CAPÍTULO II

Isabella acordou com o ruído de alguém abrindo as cortinas e, por um momento, sentiu-se completamente desorientada. Não se lembrava de onde estava nem o que fazia naquele quarto luxuoso.

— Bom dia! Sou Leah, a esposa de Jacob. Trouxe o seu café da manhã.

Ao ver a apetitosa bandeja que a outra trazia, Isabella sentou-se na cama. O cheiro de café fresco e dos ovos com bacon recém-preparados lhe deram água na boca. Havia ainda alguns pãezinhos e uma enorme variedade de bolachas.

— Nossa! Aí tem mais coisas do que costumo comer em um dia inteiro!

— O café da manhã é uma refeição importante. Um bom começo, não acha? Além do mais, você é muito magra e precisa se alimentar.

Magra? Isso não era verdade! Suas curvas graciosas e seu porte esguio combinavam perfeitamente com sua estatura bem acima da média. Costumava ter aulas de balé, o que lhe dava uma graça natural e flexibilidade aos movimentos. Seu rosto não era perfeito, mas sua pele era clara e bonita, e os olhos castanho-dourados, luminosos e expressivos, chamavam a atenção dos homens com bastante facilidade.

— Farei o máximo de esforço — disse Isabella, abrindo o jornal.

— Não há pressa alguma. Coma bem devagar.

"Por que não aproveitar todo este conforto?", ela pensou, divertida.

Domingo era dia de descanso, e só depois de Leah sair do quarto ela foi se lembrar do passeio pela cidade que Edward havia prometido.

Eram mais de nove horas quando saiu do quarto. Bateu à porta de Carmem, mas, como não ouviu resposta, concluiu que ela já devia ter descido.

Sem saber ao certo para onde ir, Isabella parou indecisa ao pé da escada e quase gritou de susto ao ouvir uma voz forte e máscula bem atrás dela:

— Bom dia.

Virou-se imediatamente e deparou-se com Jacob. Sorriu, tentando disfarçar o susto.

— Onde estão todos, Jacob?

— Creio que o sr. Cullen está no estúdio.

— E Carmem?

— Ela se levantou muito cedo.

"Bastante esclarecedor...", pensou Isabella, aborrecida. Tentava imaginar um jeito de descobrir onde estava sua amiga, quando a porta da frente se abriu e Edward Cullen apareceu.

— Ah! Aí está você! Dormiu bem?

— Muito bem, obrigada — respondeu, notando que Jacob se afastava rapidamente, deixando-os a sós. — Onde está Carmem?

— Leah acabou de deixar um bule de café no meu estúdio. Vamos até lá? Assim poderemos conversar.

Conversar? Sobre o quê? A última coisa no mundo que desejava era ficar sozinha com aquele homem. Mas não podia ser. Seu coração se acelerou quando entrou na sala e ele fechou a porta, suavemente.

— Açúcar e creme, não é?

Isabella olhou para a linda escrivaninha de madeira onde estava a bandeja de café, e concordou com um gesto de cabeça. Por que se sentia como se estivesse à beira de um abismo?

Percorreu os olhos pelo estúdio. Além da escrivaninha, havia confortáveis poltronas de couro, várias estantes de livros e uma lareira antiga, de tijolos aparentes.

— Sente-se, Isabella — disse Edward gentilmente, oferecendo-lhe uma xícara de café. — Tenho certeza de que você tomou conhecimento de alguns fatos antes de vir para a Austrália. Por isso, não vejo razão nenhuma para não tocarmos no assunto.

— Você está me assustando. Por que Carmem não está participando da conversa?

— Carmem está a par de tudo o que vou dizer.

— Não estou entendendo por que ela me trouxe para cá...

— Charlie tinha muitas dívidas. Tantas, que nem hesitou em recorrer a fontes ilegais para saldá-las. Como não conseguia livrar-se delas, foi obrigado a pedir nossa ajuda e deu mais garantias do que podia oferecer.

Aqueles olhos escuros e perturbadores estavam fixos nela. Isabella sentiu-se como uma presa indefesa, à espera do bote de uma serpente.

— Há três anos ele me pediu mais dinheiro, oferecendo uma única garantia como pagamento: você.

"Isso não pode ser verdade! Impossível", pensou ela.

— Na época, você tinha dezesseis anos e já era de uma beleza estonteante... O prêmio para quem ajudasse Charlie. As condições para recebermos o pagamento eram mínimas: que sua educação fosse mantida durante três anos; que fornecêssemos dinheiro para suas roupas e suas despesas essenciais; que a casa de Perth, onde você mora com Carmem...

Isabella olhou para ele horrorizada, recusando-se a acreditar no que acabara de ouvir. Estava branca como um papel e seus olhos, arregalados de espanto.

— Ele não hesitou em concordar para se livrar da falência.

— Está tentando me dizer que sou uma de suas propriedades?

— Exatamente.

— E como você espera que eu cumpra essa promessa?

— Casando comigo.

Aquela revelação soou como uma bomba no meio da sala. Isabella ergueu a cabeça e o enfrentou com a segurança dos que já perderam tudo.

— E você acha que eu vou acreditar nisso?

— Quer provas?

— Claro! Ora, vá para o inferno!

Sem mais uma palavra, Edward abriu o cofre e tirou de dentro um documento, entregando-o silencio a ela.

Suas mãos tremiam enquanto lia o texto datilografado, e quase desmaiou ao ver que tudo o que ele dissera era a mais pura verdade.

— Como ele ousou?

— Agradeça aos céus por Charlie ter oferecido sua filhinha a mim. Imagine se ele pusesse essa proposta ao alcance de todos.

— É um contrato de honra entre dois tiranos, não é?

— Paguei todas as dívidas dele, a sua educação, aulas de balé, clubes, roupas, e até a comida que você consumia.

— E agora é o momento de cobrar... Por que quer se casar comigo?

— Prometi a Charlie que cobraria a dívida da maneira mais honesta possível.

— Muito nobre!

— Considerando-se o valor da dívida, é mesmo.

— E qual foi o papel de Carmem nesse esquema diabólico? Ou é estupidez de minha parte perguntar? Ah, já sei! Ela estava encarregada de entregar o pagamento: eu. É por isso que não está aqui agora. Já recebeu sua parte e foi embora. Grande amiga!

— Carmem está visitando a irmã no lado norte da cidade. Jacob levou-a até lá, hoje cedo.

— Com certeza, antes que Leah me acordasse.

A resposta foi o silêncio. Ela se levantou impulsivamente.

— Não era para eu ser informada de seu paradeiro e imagino que ela também não vai mais me procurar. Bem, você foi muito esperto, Edward Cullen, mas não o bastante. Esse documento pode ter significado para você, mas duvido que tenha para a Justiça.

— Isso é discutível. Mas esteja certa de uma coisa: como única herdeira de Charlie, você é a responsável por todas as dívidas dele.

Isabella estremeceu. Podia imaginar quanto dinheiro estava envolvido naquele negócio. Não poderia pagar tudo aquilo, nem que vivesse cem anos.

— Posso requerer falência.

— Poder, pode. Mas pense na repercussão que isto teria. Você não só seria obrigada a entregar todos os seus bens à Justiça, como também não poderia contar com o apoio de nenhuma instituição financeira. Além do que, o escândalo certamente afetaria a sua carreira.

— Não acha que pagou muito caro por mim, Edward? Afinal, você não sabe se está adquirindo uma mercadoria de segunda mão.

— Não é a sua virgindade que me interessa. O que quero é seu corpo jovem em minha cama, para que eu possa usufruir dele sempre que quiser... só isso. O caBellaento será uma boa solução para nós dois.

— Não para mim! Não há nada neste mundo que me faça concordar com essa chantagem!

— Então, recusa a minha proposta?

— Antes, prefiro ir para o inferno! Seu... seu bastardo!

— Verdade? E o que pretende fazer para evitar essa situação? Correr o mais rápido que as suas pernas permitirem?

— Você não pode me manter prisioneira aqui!

— Mas aonde vai sem dinheiro? Não poderá ir muito longe.

Isso era verdade. Todas as suas roupas teriam que ser devolvidas a Carmem. Afinal, o dinheiro era dela. Além do mais, não tinha nenhuma qualificação para arranjar emprego e muito menos em um país estrangeiro. Teria que sobreviver às custas da caridade dos outros, o que, por pior que fosse, era melhor do que ficar com Edward Cullen.

— Vou procurar a Assistência Social. Posso pedir um salário-desemprego.

— A burocracia aqui é muito lenta. Como vai sobreviver até conseguir o que deseja?

— Tem que haver alguma coisa que eu possa fazer! — Um riso nervoso escapou dos lábios dela. — Posso adotar a profissão mais velha do mundo.

— Uma prostituta... — concluiu ele, com ar debochado, aproximando-se dela.

Isabella teve vontade de desmaiar ao se imaginar numa situação daquelas, mas mesmo assim retrucou:

— O que está me propondo não é muito diferente, Edward. Dá no mesmo ter que vender meu corpo para um homem como você... ou para vários. Alguma coisa me diz que será melhor optar por essa profissão.

— Muito drástico, não acha?

— Talvez ainda fosse melhor morrer. Assim quem sabe eu escapasse de todos... especialmente de você!

— Mas eu proponho que se case comigo, e isso é bem melhor, não acha?

— Então, pensa que eu deveria me sentir grata, até mesmo lisonjeada, por sua oferta?

— Como é, aceita ou não?

— É claro que não! Vá para o inferno!

— Nesse caso... pagarei por algumas horas do seu tempo. Cinqüenta dólares a hora.

— Quanto?! — Ela mal pôde acreditar no que ouviu.

— Você vai merecer, querida, porque exijo um serviço de primeira classe. Vamos começar agora?

— Aqui?!

— E por que não? A lareira não está quente o suficiente?

Os olhos de Isabella perderam o brilho e uma tristeza mortal se apossou de seu coração. Não podia imaginar uma relação com aquele homem terrível, nem ali nem em lugar nenhum.

Com movimentos bem lentos e deliberados, Edward tirou o casaco.

Assustada, sem poder se mover, Isabella observou-o desabotoando a camisa, até que a lucidez aconselhou-a a fugir dali o mais rápido possível. Porém, assim que fez um movimento, foi agarrada por braços fortes.

— Deixe-me ir!

— Não sabia que era tão tímida, querida.

— Não encoste em mim! — gritou, desesperada. — E se alguém entrar? Jacob... ou Leah? — gaguejou, em um último apelo, tentando ganhar tempo.

— Não se preocupe. Eles costumam bater antes de entrar. De qualquer forma, esta é a minha casa. Posso fazer o que quiser, com quem bem entender.

Dito isso, Edward agarrou-a e beijou-a com violência, forçando os lábios dela a se abrirem. O beijo, cada vez mais ardente, foi envolvendo-a num delírio de ódio e desejo, fazendo-a sentir calafrios quando a língua exploradora lambeu-lhe o pescoço. Isabella não sabia o que fazer, se gritava de indignação ou se gemia de prazer.

Num gesto rápido, Edward arrancou-lhe a blusa e atirou-a ao chão, acariciando-lhe os seios até que se enrijecessem por debaixo do sutiã. Depois desabotoou o sutiã, apalpando ardentemente cada um dos seios delicados.

— Não! — Sua voz era um sussurro escandalizado e quase desmaiou ao ver o desprezo naqueles olhos escuros.

— Está implorando?

"Deus! O que fiz para merecer isso!", pensou, desolada.

Ao sentir a língua morna acariciar seu seio, um arrepio percorreu-lhe o corpo. Sensações que ela nunca imaginara ter confundiam seus sentimentos. Não sabia se o que sentia era prazer ou angústia.

Mordeu a orelha de Edward, mas tudo o que conseguiu foi excitá-lo ainda mais. Ele a agarrou pela cintura e tentou tirar-lhe a calça comprida com violência. Sem poder resistir, certa de que ele levaria aquela humilhação até o fim, apenas murmurou uma negação, exaurida pela luta que travava consigo mesma.

— Não? — perguntou Edward, cinicamente, com uma estranha expressão nos olhos.

Isabella sentiu toda a emoção desaparecer, gelando completamente por dentro.

— Já conseguiu o que queria, Edward.

— Verdade?

— Foi para isso que você me agarrou, não foi?

— Talvez.

— Se tenho que me vender, que seja com todo o conforto.

— Mas seus serviços já foram pagos.

— Pois bem... agora que toda essa humilhação já acabou, gostaria de me vestir.

— Que pecado! Vai mesmo cobrir um corpo tão desejável...

Sem poder se conter, Isabella deu um tapa naquele rosto detestável, com toda a força de que era capaz.

— Bobinha! — retrucou Edward, sem se abalar. — Se eu quisesse possuir você já teria feito isso e ninguém iria me impedir.

— Mas não vai me possuir, não é? Como um animal selvagem e sádico, prefere brincar comigo até que chegue a hora do assassinato. Esteja certo, porém, de que eu odeio você, e que a cada dia vou odiá-lo ainda mais.

Com um olhar enigmático, Edward colocou as mãos em volta de seu pescoço.

— Pode me odiar com a sua mente, mas o seu corpo... Diga se não é verdade que sentiu prazer quando toquei em você... — Seus lábios esboçaram um sorriso diabólico.

— Pode me odiar o quanto quiser, Isabella.

Com movimentos lentos, Edward vestiu o casaco e abotoou a camisa. Em seguida, sentou-se ao lado de Isabella, que já se havia recomposto.

— Bem, agora vamos conversar sobre o nosso caBellaento.

— Não sei por que pretende me consultar a esse respeito.

— Calma, mocinha. É melhor tomar um pouco de café com brandy para fortalecer seus nervos.

— Não há nada de errado com os meus nervos.

— Bem, se é assim, então vamos dar uma volta.

— Dar uma volta?

— Eu tinha prometido um passeio pela cidade, lembra?

— Prefiro ficar sozinha. Danem-se todos, Carmem e Charlie! Daria tudo para nunca ter conhecido vocês.

— Não podemos mudar o passado.

— Sim, mas quero fazer algo pelo meu futuro.

— Futuro? Eu direi como será o seu futuro. Vai se casar comigo, e poderá continuar com as suas aulas de balé, mas sem intenção de se profissionalizar.

— Mas... eu adoro dançar!

— Pois bem, há um estúdio no pavilhão, com barras, espelhos e até uma sauna. Você pode utilizá-lo.

— E meus estudos?

— Não vejo utilidade nenhuma em se formar em biologia marinha.

— Você fala como um chauvinista! Uma mulher não pode ser cientista...

— Acredito que existam biólogas tão boas quanto os homens. Mas não vejo razão para você completar seus estudos que, afinal, não terão nenhuma função em sua vida.

— E se eu insistir?

— Eu quero uma mulher em tempo integral, Isabella.

— Em outras palavras, quer que eu esteja sempre disponível para saciar os seus desejos.

— Também.

Isabella corou da cabeça aos pés.

— E, sem dúvida, serei obrigada a compartilhar da mesma cama que você.

— Vamos passear?

— Se você não se importa, prefiro ficar por aqui.

— Mas eu me importo, sim!

Edward pôs a mão em seu ombro e conduziu-a para fora da sala.

— Solte-me! Sei andar sozinha!

Ele não disse nada, apenas olhou-a com uma expressão vagamente reprovadora.

— Vá buscar um casaco. Está frio-lá fora — ordenou.

Por um momento Isabella pensou em desafiá-lo, mas desistiu. De que adiantaria, afinal?