Capitulo 1
Aviões. Aeroporto. Barulho. Em um lugar como esse pessoas vão e vem sem nem ao menos perceber o que está a sua volta e era impressionante como naquele lugar lotado de gente de todos os cantos do planeta ainda sim me sentia sozinha, verdadeiramente solitária. Andei até a porta de saída daquele lugar empurrando meu carrinho de bagagem, três malas pra ser mais precisa.
Assim que as portas automáticas se abriram uma rajada de vento bateu no meu rosto, tenho que confessar... Achava que o calor seria tanto quanto ou até maior do que no Rio de Janeiro, mas Los Angeles havia me surpreendido, pelo menos até ali o calor era gostoso apesar do ar seco. Olhei para os lados procurando um taxi e no fim foi até fácil encontrar um disponível.
- Está livre? – perguntei tentando disfarçar um pouco o sotaque brasileiro sabia que falava bem, mas nunca é a mesma coisa de quem vive realmente no país.
- Brasileira? – um senhor de no máximo 50 anos moreno de olhos cor de mel e levemente calvo me perguntou.
- Sou, porque está dando tão na cara assim? – respondi um pouco constrangida.
- Não, não senhorita seu inglês é realmente bom, mas reconheço um compatriota de longe! – exclamou sorrindo. – Aliás, me chamo Ricardo.
- É um prazer Ricardo, me chamo Lavínia. – respondi falando em português enquanto o simpático senhor colocava as malas no porta-malas.
- Então veio para L.A. a trabalho ou passeio? – Ricardo perguntou ligando o carro.
- Na realidade vim trabalhar. – respondi enquanto observava a paisagem pelo vidro da janela. – Está aqui há quanto tempo Ricardo? – perguntei curiosa sobre sua história.
- Ah senhorita... Já faz 16 anos, tinha me separado e decidi tentar a vida em outro lugar e pode acreditar a cidade dos anjos me acolheu muito bem! Hoje sou casado com uma americana e tenho dois filhos, uma menina de 10 anos e um menino de seis. Sabe a gente aqui trabalha muito, mas sou mais feliz aqui do que era antes no Brasil... Pra lá agora só volto pra passar as férias! – ele terminou rindo levemente.
- Eu acredito que cada pessoa tem seu lugar só não sei se eu conseguiria viver longe do Brasil... Tudo bem lá tem um monte de problemas, mas qual lugar não tem? – falei passando a mão levemente na minha trança frouxa no cabelo. - Pode me deixar no hotel Holiday Inn Express na Santa Monica?
- Claro, são apenas 20 minutos daqui.
O trajeto até o hotel foi bem tranquilo, Ricardo era realmente um senhor muito gentil e mesmo cansada da viagem de quase 20 horas consegui conversar tranquilamente, entretanto o que mais desejava era um banho quente e dormir 12 horas seguidas! Sim eu durmo muito! Meu trabalho sempre precisou que tivesse muita disposição, afinal além de organizar antes qualquer evento também estava presente no dia participando desde a montagem até a desmontagem então no dia do evento chegava a trabalhar até 18 horas interruptas o que logo depois era compensado por mais ou menos 12 ou 14 horas de sono!
Carlos, meu falecido marido sempre ria dizendo que algumas vezes ia verificar para ver se eu ainda estava respirando, já que parecia que tinha morrido deitada na cama por estar lá tanto tempo!
Despedi-me do taxista pegando também seu telefone no caso de precisar novamente e me dirigi à recepção do hotel para fazer o check-in o que graças a Deus foi rápido. Subi até o quarto que era muito confortável com uma cama Queen size no lado esquerdo encostada na parede forrada por lençóis brancos, travesseiros e um cobertor felpudo verde musgo, de frente para a cama havia uma cômoda com algumas gavetas em um tom de castor madeira e uma televisão de acredito ser 32 polegadas, um frigobar e ao lado uma mesa também no mesmo tom de castor com um abajur simples em cima e cadeira confortável. No lado oposto da porta havia a única janela do quarto com cortinas beges e logo abaixo da janela um pequeno banco com o estofado azul. Passei a ponta do dedo pelos quadros que decoravam o quarto com suas pinturas abstratas abrindo em seguida a porta que deveria ser o banheiro que como já imaginava ser era todo branco com um grande Box de vidro esverdeado o que me surpreendeu foi o enorme espelho que cobria praticamente toda a parede onde estava a pia e a bancada do que acredito ser algum tipo de mármore e em frente a pia havia um bidê e uma privada brancos.
Realmente era uma droga! Quis economizar um pouco de dinheiro e não reservei um quarto com banheira o que naquele momento me arrependi totalmente.
- Ai o que não daria por um bom banho de banheira, mas a vida não é justa então Lavínia vá para o chuveiro! – falei comigo mesma enquanto abria uma das malas e pegava meus objetos de higiene.
Aproveitei o máximo que pude daquele jato quente e forte, não sei quanto tempo depois sai do chuveiro apenas sei que meus dedos já estavam enrugados, ri levemente ao constatar minhas mãos enrugadas fazia muito tempo que não tinha um banho tão demorado.
Passei a mão esquerda pelo espelho embaçado e observei aquela que aparecia na imagem refletida não posso dizer que me assustei com o que vi por que estaria mentindo sabia muito bem que nos últimos dois anos deixei de ser a verdadeira Lavínia, estava realmente magra, porém nem um pouco bonita e saudável e as olheiras fundas embaixo dos meus olhos eram mais um tapa no meu rosto dizendo a verdade que não queria ver.
Desde que Carlos havia partido tentei a todo custo sobreviver a dor por Luci, mas agora percebia me olhando no espelho que aquela parecia uma batalha perdida.
Deus como meus olhos castanhos estavam vazios e opacos! Sabe sempre fui uma mulher bonita aquelas que param o trânsito e sempre me orgulhei disso. Lembro como se fosse hoje o dia que conheci Carlos... Tinha 17 anos estava fazendo o cursinho para prestar vestibular e ele era irmão de uma amiga que fiz lá, quando fomos estudar na casa dela ele estava chegando do estágio de publicidade e depois daquele dia não nos separamos mais. Depois de um tempo ele me contou que achou que fosse um anjo na sua sala de estar.
O que mais ele amava em mim era meu cabelo e também aquele era um motivo eu de orgulho. Grandes ondas castanhas que iam até um pouco abaixo da minha cintura o corte repicado dava ainda mais movimento para o mar castanho que possuía. Pisquei os olhos algumas vezes voltando a minha realidade em frente aquele espelho meus cabelos agora na altura dos ombros eram retos e sem brilho algum, meu rosto branco apesar de ter 27 anos aparentava rugas que deveriam vir somente muito depois, realmente Lavínia Mendes Pizzicolle havia morrido há dois anos, seis meses e três dias o que estava ali era outra mulher doente do coração, alma quem sabe daqui algum tempo também doente do corpo e que tentava fingir ser uma boa mãe.
Sabe como dizem sorte no jogo azar no amor, acho que isso era real porque com a inexistência do amor homem-mulher enfiei não só a cabeça, mas o corpo todo no trabalho e estava colhendo bons resultados e prova disse era minha estadia naquele hotel. Se não fosse irônico hoje trabalho somente com assessoria de casamentos e uma brasileira que vai casar em seis meses me contratou para organizar sua festa.
Clarice tem dupla nacionalidade trabalha na confeitaria da família e vai se casar com um jogador de rugby da segunda divisão chamado William, eles são um casal muito divertido dei várias risadas em nossas vídeo conferências. E justamente pensando em ver como estão sendo encaminhados os preparativos decidi vir e ficar uma semana cuidando de perto aí voltar somente uma semana antes do casamento.
Terminei de colocar minha camisola e deitei na cama sentindo que aquela seria uma noite longa apesar do meu cansaço. Aquela cama era enorme para dormir sozinha, não que eu fosse uma mulher pequena tenho 1,74m e considerando que a média das brasileiras é entre 1,65m a 1,70m então podemos me considerar uma mulher até que alta, entretanto meu falecido marido era enorme com seus 1,90m e 120 kg a noite Carlos ocupava o maior espaço possível na cama e ainda me apertava em seus braços então quando ele se foi não importava quantos travesseiros colocasse a minha volta o calor igual ao dele não me abraçava. Não sei quanto tempo rolei de um lado ao outro na cama, mas no fim adormeci em meio a travesseiros e cobertores.
- Humm... – acordei ouvindo a música irritante do despertador do meu celular. – Mais que droga...
Olhei no visor percebendo o quão tarde era provavelmente o celular estava tocando há muito tempo por que tinha programado para acordar às 11hs e já eram 12h30min minha sorte era que a reunião com os noivos seria às 16h então tinha um tempo até lá.
Aproveitei minhas horas excedentes para tomar café da manhã apesar de ser a hora do almoço e descansar. Perto do horário combinado peguei um taxi até o restaurante italiano que nos encontraríamos chamado Toscana foi um trajeto rápido de apenas 10 minutos de taxi ambos já estavam me esperando sentados em uma mesa próxima à porta.
Clarice e William eram um casal maravilhoso e engraçado dava para perceber o quanto estavam apaixonados e nesses momentos via que estava fazendo a coisa certa ao aceitar organizar aquele casamento mesmo que estando em outro país.
- Chegaram há muito tempo? – perguntei enquanto abraçava Clarice para em seguida cumprimentar William.
- Não! Acabamos de sentar nessa mesa. E aí como foi a viagem? – ela perguntou enquanto sorria.
Clarice era morena com cabelos bem lisos e grossos levemente repicados, seus pequenos olhos castanhos eram envoltos por cílios grossos e longos de dar inveja em qualquer rímel, nariz reto e lábios bem grandes além de um sorriso de dentes brancos e perfeitos. Enfim ela era uma beleza exótica, natural ao contrário de William que tinha uma beleza bem comercializada pelo mundo. Alto, loiro avelã, olhos azuis, lábios finos, nariz reto com traços fortes e queixo quadrado além do corpo atlético conseguido pelo esporte... O que para mim o tornava totalmente sem graça, nunca fui muito adepta a padrões, sempre fui para o lado oposto da tendência... Se gostavam de loiros com rosto de modelo eu gostava de morenos, normais e até gordinhos.
- A viagem foi cansativa, mas tive tempo para descansar... E como vão as coisas por aqui? – perguntei assumindo a pose profissional de sempre.
A reunião foi tranquila ainda tinha muito trabalho para ser feito, porém tudo estava se encaminhando como previsto e provavelmente não teríamos maiores problemas até a data do casamento. Após uma hora e meia de reunião Clarice e eu decidimos nos encontrar no outro dia no mesmo horário para ir à prova do vestido, ela já escolhera um, entretanto queria que eu o aprovasse e visse se precisava de mais algum ajuste já que tinha medo de deixar algum defeito passar despercebido por ela.
Saí do restaurante com aquela sensação de estar esquecendo algo o que não seria nenhuma novidade pelo meu histórico de coisas perdidas e esquecidas na minha vida! Risadas a parte celular e chaves são os meus maiores vilões... Chamo isso de maldade inata de seres inanimados! Acho que no fundo tem sempre alguém vendo e rindo da louca que perdeu a chaves de casa novamente ou algo assim!
Enfim comecei a revirar a minha bolsa verificando se estava tudo ali mesmo enquanto andava até a esquina para procurar um taxi até que ouvi alguém chamar meu nome, então tudo aconteceu muito rápido... Quando olhei para trás o gerente do restaurante estava com meu celular e também um carro vinha em minha direção por que a idiota aqui tinha calculado mal e ao invés de parar na calçada parou no meio da rua! A próxima coisa que me lembro foi o barulho da buzina e tudo a minha volta escureceu...
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Espero que estejam gostando da história... bjos e até o próximo cap!
