpreendeu-se quando viu o companheiro albino, ainda mais porque não o havia visto chegar.
- Ah! Prússia! Quer bom que você está aqui! Venha! Vamos beber – então ele voltou-se para a moça morena de novo. – E agora Heloise? Será que estando em quatro, você se sente mais confortável?
- Quatro é? – disse o prussiano se aproximando mais dos três. Ele se jogou contra as costas do francês enlaçando-o pelo pescoço. Ele lançou um olhar provocativo com seus olhos vermelhos pra moça diante deles o que fez o francês sorrir salientemente erguendo uma sobrancelha. – Pensei que tinha dito que o seu número da sorte é três! Porque está chamando mais gente, hein? – e então aproximou-se da orelha do outro e sussurrou. – Francis?
As duas meninas diante deles coraram e soltaram suspiros apaixonados que fez com que França se deliciasse ainda mais com a situação. Ele riu e passou o braço pelas costas de Gilbert e fez um biquinho falando manhosamente:
- Mas é que... – então apontou pro Espanhol sentado no sofá não tão longe deles. – Antônio não quer brincar com agente! Desde que adotou o pequeno Itália ele totalmente nos largou Gil!
O prussiano olhou para Espanha por cima do ombro e ergueu uma sobrancelha. Então voltou-se de novo para França e as meninas.
- Oh! É mesmo! É mesmo! Nesse caso eu preferiria que hoje fosse só nós dois. – disse pegando o queixo do loiro e puxando-o na sua direção enquanto encarava as meninas pelo canto do olho. – Vou ter que roubá-lo de vocês. Não tem problema, não é?
- Não! – disseram as duas em uníssono enquanto enrubesciam e suspiravam ao ver eles dois.
Francis, no entanto, começou a estranhar a atitude do outro. Ele ergueu uma sobrancelha enquanto encarava o rosto de Prússia de perto e depois de assimilar rapidamente a situação ele envolveu-o pela cintura puxando-o mais pra perto e voltou-se para as meninas com um sorriso sedutor:
- Heloise, Justine... Será que vocês podem me dar licença? Prometo que vou compensá-las outro dia. – Então ele lhes lançou uma piscadinha saliente e deu uma rosa pras duas.
Logo depois que as duas moças se afastaram, Gilbert e Francis foram pra um lugar mais reservado, os dois se acomodaram em um sofá que tinha no canto do bar perto da janela.
Francis se jogou na poltrona macia casualmente cruzou as pernas suspirando:
- Ah! Você é mesmo um maldito Gilbert! Eu gosto de brincar com você, mas não entendi porque me fez perder duas garotas tão bonitas. – Então, ainda com a cabeça meio baixa ele ergueu o olhar para o outro de pé a sua frente. – Espero que você realmente pretenda me compensar.
- Qual é? – disse o prussiano jogando-se no outro sofá. A pesada capa vermelha de suas roupas se esparramando pelo acento. – Você pode conseguir outras á hora que quiser. Além do mais, passar a noite com esse excelentíssimo eu vale muito mais do que duas garotas que você achou num bar.
- Eh? – suspirou o francês sorrindo. – Então... Você quer conversar? Sinceramente, eu já até sei como isso vai acabar. Você vai beber muita cerveja, e vai acabar a noite se lamuriando sobre "como aqueles malditos do Áustria e da Hungria foram capazes de te largar" e sobre "como você foi perder as regiões vitais do Áustria praquela louca". Caramba... – ele riu dando de ombros com uma sobrancelha erguida. – Isso é deprimente, sabia?
- Você não tem nem um pingo de compaixão com uma pobre alma bêbada. – disse ele cruzando os braços e suspirando. – Mas, eu não imaginava que o Império Austro-Húngaro fosse mesmo dar certo por tanto tempo. Assim como não pensei que aqueles dois também iriam dar tão certo. – ele o disse apontando para Antônio e Lovino.
França deu uma olhada naquela direção de soslaio e ergueu uma sobrancelha sentindo uma pontadinha de desdém.
- Não tem jeito mesmo, não é? Antônio está entretido com o brinquedo novo. Assim que ele se cansar do Romano ele volta pra nós.
- Não acho que seja isso. – disse o prussiano apoiando o cotovelo no braço do sofá e deitando o rosto no punho. – Antônio não está apenas se divertindo com ele. E seria muito deselegante de nossa parte ficarmos com inveja disso só porque ele tem algo que nós não temos, não é? – então ele fitou o outro de soslaio, ainda com uma expressão desinteressada. – Francis?
- Não é inveja! –respondeu virando o rosto. – Se bem que é bem verdade que eu queria o Itália muito antes do Espanha, e na verdade teria sido muito mais justo eu ter ficado com ele, mas... Só estava pensando em como ele vai continuar andando com agente se tem que ficar tomando conta daquele garoto.
- Ele não vai.
- O que? Mas então...
- É isso mesmo França. Você já deve ter percebido... Espanha não vai ficar conosco por mais muito tempo. É claro que as coisas vão mudar entre nós. E não há nada que você possa fazer.
Francis franziu o cenho encarando o amigo diante dele e quase imperceptivelmente ele cerrou os punhos.
- Eu não entendo o que você está querendo dizer.
Prússia suspirou tediosamente fechando os olhos.
- Estou te dizendo que esse meu excelentíssimo eu está desistindo. – ele disse abrindo os olhos.
- Desistindo? – disse ele erguendo uma sobrancelha. – Oh! Gilbert... Você está terminando comigo?
- Não fale como se fossemos namorados, idiota!
-Tá ta. Mas, falando sério... – ele disse virando o rosto e fechando os olhos com o cenho franzido. – Desistir da aliança... Hunf! O que você está falando aí com essa cara tão séria? Francamente... Se é por causa de Antônio...
- Não é culpa de Antônio, Francis. E na verdade, isso pouco tem a ver com ele. Vamos encarar os fatos... – ele disse voltando-se para ele e apoiando-se sobre os joelhos. – Isso tem a ver comigo e com você. E com o fato de que nós dois não temos mais um propósito. – Aquilo pareceu acertar França como se fosse um tapa. – O que? Planejar separar o Império Austro-Húngaro? Ficar bêbados? Sair por aí e fazer besteira... Ficar procurando garotas pra ter prazer em bares? Sejamos francos, isso não só é inútil como também já perdeu a graça á muito tempo. E se tornou obsoleto. Assim como a nossa aliança. Espanha agora tem alguém para proteger. Esse sim é um objetivo que preste.
-ENTÃO IDAÍ? – Francis encarou o prussiano com raiva, sua voz já não tinha mais simpatia nenhuma e ele teve que controlar o tom para que não gritasse e chamasse atenção. – Você fala sobre proteger alguém como se isso fosse algo incrível! Não é como se eu e você tenhamos algo assim, e como você mesmo disse, não seria bom ficar invejando Antônio por causa disso! Então o que? Aonde você quer chegar? Porque você acha que acabar com o trio vai fazer alguma diferença?
- Faz diferença Francis! – respondeu o outro com a mesma impaciência e tom de voz elevado. – Não venha me dizer que você não sabe o que é ter alguém como o que Lovino é pro Antônio! Você sabe muito bem! É disso que você está fugindo! No final de tudo, tudo o que nossa aliança é, e sempre foi pra você, é uma porta de saída pra você fugir daquilo que você não quer encarar! Encarar que você falhou em proteger aquela pessoa! VOCÊ APENAS NÃO QUER TER QUE ENFRENTAR A MORTE DELA!
Um flash de luz explodiu por trás dos olhos de França, trazendo consigo a rápida lembrança de uma jovem loira, de cabelos curtos, de costas num campo de flores com um crucifixo no pescoço. Ele não conseguia ver seus olhos e nem seu rosto. Quando ela estava prestes a volta-se para ele com um sorriso, o vento deu uma lufada forte e ela se desfez como uma escultura de pétalas sendo levada de suas lembranças.
Quando o francês piscou de novo se viu de pé diante de Prússia erguendo-o em sua direção pelo colarim do sobretudo azul e vermelho que ele usava. O outro o encarava com seus olhos vermelhos, sem expressão nenhuma. Estava arfando mesmo que não se sentisse cansado e um colar com um crucifixo de madeira havia fugido de dentro de suas roupas e agora estava pendurado em seu pescoço.
- Hoje... Você está muito mais irritante que de costume... Gilbert.
Então o largou bruscamente e lhe deu as costas.
- Esse sentimento de traição, não é? Como se você não pudesse confiar em si mesmo. Como se você tivesse raiva de si mesmo. Raiva por não conseguir se vingar de alguém porque você não consegue odiá-lo. E por mais que o que ele tenha feito á você tenha te ferido... Você sente que doeria muito mais se você o ferisse, não é? Acredite em mim Francis... Eu sei exatamente como você se sente. Porque eu me sinto assim, quando penso naqueles dois.
- Você... – ele forjou um riso enquanto passava a mão na testa. – Você definitivamente enlouqueceu Gilbert. Se acha que eu hesitaria em arrebentar aquele cara assim que eu tivesse a chance. Alguém que eu não consigo odiar? Não me faça rir... – então ele lançou um olhar ameaçador de canto de olho pro prussiano. – Eu não preciso nem fazer esforço pra odiar aquele inglês maldito.
Gilbert sustentou o olhar ameaçador de frança por algum tempo com indiferença. Depois tossiu um riso e deu de ombros com uma expressão debochada.
- Não me faça rir você Francis... Esse tipo de atitude mimada só te torna mais patético. - Então ele levantou-se do sofá suspirando e passou pelo outro ajeitando o chapéu na cabeça, indo em direção a porta da taberna. – Bem, eu já disse o que vim aqui dizer. Se você não entendeu nada das palavras sábias do excelentíssimo eu é porque tem sexo e vinho demais nessa sua cabeça oca. – Então ele parou um instante e olhou pro francês por cima do ombro. – Você deveria tentar procurar por algo que valha mais a pena do que isso Francis... Eu sugeriria que você bebesse um pouco mais de cerveja, talvez isso te dê mais idéias. – então saiu acenando. – Cuide-se bem."
Francis foi acordado de suas lembras pelo golpe de um galho que batera contra seu rosto e ele desviara o cavalo um pouco tarde demais.
- Ai ai ai ai ai! – disse amparando a bochecha no lugar onde o galho havia causado um suave corte. – Sacreblé! Onde estou com a cabeça? – ele suspirou e baixou o olhar. – Eu não sei se ainda estou pronto pra deixar o trio pra trás...
Um trovão estourou ás suas costas e o clarão que explodiu o fez destingir uma forma familiar na lama. Ele pareceu se assustar quando reconheceu o objeto. Levou a mão ao pescoço por um instante e assim que teve certeza pulou do cavalo rapidamente.
Ele caminhou na lama, as roupas e o chapéu encharcado, a pluma branca preza nele era uma forma alongada desajeitada e caída, os fios dos cabelos loiros molhados se desprendiam do laço vermelho e caiam sobre seu rosto. Ele se ajoelhou e apanhou na lama o crucifixo de madeira limpando-o e manchando de marrom a luva branca que cobria seus dedos.
-Não sei se estou pronto pra deixar muita coisa pra trás... – seus olhos azuis fitavam o objeto com um misto de dor e afeição. – Se você entendia o que eu estava sentindo tão bem, Gilbert... Por que, ainda sim, quer me obrigara a ter que encarar isso?
Disse. E seus dedos se fecharam com força ao redor daquele crucifixo de madeira.
...
