II.

Sempre pensava nela. Dizia a si mesmo que era apenas para se certificar que ela estava bem. Queria tornar a falar com ela, sentir que ela o havia perdoado. Só assim poderia se perdoar. Mas passar tudo a limpo também era parte de uma promessa feita à mãe do seu filho. Ela ainda o amava e queria que ele esclarecesse tudo para que pudessem, talvez, recomeçar.

A verdade é que ele tentara passar por cima de tudo e formar uma família com a outra, mas as coisas não tomaram o rumo esperado. Ele se esforçara, por causa do filho e também por causa de si mesmo. Desejava viver em paz. Ter uma vida mais estruturada. A outra Olivia parecia pronta a oferecer isso. Ela era bastante flexível, não fazia cobranç se contentava com o que recebia. Peter era louco pelo filho. Abrira mão de tudo e de todos para tê-lo consigo. Havia sido duro, mas tinha a convicção de estar fazendo a coisa certa. Aos poucos mãe da criança tentara se reaproximar, ele não a repelira. Mas logo ela percebera que não dava conta de fazê-lo feliz.

Esquecer o passado e tentar uma vida nova. "Ser feliz com o que se tem" – era o seu mantra para a readaptação ao seu universo de origem. Não surtiu o efeito desejado. Às vezes, durante a noite, acordava e via a outra mulher, com o cabelo ruivo, dormindo do outro lado da cama e sentia que uma coisa estranha na boca do estômago. Ela era a Olivia certa para ele, era a mãe do seu filho. Repetia até a exaustão como que para se convencer. Porém, no íntimo, ele sabia que nela alguma coisa faltava. Um ano depois do seu retorno eles se separaram. Ela não perdera jamais a esperança de uma reconciliação. A doença do menino melhorara o relacionamento dos dois, mas ele não se sentia tentado a recomeçar.


Usando seu velho charme junto à agente Jessup, conseguira o novo endereço de Rachel, em Chicago. Amy o tratara com gentileza, lamentavelmente não sabia quase nada que lhe pudesse ser útil.

-Ela ficou de licença, por muito tempo. A irmã veio e resolveu levá-la para Chicago. Não voltou mais, porém não sei dizer se ficou morando por lá. Astrid e Broyles a visitavam nunca fizeram nenhum comentário.

-E Walter?

-Tenho a impressão de que chegou a acompanhar Astrid algumas vezes.

-Você sabe exatamente o que ela teve, Amy?

-Falaram de depressão. Mas creio que também teve algum problema físico.

-Obrigado pela ajuda.

Amy não deixou de recomendar.

-Não comente nada com ninguém, por favor.

-Com certeza. Serei discreto.


Tocou a campainha. Teve uma surpresa agradável. Uma adolescente loura, de uns quinze anos, veio atender a porta. Usava uma camiseta rosa chiclete e parecia estar correndo antes de abrir a porta, pois o cabelo estava despenteado. Ele a reconheceu. Ella crescera.

-Bom dia. Meu nome é Peter Bishop, não sei se vai se lembrar de mim. Eu conheci você quando era pequena. Trabalhei com a sua tia Olivia, há anos atrás.

A expressão da garota mudou. O rosto ficou contraído, uma ruga entre as sobrancelhas.

-Eu sei quem você é.

Ele sorriu meio sem jeito. Em criança, Ella o adorava.

-Você não tinha ido embora para sempre?- ela falou de modo tão direto, que o deixou um pouco chocado.

-Eu só estou de passagem. Gostaria de falar com a sua mãe, se fosse possível.

Ela não o convidou a entrar. Parecia hesitante. Uma vozinha infantil a chamou lá de dentro do apartamento.

-Você tem uma irmã, Ella?

A garota ficou quieta; por fim respondeu.

-Tenho. Minha mãe só volta à noite. Se quiser pode deixar seu telefone.

Eu tinha trazido um papel com o telefone e o endereço do hotel em Chicago. Entreguei. Tive a sensação de que algo estava me escapando.


Não fui embora. Fiquei plantado dentro do carro, esperando. Se o meu instinto estivesse certo, Rachel iria aparecer em breve. Realmente eu estava certo. Vinte minutos depois Rachel chegou, dirigindo a uma boa velocidade. Entrou no edifício falando ao celular. Deixei passar uns dez minutos, quando ia saltar do carro, vi Ella e Rachel, a última com uma menina de uns cinco ou seis anos, no colo. A garotinha usava um chapeuzinho rosa, não dava para ver o rosto. Ficaram esperando na porta de entrada do edifício.

Tentava me decidir se iria abordá-las, quando chegou um utilitário preto e estacionou na calçada, exatamente do lado oposto ao que eu estava. Dele desceu ma mulher magra, loura, com um corte reto à altura do queixo.O andar era familiar, mas eu não podia ter certeza. Ela se aproximou de Ella e Rachel. Falaram-se rapidamente. A mulher de cabelo curto pegou a menininha dos braços de Rachel e levou-a para o carro. Instalou-a no banco de trás. Eu só tive certeza quando ouvi Ella gritar:

-Até logo, tia Liv.

Era Olivia. Quando saí do carro, ela já se pusera em marcha.

Sobramos eu, Rachel e Ella, nos olhando como bobos.