Capítulo 2

Damon. Oi. Isso vai passar? Claro, sempre passa.

Acordei com cheiro de café por todo o apartamento. Ele parecia ter vida, o cheiro. Que coisa boa. Me lembra coisas boas. Bom dia, senhorita Sempere. Dormiu no sofá super aninhada e me fez acordar dolorido. Obrigada, sempre ao seu dispor. Bom dia, rabo-córneo-úngaro. Se soubesse teria ido dormir sozinha. Como se eu fosse permitir.

Sirva-se. Que vamos fazer hoje? Temos sol, apesar do frio, e podemos sair. Quero lhe mostrar as ruas. Tem um restaurante que é a sua cara e toca um jazz à noite que você irá adorar. Ótimo, mande no meu dia. Preciso mesmo de supervisão e controle. E quem melhor do que eu? Primeiro temos que visitar Rosiíto, ela pegou A gripe. E podemos ir lá? Não tem perigo, isso também não nos causa problema, não se preocupe. O que posso levar para ela? Chocolate e uma garrafa de vinho. Mesmo doente ela vai desejar esses dois.

Não acredito que ela pegou essa droga. Já tentei ajudar, mas ela me escuta? O jeito vai ser... Mirei ele. Já vi tudo, Damon, aposto que misturou esse vinho com outra coisa. Só lhe digo uma coisa a meu favor: prove. Oh, com certeza essa declaração lhe safaria num tribunal. Agora me traga essas panquecas, por favor. E um beijo de bom dia, madame. Acordou melhor? Melhor. Dei uma olhada nas mensagens, nada dele. Ontem eu disse que iria dar uma saída e acho que ele desconfiou, disse o mesmo e não nos falamos mais. Eu acho que gostaria de ver algo hoje. Onde está seu celular? Peguei ele do sofá e mostrei, aqui. Hum, bonito, hein. Damon fez um movimento rápido e tirou a bateria do meu celular, jogou pela janela. Fiquei abismada. Meus olhos cresceram uns 10cm e também gritei em desespero. Corri para a janela onde vi uma enorme tumba que agora habita o coração do meu móvel: um latão de lixo. Olhei de volta para ele. O infeliz sorria displicente como se não tivesse feito nada de mais. Suspirei. Agora você pode se entregar a esta visita. Sem distrações. E coma logo que temos um dia longo e uma noite também. Primeira parada: Las Ramblas! Yup!

Come on, Damon! Suspirei vencida. Não acredito que não pensei em ir lá. Se bem que pensei apenas no seu apartamento, no seu sofá imensamente confortável...

Coma logo! Damon havia preparado mais panquecas e o tempero estava uma delícia, fosse o que fosse. Notei que ainda guarda alguns frascos dos remédios, qual o propósito disso, está tentando formar uma coleção? Bastante conveniente a srta. falar sobre isso. Ele me olhou irônico com um sorrisinho mais irônico impossível. Ué, não sou eu quem guarda frascos daquela droga por aí. Você quer dizer vazios né? Como assim? Enfiei o máximo de panqueca que pude na boca. Você se acha muito sagaz, pensa mesmo que não vi? Me poupe, ele me imitou. Ok, vamos logo começar esse dia. Banho!

Quando estávamos saindo lembrei de uma sensação de pouco tempo e lhe contei. Uma vez eu estava vendo um filme que se passava em grande parte dentro de uma casa no Rio de Janeiro e senti o cheiro do lençol que me cobria durante todo esse tempo. Quando terminou e eu já estava ouvindo Adam Levine cantar Lost Stars, sim, ouça depois, senti o mesmo cheiro e por alguns segundos achei que estava naquela casa e não mais na minha. Nossa mente é uma caixa mágica. Sim, é também onde ficamos loucos. Dado seu histórico não duvido. Como disse, se acha muito sagaz.

Chegamos. Seja bem vinda a Las Ramblas, srta. Sempere. Está linda, meus olhos brilhavam, está tão linda, Damon. Ele foi em direção às barracas e me deixou girando 360 graus de espanto. Trouxe uma flor, uma margarida. Que linda, obrigada. Uma flor para outra flor. Que brega romântico. Você deveria agradecer um cara como eu estar lhe dando uma flor como esta num lugar como este! Obrigada a todos os deuses, beijei seu rosto. Muito obrigada. Ótimo, vamos atrás do artistas loucos. Aqui tem aos montes. Alguns segundos depois avistamos algo parecido com os monstros de Power Rangers. Era um artista todo prateado com cabelos rastafari e fingia ser uma estátua que se movia de vez em quando assustando as pessoas. Havia uma criança atônita observando do colo do pai. Tiramos foto com ele. Sorria, gata. Sorria, gato. Sorriam!

E agora vamos ao restaurante que lhe falei. Fica na metade das Ramblas. Las Ramblas são uma série de pequenas ruas que se juntam (daí, o nome no plural). Elas têm, ao todo, 1,2 km de comprimento, segundo a Wikipédia.

O restaurante era antiguíssimo e já estava a todo vapor tocando jazz e servindo cafés e pratos. Que delícia. Aquele lugar me encantou, estar ali com um amigo tão querido e ouvindo aquela música incrível, era algo valiosíssimo. Damon, imagino se tive momentos assim antes mas não me lembro. Acho muito louca essa possibilidade. Mesmo que não sinta falta, afinal não recordo.

Tem um escritor daqui que sempre diz: a gente só lembra do que nunca aconteceu. Esse efeito que teve em você me lembra essa frase por ser tão confusa quanto.

Você ainda me surpreende, Damon. Ainda. Vamos para casa, segurou minha mão. Não vamos ver Rosiíto? Iremos outra hora. Seguimos pela Rambla. O céu estava tão negro e luminoso por conta das estrelas, estava lindo. Aquele sentimento voltava a acordar dentro de mim ou quem sabe, me acordar.