Estava anoitecendo, e o menino, que continuava sentado na grama, tinha os olhos perdidos. Sua mente percorria lugares imagináveis, seus pensamentos, tudo... Tudo se resumia em uma vida quase perdida.
- Parece que vai chover.
No beiral da casa, olhava para a lua, que nesse momento muitos poderiam estar olhando, como ele, exatamente agora, sua mente vagava novamente, e por mais que sempre acreditasse que não possuía aquilo que as pessoas chamavam de 'sentimento', percebeu algo quente escorrer pelo rosto. Aquela lua certamente lhe lembrara alguém.
Parou subitamente suas conclusões, vendo a chuva, e pensou na possibilidade dela querer acompanhar sua lágrima, mas sabia que era uma hipótese impossível. Nunca acreditou nessas coisas, seguia a lógica, mas justamente essa lógica o impediu de fazer coisas que sempre teve vontade de fazer. Mas... O que seria lógico afinal?
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O dia estava nublado e com uma garoa fina caindo, mesmo que as nuvens estivessem bem escuras. O vento batia contra todos que estavam lá, estava violento como seu coração. Frio... Frio como ele próprio... O inverno congelava mais, fazendo com que todos estivessem bem agasalhados ou nem tanto assim. Para alguns não importava se era inverno ou qualquer outra estação. Estaria lá, sem expressão.
Sua atenção foi tirada quando percebeu finalmente que já estava na frente da escola, e muitos correndo para dentro com a intenção de se proteger do frio. Não se importava com isso. Foi quando reparou o mais novo professor chegando, cercado de meninas. Desviou o olhar e continuou o percurso. Incomodado?
Lembrou-se da conversa do dia anterior.
Nunca tinha conversado com alguém tão abertamente, principalmente com um estranho. Nem aceitado um conselho de alguém antes, estava mudando, por mais que não quisesse admitir. Foi para a sala, sem nem mesmo dirigir um aceno ao alvo de suas reflexões.
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Chegando à sala, viu a algazarra que estava sendo formada, caminhou lentamente para sua carteira e sentou-se cansado, sem se incomodar com nada á sua volta.
- Bom dia – disse a menina de cabelo rosa. – Como você está, Sai?
Olhou para a mesma como se fosse uma completa desconhecida e deu um de seus falsos sorrisos.
- Bom dia.
- Aconteceu algo?
- Não. Por que diz isso?
- Chegou aqui com uma cara de velório, ficou me olhando, e só depois me cumprimentou. Achei que algo tivesse acontecido!
- Não se preocupe, estava apenas pensando.
- Pensando em quê?
- Em nada de especial – olhou para a pasta em sua cadeira.
- Está apaixonado?
- Como? – levantou o rosto, confuso.
- Estava brincando, - ela deu um sorriso - você não parece ser dessas coisas. Já tem idéia do que vai fazer para a aula de escultura?
- Ainda não.
- Só você mesmo, Sai, ele deu uma semana para fazermos e age como nada estivesse acontecendo.
- Não sei por que vocês se preocupam tanto com um trabalho.
- O ano já esta acabando e ninguém quer ficar para recuperação ou repetir.
- Óbvio.
- E suas notas não são das melhores em esculturas...
- Hum...
- Bom... Só teremos aula com esse novo professor depois de amanhã, de qualquer forma.
Voltaram-lhe as impressões. Ele virou-se para a janela, e ignorou o barulho de fora.
- Sai – foi acordado por um funcionário da escola – Solicitam sua presença na coordenação de Artes.
- Sim, obrigada – empurrou a mesa, e se levantou, sem desviar o olhar. – Até mais, Sakura.
- Até.
Caminhou pelos corredores vazios, reparando nas salas espalhadas. Reconheceu a voz de Sasori em uma delas, mas continuou seu rumo. Parou em frente à porta da coordenação e deu duas batidinhas, e a porta abriu.
- Chamou-me, Chiyo-sama?
- Sente-se – ela indicou a cadeira.
- Obrigada.
- Gostaria de conversar de algo sério com você – passou por trás da mesa, ocupando seu lugar.
- Seria...? - sorriu.
- Sobre suas notas.
- O que tem de errado com elas?
- Sabe... Você é um ótimo aluno, nunca me deu problemas e...
- E...?
- Bem, suas notas são excelentes, menos em esculturas.
- Sei...
- Algo está acontecendo, pra você só ter dificuldade nessa matéria?
- Não é nada com que precise se preocupar.
- Sai, o curso já está acabando, essa matéria reprova e se você repetir o semestre, vai acabar adiando sua formatura.
- O que posso fazer, Chiyo-sama?
- Por causa de seu esforço e suas notas, pensei que você poderia ter um reforço.
- Reforço?
- Na verdade, aulas particulares é a palavra mais apropriada.
-...?
- Com isso, tiraria suas dúvidas e poderá passar de ano tranqüilo.
- Quem vai lecionar será o novo professor?
- Você diz o Sasori?
- Sim, ele.
- Ele mesmo. Algum problema?
- Não, nenhum.
- Então... Aceita fazer essas aulas?
- Sim.
- Certo, quando quer começar?
- O mais rápido possível.
- É isso que admiro em você, essa sua determinação nos estudos.
- Se surpreenderia se soubesse o quão pouco o estudo influenciou nessa decisão.
A senhora arqueou levemente a sobrancelha. Será que tinha entendido certo...?
- Posso me retirar agora? – continuou.
- Claro...
- Com sua licença.
Ele se levantou e saiu, enquanto o olhar da mulher o acompanhava.
- Esse menino...
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Ele pegou novamente o caderno, fingindo ignorar a aula nesse horário, a de Contextualização Histórica. Não gostava muito do professor, e tirava notas máximas, o que lhe dava o luxo de faltar. Resolveu desenhar, como sempre fazia quando estava entediado. Abriu a página marcada e passou a mão pela folha. Era o desenho do dia anterior. Mas será que o universo inteiro estava conspirando para que ele se lembrasse do professor?
Desistiu de desenhar. Abriu a pasta e aí percebeu. O seu livro não estava lá. Será que ele tinha esquecido algo tão importante? Tinha que procurá-lo em casa. Enfiou o caderno na mochila, e dele saiu voando levemente um papelzinho. Ele pegou, e de tão velho quase se desfez na mão.
"Talvez devesse treinar formas humanas, sete e meia, pavilhão três."
Teve um leve sobressalto. Ainda não tinha se livrado disso? Esmagou o papel na mão.
- Sai?
- Hum? – o menino se virou rápido, de forma instintiva.
- Acalme-se – disse o moreno maquiado. – Sou eu.
- Ah, Kankurou. O que você quer?
- Educado como sempre. "Olá, como vai você?"
Sai respondeu com um sorriso falso.
- Olá, como vai você?
- Urgh, nem dá pra ser sarcástico com você – sentou ao lado do menino. – O que está fazendo aqui fora? Também desesperado para o trabalho?
- Não.
- Como se você se desesperasse para alguma coisa...
- E você, não está?
- Eu? Sempre fui bom em esculturas. Aliás, já fiz o meu, é uma marionete.
- Que surpresa.
- Há, ao invés de ficar fazendo piadinhas, devia é fazer logo isso. A aula está terrível, ninguém presta atenção...
- Imagino. Mas perece que eu terei ajuda.
Kankurou o olhou de soslaio.
- Ajuda?
- É.
- Bem, que seja – disse, se levantando. – Mais um pouco e vão achar que eu fiquei com disenteria, ou me afoguei no sanitário.
- Quase isso... Só que há 20 anos atrás.
- Há, há, muito engraçado... Pena que eu não vi você fazendo piadinhas quando Chiyo-sama disse que o professor se acidentou.
- Por que eu o faria? É algo sério, não é?
- Isso sim é uma piada. De qualquer forma, só achei estranho.
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O sinal tinha batido e ele ainda estava no banco. Era estranho, muito estranho. Essa vontade repentina de ficar quieto, de não fazer nada. Esse aperto no peito... Fechou os olhos. E sentiu o vento passar. Sensação esquisita. Era como se cada coisa, por minúscula que fosse, estivesse em seu devido lugar, e tudo isso, estivesse ligado a ele. Era tranqüilizador e agonizante ao mesmo tempo. Ruim e bom. Sensação de dormência completa.
Fechou os olhos.
'- Se você não apertasse tanto o lápis seu desenho sairia perfeito.
- Oh, sim... – disse, passando de leve a mão no papel – Obrigado, Sasori.'
Sim, dormência. Mas uma dormência superficial, pois com um simples som, poderia acordar algo latente.
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yeahrebecca: Ae ae ae, segundo capítulo \o\ Agradecendo à Daniel-chan (o Sai é o Uke \o\), Demetria Ackatora Blackwell, Yami no Hime01, momotoko, Uchihinha chibi e kahh-chan ( sem bazooca por favor i.i)
reneev: espero que vocês pessoas tenham gostado e eu agradeço a essas pessoinhas q deixarem reviwes. E nem pensem em parar de mandar se não quizerem me ver de TPM logo após eu acorda de manhã em uma manhã fria . Então tratem de mandar Ò.Ó
